segunda-feira, 18 de julho de 2022


                                  Vida


Os meus mortos não morreram nem sequer me pertencem.
Vivem na fímbria das estrelas, em animadas conversas
com deuses de parte incerta, que lhes invejam a graça,
o estilo e o modo peculiar como dobram
com a ponta da língua algumas consoantes mais afoitas.
Os meus mortos espreitam-me sempre do lado de lá.
Vigiam-me o sono com os seus delicados olhos de âmbar
e ciciam palavras redentoras que me agasalham os dias
e apaziguam as noites mais escuras.
Os meus mortos visitam-me sem se fazerem anunciar.
Trazem-me memórias embrulhadas nos mais finos cetins,
cobertas com uma fina película de orvalho,
que apenas me atrevo a abrir
quando pouso a cabeça sobre a almofada
e ouço as suas vozes suaves virem ao meu encontro.


  Sérgio Almeida. revolver. Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2022, p 32.
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quarta-feira, 13 de julho de 2022


      Inventário


Nu
desprevenido
sentado sobre um tufo de urtigas
delas sofrendo a irritação
tomada como dádiva
de quem assim se oferece em calado amor
e mágoa
aceitando a espinha encravada na garganta
espinha miúda e ligeiro memorial
da vida contra o nada

tão vasto é o drama da terra
entre humanos e seus cúmplices e vítimas
no circuito imparável do terror
- feroz diagonal da sufocação -

esta pequena dor
não constará no inventário divino


   Levi Condinho. Colheita serôdia, inéditos e dispersos. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2020, p 33.
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terça-feira, 12 de julho de 2022


             Ressonância magnética


O amor verdadeiro não cabe nas palavras
é um incêndio sem nome uma longa viagem
que a solidão percorre à luz de ouro dos dias
Tal como a força do mar com seu rumor sem fim
recebe-o um areal sempre desabitado
ou as falésias firmes prontas à combustão
do sol nascente
Envelhece lado a lado o amor mais perfeito
mas é diante do frio que bem se faz sentir
a marcha do crepúsculo a folhagem do tempo
caída no lago das palavras perante espigas que
resistem
na estranha lealdade que junta
o coração aos dedos infinitos
Apesar das razões do corpo
das suas vadiagens perdidas
o amor verdadeiro é uma morada
que dispensa o sentido


   José Manuel de Vasconcelos. Os grandes lagos da noite. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2021, p 7.
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quinta-feira, 7 de julho de 2022


LIVRA-ME DO REINO DA QUANTIDADE

 

 Livra-me do reino da quantidade.

Não permitas que seja valorado

pelo número de amigos ou de seguidores

que pudesse ter numa coisa chamada rede.

Faz de mim esse milagre minúsculo como a folha de um salgueiro acabada de irromper.

Apaga a minha assinatura eletrónica dos servidores que me sufocam.

Limpa de servilismos a minha rotina.

Faz com que me escutem ainda que seja eu o único que diz o que digo.

Faz com que não tenha de pedir milhares

ou dezenas de milhar de assinaturas para obter uma ligeira mutação na ordem do mundo.

Livra-me das estatísticas, dos megafones, dos muitos.

Livra-me do engenho que seduz os fáceis.

Faz com que não tenha de me integrar em equipas.

Destrói a palavra cronograma.

Apaga os documentos em que anotei

o que vou pensar e sonhar nos próximos anos.

Concede transparência ao meu futuro.

Investe-me com a sabedoria da árvore,

Guarda para mim uma partícula da integridade de Sócrates

quando molha os seus pés no rio de Atenas.

Que possa sonhar único, escrever como único

rodeado de únicos.

Deixa-me que vista as minhas melhores roupas

para ler os clássicos.

Não tenha de olhar para as listas de ficção ou da não ficção,

as cifras de audiência, o número de visitantes.

Retira-me da cultura de massas que me oprime a caixa torácica

com o seu descaramento crescente em proporção geométrica.

Faz com que a razão como um vento delicado cruze no meu cérebro outros cérebros sem gritos.

Dá-me força para prosseguir ainda que não tenha ninguém

que acompanhe o meu pensamento.

Dá-me um coração sensato, mas não excluas a loucura nem a valentia necessárias

para me opor com elegância às necessidades,

para ser invulnerável às modas,

para prescindir das bibliografias com um golpe de audácia.

Cumpre a tua promessa: Que se abram as portas.

Arromba as grades das reuniões, dos conselhos, comités, comissões e assembleias,

para que possa irromper a manhã em que sopra a primavera impaciente.

Apaga as convocatórias e as notificações.

Tu, que és inimigo acérrimo de todo o absurdo,

anula de vez as entelequias.

Faz com que não tenha de preencher mais formulários.

Livra a minha pele os códigos de barras.

Deixa que tire de cima de mim as cifras alfanuméricas que o Poder me impõe.

Conduz-me ao meu tempo, à época da água.

Deixa que me descalce no meio do prado.

Deixa-me ser o último qualitativo.

Concede-me que viva como Montaigne

ou como Jaccottet à luz do inverno.

Liberta-me do reino da quantidade.

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 Juan Antonio Gonzalez Iglesias. Confiado. Madrid: Visor Libros, 2015, pp 32-34 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).

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quarta-feira, 6 de julho de 2022


           margem

 

afinal não era difícil

 

 tranquei as portas

entaipei as janelas

calafetei todas as frestas

 

 deixei num estendal perdido

rodilhos robertos restos

 

 e trouxe para dentro

os livros a música os amigos

apenas os mais leais

 

 e digo entredentes

fodam-se uns aos outros

que a mim não fodem mais

 

 (Inédito)

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domingo, 3 de julho de 2022


os dias de Soror Alicante do Céu
no mosteiro de Soole


o castigo e o cinto
a lã ao postigo
(é pecado mijar
no silêncio da grade)


o mendigo enganado
o bardo e o frade
de cotão no umbigo
e espinho do cardo


o carneiro inchado
a donzela porreira
de seio fanado
e liga de freira


o cilício de nastro
o amante filtrado
o cu de alabastro
da alcoviteira


o fim do silêncio
a angústia monástica
a fita de enxofre


(que lua fantástica!)
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  António Ferra. lengas e narrativas. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, pp 41-42.
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sexta-feira, 1 de julho de 2022


                Elegia retomada

Turistas que pastais ao sol poente
olhai:
António Nobre passou por aqui um dia
achacado e só
(os males de Anto, já se vê)
à frente do cortejo tísico de velhas como choupos,
de pescadores e virgens enluaradas.
É certo que em Paris não aprendera línguas
mas escrevia fluentemente o português
e sobretudo lia
lia Garrett mais este livro triste que é Portugal
escrito sobre as margens do nosso largo rio emocional,
lia-o por dentro como mais ninguém nas linhas
e entrelinhas onde cresciam musgos
e misérias.
Mas porquê lixar-vos com estas tretas?
- os Cursos de Verão são na Faculdade de Letras
e ainda vão na 44ª edição! -
Ficai à vontade!
Passados os estivais calores de '75
podeis de novo encharcar-vos da melancolia deste país
em que de Abril
só restam m/águas mil:
servi-vos do sal ou do céu
com que temperamos a humidade que nos vai na alma
bebei-nos o sol de norte a sul
fotografai-nos os rostos espantados
para entulho e glória dos Museus do Subdesenvolvimento
contemporâneo.
Mas sabei que um rio subterrâneo
recomeça dentro de nós a comprimir-se contra as margens.


   Urbano Bettencourt. outros nomes outras guerras, Antologia. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2014, pp 13-14.
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quarta-feira, 29 de junho de 2022


Excerto do Poema XI do Livro 3:... E um dos cavalos deste apocalipse cavalgava já por sobre os outros


E
deram-nos os inventários   os objectivos,
a escada onde subiam e desciam
ambições e hierarquias
e com elas essoutra criatura que não éramos
      mas
             já éramos
             essa criatura que se parecia connosco em tudo
             essa criatura que se parecia connosco em nada
ou um deus para a sobremesa de todas as angústias
uma igreja
o extracto das pequeníssimas fortunas
o partido   a seita
uma brisa comedida que não nos
desfigurasse o penteado consentido
a vivenda onde
florisse um só jardim
e onde não pudéssemos jamais florir nós mesmos
e nunca
           nunca
                   nunca
o touro que espeta, Natália madre,
nunca
         nunca,
os cornos no destino, madre
porém o carro novo
         o alvará
                  os estofos em pele
                                 o título
                                         o diploma
                                              o anel do curso
                                                  a faca aos poucos no dorso
                                                        a amizade pintada a esmalte
                                                           recauchutada
aos poucos
          o cristal plangente que ia da cantiga ao ministério

todos vossa excelência
todos senhor doutor
            todos
                   todos
nunca o animal morto, madre

(...)

Fernando Cabrita. Vida - Um Poema - Fafe: Editora Labirinto, 2022, pp 40-41.
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terça-feira, 28 de junho de 2022


                         Estrada de Santiago

Todos somos peregrinos. Embora por vezes nos esqueçamos dessa 
condição. E abandonemos as sandálias e o burel. Mais cedo ou mais
tarde temos de voltar à estrada. Em noites como esta - tão clara
- quase se distinguem os vultos dos peregrinos. Outros que não
nós prosseguem a sua marcha por entre as estrelas. A princípio, 
alguns ainda começam a contar os dias. Depois desistem, porque os
dias se confundem com as estrelas - cada vez mais inumeráveis e
luminosos... E no fim de cada jornada recolhem cuidadosamente
o ouro acumulado nos seus pés.


    Jorge Sousa Braga. O Poeta Nu, poesia reunida. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p 137.
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segunda-feira, 27 de junho de 2022


                      A Dura Batalha

Pelas ruas vazias, deambulas coberto pela
capa do silêncio. amigo. De esquecimento são
os teus passos e de álcool a tua vitória.
Sobrevives à madrugada como o extinto
habitante da quimera. Esvai-se a noite submissa.

No aconchego do leito, nos teus sonhos
almejas sossegado o distante fulgor do
lusco-fusco, fogueira que já queima a retina
convertendo a esperança em faúlhas. Como
um guerreiro invencível chega a luz; eis a
noite derrotada.


    Pedro Sánchez Sanz. Abissais. S/c.: Wanceulen Editorial, 2020, p 21 (Tradução de Manuel Neto dos Santos).
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sexta-feira, 24 de junho de 2022


Mio angelo di cenere.
Ancora poco fa s' aggirava affamato
tra le crepe delle ore,
sofferenza sensa pari 
nello sgardo che invecchia.

Ora la notte lo ha redento
(esposto, forse, nel canestro)
come un giovane granello di neve
o un uccello tra i capelli
dell' estraniato.

Cosa ne so io
delle ombre in volo, quelle plumbee,
delle voragini consolatorie
in cui portano la putredine degli stormi?

Cosa ne so del mio giorno,
quando prende il largo
senza giornale di bordo?
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  Mariella Mehr. Ognuno Incatenato Alla Sua Ora. Torino: Giulio Einaudi editore, 2014, p 95.
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quarta-feira, 22 de junho de 2022


   Insensiblement la chambre s' éclaire d' une lumière solaire, encore sombre.
   Elle ouvre les yeux, elle les referme. Elle dit: encore deux nuits payées, ça va finir. Elle sourit et de sa main elle caresse vos yeux. Elle se moque en dormant.
   Vous continuez à parler, seul au monde comme vous le désirez. Vous dites que l' amour vous a toujours paru déplacé, que vous n' avez jamais compris, que vous avez toujours évité d' aimer, que vous vous êtes toujours voulu libre de ne pas aimer. Vous dites que vous êtes perdu. Vous dites que vous ne savez pas à quoi, dans quoi vous êtes perdu.
   Elle n' écoute pas, elle dort.
   Vous racontez l' histoire d' un enfant.
   Le jour est venu aux fenêtres.
   Elle ouvre les yeux, elle dit: Ne mentez pluz. Elle dit qu' elle espère ne jamais rien savoir de la façon dont vous, vous savez, rien au monde (...)
   Elle dit: Le jour est venu, tout va commencer, sauf vous. Vous, vous ne commencez jamais.
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  Marguerite Duras. La Maladie de La Mort. Paris: Les Éditions de Minuit, 2006, pp 49-51.
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terça-feira, 21 de junho de 2022


   Je pris le poème des mains de mon ami. Pour lire un roman, il faut deux ou trois heures. Pour lire un poème, il faut une vie entière. Je lus. J' étais loin d' avoir une parfaite intelligence de ce texte, mais il n' est pas indispensable de tout comprendre d' une chose pour l' accueillir entièrement.
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  Christian Bobin. L' équilibriste. Cognac: Le temps qu' il fait, 2003, pp 34-35.
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      Desejo e espiritualidade em La Parcela de Alejandro Simón Partal


     La Parcela (Caballo de Troya, 2021) é a primeira incursão no romance de
Alejandro Simón Partal, cuja obra poética obteve já, de entre as várias
distinções, os Prémios Arcipreste de Hita (2017) e Hermanos Angensola
(2019). Em termos de galardões, ao presente romance foi igualmente
atribuido o Prémio Cálamo (2021). É doutorado em Filologia Hispânica e
investigador associado da Universidade de Salamanca; distribui a sua
atividade pela Poesia, Romance, Ensaio e Ensino Universitário.
Em La Parcela, é-nos narrada a viagem – simultaneamente interior e
exterior – de um professor universitário espanhol de trinta e doís anos
para Bolonia, perto de Calais, onde acaba por vivenciar uma aventura
amorosa com um refugiado sírio (Nizar) ligeiramente mais novo, que
naquelas paragens aguardava a oportunidade de passar para Inglaterra e
que ele havia conhecido num autocarro (pp 87-90) nos arredores de
Calais. O autor desenvolve, neste livro, um conceito específico a que
chama: o amor radical, que é aquele que pressupõe uma entrega total e,
ao mesmo tempo, coarta o mecanismo dos desejos (1): “pouco a pouco
comecei a entender que Bolonia não me impedia o desejo, mas tão-só a
desmesura dos desejos” (2). Este amor radical comporta na sua estrutura
duas instâncias que o fundamentam: a autenticidade e um vínculo
necessário com a transcendência, como o autor enfatiza numa entrevista
que concedeu: “Sem transcendência minimizamo-nos, empobrecemo-nos,
porque nos limitamos ao palpável, quando quase tudo o que nos sustém é
aquilo que não podemos ver nem tocar “(3). Estamos, pois, ante uma
conceção de amor, que, ao contrário de Platão, assume a materialidade e
o corpo, fazendo-nos mesmo lembrar a exclamação de Gabriel Marcel:
“Eu sou o meu corpo!”, mas assume-o tentando expurgar dele o excesso e
a gratuitidade, não é, pois, por acaso que o tema das lições deste
professor é a análise da obra de Montaigne, já que neste filósofo “estão as
noções mais elementares de liberdade e igualdade, muito mais atuais do
que em alguns tratados dos nossos dias” (4), e em certo momento de uma
aula ele decide mesmo comentar uma frase do filósofo “para explicar a
relação de Montaigne com o seu amigo Étienne de La Boétie, que converti
em seu amante acrescentando assim mais intensidade à história” (5). Esta
visão espiritualizante do Amor e do Amado, este Rito de Sacralização a
que o Outro é submetido, afasta decididamente este romance das
experiências de um certo realismo decadentista, como a de Hollinghurst
em “The line of beauty”, e aproxima-o, pelas marcas de poeticidade e de
reflexão, de dois monumentos deste tipo de literatura: o “Camere
Separate” de Pier Vittorio Tondelli e, até mesmo, desse clássico que é o
“Terre Lointaine” de Julien Green.
     No romance que aqui nos ocupa estamos perante um narrador
autodiegético, que, por ser também a personagem principal, vai tecendo a
linha narrativa intrínseca à ação principal e articulando com ela, por
encaixe, todas ações secundárias, quer estas - por analepses - remetam o
leitor para momentos do passado, quer sejam momentos presentificados
através de ações dos seus colegas de faculdade. Relativamente aos
momentos do passado o narrador rememora os que foram vividos com o
pai, que agora vai agonizando com um cancro na garganta, e que se lhe
apresenta, apesar da distância física, através da memória ou da
imaginação: “Tão-pouco depois da operação à garganta, voltei a ouvir a
voz de meu pai. Minto. Ouvi-o em sonhos, onde ele tinha uma voz
angustiada, uma voz que apurava as palavras; ele fundia-se com o mar,
tentava revelar-me algo decisivo, mas apenas engolia água enquanto se ia
afastando cada vez mais, e da sua boca saíam bolhas e ruídos de
impotência até que, aos poucos, desaparecia na obscura profundidade.”
(6), esta relação com o pai é, para mim, uma outra vertente do amor
radical já referido anteriormente e que neste livro tem uma função dual:
a) redentora (veja-se o que o narrador diz sobre os enfermos e a
aprendizagem da morte- à imagem de Montaigne- na página 30), que vai
ao ponto de aproximar este livro de outros romances que abordam esta
temática como, por exemplo, o “L’amour soudain” do israelita Aharon
Appelfeld; b) elucidativa – exemplo: a acusação feita à vida da mãe (pp
146-147) que se lhe apresenta vazia e repleta de finitudes, aliás, este olhar
para o estatuto da finitude irrompe em outras obras de Simón Partal,
atente-se ao seguinte dístico: “El dolor tiende a la finitude:/ exige limites”
(7). Esta triangulação relacional: protagonista/pai/mãe, a nível
psicanalítico, pode estar em consonância com as experiências vividas no
mundo contemporâneo, mas demarca-se de grande parte das narrativas
clássicas com vivências semelhantes, veja-se, por exemplo, o The
Charioteer de Mary Renault, onde nos capítulos 4, 5 e 6 Laurie deixa clara
a forte adoração pela mãe, que, apesar de já viúva, ainda encontra
resistências no filho ante o pastor Straike com quem ela pretende refazer
a vida.
     Nas entrevistas acima referidas, Simón Partal tem a preocupação em
afastar o seu livro da prosa poética, preocupação com a qual concordo,
mas que não impede que, aqui e ali, a subtileza e a pertinência da função
poética irrompam como modo de complemento ou ilustração: “Que força
convoca a manhã que é capaz de levantar, com um lento amanhecer, os
que têm um coração cansado? Que estranha confiança traz para que a
acolham, todos os dias, aqueles que já se tinham abandonado a si
próprios?” (8); “Porque as pedras da calçada abrem caminhos quando já
não temos rumo. Formam o tapete áspero do tempo e, no entanto,
sobreviver-me-ão, sobreviver-nos-ão. Permanecerão juntas, quando já
aqui não estivermos, quando ninguém nos recordar…” (9), esta
preocupação em afastar o seu livro da prosa poética, não o impede de ter
em mente o que é para si a poesia: “Considero a poesia mais como uma
forma de estar no mundo do que como um trabalho literário” (10).
Mas não é só relativamente à prosa poética que Simón Partal traça
fronteiras, já que nessas entrevistas afirma não ter pretendido escrever
um livro social nem político, asserção que aceito, acrescentando, todavia,
que esta vinculação do amor à transcendência não é uma levitação
abstrata, mas um estar-aqui através de todos os aspetos do humano –
incluindo o social e o económico (11) - e é na urdidura de todas essas
variáveis que a maestria de Partal atinge o seu ponto mais alto, ao saber
dosear na justa proporção: aspirações, fracassos, desejos, frustrações e
vontade de recomeço.
     Importa também advertir que La Parcela jamais cai em quaisquer tipos de
cultismo ou de hermetismo de exibição, coisa que poderíamos ser
tentados a pensar dado o constante tom reflexivo, assim como as
enumerações de autores (Montaigne, Santo Agostinho, Pascal, William
Blake, o cardeal Walter Kasper, etc.), as referências eruditas são sempre
solicitadas pelo desenrolar da ação e/ou pela estrutura do texto, jamais
surgem como excrescências de péssimo estilo: umas vezes essas marcas
do discurso surgem de forma nítida como na página 91: “Tinha
comentado, nas minhas aulas as viagens ao norte de África de poetas
franceses e espanhóis que iam em busca de sexo, peles lisas e juventude”
(12); outras vezes, essas marcas de saber ou de espiritualidade estão de
tal modo imbuídas na ação, que dificilmente as vislumbramos, como por
exemplo a seguinte passagem da página 124: “ Estou num bom lugar,
repeti várias vezes como se fosse um salmo.” Agora comparemos essas
palavras com o segundo verso do Salmo 23: “Javé é o meu pastor. / Nada
me falta. / Em verdes pastagens me faz repousar;/ para fontes tranquilas
me conduz,” (13).
     La Parcela apresenta-se-nos, por conseguinte, como a radiografia natural
e espiritual de um homem chamado a habitar, numa parcela do universo,
essa parcela de absoluto, onde os apelos bio-fisiológicos e culturais
(álcool, drogas, raves, bares, saunas, sexualidade, “encontros” de
ocasião…), muitas vezes, tomam a dianteira sobre a vontade e a razão,
mas que, no mais fundo de si, se apreende em concordância com a
expressão latina (e também de acordo com um título do já referido
Gabriel Marcel) como Homo Viator. Nenhuma queda, por maior que possa
ser, lhe suprimirá o desejo dessa parcela de Amor que, melhor ou pior,
todos os dias vai construindo no seu aqui, daí eu concluir com uma
constatação, que, a certa altura, o narrador faz num dos seus momentos
de silêncio: “Uma pessoa que passa uma terça-feira numa igreja é alguém
que se oferece, que se mostra disponível para o que possa acontecer. Ali
sentado, uma pessoa pode perceber como a eternidade desce nessas
horas de uma manhã de outono. Poucos atos são tão subversivos como
passar a semana sentado numa igreja fazendo parte da serenidade que ali
acontece, protegido da intempérie que o espera do outro lado da porta.”
(14).


(1) Cf. Diário Digital La Nueva Crónica, 2022/03/14;
(2) In La Parcela, p 85. Todas as traduções deste ensaio são de minha
autoria;
(3) Cf. Entrevista referida acima in La Nueva Crónica;
(4) Cf. Entrevista concedida ao Periódico Digital Heraldo de
2022/03/14;
(5) In La Parcela, p 76;
(6) Idem, pp 78-79;
(7) In “La Fuerza Viva”. Valencia: Editorial Pre-Textos, 2017, p 27;
(8) In La Parcela, p 85;
(9) Idem, p 153;
(10)Cf. Entrevista referida acima in La Nueva Crónica;
(11) Cf. La Parcela, p 17, pp 22-23, p 47, p 75, p 131;
(12) Acerca deste tema poder-se-á ler o modo como Gide experienciou
a tríade: experiências vividas, espiritualidade e relacionamento com
Óscar Wilde e Alfred Douglas, In André Gide. Si le grain ne meurt. Paris:
Éditions Gallimard, 2018, pp 285-362;
(13) Bíblia. Apelação: Paulus, 1993, p 730;
(14) In La Parcela, p 73.


Victor Oliveira Mateus in "Oresteia, Revista de Literatura, Filosofia, Ciências Sociais e Artes" Nº 8, maio 2022, Revista quadrimestral: Lisboa: ISSN 2184-8831.
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quinta-feira, 2 de junho de 2022

                 HÁ-DE PASSAR

                    "For me lips that have smiled, eyes that have shed tears"
                         In Song of Myself, Walt Whitman



E o meu rio corre
e assim avança,
mesmo se as paredes da alegria
se estreitam e é então que
lanço estas âncoras recitativas
para passar,
mesmo de lado,
a fazer espaço com os cotovelos:
aqui ao leme sou mais do que eu.
Porque tenho e tu tens adamastores desmedidos
e lá ao fundo cantam as sereias o sonho dos cínicos −
não ouço, não quero ouvir,
as paredes estreitas hão-de florir
apesar daquele filho da puta ali em baixo
andar a convencer-me de que não.
Espanca a cadela e os ganidos
enfiam-se-me no pensamento −
o ouvido é um bicho de eco infinito,
nada nunca passa, é o caracol da eternidade.
A polícia não quer saber, ninguém quer,
vou à janela para que ele saiba que eu vejo
e hoje gritou-me outra vez,
puta do caralho, vai para dentro ou esmago-te
os cornos.
Não ouço, não quero ouvir, podes cantar, sereia,
hão-de florir.
Sou impotente, é certo, não consigo salvar a cadela,
nem impedir que vendam meninas para o tráfico,
nem coisa alguma destas que dariam cabo de mim
quando as paredes se estreitam,
mas eu passo,
hão-de florir.
E a alegria passa também, nem que seja à cotovelada:
há uma miúda, Michaela DePrince,
já deve ter vinte anos, agora,
é bailarina profissional
numa boa companhia, na Holanda,
veio da Serra Leoa, internada no orfanato por um tio.
Depois de assistir ao assassinato do pai, à mãe morta à fome,
ainda viu ser cortada a barriga à professora grávida,
por uma aposta,
à catanada corta-se
o penúltimo vínculo de esperança
O último, uma folha apanhada na rua,
naquele orfanato ao fundo do inferno,
uma bailarina de tutu cor-de-rosa jogada pelo vento,
e ela, quatro anos de idade,
sem ter feito uma única pirueta na terra batida,
agarra-a,
sem saber dizer ballet,
e ela: aqui ao leme sou mais do que eu,
hão-de florir.
E foi da África à América do dêem-me os vossos pobres –
que afinal existe.
A América existe sempre.
As paredes da alegria estreitam-se, mas a gente passa.
Todos os impotentes transbordam uma fúria omnipresente
e eu, ah eu, nessa fúria bem esmagava os cornos
àquele traidor do pacto que os cães fizeram com os homens
quando abandonaram a alcateia para ser matilha.
E era bem capaz de cortar à catanada
um cobarde de orfanatos.
Mas até ao mostrengo que trago dentro
e que a voar roda três vezes,
e à sereia que lá do fundo de mim canta,
respondo, aqui ao leme sou mais do que eu,
e o meu rio corre
e assim cresce o mar,
e as paredes fazem espaço
e o meu poema há-de passar.
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 Eugénia de Vasconcellos. Livro da Perfeita Alegria. Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2021, pp 27-29.
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quinta-feira, 26 de maio de 2022


         o lugar do silêncio


não sei se acreditas
mas às vezes
penso que se fosses
uma felosa
como uma pequenina
que vi no alto
da montanha maior
da serra dos dinossauros
se fosses esse pássaro
eu queria ser como tu
para ter
tantas possibilidades
sobretudo a de voar
contigo
bem ao teu lado
voar
espreitando-te
de vez em quando
talvez tocando
com uma asa
numa das tuas asas
ao de leve
para não nos despistarmos
(o que se calhar
até era
o melhor
que nos poderia acontecer
que nos despistássemos
pelos ares)
...
mas antes disso
desse toque
mágico
de asas
eu queria mesmo
era voar
contigo
(espreitando-te
é claro
disso não
abdicava)
eu queria voar
contigo
até ao mar
lá em baixo
voar
contigo
sem medo
das grandes gaivotas
e dos peixes
que dizem que saltam
metros e metros
acima da água
queria voar
contigo
do topo da serra dos dinossauros
do topo do mundo
e escolher
exactamente
o lugar do silêncio
onde haveríamos
de pousar
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  António Manuel Venda. Barcelona. S/c: On y va, 2021, pp 33-35.
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sexta-feira, 20 de maio de 2022

quinta-feira, 19 de maio de 2022



Queria confundir-me
num bando de pássaros em migração,
mas perco o meu tempo.


Sinto muito, não minto
e não saio deste labirinto.


Sigo de embaraço em embaraço,
ser adulto tem de ser isto.


Passam-se dias, semanas,
sem saber de ti,
pior, sem sentir saudade.


Bebo,
fumo mais cigarros,
faço bom e mau sexo,
vou ao cinema,
vejo demasiada televisão,
deixo os livros, quase sempre,
sem virtude, a meio
e os poemas também.
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 Raquel Serejo Martins. Valsa a vau. Lisboa: Poética Grupo Editorial, 2021, p 110.
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quarta-feira, 18 de maio de 2022



Este poema tem um gato e um pardal,

o gato mata o pardal,

o gato não come o pardal,

é um gato sem fome,

é uma morte inútil,

é a tua indiferença perante a dor de um pássaro,

és tu sem perceber que também sou pássaro

e que morro inutilmente todos os dias.


 Raquel Serejo Martins. Valsa a vau. Lisboa: Poética Grupo Editorial, 2021, p 38.

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            Não te esqueças


De levar o melhor de cada um,
a potência plural de cada um,
o olhar mais sincero de cada um
quem te salvou,
quem olhaste nos olhos,
quem amaste profundamente
quem amas profundamente
com toda a luz do teu coração.


Não te esqueças de te sentar no lugar mais improvável,
por exemplo:
em frente de uma repartição no domingo, às três horas da tarde
na berma de uma autoestrada, no meio de um estádio vazio,
a meio do trajeto para tua casa,
de te sentares na berma,
de pôr as mãos no joelho
de respirar profundamente;
de não esperar nada de ti nem de ninguém –
de esperar tudo – absolutamente tudo – de ti e de toda a gente.
De aproximar uma folha dos olhos.
De imaginar o mar prateado
de comer a dobrada mais fria,
de fazer festas a um cão malhado:
e Arder. Arder. Arder.


Que amanhã dez mil borboletas vão chegar a Michoacan,
que para os gregos humanidade era um verbo,
que tudo é caminho e perder-se faz também parte do caminho,
que virar certas páginas é um incêndio
que este é um poema para a vida
que os animais não choram –
que os animais não riem –
que és um animal privilegiado
que afinal os animais choram e os animais riem
e que tens de esquecer tudo novamente
e aprender tudo outra vez a cada segundo que passa,
que uma pessoa é uma coisa que arde,
que madura, que ri, que se sustenta dentro de um fio,
que agora mesmo alguém cai abruptamente,
que uma estrela do mar é virtualmente eterna
e pode nunca morrer –
que um poema pode nunca morrer –
que um poema nunca morre – que na verdade (e talvez
virtualmente)
morremos a cada segundo (com um relógio no pulso)
que agora mesmo, no centro da América, uma mãe decide não
respirar,
dançar por dentro, nascer novamente,
que, devagar, um caracol sobe um muro branco numa aldeia da
Sicília
que um homem começa a sua marcha,
que nada se detém quando um homem começa a sua marcha,
que um continente pulsa,
que só podemos ver com os olhos dos outros.


Não te esqueças de perder uma chave,
de chegar atrasado a todos os compromissos,
de te sentar a meio do teu percurso,
no lugar mais inesperado, na hora mais inesperada,


De respirar fundo
De arder...

               Não te esqueças.
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Nuno Brito. Ode Menina. Porto: Editora Exclamação, 2021, pp 22-23.
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terça-feira, 17 de maio de 2022


Junto ao cais aprendi alguns dissabores,
por exemplo: a altura em que atento
à sombra do copo de cerveja
me falaste com olhos húmidos
de uma tarde de pura liberdade
passeando por cidades desertas.


Não desaprendi a memória, não:
guardo-a comigo para usos modernos.
Soube esperar melhor alguns momentos
de pouca importância, já não anseio
sentado no espelhado colo da noite.


Na verdade, perdi-me a bom perder
de todos os enredos que me trazes agora à mesa
como um mapa nervoso de veios marinhos.


Dois amigos encontram-se uma, duas vezes,
para sempre perdidos da memória que foi.
Alguém, quiçá um de nós, se lembrará de dizer:
«É bom, ainda é bom estar aqui.»
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Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 64.
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segunda-feira, 16 de maio de 2022


A saudade era outra.
As praias corriam livres de gaivotas
para o fundo do mar.
Só amanhecia tarde.
Tudo era muito tarde para nós,
vivíamos juntos sem o sabermos.

*

O canto da ave
aterra no meu ombro
polido, entre a concreta confusão
os olhos vendados avançam
para mais uma hora chegada
ao lume das conversas.
*

A noite na terra:
tenho os materiais todos reunidos,
as trevas do trabalho — lápis, aparas,
as réstias do desengonçado estaleiro.



O ecrã baço faz destilar a pobreza do verbo.
As parcas notícias no televisor submarino
de uma pacata vila costeira —
música de câmara para a morte que tarda.
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Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 24-25.
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