quarta-feira, 2 de outubro de 2019


   Entretanto, o tempo passa a correr, a sua batida silenciosa marca, cada vez mais apressada, o compasso da vida; não pode parar nem por um instante, nem sequer para olhar para trás. "Pára, pára!", apetece-nos gritar, mas percebemos que é inútil. Tudo se afasta a correr: os homens, as estações, as nuvens; e não serve de nada agarrarmo-nos às pedras, resistir em cima de algum rochedo, os dedos exaustos abrem-se, os braços pendem inertes, é-se de novo arrastado pelo rio, que parece lento, mas nunca se detém.
   De dia para dia, Drogo sentia aumentar esta misteriosa ruína, e em vão tentava contê-la. Na vida uniforme da Fortaleza faltavam-lhe pontos de referência e as horas fugiam-lhe antes de que as pudesse contar.
   Depois havia aquela esperança secreta pela qual Drogo dissipava a melhor parte da vida. Para a alimentar sacrificava levianamente um mês após o outro, e nunca eram suficientes. O Inverno, o longo Inverno da Fortaleza, não foi mais do que uma espécie de adiantamento. Terminado o Inverno, Drogo esperava ainda.
(...)
   Pouco a pouco, a sua fé esmorecia. É difícil acreditar numa coisa quando estamos sós e não podemos falar disso com ninguém. Foi precisamente nessa altura que Drogo se apercebeu de como os homens, por muito que se estimem, permanecem sempre distantes; que se alguém sofre, o sofrimento é totalmente seu, mais ninguém pode tomar para si uma pequena parte; que se alguém sofre, não é por isso que os outros sentem dor alguma, mesmo que o amor seja grande, e é isso que causa a solidão.
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 Buzzati, Dino. O Deserto dos Tártaros. Barcarena: Marcador Editores, 2014, pp 209-210.
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terça-feira, 1 de outubro de 2019



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 Jessye Norman (15/09/1945 - 30/09/20199).

J.N. faleceu no passado dia 30 na sequência de um choque séptico motivado por um problema de saúde que contraíra em 2015. Ouvimo-la aqui no Lamento de Dido  da ópera Dido e Eneias de Purcell: é uma das mais belas árias de amor da História da Ópera, só comparável à morte de Isolda de Tristão e Isolda de Wagner. Aqui, Dido, após a partida de Eneias, reconhece o sem sentido da sua permanência no aqui e, chamando a sua serva Belinda, decide acolher a morte. É toda uma ária de rara beleza com a sublime expressividade da Jessye Norman.
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   Estendido na pequena cama, fora do halo de luz do candelabro a petróleo, enquanto fantasiava sobre a sua própria vida, Giovanni Drogo foi inesperadamente tomado pelo sono. No entanto, precisamente naquela noite - oh, se tivesse sabido talvez não tivesse tido vontade de dormir -, naquela mesma noite começava para ele a irremediável fuga do tempo.
   Até então avançara pela despreocupada idade da primeira juventude, uma estrada que às crianças parece infinita, pela qual os anos passam devagar e com passos suaves, de tal forma que ninguém os sente partir. (...) então o coração começa a bater de desejos heróicos e afectuosos, saboreia-se a expectativa das coisas maravilhosas que nos esperam mais adiante; não, ainda não se avistam, mas é certo, absolutamente certo, que um dia lá chegaremos.
(...) Assim se prossegue o caminho numa espera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o Sol brilha alto no céu e parece que não tem mais vontade de descer ao entardecer.
   Mas a uma determinada altura, quase instintivamente, voltamo-nos para trás e vemos que uma cancela se fechou nas nossas costas, obstruindo o caminho de regresso. Então sentimos que alguma coisa mudou, o Sol já não parece imóvel, mas desloca-se rapidamente, ai de nós, nem temos tempo de o fixar (...): compreendemos que o tempo passa e que também a estrada um dia chegará ao fim (...) Mas Giovani Drogo naquele momento dormia alheado e sorria no sono como fazem as crianças.
   Passarão dias até que Drogo perceba o que aconteceu. Então será como um despertar. Olhará em seu redor, incrédulo...


 Buzzati, Dino. O Deserto dos Tártaros. Barcarena: Marcador Editora, 2014, pp 52-54.
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domingo, 29 de setembro de 2019


                            Duas fotografias



Uma fila de meninos na linha d’água.
Uma onda deixou-lhes à volta dos pés
um enrugamento de reflexos.
Parecem felizes. Ousados mesmo!
Apenas um, o segundo a contar da direita,
prende o meu olhar: parece-me assustado,
frágil, as mãos – cruzadas à frente - seguram algo
que não identifico, enquanto os cabelos,
luminosos, não lhe disfarçam o esgar do medo.


A outra é posterior (talvez uns 15 anos depois):
parte de uma cabeça debruçada sobre uma cidade
do sul da Europa, contudo, reconheço os olhos,
os mesmos daquele menino, que, um dia,
se começou a perder numa praia qualquer,
perante a indiferença do mundo e a inépcia
dos seus.  Os olhos, agora baços e virados para dentro,
estão quase mortos, entre uma barba de 2 dias
e um boné de marca, como convém àquela idade.


Que teria acontecido entre a primeira
e a segunda fotografia? Em que local
se avolumou o desacerto? Quem não acudiu
àquela ferida: pungente, extrema?
Perguntas que hoje me adensam a culpa,
aqui, bem no centro do poema.
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 Mateus, Victor Oliveira. Gazeta de Poesia Inédita ( https://gazetadepoesiainedita.blogs.sapo.pt/victor-oliveira-mateus-duas-131415 ), 2019/9/29.

Comemora-se este ano o centenário do nascimento daquela que é uma das maiores poetisas da América hispânica - Eunice Odio. De entre as várias iniciativas levadas a cabo em diversos países, acaba de sair a Antologia Voces y Fuego, onde poetas de muitas partes do globo traduziram para as suas línguas um poema de E.O., segue a tradução portuguesa que consta nessa obra.
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                  Poema Primeiro (Possessão em sonho)




Vem
Amado



Provar-te-ei com alegria.
Sonhar-te-ei comigo esta noite.



O teu corpo terminará
onde começa para mim
o tempo da tua fertilidade e da tua ansiedade;
e porque estamos repletos de tristeza
meu amor por ti nasce junto ao teu peito,
é que te amo em princípio por tua boca.



Vem
Comeremos no local da minha alma.



Antes que eu te abra o meu corpo
como um mar abundante e dedicado
até ao crepúsculo dos peixes.



Porque tu és belo,
irmão meu,
eterno meu dulcíssimo.



A tua cintura onde resplandece o dia
enchendo com o seu perfume todas as coisas,
a tua decisão de amar,
de súbito,
desagua inesperada em minha alma.



O teu sexo matinal
em que repousa a orla do mundo
e se dilata.



Vem



Provar-te-ei com alegria.


Punhado de lâmpadas será a meus pés tua voz.



Falaremos do teu corpo
com uma alegria puríssima,
como meninos despertos a cujo tremor
mal passou despercebido, outro menino,
e desnudada sua incipiente chegada,
e conhecida em sua idade futura, total, sem diâmetro,
na sua corrente genital mais próxima,
sem forma, na mais profunda solidão.



Vem
provar-te-ei com alegria



Tu sonharás comigo esta noite,
e enlaçarás aromas caídos de nossas bocas.



Povoar-te-ei de cotovias e semanas
eternamente nuas e obscuras.


  Eunice Odio in "Territorio de Voces y Fuego, Homenaje a Eunice Odio". Costa Rica: Editorial Estucurú, 2019 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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quinta-feira, 26 de setembro de 2019



                 Amanhã

Hoje nada aconteceu por entre nuvens.
Um dia sem riscos e sem felicidade
acaba de morrer.
Hoje houve sombras no jardim,
os livros secaram sem serem necessários,
e as ruínas suspenderam a vida por um dia.
Não houve abismo nem olhares, nem prata
nem cobiça. Nada
atravessou as horas que foram pesando no relógio.
Nada riu, nada chorou. Nem a surpresa da carne
sempiterna.
Amanhã, disseram, amanhã será talvez.


  Pires, Isabel Cristina. Deserto Pintado. Lisboa: Editorial Caminho, 2007, p 77.
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quarta-feira, 25 de setembro de 2019


              A terra-de-ninguém

Estou neste lodo de amar quem me não ama.

Como se passa para o outro lado da armadilha?
Como morre o amor a sua morte?
Quem pára a fábrica de oiro das estrelas?


  Pires, Isabel Cristina. Deserto Pintado. Lisboa: Editorial Caminho, 2007, p 32.
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domingo, 22 de setembro de 2019



                     A Inveja como uma das Belas Artes

   Se uma mentira não é suficiente para caraterizar um mitómano ou sequer um mentiroso, do mesmo modo um momento de inveja não chega para revelar um invejoso. A perturbação invejosa enforma de dados aspetos que a individuam e a distinguem das outras perturbações da personalidade. Numa primeira abordagem, podemos afirmar que o invejoso partilha com o sociopata, com o perverso narcísico e com o falso-self o facto de todos derivarem da aprendizagem e do adquirido, ao contrário do psicopata que releva da ordem do inato, contudo, quer uns quer outro são altamente resistentes a qualquer tipo de terapia. As experiências feitas, nos últimos anos, com crianças psicopatas têm revelado resultados altamente desencorajadores, aliás, como é que se trata uma perturbação da personalidade? Não se trata! Quanto muito estabelecem-se alguns parâmetros, nem que sejam intimidatórios, para se conseguir uma conformidade mínima com o meio, são conhecidos, por exemplo, o horror à perda da imagem e à justiça que algumas destas perturbações têm. Um segundo aspeto da perturbação invejosa é que ela apenas ocorre no território da semelhança: o motorista inveja o motorista, o poeta inveja o poeta, o desenhador inveja o desenhador. É evidente que um motorista pode invejar um advogado que tem uma luxuosa moradia, um automóvel topo de gama, que passa sistematicamente férias nos mais luxuosos lugares, mas, para que essa inveja ocorra houve um deslocamento do invejoso para a esfera do económico onde o invejado circula e eis-nos de novo no território da semelhança. Um terceiro aspeto tem a ver com a relação pulsão-ação - o invejoso é alguém que sabe esperar: sendo as suas armas preferidas o boato, o ardil e mecanismos afins, o invejoso precisa de tempo para montar a sua teia contra o invejado ao contrário do psicopata, que, precisando de se libertar quanto antes da sua tensão interior, tem na ação a boia súbita para a sua autorregulação (Cf. Albert Eiguer, “Pequeno Tratados das Perversões Morais”, Lisboa, Climepsi, 1999). O invejoso não é só alguém que sabe esperar, como é também alguém cuja capciosa manipulação do discurso é mais difícil de desmontar, porque mais subtil e mais bem encenada: o invejoso é um artista da representação, acima mesmo do charme encantatório do perverso narcísico ou do atabalhoamento do discurso do psicopata que não consegue resistir a uma pressão demasiado forte e duradora (Cf. todos os trabalhos de Robert Hare sobre o discurso dos psicopatas). Estamos, pois, longe do retrato clássico do invejoso: lábio inferior retesado ou quase inexistente, olhar afunilado sobre a presa, malares repuxados e tensos… O invejoso “atualizou-se”: é afável, parcimonioso ou expansivo é simpático, circula afavelmente nos seus diversos grupos: não é só ele que é um artista, é a inveja que se tornou uma das Belas Artes e eis a quarta caraterística da perturbação invejosa: a compulsiva necessidade de menorizar o outro. Quando Vitor Frankl, preso num campo de concentração e sujeito às mais hediondas condições de subsistência, diz invejar os prisioneiros que apresentam uma peça mais de vestuário, não estamos perante uma personalidade invejosa, mas ante um desejo circunstancial não submetido ao ciclo da repetibilidade; quando Cioran diz que inveja e despreza todo aquele que tendo “alcançado a sua medida” quer ainda ultrapassar-se (Cf. Cahiers, p 89), estamos nitidamente perante uma manifestação de desprezo e nada mais. A perturbação invejosa pode antes ser encontrada em muitas outras obras, veja-se, por exemplo, a magistral descrição do relacionamento do capitão Monti com o tenente Angustina (In “O deserto dos Tátaros” de Dino Buzzati, Marcador, pp 142-148). Um quinto aspeto, prende-se exatamente com o desejo que o invejoso tem na menorização, ou até mesmo na implacável destruição, do outro: o invejoso observa, espia mesmo, corrói, espalha subtilmente o boato – sua arma preferida – conspira, enfim, tudo o que possa conduzir à eliminação do invejado, e aqui a inveja distingue-se da admiração já que nesta visa-se sempre o engrandecimento do outro, o que admira só se sacia quando os seus ídolos se engrandecem, ou seja, é precisamente o percurso oposto da inveja. Numa penúltima caraterística, poder-se-á dizer que a inveja é uma paixão  que circula simultaneamente no território da ética e do conhecimento: o invejoso tem um deturpado conhecimento de si, apreende-se como “maior, mais grandioso, mais valioso” do que na realidade é, e a esta cognição errada virá corresponder o sentimento de se sentir injustiçado: a sociedade, ou o agrupamento social em que se insere, “deve-lhe algo que se recusa a entregar-lhe e que anda a esbanjar com outro(s) que ele sabe inferior(es) a si”: urge, pois, apurar a vingança! Torná-la uma arte, uma das Belas Artes. Por fim, e num sétimo ponto, diremos tão-só que estando a inveja relacionada com o adquirido e com a aprendizagem, ela varia na relação direta da competitividade dos grupos e das sociedades, dito de outro modo: o inveja proliferará onde a competição aumentar e a cooperação diminuir.
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© Victor Oliveira Mateus (Inédito)
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quinta-feira, 12 de setembro de 2019


               Arte poetica 2




Non posso dimenticare di creare altri venti profili
falsi. Devo caratterizzarli in modo diverso
e con specifici tic linguistici. Non posso
dimenticar di aumentare il numero di seguaci.
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Uno dei veri falsi deve essere controverso
almeno una volta alla settimana. È urgente
uno scandalo settimanale, quindi questa gloria,
anche si accellera, non cade al dio darà.
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Non posso dimenticare di evitare di prendere
di trasgredire il sociale, il metafisico
di pacchetto, a collegamenti bric e brac.
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Rete benedetta che hai fatto così tanto per me!
Miracolo che mi protegge giorno e notte.
Le poesie? Ah, le poesie! L'avevo quasi dimenticato.
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 Mateus, Victor Oliveira. Aquilo que não tem nome. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p   (Tradução de Stefania Di Leo).
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                  Arte poetica 1





Percorri una strada i cui segni e incroci
decifri con schede e codici che non conosci.
C'è una leggera brezza sul tuo viso.
Cerchi la ragione di questa freschezza, il respiro,
di questa camera vuota dove germina
tutto ciò che si interrompe nel ciclo del tempo.
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Percorri una strada non asfaltata quando guidi
da altre macchine, dalle corna, dal rumore
dai passanti che affiancano il tuo cammino.
Ti dicono che la brezza viene dalla tua finestra, che,
francamente non chiuderai. La tua finestra:
inizio della tua nudità, del tuo distacco!
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Non ne sei sicuro. Non ce l'hai nemmeno
Ti mette a disagio. Insisti a non chiudere la finestra,
questa ardesia scarabocchiata, questo amalgama di visioni
che ti abbaglia e ti fa perdere. Ma, vedi
bene cos'è questa cosa che si dice con le parole
che non ti appartiene e non capisci nemmeno?
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Mateus, Victor Oliveira. Aquilo que não tem nome. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p    (Tradução de Stefania Di Leo).
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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

O FESTIVAL DE OVAR DESTE ANO SERÁ DEDICADO À POESIA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN.
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              Antínoo


Sob o peso nocturno dos cabelos
Ou sob a lua diurna do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida

Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei

Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra


  Andresen, Sophia de Mello Breyner. Obra Poética III. S/c.: Editorial Caminho, 2001, p 67.
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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

             PROGRAMAÇÃO DO FESTIVAL LITERÁRIO DE OVAR 2019 
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Dia 12 de setembro 5ª feira 21h Conferência de abertura Eng. Salvador Malheiro- Presidente da Câmara Municipal de Ovar 
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21h30
 Mesa 1
 “Confundidos os seus cabelos com os cabelos do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena liberdade.” 
José Viale Moutinho 
Gisela Casimiro 
M: Bruno Henriques 
22h30-23h 
Espaço de conversa entre escritores e leitores (autógrafos) 
23h 
Performance de Poesia- Renato Filipe Cardoso 
“Aquele que busca uma relação justa com o mar, com a pedra, com a árvore, contribui para uma relação mais justa entre os homens.” 
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Dia 13 de setembro 6ªfeira 
21h30 
Mesa 2 "O poema me levará no tempo/quando eu já não for eu/e passarei sozinha/entre as mãos de quem lê.” 
Tiago Alves Costa 
Luís Filipe Sarmento 
António Vilhena 
M:Marcelo Teixeira
 22h30-23h 
Espaço de conversa entre escritores e leitores (autógrafos) 
23h 
Contadora de Histórias Mariana Machado "Agora quem conta" - contos, fábulas, lenga-lengas - sessão de contos ao desafio por Mariana Machado 
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Dia 14 de setembro sábado 
15h 
Mesa 3   “A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro.”
Isabel Rio Novo
Susana Moreira Marques 
Marlene Ferraz 
M: João Morales 
16h-16h30 
Espaço de conversa entre escritores e leitores (autógrafos) 
16h 
Apresentação de Livros 16h Workshop de ilustração Fedra Santos 
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16h30 
Mesa 4 “Eu também não tenho capacidade para compreender matemática, quanto mais… os desígnios de Deus.” 
Andreia Azevedo Moreira 
Yara Monteiro 
Sandra Catarino 
M: Isabel Nery 
17h30-18h 
Espaço de conversa entre escritores e leitores (autógrafos) 
17h30 
Apresentação de livros 
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18h 
Mesa 5 “Procuramos o que nos cria uma certa libertação íntima que é necessária à liberdade.” Henrique Manuel Bento Fialho 
Sérgio Almeida 
M: Maria João Cantinho 
19h30-20h Espaço de conversa entre escritores e leitores (autógrafos) 
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21h30 
Mesa 6 “Por maior que seja o desespero, nenhuma ausência é mais funda do que a tua.” 
Júlia Nery 
Alice Brito 
Teresa Moure 
M: Cristina Marques 
23h-23h30 
Espaço de conversa entre escritores e leitores (autógrafos) 
23h 
Performance de Poesia- Renato Filipe Cardoso “Que difícil que é a vida dos homens, eles não têm asas para voar por cima das coisas más.”  
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Dia 15 de setembro Domingo 10h30 
Mesa 7 “Ela manda-te dizer que já sabe o que é a saudade.” 
Espaço Literatura Infantil 
João Cunha Silva 
Maria da Conceição Vicente 
Maria Almira Soares 
M: Carlos Nuno Granja 
12h 
Sessão de Contos 
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15h 
Mesa 8 “A cidade onde habito é rica de desastres, embora exista a praia lisa que sonhei.” 
Pedro Guilherme-Moreira 
Wagner Merije 
Pedro Teixeira Neves 
M: Manuella Bezerra de Melo 
16h 
Apresentação de livros 
16h 
Workshop de ilustração Evelina Oliveira 
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16h30 
Mesa 9 “É o teu rosto ainda que eu procuro, através do terror e da distância, para a reconstrução de um mundo puro.” 
Nuno Costa Santos 
Marco Neves 
Isabel Tallysha-Soares 
M: João Morales 
17h30-18h 
Espaço de conversa entre escritores e leitores (autógrafos) 
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18h 
Mesa 10 "Os que avançam de frente para o mar/e nele enterram como uma aguda faca/a proa negra dos seus barcos/vivem de pouco pão e de luar.” 
António Mota 
Filipe Homem Fonseca 
M:Victor Oliveira Mateus 
19h-19h30 
Espaço de conversa entre escritores e leitores (autógrafos) 
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19h30 Encerramento
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na paisagem que o calor minou;
o deserto invade-as pela base:
apenas dunas
e uma película exterior de pedra
a sustentá-las;
cactos tão desidratados
que tornam a expandir-se:
formas inchadas no horizonte
procuram alcançar as nuvens;
e estas,
também sem água ou chuva previsível,
flutuam vagarosamente,
cada vez mais altas; e parecem
por fim fixar-se nas fronteiras
do ar;
a neve a rodear a casa,
a assustá-la
com o seu brilho de vidro;
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 Oliveira, Carlos de. Trabalho Poético. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p 350.
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sexta-feira, 16 de agosto de 2019


            Chama

Versos
e lágrimas, deixai-me
incendiar
o reino da memória
entrançar
o cabelo
pela última vez
à imagem desolada
que tanto me enleou
no seu amor
e arder
ou achar enfim
repouso.


  Oliveira, Carlos de. Trabalho Poético. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p 178.


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terça-feira, 13 de agosto de 2019


Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite me não deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
   Mas dia a dia alonga-se a jornada
   e cada noite a noite é mais fechada.


  Oliveira, Carlos de. Trabalho Poético. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p 132.


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segunda-feira, 12 de agosto de 2019


                   Deslumbramento

O meu deslumbramento vive
De entender coisas nulas marginais
Mendigos vermes cardos.

Coisas sujas e moles, ásperas e mínimas.

Tudo o que brilha e voa tem o sol
E os anjos de Deus na sua órbita
São ungidos.

Tudo o que rasteja e repugna
Que fede a indigência e a sovaco
Os anjos de Deus descuidam
Voando para além.

Eu não.

Eu sei quanto custa valer zero
Ficar nas margens da angelical rejeição
E seu enjoo.

Mesmo a ferir a feder a expelir
Eu vejo e sinto
Aromas e afagos
Nos mendigos nos vermes e nos cardos.


   Lima, Cláudio. Eu sempre guardei rebanhos. Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 27.


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sábado, 10 de agosto de 2019

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A filósofa Myriam Revault D'Allones fala aqui do seu livro "La faiblesse du vrai". Uma obra fundamental para entendermos o mundo de hoje. D'Allones parte do conceito de post-verdade, termo que aparece, pela primeira vez, numa obra de Colin Crouch (Post-democracy) de 2004, e depois no Dicionário de Oxford em 2006  e que terá a sua grande difusão aquando da eleição de Trump e do Brexit. Na era da post-verdade não interessam os factos objetivos: aos cidadãos serve-se uma realidade fabricada (factos alternativos, fake news, etc.) por dados interesses, cidadãos esses, que, por sua vez, foram já "educados" de várias formas, sobretudo pelas redes sociais e pelos célebres algoritmos, ou seja, os cidadãos passam a desejar e a acreditar, naquilo que lhes é servido. Este é livro fundamental para se entender o hoje e que pode, perfeitamente, ser relacionado com o "La Nuit" de Michael Foessel, que é referido no vídeo anterior desta rubrica (Filosofia) do blogue.
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Je ne suis pas encore mort, encore seul,
Tant qu' avec ma compagne mendiante
Je profite de la majesté des plaines,
De la brume, des tempêtes de neige, de la faim.

Dans la beauté, dans le faste de la misère,
Je vis seul, tranquille et consolé,
Ces jours et ces nuits sont bénis
Et le travail mélodieux est sans péché.

Malheureux celui qu'un aboiement effraie
Comme son ombre et que le vent fauche,
Et misérable celui qui, à demimort,
Demande à son ombre l'aumône.


  Mandelstam, Ossip. Poèmes. Paris: Éditions Librairie du Globe, 1992, pp 165-167 (Traduit du russe par Philippe Jaccottet).


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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

O livro Aquilo que não tem nome chegou à semifinal do Prémio Oceanos 2019, um dos mais prestigiados Prémios Literários para obras escritas em português.
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Das mais de 1400 obras concorrentes a este Prémio, foram anunciados, na noite de quinta feira no Consulado-Geral de Portugal em São Paulo, os semifinalistas deste Prémio Literário. Dos 54 autores semifinalistas 18 são portugueses. Segue a lista abaixo:
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De Portugal também foram selecionados os romances "Princípio de Karenina", de Afonso Cruz, "Pão de Açúcar", de Afonso Reis Cabral, "Luanda Lisboa Paraíso", de Djaimilia Pereira de Almeida, "Eliete", de Dulce Maria Cardoso, "Juncos à beira do caminho", de Francisco José Viegas, "Ecologia", de Joana Bértholo, "A Devastação do Silêncio", de João Reis, "Ensina-me a Voar sobre os Telhados", de João Tordo, "Meio Homem Metade Baleia", de José Gardeazabal, e "O fogo será a tua casa", de Nuno Camarneiro
Entre os semifinalistas portugueses estão também os livros de poesia "Olha-me como Quem Chove", de Alice Vieira, "Tratado", de Luís Carmelo, "Estranhezas", de Maria Teresa Horta, "Traçar Um Nome no Coração do Branco", de Rosa Alice Branco, "Ao Ouvido do Diabo", de Rui Xerez de Sousa, e "Aquilo que Não Tem Nome", de Victor Oliveira Mateus.
Está ainda entre os semifinalistas o livro de contos "A Vida É Um Tango e Outras Histórias", de Cristina Norton, escritora portuguesa de origem argentina, radicada em Portugal.
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quinta-feira, 8 de agosto de 2019


J'ai oublié le mot que j'avais voulu dire.
Aveugle, l' hirondelle retourne chez les ombres
Pour jouer, ailes coupées, avec les translucides.
Le chant nocturne naît quand la mémoire succombe.

Plus d'oiseaux. L'immortelle ne veut plus fleurir.
Transparentes crinières du troupeau de la nuit.
Sur le fleuve tari vogue una barque vide.
Au milieu des grillons le mot s'est évanoui.

Lentement il repousse comme un temple ou un mât;
Tantôt, telle Antigone en folie, il se démène,
Tantôt, morte hirondelle, à mes pieds il s'abat
Avec un rameau vert et la douceur stygienne,

Ah, rendre la pudeur aux doigts extra-lucides
Et la saillante joie de la re-connaissance.
Je redoute si fort les pleurs des Aonides,
Le carillon, la brume et la béance.

Reconnaître et aimer, les mortels ont ce pouvoir,
Dans leurs doigts le son coule ainsi qu'une onde;
Mais ce que je veux dire échappe à ma mémoire,
Et sans chair la pensée reviendra chez les ombres.

Limpide, d'autre chose elle parle sans fin,
Hirondelle, mon amie, Antigone...
Et seul le souvenir du carillon stygien
Sur mes lèvres, comme un gel noir, brûle et résonne,


  Mandelstam, Ossip. Poèmes. Paris: Éditions Librairie du Globe, 1992, p 71 (Traduit du russe par Henri Abril).


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quarta-feira, 7 de agosto de 2019


    O último dos ladrões de cisnes


Já não tenho sombra, risco, ave, ouvido,
a pressa de chegar, o fim que se mova,
despi os dizeres da ganga das calças
coçadas no cu do tempo, esqueço a voz

e já os lábios modulam o acre assobio,
mastigo o risco, o termómetro metido
debaixo do braço, conhecem-me mesmo
doente, de óculos escuros e silencioso,

não serei o último dos ladrões de cisnes,
despeço-me de cada gesto sentimental
como se fosse meu, aceno com o lenço
e entro numas outras cavernas, sorrio,


 Moutinho, José Viale. Inóspita paisagem. Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 51.


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terça-feira, 6 de agosto de 2019


                 Deserto Portátil


Este é o eterno e oco deserto que se não pode dizer,
as minhas palavras colam-se nos papéis de quanto
me posso esquecer e guardar nas gavetas da cabeça,

ocioso é o silêncio onde não cabe senão a derradeira
pedra do olhar que consome a tarde, espreitar a tarde
pelo buraco da fechadura, vestes o casaco de fogo,

finges, como sempre, que não és mais ninguém ou nada,
nem o nome de deus, esse eterno fogo, se pode dizer aqui,
perde-se o seu nome nas duras e tão longas linhas do rosto,

esta é a ausência das cores da carne, o sol e a areia
por entre os dedos, nos ossos, por entre as sombras
dos papéis queimados, amanhã não nos conheceremos

nem se julgarão das causas de quem devagar vier.


 Moutinho, José Viale. Inóspita paisagem. Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 29.



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segunda-feira, 5 de agosto de 2019



de cada vez que deus morre
um peixe abre a boca

a verdade imita o silêncio

meu amor



   Leonardo. caderno de mitos pessoais. S/c.: Ed. Artes e Letras, 2018, p 18.







não digo ilha
nem sufoco sinónimo
não digo o teu nome
o mel golpeia a língua
fecha-te os lábios
estou cercado


  
   Leonardo. caderno de mitos pessoais. S/c.: Ed. Artes e Letras, 2018, p 10.




quarta-feira, 31 de julho de 2019


Texto de Apresentação da Cintilações: Revista de Poesia, Ensaio e Crítica, Nº 3, 2019"


        Prof. Dr. Ernesto Rodrigues
 Fac. Letras/Univ. Clássica de Lisboa


   Cintilações da Sombra. Antologia Poética, coordenação de Victor Oliveira Mateus, foi lançada em 2013. O segundo volume sai no ano seguinte. O terceiro, melhorado na capa e no papel, em 2015, acrescentado de três ensaios. Perde a sombra, aumenta o número de páginas e a qualidade em 2016, voltando ao número um de Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio. O número 2, 2017-2018, já tem um conselho editorial, e este, que agora apresentamos, em que Maria João Cabrita divide a coordenação, traz como subtítulo Revista de Poesia, Ensaio e Crítica, desdobramento ainda insuficiente para o acréscimo em 25 por cento da paginação.
   Percebe-se, já, uma comunidade de autores, tal a presença regular de alguns, entre revelados e confirmações; uma atenção crescente à variedade linguística, e, dada a primazia de falantes de português e castelhano, um forte domínio ibérico e latino-americano. Pela primeira vez, também, os poetas ocupam só 40 por cento do espaço.
   Face a transformações que uma tão breve estatística  mal explica, pergunto-me se não seria de alterar o critério de um poeta um poema, que João de Mancelos, Elena Liliana Popescu e Maria do Rosário Pedreira, por exemplo, já quebram. Seriam menos poetas e mais poemas de cada um. A recepção crítica assentaria em corpora mais consistentes, e na afirmação de nomes que mal iniciaram caminhada.
   Citarei, por ordem de entrada em cena, os que acompanho há muito e quantos só aqui (ignorância minha, decerto) me despertaram interesse em lê-los mais demoradamente: A. M. Pires Cabral, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, António Cabrita, António Carlos Cortez, António Ferra, Casimiro de Brito, João de Mancelos, João Ricardo Lopes, Leonor Castro, Maria Carpi, Maria do Rosário Pedreira, Maria Teresa Dias Furtado, Rita Taborda Duarte, Rosa Alice Branco, Sara F. Costa, Teresa Macedo.
   No apartado da poesia - mais uniforme que os outros -, encontro, já, um assunto vital, que, se não é novo na nossa lírica, há muito estava afastado, com esta dimensão, ao menos: trata-se de uma reflexão sobre a morte, em soluções e tons diversos. Assim, o despejo da vida, em que somos inquilinos, faz-se serenamente em Pires Cabral, numa toadilha de recorrências em Amélia Vieira, na brincadeira infantil da velha, em Ana Luísa Amaral, mais atormentado em Alice Machado, que partilha com Amadeu Baptista a figuração do louco, aqui, justiceiro.
   Mau grado a disforia, ainda, em Ana Maria Puga ou em André Domingues, e a bicicleta com "as cinzas/ Dos meus mortos" em Ana Peres de Sousa, percebe-se, aqui, um salto em frente, uma passagem para o outro lado, ou ultrapassagem, como no dilema de André Alves: "Como poderíamos ter livrarias nas esquinas,/ Se temos os pés descalços?" Cresce o futuro para estes poetas, como para "os netos órfãos" de Rita Taborda Duarte, que revê informação em "bocal de telefone - anguloso"?
   Dos mortos úteis, fecundos, mas também inúteis, fala António Cabrita, numa relação simbiótica com "os mortos que nos incluem na sua polpa", tal como a "gangrena interior" reabrindo, e a dor "familiar", por uma falha íntima, se anuncia fatal, em Cortez.
   Vejam-se outras explicitações de morte em António de Almeida Mattos, António Ferra ("quanto tempo falta para morrer."), no vocabulário expressionista de António Manuel Ribeiro e naturalista de Teresa Macedo, no reino das sombras de Casimiro de Brito, no balanço existencial de Cláudio Lima, na imagem da borboleta negra e da luz caindo, logo solidão sob névoa, em Conceição Brandão, à frente largamente recenseada; ainda, em Gabriela Rocha Martins e Rui Miguel Fragas; em Jorge Paulo, "a um passo de não ser", tal como Rui Rocha; na efémera rosa que nos sobrevive, secundando Maria Carpi, ou na ressurreição, segundo o evangelho de Orlando Barros. Abandono e perda resumem sem-abrigo português em Londres por Marília Miranda Lopes.
   Fragâncias de juventude são sorvidas em António Salvado, mas, a fechar o díptico, lá vem o"'fim' no branco a esmaecer". Em contraponto, "nunca nada termina", para Jorge Vicente. No meio, fica o amargo de tudo, anaforizado em Raquel Serejo Martins, ou a correria por tentar recuperar a vida a vida em Tiago Alves Costa; Ricardo Gil Soeiro inquieta-se na intérmina suspensão da partícula se.
   Quem foge a esta evidente unidade de sentido? Artur Ferreira Coimbra, Cecília Barreira, Fernando Paixão, Maria Augusta Silva, Nuno Brito, esperançosos. Noutra frente, encontramos Daniel Gonçalves e Rui Esteves, no entusiasmo criador, a que associo Isabel Cristina Mateus parafraseando Ramos Rosa - este, a par de Rilke, na arte poética de Maria Teresa Dias Furtado -, bem como a "ponta do lápis./ Onde começa/ a minha solidão", segundo Ema Alba Lobo, ou "o puzzle das sílabas", de Leonora Rosado, a conjunção verso-amor em Mbate Pedro, a que João Rasteiro soma "fértil solidão", o intrigante desnudamento de Leonor Castro e Maria José Quintela, o propósito criador de Adalberto Alves e Sara F. Costa, dizendo-nos que "Não podemos ser o mesmo".
   Contra este evidente "exercício de morrer", está o amor, confia Isabel Cristina Pires; mas também Jorge Fragoso e Pompeu Miguel Martins, ou amor-eternidade, em João Ricardo Lopes. Ir além de um "rascunho do amor" propõe-se João de Mancelos ecfrástico e em quatro haicais. Mas a morte pode fecundar a escrita de Lezama Lima, protagonista de Rosa Alice Branco. A léguas destas hipóteses de fusão, emergem violência doméstica de marginalidade, que são outro tipo de perdas, em Maria do Rosário Pedreira.
   Ora, contra o subtítulo, esta revista também contempla tradução, maioritariamente do coordenador. Além de Portugal, Brasil e Moçambique, cabem dez países: entre os escolhidos, que não conheço, saliento enredo íntimo em Alberto Fuentes, rítmica e léxico insólito em Aleyda Quevedo, Elena Popescu sobre criação literária e num último adeus, um exemplar Rubén Darío, Os materiais são parcos para outras conclusões, embora curioso de Mane Manushev e Pierina Marmo. As traduções fluem bem.
   A dezena de ensaios, pela variedade, interessará públicos díspares, já no confronto Pessoa/ Pla, já atrás das saias de Hilda Hilst, que me sugeriram comparação - trabalho que ofereço a estudiosos de género - com As Saias de Elvira Outros Ensaios (2006), de Eduardo Lourenço. Conhecia o texto sobre Teresa Veiga lido em encontro camiliano, com a qual viemos de comboio e boleámos até casa. Fico a conhecer, por Maria João Cabrita, Robert Nozick, na abrigada leitura do que é uma proposta de vida. Reconcilio-me com versos de Maria Gabriela Llansol e recordo um antigo colega da Faculdade, M. S. Lourenço: Pedro Marques Pinto é breve, e fez bem. É útil recordar António Telmo. Sério de divertido fecha Victor Oliveira Mateus, qual terapia a também usar nesta baixa existência, e mais na literária, mais baixa ainda.
    Fecha, não, porque sucedem outros apartados, que obrigarão a repensar futuro subtítulo, algo como 'revista de literatura e arte'. Temos, assim, crítica literária, prosa, ensaio gráfico. Mas, numa espécie de intermezzo, este discípulo dos estóicos que eu sou toma como bónus o regresso do coordenador sobre a velhice, matéria que o sistema escolar não deveria escamotear - nem a Segurança Social.
   Seguem três recensões, três contos acrescidos de uma memória juvenil de Maria Lucília Meleiro em tempos de Guerra Fria (ignorando que lingerie ocidental era muito apreciada além do Muro de Berlim...) e um poema em prosa. À sensibilidade contística de Ana Paula Costa responde o onírico de Carlos Nuno Granja e seu Ramires peculiar. Entre os artistas, conheço Emerenciano de jantar e exposição em Ovar, não os demais: talvez eles devessem intervalar as centenas de páginas e não quedar no fim.
   A propósito do chamado 'delírio das musas', acrescenta Victor Oliveira Mateus em "Um eu em bicos de pés": "Segundo Séneca, Aristóteles teria também dito que não existe grande engenho sem uma extrema insânia". Eu traduziria: "Impossível um grande génio sem um grão de loucura". Séneca, em De Tranquillitate Animi, atribui-lhe a expressão, de facto, a partir do apócrifo aristotélico Problemas, em que génio é teorizado como melancolia. Não quero, agora, acusar ninguém de genial; mas, face a esta regularidade de seis anos, na constância da Editora Labirinto e do Núcleo de Artes e Letras de Fafe, e às centenas de poemas e prosas em gradual internacionalização, não vejo outro caso assim no universo literário português. Ou seja, um grão de loucura mora aqui.
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Lisboa (Livraria Férin), 13 de julho de 2019.
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domingo, 14 de julho de 2019


                   Souvenir


Todo o tempo, vamos embora
e, no entanto, não nos perdemos
de vista em instante algum
Tentamos um novo enredo,
mas a memória é outro corpo
que arrastamos e decai
com os nossos, permanece,
 cicatriz, nome que nunca cessa

E se nos víssemos entre os vivos,
outra vez na multidão? A imagem
fixa de susto e nos perguntaríamos:
e agora, quem some? Nenhum
de nós: somos a provação,
o cravo nas costas, as vértebras
e suas cracas para sempre,
um aleijão, a fisgada em cada gesto

Não nos esquecemos, sim,
nos esconderíamos com a mentira,
não nos lembraremos, não
nos lembramos de esquecer,
tornaremos os rostos à parede
mais vendo assim, transe,
mais sabendo que somos nada,
aprisionados nos nossos estômagos

Sim, a memória é uma unha
e ainda que cortemos o dedos
que a leva, e mesmo amputados,
leríamos a mutilação, a dor
fantasma, o concreto, toxina,
o plástico nas narinas,
o afogamento, a despeito
das transparências

E nos olharíamos, os mesmos,
quase os mesmos, despojos
de dias gastos.
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 Bresciani, Alberto. Fundamentos de ventilação e apneia. São Paulo: Editora Patuá, 2019, pp 108-109.
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sexta-feira, 12 de julho de 2019


               Trinta e um


O tempo não nos fez
mais sábios, o tempo
nos cega e engana

Nossos planos, essas
metas de fim de ano
cairão como fortalezas

Melhor nos serve
a memória dos peixes
- breve, breve, breve

Escrever nossos nomes
no papel em branco,
a certeza

de não nos ferirmos,
apagar quedas,
estragos, trancos

Provemos as cerejas
que sobraram sobre a mesa
São doces, macias.
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  Bresciani, Alberto. Fundamentos de ventilação e apneia. São Paulo: Editora Patuá, 2019, pp 55-56.
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quinta-feira, 11 de julho de 2019


                         Atenas

Sigue tejiendo, amor, y destejiendo
jerseys y leguas para mi derrota,
bufandas para el viento que me lleva,
el frío de mi fuga
y el invierno que soy. Sigue tejiendo.

Sigue diciendo no
al desaliento y a tus pretendientes.
Y no les digas no, diles mañana,
y mañana también diles mañana.
Lo mismo que yo a ti. Hasta que regrese.

Cuando cansado ya de derroteros,
harto ya de perderme y demorarme
en regazos de magas o en riesgos de sirenas,
regrese a ti, y no sepas
qué hacer con el quehacer de tanta espera
como ahora no sé qué hacer conmigo.

Me he convertido en nadie.

Tendré que regresar a tu regazo,
apoyar mi cabeza donde ahora está el ovillo
que guía mi retorno.

Y cuando llegue a ti ya no sabrás quién soy.
Cuando te abrace abrazarás el aire.
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 Piqueras, Juan Vicente. Atenas. Madrid: Visor Libros, 2013, p 56.
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quarta-feira, 10 de julho de 2019


                          O Labirinto


Numa mão o fio e na outra a espada,
o coração um nó, os passos sigilosos,
entro no labirinto assustado e feliz
como quem decidiu afrontar o seu destino.

Mas no labirinto apenas escuto o silêncio.
Não há mugidos, nem vozes, nem passos que não sejam
os meus, nem ruídos para para além da minha respiração.

Começo a suspeitar que talvez não haja ninguém
e que o terrível monstro
seja apenas uma invenção do medo dos homens,
do seu obscuro desejo de desaparecer.

Quando chego ao espaço central vejo nele um poço.
"Como um umbigo" - penso, enquanto me aproximo dele.

Vejo o meu reflexo na água estagnada e compreendo
que o minotauro está dentro de mim,
que a luta havia começado,
que acabará comigo
se antes não chegar o fim a resgatar-me.
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 Piqueras, Juan Vicente. Atenas. Madrid: Visor Libros, 2013, p 25 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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segunda-feira, 8 de julho de 2019



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Acabou de sair a Cintilações: Revista de Poesia, Ensaio e Crítica, Nº 3, 2019. A sua primeira apresentação ocorreu no passado dia 5 na Feira do Livro de Braga e no próximo dia 13 será igualmente apresentada em Lisboa, na Livraria Ferin, pelo Prof. Ernesto Rodrigues da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Esta Revista sofreu as seguintes alterações:
- A Coordenação passei a partilhá-la com a Profª Maria João Cabrita da Universidade da Beira Interior.
- O Conselho Editorial foi aumentado e passou a contar também com os seguintes autores e/ou académicos: o romancista e ensaísta Miguel Real, o poeta e Prof. da Univ. de Salamanca Alfredo Pérez Alencart, o Prof. da Univ. Católica Cândido Oliveira Martins, a Poeta e Profª da Univ. Clássica Ana Mafalda Leite e o poeta espanhol (aqui neste vídeo) Alejandro Simón Partal. Para todos o meu imenso obrigado por terem aceitado o meu convite/ pedido para colaborarem nesta tarefa que é manter de pé, nos dias de hoje, uma Revista cultural desta qualidade. Bem-hajam!
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quarta-feira, 3 de julho de 2019


                                              UM EU EM BICOS DE PÉS 

                                                  Victor Oliveira Mateus 


(…) Escrever 
uma obra que nos sobreviva 
é um exercício inútil. 
No fim, desaparece tudo. 

José Rui Teixeira, Ainda 


   Quando Platão defende a expulsão dos poetas da cidade, toma a medida correta pelos motivos errados. Ou melhor: pelos motivos incompletos. Convém não esquecer que Platão não visa todos os poetas, mas tão-só os líricos, já que aos epopeicos é concedida até alguma utilidade, sobretudo na instrução dos guerreiros. Mas Platão não visa só os poetas líricos, também aos comediógrafos e aos tragediógrafos é indicada a porta de saída da pólis. A falha essencial destes três tipos de autores é, para Platão, essa impossibilidade estrutural de tais artes em abandonar o sensível, tal como ele havia defendido em várias obras, sobretudo no Fedro e no Fédon. Esta impossibilidade de ascensão – ou de conversão, como diria séculos mais tarde Simone Weil ao falar de Platão! – reduz esses autores ao papel social de meras excrescências, de efeitos de uma humanidade espúria que urge eliminar. Assim, uma sociedade justa não se pode dar ao luxo de conservar no seu seio defensores de imitações e de negaças, por conseguinte, para Platão a procura da justiça social corre a par com uma rígida hierarquização da sociedade e com um espartilhar cuja eficácia não poderá perturbar o culto da racionalidade, aliás, não é por acaso que Karl Popper refere o filósofo grego como um dos pais das sociedades fechadas, esses modelos de castas onde as chefias não são questionadas. Aos poetas líricos e aos tragediógrafos não é perdoado esse exacerbar das sensações e das emoções, escolhos no aperfeiçoamento moral e social segundo o modelo platónico, e aos comediógrafos, para além dos motivos anteriores, não é igualmente desculpado esse crime de lesa-justiça cometido por Aristófanes em As Nuvens, mas, e acima de tudo, o feroz achincalhamento dos deuses que o mesmo autor ousou em As Aves, indesculpabilidade extensiva depois, por todos os platónicos, à Comédia Nova, agora pelo crime de lesa-Pátria na ridicularização da Hélade, sobretudo na pessoa desse degenerado Menandro, que ousou mesmo escrever, para riso das massas, que os aqueus quando regressaram de Tróia traziam o …. mais aberto do que a cidade que haviam acabado de conquistar. Mas Platão se dá ênfase ao vilipendiar do fazer poético é, não só pelos motivos já referidos, mas também pelo facto dessa techne irromper geminada com o demencial: na Apologia os poetas aparecem igualados aos profetas e a todos aqueles que executam um dado fazer, cujos sentido e fundamento são incapazes de explicar. Este elo entre o fazer poético e a loucura continuou séculos adentro até a atualidade, para gáudio da massa e auto-embevecimento de alguns poetas, isto mesmo numa época em que grande parte de psiquiatras, psicólogos clínicos e psicanalistas se recusam a usar o conceito, a não ser que lhes seja explicado o que é entendido por tal. Convém, portanto, frisar que a associação: perícia na manipulação das imagens/ demencial tem raízes profundas na cultura ocidental: as primeiras formulações de psicopatologias em santos, profetas, filósofos, poetas, etc. podem já ser encontradas em Eurípides e Demócrito, e o próprio Platão, no Fedro, acentua que quem quiser aprender a arte poética terá de entrar pelo delírio das musas, esta tese vigorará ao longo de séculos: segundo Séneca, Aristóteles teria também dito que não existe grande engenho sem uma extrema insânia e, já no séc. XVII, Pascal continua a ideia, afirmando que a agudeza do espírito tem extrema vizinhança com a loucura, enfim, são inúmeros os exemplos até chegarmos à célebre tese de Cesare Lombroso, que, numa obra de 1863, acaba defendendo que não há como uma boa psicose para favorecer a produção artística; a polémica de Lombroso com o seu opositor, o psiquiatra austríaco Max Nordau, decorreu até 1910, mas, e para o que nos interessa aqui, que é a desconfiança de Platão relativamente aos poetas, que, na sua exuberância, visavam exclusivamente o dizer das imagens, do inautêntico, e através dessa arte, ocupar o centro, pôr-se em bicos de pés, desinteressados da definição dos conceitos e, consequentemente, da procura da Verdade, para tudo isso haveria de contar com a firme oposição de Platão, pois essa ideia de que filhos de campónios, ou de outros estatutos sociais menores, pudessem alguma vez ocupar o centro era absolutamente intolerável para Platão, aristocrata de sangue por parte da mãe, que descendia dos antigos reis de Atenas; essa obsessão do Eu-poético (e do próprio poeta) pelo centro, que tem na antiguidade em Safo um dos seus pontos altos, e que a filosofia e a poesia orientais sempre ignoraram, não se desvaneceu após o ultra-romantismo, antes pelo contrário, desembocou depois, acompanhando o desenvolvimento informático e cibernético, num paroxismo auto-referencial de grande parte dos poetas: o eu-luminoso, o eu-espiando os seus pares, o eu-lupino ávido de poder e de esplendor, etc. aliás, seria interessante até comparar este turbilhão com algumas perturbações da personalidade devidamente estudadas e caraterizadas (1) . A esta avidez que o Eu tem, em muito do fazer poético, pelo centro, nem sequer escapou a tão crítica poesia de escárnio e maldizer, veja-se, por exemplo, a produção de Pero Garcia Burgalês. Se, como dizia Fichte, a filosofia que se tem depende da pessoa que se é, então, o mesmo poder-se-á dizer da relação poeta/poesia: a personalidade do ser humano não pode ser comparada a essa cebola tão bem cantada por grandes poetas como Miguel Hernandez e Rosa Chacel; a personalidade não é uma multiplicidade de películas reluzentes, que, camada após camada, envolvem um poço vazio; a personalidade tem um núcleo, que, na sua imutabilidade (2) , não deixa de irromper na poesia que se faz, mesmo quando se opta pelo tão mitificado fingimento. E foi isso que Platão percebeu: os poetas não navegavam pelas aparências pelo simples prazer de navegar, eles faziam-no porque nas suas orquestradas poses de exibicionismo e de pretenso demencial gostavam se pôr em bicos de pés – enquanto pessoas e enquanto eu-no-texto – e uma sociedade que visasse a justiça, o belo e o bem teria, obviamente, de proceder à exclusão desses prestidigitadores de imagens. 
    É sabido que Platão tolerava a presença do singular, mas apenas em três situações bem definidas: como elemento de utilidade na exercitação de um raciocínio que visará a eficácia na apreensão do universal, tal como aparece em O Sofista; como elemento detentor das definições supremas e, por conseguinte, como corolário do social, que, enquanto filósofo-rei, tem em si a justificação para o governo da pólis e, finalmente, como inquiridor esclarecido na persecução dos diálogos platónicos tal como nos explicita Victor Goldschmidt (3) , já que, para este filósofo, é ao Sócrates platónico, enquanto indivíduo, que compete a determinação do saber do interlocutor para que se possa chegar a um diálogo acabado ou a outro incompleto. Para além destas situações, a sociedade é um todo estruturado e hierarquizado, cujo centro é ela no seu todo ou aquele que necessariamente dela emana e é, portanto, um território de universalidade, onde jamais caberiam os fascinados pelo seu brilho pessoal, fatores de perturbação da ordem social, do aperfeiçoamento moral e da procura do bem; extrapolando agora: poder-se-á dizer que para se chegar a uma sociedade organizada, perfeita e, até mesmo, poética no seu todo, urgia a expulsão dos poetas, quais sombras espaventosas refletidas nas paredes de uma caverna. 
   Se aos poetas não deve ser concedido estatuto de cidadania – com exceção dos epopeicos, que, contudo, não passam de meros utensílios em processos de aprendizagem, logo, sem qualquer hipótese de se meterem em bicos de pés -, então, pergunta-se, qual o tipo de poesia que poderia ser tolerada, ou mesmo incentivada no seio da sociedade? Resposta: toda aquela cujo vetor apontasse para o apagamento do Eu, da singularidade, para a ocultação deliberada do poeta enquanto criador e do eu-poético que poreja nos seus textos. Numa visão filosófica e política do tipo que Platão intuiu, com os poetas todo o cuidado seria pouco! No entanto, se lermos com minúcia a escrita de Hildegarda de Bingen, a de Herrad von Landsberg ou a de S. João de Cruz, ver-se-á que uma poesia onde a conceção de autoria implodisse, paralelamente ao apagamento de um egotismo obsessivo que perpassa nos poemas, numa situação dessas essa poesia seria perfeitamente aceitável, e até mesmo necessária, para uma sociedade que vise o seu aperfeiçoamento moral, social e político, até lá, todo o poeta, todo o Eu, que visse sistematicamente o outro, nunca como fim, mas como meio para se pôr em bicos de pés, deverá ser expulso da pólis. Apenas um último exemplo (outros semelhantes poderão ser encontrados nas culturas do oriente!) para ilustrar esta posição: se lermos um dos mais belos poemas da Idade Média, O canto do irmão sol (4)  perceberemos o que é uma poesia do despojamento, da fusão e identificação com o Todo, com o Enigma, do deliberado apagamento do Eu, e pode ser de tal modo abrangente e monumental esse despojamento, que o eminente biógrafo e historiador que é André Vauchez, quando pretendeu escrever a sua enorme biografia de Francisco de Assis (5)  encontrou apenas duas fontes absolutamente credíveis (O Testamento e a Regra), para o resto o historiador em causa teve de recorrer a tudo o que é documento apócrifo e a um estudo minucioso da época nas suas múltiplas vertentes, tal havia sido a vontade e a ação de um humano, que, de passagem por aqui, apenas da sua viagem fez a sua arte, sem se pôr em bicos de pés, pelo que jamais poderia – nem deveria – ser expulso de cidade alguma, como, aliás, não o foi. No entanto, e à guisa de conclusão, acrescentaremos tão-só que esta escrita do despojamento não é passível de ser encontrada apenas no território místico-religioso, podemos detetá-la em outros horizontes teóricos completamente distintos como, por exemplo, em Cioran (6) . 
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NOTAS 

(1). Cf. Richad Sennett, A corrosão do carácter, Terramar, 2007 e Julia Kristeva, Les nouvelles maladies de l’âme, Fayard, 1993.
( 2). Posição que não contradita as teses da psiquiatria e da psicanálise da Escola Vienense de Viktor E. Frankl. Cf. também Sem consciência, 0 mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós, Robert D. Hare, Edª Artmed, 2012, bem como Le harcèlement moral, la violence perverse au quotidien, de Marie-France Hirigoyen, Édiitions La Découverte, 1998. 
(3). Cf. Victor Goldschmidt, Les dialogues de Platon, P.U.F., 1971. 
(4). Cf. Oeuvres, Saint François D’Assise, Albin Michel, 2006, pp 255-256. 
(5). Cf. François D’Assise, entre histoire et mémoire, Fayard, 2009. 
(6). Cioran, Cahiers, 1957-1972, Gallimard, 1997, p 87, p 94, p 480, p 690. Um exemplo: “L’idée même que je puisse viser à la gloire m’humilie, et elle me ruine à mês propres yeux.” Cioran, op. cit. p 68. 
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Mateus, Victor Oliveira. Cintilações: Revista de Poesia, Ensaio e Critica, Nº 3, 2019. Fafe: Editora Labirinto, pp 169-175.
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         A cierta edad, el gris es un color alegre


Aprecia cuanto tienes.
No te importe si llueve o hace sol,
mientras puedas contarlo.

Eres el dueño de un tesoro
que sólo a ti te pertenece y nadie
puede menoscabar.

Intenta ser feliz
gozando cuanto efímero subyace en lo perenne,
disfrutando lo eterno en lo fugaz.

Es la sabiduría de la vida:
a veces un segundo contiene un año entero;
se disipa el perfume, permanece la rosa.

Si vives lo bastante,
verás que con la edad se vuelven relativos
las sombras y los gozos:

que en olvido se alberga la memoria
y la memoria olvida
hasta que todo es nada más que eco.

Y, sobre todo, ten presente.
(El futuro es silencio,
el momento que vives y se apaga

bien puede ser el último, por eso
cuida de tu tesoro).
Sólo de ti depende

la alegría del último momento.
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 Manilla, Antonio. Suavemente ribera. Madrid: Visor Libros, 2019, pp 87-88.
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terça-feira, 2 de julho de 2019




                             Ananke


Agora que deixa o crepúsculo na folhagem
a última luz do dia, enquanto tudo se desvanece
e a noite se acende, penso no quanto
quis para a minha vida e nem sequer intentei,
no que nunca imaginei e, no entanto, fui:

nas coisas perdidas e encontradas
sem que se saiba como,
destroços que o mar atira para uma praia
e o infortúnio de uns passos na areia,
 que apagando as ondas, nos fazem achar,

tesouros que na bruma do esquecimento
para sempre se perdem
alimentando um halo de lendas
que nos salva do frio, inexplicavelmente,
quando chega o inverno.

Agora que um canto de nostalgia se levanta
de todo o vivido e do por viver
e o melancólico ferreiro palpita
com um ritmo frenético,
penso, por um instante, no destino.
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 Manilla, Antonio. Suavemente ribera. Madrid: Visor Libros, 2019, p 29 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).

Nota: Ananke, ou Ananque, era na Mitologia Grega a Deusa da inevitabilidade, a mãe das Moiras, a personificação do Destino.
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                           A Filha de David


Mãe, por onde passei, apesar de limpar
sujei. Cultivei flores, mas foram mais as que
arranquei do que as outras, as que reguei
no horto. Não matei animais
mas a guilhotina do talho trabalhou
para mim, noite e dia. Assim, se sobrevivi
foi porque alguém morreu para meu bem.

Juro por Deus que desejei que fosse perfumada
a superfície onde pousei os lábios, e no entanto
dela me desviaram pensamentos outros
que tomei por sábios.

Quis olhar para as alturas e deixei-me curvar
na direcção do chão, lá onde o meu pé direito
ganhou, sob a tira do sapato, a mancha de uma
roedura - E conclusão.

Daqui irei e pouco mais farei do que deixar
uns escritos sobre o mundo onde eu queria só erguer
e no entanto, como em tudo, fiz parte
da ruína que eu não queria.

Esposa de David, a quem a minha mentira não consente
sobre tudo o que não nomeei, os teus conselhos
de fulgor e perfeição, assim serão.
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  Jorge, Lídia. O Livro das Tréguas. Alfragide. Publicações Dom Quixote, 2019, pp 90-91.
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segunda-feira, 1 de julho de 2019



                             Minha despesa


Pesado  é o imposto sobre os meus passos
e dizeres - O beleguim que mo cobra, dia a dia
está sentado à porta anunciando essa pequena morte
por despesa.

Antes regressar à mesa onde estudava os livros
que já tinham sido escritos, humanística biblioteca
tão vasta quanto estrelas, férias cantantes
sem outro intento que não fosse contar as linhas
uma a uma, e imaginar batalhas onde homens
jovens encontravam a traição da História
por mortalha.

Pensando bem, a mão me trai o espírito, detestado beleguim
vem, regista a dívida, cobra o que entenderes por este
meu ofício.
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  Jorge, Lídia. O Livro das Tréguas. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2019, p 65.
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O Diário digital "Salamanca RTV - AL DIA. es " noticia hoje as próximas apresentações (em Braga e em Lisboa) da "Cintilações: Revista de Poesia, Ensaio e Crítica, Nº 3, 2019" coordenada por Victor Oliveira Mateus e Maria João Cabrita, e publicada pela Editora Labirinto.  
Aqui:
https://salamancartvaldia.es/not/213252/revista-literaria-portuguesa-destaca-obra-alencart-tundidor/?fbclid=IwAR3W7RdsHEW5j37v892gPu9QFlhh2lFmr5-n39FJ_ihpvBLnUY4CUibcDlg