quinta-feira, 26 de dezembro de 2019


           O purificador nocturno


Às vezes ignoro as luzes,
o que gravita como ofício de poder.
É uma insónia intacta e sem estrelas
em que a rosa abre as mãos,
aquece a fruta desabrochada
e rebenta os poemas
que cantam e estremecem
fora do mundo.
A tectónica vivificada pela força do sal
que é uma queimadura nos dedos
a escreverem o cristal
até se tornarem transparentes
como corpos diluídos pela chuva.

A identidade é fechar as pálpebras
à noite
e virar-se de costas
para acender a salvação.


  Pessoa, Maria João. Emoções Fora da Lei. Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 30.
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Nota - Prémio Internacional de Poesia António Salvado/ Cidade de Castelo Branco.
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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019


                                                         A Caça


   Há muito que a mulher procurava algum consolo nas aplicações de encontros e obtinha apenas a crença minguante em emparelhar com alguém que a satisfizesse.
   Na véspera, siderada pelo marasmo em que vivia, pegou no telemóvel e horas depois viu-se estacionada numa rua sem saída. Encontrou-se com um rapaz de vinte e nove anos - um deputado. Começaram a foder na parte de trás do carro dele, com as pernas dela apoiadas uma em cada janela. Era a primeira vez que se encontravam. Não pretendia voltar a vê-lo. Nunca repetira um encontro. Não valia a pena. Talvez o problema residisse em si própria, na sua falta de interesse por cumprir as regras. "Não se fode no primeiro encontro." Qualquer mentecapto sabe as regras.
   Em ocasiões regadas a álcool, tinha estado com mais do que uma pessoa por noite - o seu recorde foram três. Naquela noite também saiu com ideias de caça grossa. Foi jantar sozinha e, ao balcão de um dos restaurantes mais icónicos da cidade, onde era cliente assídua, aviou uma garrafa de vinho. Decidiu então começar por marcar encontro com o menos atraente da lista. Escolheu uma pensão perto do restaurante. Já estava no quarto quando ele chegou. O pobre rapaz era inexperiente, mostrou-se nervoso e constrangido quando a mulher abriu a porta. Afinal não era gordo, tinha um rosto redondo, e as rugas eram de expressão, típicas de quem se ri bastante. Suava um pouco junto ao buço, pôde vê-lo pelo brilho excessivo junto ao lábio superior. Pareceu-lhe um leitãozinho e isso despertou-lhe ânsias de o comer. O rapaz ainda tentou fazer conversa, mas a mulher não lhe deu abébias, enfiou-lhe a língua na boca num gesto ostensivo de gula. O sexo fora demasiado gentil e efetuoso, o que a encheu de enfado. Ainda não tinha abandonado o quarto, aproveitando a ida do leitãozinho à casa de banho, e já estava de telemóvel na mão a tratar do encontro seguinte. Apercebeu-se que o aparelho tinha pouquíssima bateria. Aceitou ir ter a casa de um tipo com quem não tinha trocado mais de vinte linhas de conversa. Não era longe da pensão. Despediu-se do leitãozinho. "Até nunca  mais". Apanhou um táxi para a morada que o tipo lhe indicara por mensagem. As fotografias mostravam um homem forte, moreno, musculado. Ia comê-la com ganas, tinha esperança que sim. Apanhou o elevador até ao segundo andar e tocou à campainha. Reparou no tapete da entrada onde podia ler-se "Chegay". Segundos depois apareceu o tal homem. As fotografias faziam jus à imagem presencial. Estava perante um enorme cavalão de fato de treino e com aparência de bimbo, é certo, mas ainda assim com mais de um metro e noventa de altura. Puxou-a gentilmente pelo pulso direito para dentro de casa e, após ter fechado a porta, encostou-a com o peito à parede, colocando-a de costas para si. Arregaçou-lhe a saia a apalpou-lhe o rabo todo. Foi sodomizada contra a parede durante uns bons quinze minutos. Quando apanhou o elevador para sair do prédio, doía-lhe um pouco o rabo e não estava satisfeita. Ouvira histórias de pessoas que foram agredidas nestes encontros com desconhecidos. Nunca tinha isso em mente quando decidia ir à caça. A fome era superior ao receio, e além disso era um traço da sua personalidade - ser deveras imprudente. Por isso, mal se viu na rua voltou a pegar no telemóvel. Infelizmente, o visor a negro indicava falta de bateria e, portanto, o fim da caça,.
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 Chéu, Cláudia Lucas. A Mulher-Bala e outros contos. Fafe: Editora Labirinto (Coleção contramaré Nº 25), 2019, pp 109-110.
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"A Mulher-Bala e outros contos" de Cláudia Lucas Chéu. Fafe: Editora Labirinto, 2019.
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terça-feira, 24 de dezembro de 2019


lembras-te? eu chovi o profundo sangue até à flor da pedra e tudo
secou por sobre a mesa aberta e nua e nem um sismo
breve e só de eu haver florido me amanheceu - oculto
Job abismado e estreito sob os bordados luz dos cimos da Hora.
riram canções de roda a levedar a dor e eu silêncio e chão,
lembras-te?
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lembro-me, paramentado já da terra longa perscrutei a estrada
na pele, na pedra, na ossatura da voz, na paciência sã do porejar
da rosa
pétala a pétala e icei-me - cão lazarento no desespero último
da vindima do amor - cravei os dentes nos tornozelos
do vento: pungente exumação, despertar silencioso, lento
rasgar do insaciável ventre do unânime e tirânico lodo. Tu
lembras-te? lembro-me do sangue à flor da estrada
aberta e nua e enlameada de eu chover todo e pobre ______
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mas uma gota houve dissonante e sem nome, tão simples - perfeita
manhã de adeus; pirâmide de todas as lágrimas - rigorosa e
lúcida a irrigar
os sulcos das minhas mãos vazias onde me reouve de
sórdida sombra.
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e eis que regressas vaidoso verão pejado do âmbar dúctil
e laudatórios sins
e tudo seca - iteração acerba - por sobre a mesa verde e aberta
de bordados luz atoalhada; regressas insaciável, tirânico e unânime
a alvorar
galopes, sono e sol e és poder e impotência só       extinção
e chama fulminante: farisaica boca a devorar o breve sismo do meu
brotar
do latente imo da pedra rumo à noite em branco do silêncio.
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  Rocha, José Rui Rocha. O Livro Breve da Pedra Errante. Fafe: Editora Labirinto (Coleção contramaré Nº 27), 2019, pp 16-17.
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"O Livro Breve da Pedra Errante"  (Editora Labirinto, 2019) de José Rui Rocha, Menção Honrosa no Prémio Internacional de Poesia Victor Oliveira Mateus 2019.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Nos primeiros anos que se seguiram a 2000 a Labirinto organizava uns pequenos livros temáticos em que participaram vários autores. Os temas foram vários: a Liberdade, o Natal, a Mulher, etc. Colaborei em alguns deles. Quando me convidaram para o livro cujo tema seria o Amor, resolvi fazer uma provocação: escrevi um poema de uma grande simplicidade, simplista mesmo, pejado de imagens batidas a só com rimas pobres. Ninguém percebeu a minha artimanha e alguns amigos pensaram mesmo que eu estava numa fase de grande mediocridade, que estava a escrever como um menino de 9/10 anos. Pois bem, confesso agora: era mesmo uma coisa desse tipo que eu queria fazer, e pela reação dos pares consegui: eu pretendia um pequeno texto, muito primário, baseado na belíssima cena acima sugerida do filme Peixe Lua de José Álvaro Morais. Quem vir a cena no youtube perceberá! Ora, nesta época de Festividades, creio que fica bem uma coisa sobre o Amor, algo cuja arquitetura seja tão-só uma inocência deste tipo, um fulgor que aproxime.
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.E se te transformasses em pássaro?
Eu transformava-me em céu, um vasto céu azul com nuvens de fogo
nas pontas e sulcos de pétalas no centro: um fulgurante azul celeste
criado só para ver todo o fascínio do teu irromper,


E se te transformasses em água?
Eu transformava-me em fonte, ou talvez numa nascente, que a ânsia
de ver-te inundasse e nas paisagens que te vou escrevendo a minha
sede abrandasse.


E se te transformasses em estrela?
Uma imponente estrela de espuma com brilho de lava e gestos de
vento? Eu transformava-me em sombra, uma sombra incandescente,
onde tu: pássaro, água ou estrela, pudesses andar e na varanda da
minha espera devagarinho viesses pousar.
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  Mateus, Victor Oliveira. Coleção Afetos, Amor: Fafe: Editora Labirinto, 2008, p 56.
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

OBRAS RECÉM PUBLICADAS EM QUE COLABORO:
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1. O Sangue dos Rios . Antologia Poética organizada por Pedro Miguel Salvado, Carlos d'Abreu e António Lourenço Marques. É uma obra publicada pela Câmara Municipal do Fundão e que se insere nas comemorações dos 100 anos do nascimento de Fernando Namora.
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2. Da Ruína da Palavra à Magia do Nome (Matosinhos: Seda Publicações, 2019). É uma Antologia Crítica e Pessoal dedicada à obra de Ricardo Gil Soeiro. A obra integra ensaios de: Maria João Cantinho (coordenação), Armando Pego Puigbó, Hugo Pinto Santos, Manuel Gusmão, Francisco Serra Lopes, Fernando Silva, Felipe Cammaert, Victor Oliveira Mateus, António Carlos Cortez, Maria do Rosário Lupi Bello, José Ángel Cilleruelo e Rodrigo Inácio Meneses (Antologia Crítica) e Ricardo Gil Soeiro (Antologia Pessoal).
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       A tentação: fala a serpente


Olha como é macia
a minha pele, mais macia
que a dele

como dispenso pernas,
braços, mãos, e me confundo
a verde e a castanho,

e o tronco atrás de nós
se compraz no meu corpo
e toda a árvore estremece
de prazer

Vem comigo e partilha
o segredo de ser sob
as estrelas: um lume
original

Não tenhas medo,
não te assustem as cores
da minha pele
nem o meu olho em fenda,
porta de entrada para tantas delícias
perdidas no jardim

nem esta coisa bífida
que fala,
mas que eles dizem fundir-se
com o mal

A lisura macia
que te ofereço
não custa o sal da terra:

tem o preço
do sol
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   Amaral, Ana Luísa. Ágora. Porto: Assírio & Alvim, 2019, pp 97-98.
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019


         Salomé após o crime


Quantas vezes te vi
e me surpreendi porque te olhava?
Sentindo a tentação de te espiar
e o desejo de amar
o que não tinha

Como saber
pelos sonhos mais nus
que me assaltavam
que eu não era paisagem
para ti?

Dizem luxúria só
onde houve amor
e um crime tão enorme de luxúria:
mas eu quis-te indefeso
como festa,
os teus lábios a festa para mim

Quantas vezes me vi
pensando no meu crime
e na história dos homens
a julgar-me!

Mas o que eu li
na bandeja do crime
foram os olhos com que tu
me olhavas
(finalmente eu paisagem)

e a luxúria
que há sempre
no amor


  Amaral, Ana Luísa. Ágora. Porto: Assírio & Alvim, 2019, pp 41-42.
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terça-feira, 10 de dezembro de 2019


        Carta a mim mesmo


Entre um mar de imagens vago
bêbedo nas paisagens interiores
da madrugada.
Lembro os cavalos que um dia
montei num poema improvisado.
Cavalos que saltavam a incerteza
e a carne acumulada da solidão.
Lembro as casas sem luz, estranhas
que um dia ergui com palavras.


Agora sou aquele construtor
mais velho, mais lavrado
seu coração de pedra,
mais limpo e menos pesado,
livre das lascas que arrancaram
o amor e o mar,
as garras do medo e do vento.
Sagrado cinzel do amor,
dá-me tempo
para olhar a imagem esculpida
da verdade que levo dentro.
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 Salgueiro, Alfredo Ferreiro. Teoria das Ruínas. S/c.: Poética Edições, 2019, p 37.
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domingo, 8 de dezembro de 2019


                     As moscas


Sorvem restos de açúcar
as moscas congregadas
pelo cheiro do poeta
no recanto do café.

Um poeta nunca morre
completamente.
É a compensação
por ter passado a vida
meio morto.

As moscas acodem
por causa da doçura
que sua amargura verte,
a doce melancolia
da paixão perene
que o ata e desata
em versos de violência e paz,
a golpes de amor e de espada.

As moscas sabem.
É doce a maldição
que do poeta mana,
é o sangue, é o suor,
é a lágrima que o associal
verte para redimir
a perversa sociedade.
É o cativeiro vital
de quem acode
chorar o que outros
entregam à morte.

Por isso as moscas libam
a lírica miragem
daquele que as observa.
Imortais companheiras
que versificadas zoam
sobre um corpo a desalmar-se
no recanto de um café.
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 Salgueiro, Alfredo Ferreiro. S/c.: Poética Edições, 2019, pp 26-27.
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sábado, 7 de dezembro de 2019


   A perfeição coloca-nos perante a realidade como se de um facto consumado se tratasse (...) Existe só para ser admirada... à distância. A amizade construída sobre esse chão é devorada por uma tensão nascísica: escolhemos "amigos" pela sua importância, estatuto, aparência. Fazemos da amizade uma busca do aplauso. (...).
   Abraçar a imperfeição é aceitar a amizade como uma história em aberto, que conta ativamente connosco. Na imperfeição é sempre possível recomeçar. A imperfeição permite-nos compreender a singularidade, a diversidade, o real impacto da passagem do tempo em cada um. É verdade que as nossas fragilidades dão-nos também a ver as nossas singularidades. E é o impacto da fragilidade em nós que mostra a nossa realidade mais profunda, mostra a vida de Deus e os seus vestígios. Nesse sentido, a imperfeição humaniza-nos. Acolhê-la é uma condição necessária na amizade, e na maturação pessoal que nos cabe fazer. O mais urgente é aprender a semear, num trabalho de confiança, de desprendimento e simplicidade cada vez maiores. (...) Todos somos feridos, opacos, inacabados. Cada um de nós traz dentro de si uma quantidade irrazoável de sonhos sufocados, de pontas desacertadas, de palavras que não chegaram a ser ditas, de uma violência interior, mais difusa ou concentrada. Mesmo a nossa felicidade vem misturada com a memória de infelicidades que ainda nos ardem, mesmo que as calemos. Somos mais verdadeiros, porém, quando tomamos consciência disso e quando o partilhamos na confiança de uma amizade. Os mecanismos de autodefesa e de culpabilização só nos isolam mais.
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 Mendonça, José Tolentino. Nenhum Caminho Será Longo. Para uma Teologia da Amizade. Prior Velho: Paulinas Editora, 2019, pp 143-146.
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019


   Muitas vezes, quando vamos ao encontro do nosso rosto, sentimos com surpresa que passou um tempo. Aconteceram ambas as situações: tanto temos uma aguda consciência da passagem do tempo, como o tempo para nós é uma surpresa, pois não demos que tenha passado, ou tenha passado, por nós, assim. Numa vida espiritual acesa precisamos de meditar sobre o tempo (...).
   Falar do tempo é falar desta complexa aparição a nós próprios, referir a surpresa com que nos colhemos, nomear o espanto de, tantas vezes, sermos uns completos estranhos para nós próprios (...) pois cada um de nós é um fluxo, uma viagem, um projeto aberto, uma epifania inacabada..
(...) Os amigos trazem à nossa vida uma espécie de atestação. Os amigos sabem o que é para nós o tempo. Eles testemunham que somos (...) E fazem-no não com a superficialidade que, na maior parte das vezes, é a das convenções, mas com a forma comprometida de quem acompanha. O olhar do amigo é uma âncora. A ela nos seguramos em estações diferentes da vida para receber esse bem inestimável de que temos absoluta necessidade e que, verdadeiramente, só a amizade nos pode dar: a certeza de que somos acompanhados e reconhecidos. Sem isso a vida é uma baça surdina destinada ao esquecimento. (...) Já escrevia Aristóteles na Ética a Nicómaco: "O homem feliz tem necessidade de amigos." Nós adoecemos da ausência de amigos. Precisamos desse reconhecimento mútuo, pessoa a pessoa: um reconhecimento não fundado no confronto ou na competição, mas no afeto; não determinado meramente pelas leis da justiça ou pelos vínculos de sangue, mas assente na gratuidade. (,,,) Mesmo se for um único instante de contacto o que tivermos, tal basta para deixar transparecer uma amizade que existe.
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Mendonça, José Tolentino. Nenhum Caminho Será Longo. Para uma Teologia da Amizade. Prior Velho: Paulinas Editora, 2019, pp 111-118.
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quinta-feira, 14 de novembro de 2019


Quero dizer-vos que estou aqui
e me pergunto de onde venho,
como cheguei,
quem me pegou na mão e disse:
Vem e fala, vem e escreve.
E eu falei e eu escrevi.
Depois foi só esperar
que a voz soubesse
o recado das ondas
e as palavras fossem o trilho
onde toda a aventura é uma campina aberta
à espera da semente que a fecunde.
Não sei se sou a terra ou sou o grão,
se sou a mão ou o arado.
Sei que vou continuar na voz do vento,
no vaivém das marés,
sem perguntar se vasta é a planície,
quem me espera na outra face da Lua.
Ninguém me deu o livro das verdades,
mas eu vou.
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 Quitério, Licínia. Travessia. S/c.: Poética Edições, 2019, p 62.
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quarta-feira, 13 de novembro de 2019


A minha terra é a cama onde me deito,
a mesa dos manjares e da tristeza,
o braço amigo mesmo longe,
mesmo frio.
A minha história é a da outra
que foi pelos caminhos
do cristal e da ferrugem
e voltou pálida e estranha,
com olhos plenos de paisagens
onde navegavam árvores ardentes.
Os ossos das casas espreitam
o latido dos cães,
a pressa das lagartixas.
Mas há o debrum azul
a serenar tempestades,
o oiro matinal a engravidar searas,
o luar a amparar os fugitivos.
Assim a terra onde me vivo,
me prossigo.
Por vezes canto e espero.
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 Quitério, Licínia. Travessia. S/c.: Poética Edições, 2019, p 26.
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domingo, 10 de novembro de 2019


Podem ver aqui um vídeo sobre o ROIZ 1º Encontro de Música e Poesia Luso-Hispano-Americana

Zona Histórica de Castelo Branco: 18/ 18 novembro/ 2019.
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https://www.youtube.com/watch?v=rRYnQzlMWgA&feature=youtu.be 
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sábado, 9 de novembro de 2019

A apresentação do livro Travessia de Licínia Quitério decorreu na Biblioteca Camões (ao Chiado, Lisboa) no dia 9 de novembro de 2019. Segue o texto de apresentação da obra:
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      Algumas notas sobre o livro Travessia de Licínia Quitério
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    Travessia é a nova obra de Licínia Quitério. O livro apresenta-se-nos como um conjunto de poemas, predominantemente longos, com versos livres, ou heterométricos, sendo a estrutura poemática sempre monostrófica e sem qualquer preocupação de rima. Neste sentido, ao nível formal, poder-se-á dizer que Travessia se insere no que tem sido a produção que se tem seguido ao Modernismo e ao Pós-Modernismo. Contudo, se quanto à forma este livro foge às formas fixas, já ao nível semântico há uma deliberada opção por todo léxico proveniente da tradição: o vento, as falésias, o coração, o mar, as casas, etc.  O motivo desta conjugação, desta enxertia estilística, não se prende com deliberações circunstanciais ou de uma dada tentativa de inserção em qualquer “escola” literária, mas antes com a necessidade de articular um cismar poético com um sentido que se pretende coerente, bem como com uma certa eficácia do dito junto do leitor.
   A Travessia de que nos fala o presente livro de Licínia Quitério não se restringe ao caminhar através do mundo físico, embora também o seja; não é um termo, por conseguinte, com um sentido unívoco: pluriforme e plurissignificativa esta Travessia vai-se desdobrando, ante os olhos do leitor, em várias vertentes:
a)     é uma travessia no próprio discurso poético, com as palavras e pelas palavras: “(…) as barcas/ pejadas de palavras,/ pediriam um vento de feição”;
b)     é uma travessia no próprio modo como apreendemos o real: “O nosso olhar/ com o real não se conforma./ Busca a ilusão, dizes,/ eu digo, o infinito”;
c)     é também uma travessia simultaneamente existencial e ontológica, onde se joga a presença e o destino do homem: “Donde vens, de que terra te perdeste,/ que procuras no meio do nada/ que recado me trazes”:
d)     é uma travessia cronológica e histórica, onde a duração e a temporalidade jogam uma cartada fundamental: “No tempo de seres forte, não havia/ cavalo que não domasses/(…) que te amedrontasse/(…) Fizeste filhos a perpetuarem/ a tua beleza, a tua força.”; “Envelhecidos de abandono e ferrugem/ os caminhos já não levam nem trazem”;
Constatamos, assim, que este poemário de Licínia Quitério, pretende retirar o ser humano do ruído e do turbilhão que no hoje o envolvem e, escalpelizando o seu ir sendo aqui, devolve-lo a uma lucidez que se tem vindo a esbater, inserindo-o igualmente na sua condição essencial de ser de passagem: apesar de estatutos polvilhados de arrogância e ambições desmedidas, o ser humano não é mais do que um ser de passagem, um Caminhante numa mera Travessia: “ De passagem vamos,/ neste trem de ferro,/ a engolir paisagens, casas.”
   Os símbolos predominantes nesta poesia encontram-se implicados naquilo que somos e na tarefa a empreender, e neste território as palavras e a Poesia assumem um estatuto privilegiado de mediação: “sem rumo as barcas, / pejadas de palavras, / pediriam um vento de feição”; “ Num verso longo é que se joga a vida./ Um verso , longo e branco/ com sabor a caminhos/ a lonjuras.”;  “A chuva cai/ e eu sou uma frase/ que experimenta voar.”; “Caminhos que é preciso dizer”. Se o hoje é, como já disse, marcado pelo ruído e por uma alienação turbilhonar, muitas vezes consentida (“Andamos apressados na colheita dos dias,/ não vá o sol queimar a pele dos frutos,/ (…) Temos medo de chegar tarde”), então, a Travessia tem de ser levada a cabo com o auxílio de muitos fatores coadjuvantes: a memória, a circunspeção, o não nos deixarmos fixar no desalento e na solidão e ousarmos sempre a persistência (“Esqueceste tantos nomes, tantos rostos,/ mas aprendeste a vastidão da praia,/(…) É hora de empunhares o arco,/ seres a flecha. A pedra,/ Sozinho vais./ Ninguém pode ser a tua estrada”). Vemos, pois, se ninguém pode fazer a minha Travessia por mim, se ela se me apresenta, por vezes, eivada de escolhos, não irá ser, no entanto,  isso que me impedirá de a fazer, de, após a queda, levantar-me e retomar o meu percurso, ou seja, neste livro de Licínia Quitério o sentido da ousadia e da persistência superam sempre os momentos de nostalgia e de desalento: “ Fica pequeno o coração/ mas a nossa casa continua firme,/ a nossa pele ao abrigo das feras.”; “Anima-te,/ Se não sabes cantar,/ compõe sílaba a sílaba/ pequeninas palavras de rimar./(…) Amargura não serve, podes apagar.”; “Ninguém me deu o livro das verdades,/mas eu vou. “ Esta visão remete-nos invariavelmente para os matizes sócio-culturais e económicos que ressumam, aqui e ali, na poesia de Licínia Quitério: 1º uma visão positiva do estatuto da mulher: “Só na boca das mulheres/ a água se detém/à espera de ser leite e ser criança”; “Tudo é possível nos dias da penumbra/ se uma mulher vestida de vermelho/ pensa na infância e a desenha.”; 2º um questionamento da arbitrariedade da norma: “ De noite caminham os proscritos da alegria/ e os recusados do banquete.”; “São vultos contra a luz./ Têm dentro pessoas que procuram/ o outro lado, sempre o outro lado/ do muro, do bosque, da praia,/ do nada que às vezes dizem vida,”; 3º esta desmistificação da norma, não se limita tão-só ao trazer a mulher para o centro, ela invade, em certos momentos, subtemas bem específicos como os debates atuais em torno da questão do género e o desmascarar de estereótipos relacionados com a questão da orientação sexual: “Homens nascidos de mulheres./ Homens amantes de mulheres./ Homens amantes de outros homens,/ Todos iguais na hora de chegar,/ na hora de partir.”, esta igualdade no diferente acaba por se enquadrar nos debates atuais em torno das teses da neurobiologia de Jacques Balthazart, aliás, como também a abordagem da questão do género e do feminino entronca em obras de filósofos como Foucault, Judith Butler, Thomas Laqueur (Cf. “Nous” de Tristan Garcia. Paris: Grasset: 2016, pp 134-145). Retomo as minhas palavras para a Licínia, aquando de um nosso telefonema: “ É interessante como tu mantendo todo um léxico que é da tradição, acabas por desembocar em questões extremamente atuais em torno das quais circula muito da filosofia francesa contemporânea”. Penso que foi mais ou menos isto que lhe disse!
   Um outro aspeto fundamental desta Travessia é que ela se nos apresenta não como uma imagem da linearidade, mas antes como um caminho disruptivo e, muitas vezes, de etapas pouco claras no momento e a poeta serve-se do suplício de Tântalo para ilustrar esta ideia: “O relevo do dorso a suportar o céu,/ a beber nuvens./ Convida o homem a subir./ Ele vai, cai, rasga-se nas pedras,/ ergue-se, sempre./ Chegado ao cume, desdobra bandeiras./ Grita:/ Isto é meu, este sou eu./ A montanha deixa rolar uma pedra./ É o seu modo de medir o tempo.”. Este excerto tem, todavia, dois níveis de leitura: se um por lado assoma a crítica social, onde o eu se afirma através da posse (“Isto é meu, este sou eu.”), por outro, aponta-se para algo mais radical, essa Travessia onde o homem vai, cai, rasga-se nas pedras e sempre se reergue. Este “reerguer após a queda” aparece nesta poesia com duas particularidades: é um momento da ordem natural, mas é também um Imperativo Ético, onde a Justiça e a Liberdade jogam uma cartada fundamental, atente-se ao desdobrar bandeiras, por tudo isto disse já que a ousadia e a esperança superam nesta escrita os momentos de desalento, creio podermos dizer que estamos perante um movimento ascendente rumo a uma dimensão específica da temporalidade: o futuro, esta Travessia incorpora toda a experiência vivida pela poeta e deixa-se dizer através das palavras, ou melhor, através da Poesia: “Dá-me um novo alfabeto/ e eu te darei meu livro de aventuras.”, mas neste livro de aventuras, neste falar da Travessia, o passado tem apenas uma função instrumental, jamais preponderante. E aqui a poesia de Licínia Quitério aproxima-se da filosofia de Miguel Real, e não apenas da sua filosofia, mas também da sua obra romanesca: se lermos romances como As memórias secretas da Rainha Dona Amélia ou Cadáveres às costas encontraremos, algumas vezes, a expressão “Não fiques preso a cadáveres”. Este primado de um futuro, ainda que desconhecido na sua essência, ainda que indistinto no seu germe, é o que regenera a ação do homem, é o que dá sentido à Travessia poética de Licínia Quitério.
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                                              Victor Oliveira Mateus
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quarta-feira, 6 de novembro de 2019


           El prospecto


Usted no puede dar a luz.
Ahora. Ni nunca.
Hágase a la idea.
Usted no puede dar a luz. Acaso no leyó el prospecto?
Le recomiendo que no vuelva a escribir sobre el tema,
podría acabar en depresión.
Considere la opción de un animal doméstico.
Póngale nombre, hágale fotos, súbalas a las redes sociales,
verá cómo crecen los me gusta en las publicaciones,
cómo decenas de amigos le alivian su dolor.
No lo olvide: la ciencia es exacta, nunca engaña.
Pero anímese, usted es muy valiente, yo le admiro,
su elección sexual es un acto de resistencia.
Se llora por los muertos, no por los que no han nacido.
No tiene usted motivos para estar triste.
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  Néstore, Ángelo. Actos Impuros. Madrid: Ediciones Hiperión, 2017, p 54.
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terça-feira, 5 de novembro de 2019

                      
                          Comunhão 


Todos os dias um torno de ferro
detém-me à entrada do ginásio.
O vidro insonorizado faz do local um escaparate.
Do lado de cá observo um homem loiro, barbeado,
com corte militar e camiseta verde sem mangas.
Ostenta uma vaidade sofisticada na franja
e as calças largas, deixam adivinhar-lhe os pêlos aloirados do púbis.
O rapaz dá um sorvo no seu batido de proteínas
e coloca sobre os ombros todo o peso que a masculinidade lhe exige.

Gostaria de saber em que está pensando
enquanto dobra os joelhos teatralmente.
Quantas vezes contará até dez.
Se lhe doem os braços, as costas.
Quem é a mulher que o espera em casa.

O rapaz loiro levanta o rosto, extenuado.
Excita-me o suor da sua barba,
a normalidade com que as gotas humedecem a toalha.
Imagino-me a atravessar a vidraça que nos separa.
Abro a boca debaixo da sua barba, tiro a língua para fora
tal como um menino ajoelhado frente a um altar.
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  Néstore, Ángelo. Actos Impuros. Madrid: Ediciones Hiperión, 2017, p 18 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

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     Resposta de Eurídice, como quem perdoa


E se te quis seguir por que não te quis seguir?
Acabou-se-me o amor ao    abraçar-te a morte.
A mesma sílaba aguda
trasladada de uma artéria qualquer do coração.
Não é possível aprendermos o outono sem morrer também;
Não pode uma mulher ver
o amor cair e    ainda assim
viver.
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 Duarte, Rita Taborda. As Orelhas de Kerenin. Lisboa: Abysmo, 2019, p 77.
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sábado, 2 de novembro de 2019

   
           Gestos Extensos


Requer gestos   extensos   fatigados,
mas é uma invenção simples:
o miocárdio musculado recolhido e
freneticamente delirante   a avançar   a desistir
a porfiar   a desandar de novo
até sobrar só o conchego desta cova aberta
e franqueada. E eu, imo fêmea,
vivendo-a como   coisa íntima   tão densa de raízes.


A solidão carece companhia, tu bem sabes,
uma ilha   se extensa em demasia
nem ilha é   só continente.

E tu cumpriste - tão bem  - o teu papel.
Olha para trás, regada a sementeira:
o nódulo húmido da saudade principia
a germinar. Vê: começo a florir
a despontar   como uma pedra.
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 Duarte, Rita Taborda. As Orelhas de Karenin. Lisboa: Abysmo, 2019, p 27.
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quinta-feira, 31 de outubro de 2019


Jamais tive eu amor senão por ti.
Paixões o vento as trouxe e as levou
Qual ave migratória que pousou
Em temporário ninho onde vivi,
Amor, porém, é ave que povoa
O coração da gente e nele exulta
E ocupa de outra ave mais estulta
O coração partido e o perdoa.
Mas que fazer, se amor o dei ao vento
E sinto o coração ninho vazio
E sinto um grão calor e grande frio
E amo em oração no meu convento?
Eu amo quem amei e me deixou;
Não amo quem pousou - só quem voou.
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    Jonas, Daniel. Oblívio. Porto: Assírio & Alvim, 2017, p 50.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2019


Aqui nesta tebaida, ouço a paz.
Aceito a tua luz, o teu negrume,
Meus olhos são pastagens p'ra teu estrume,
Aceito o que me deres e o que não dás.
Eu ouço a metafísica das sarças.
As bruxas megalíticas das argas,
Reviro pedras, lágrimas amargas,
Procuro-te nos paus, nas rãs, nas esparsas.
Aceito que te busque e não me fales.
Onde estarás: na urze, na perpétua,
No verso mais perfeito, em rima incerta?
Aceito ouvir-te e tudo tu me cales.
À uma és e não; o tudo e o quase.
Em toda a parte estás, eclipse e fase.
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  Jonas, Daniel. Oblívio. Porto: Assírio & Alvim, 2017, p 41.
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terça-feira, 29 de outubro de 2019

 O ROIZ, 1º ENCONTRO DE MÚSICA E POESIA LUSO-HISPANO-AMERICANO
DECORREU NOS DIAS 18 E 19 DE OUTUBRO DE 2019 E FOI ACONTECENDO AO LONGO DE VÁRIOS LOCAIS HISTÓRICOS DA CIDADE DE CASTELO BRANCO.
A ESTE EVENTO, QUE SAUDAMOS PELA QUALIDADE E PELA ORGANIZAÇÃO, ESTIVERAM PRESENTES ESCRITORES E MÚSICOS DE VÁRIOS PAÍSES, BEM COMO PERSONALIDADES DA ACADEMIA, DA POLÍTICA E DO SOCIAL. 
FELICITAMOS A CUIDADA ORGANIZAÇÃO!
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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

A Junta de Freguesia de Castelo Branco e a Câmara Municipal de Castelo Branco organizam, em conjunto, nos próximos dias 18 e 19 de outubro, a primeira edição do “ROIZ, Encontro de Música e Poesia Luso-Hispano-Americano”, em Castelo Branco. 
A génese deste evento está intimamente ligada aos vínculos criados com a cidade de Salamanca desde o início do processo que culminou com a realização e atribuição do I Prémio Internacional de Poesia António Salvado.
O Programa tem a sua abertura oficial prevista para as 18h00 do dia 18 de outubro, no Jardim do Paço Episcopal, com a receção a todos os convidados e participantes no Encontro por parte de Leopoldo Rodrigues, Presidente da Junta de Freguesia de Castelo Branco e de Luís Correia, Presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco.
Às 18h15, no mesmo local, tem começo o evento musical e poético que estará dividido em três momentos.

As atividades do dia 19 de outubro iniciam-se logo às 10h00 da manhã, na Casa do Arco do Bispo, com o Passeio dos Poetas que se estenderá, durante o resto da manhã pela Zona Histórica de Castelo Branco e que culminará no Parque da Cidade, na Mata dos Loureiros. Durante esse período, além da declamação de poesia, há lugar para uma revisitação teatral à obra dos poetas quinhentistas, para uma plantação simbólica de duas árvores na Mata dos Loureiros e para pequenos apontamentos musicais que medeiam as várias atividades.
O ROIZ terminará com a Cerimónia da Entrega do Prémio Internacional de Poesia António Salvado/Cidade de Castelo Branco, que está marcada para as 15h00 da tarde de 19 de outubro.
Do lote de artistas musicais constam os seguintes nomes: Miguel Ramalho (flauta transversal), Filipa Castilho (violoncelo), Francisco Martins (Acordeão), Orquestra Viola Beiroa, Grupo de Cavaquinhos da USALBI, Grupo de Adufeiras da USALBI, Ana Paula Gonçalves, Custódio Castelo, José Raimundo, Miguel Carvalhinho, Pedro Ladeira.

Alfredo Pérez Alencart (Perú-Espanha), Álvaro Mata Guillé (Costa Rica), Ana Maria Puga (Portugal), António Salvado (Portugal), Artur Coimbra (Portugal), Carlos D’Abreu (Portugal), David Cortés Cabán (Porto Rico), Gerardo Rodríguez (México), Gisela Ramos Rosa (Portugal), José Pires (Portugal), Juan Carlos Martín Cobano (Espanha), Manuel Costa Alves (Portugal) Manuel Silva-Terra (Portugal), Maria João Pessoa (Portugal), Pompeu M. Martins (Portugal), Teresa Macedo (Portugal) e Victor Oliveira Mateus (Portugal) são os poetas que vão participar no ROIZ.
Participam ainda o Grupo de Teatro Váatão, de Castelo Branco, a Prof.ª Maria de Lurdes Gouveia Barata e o poeta e investigador Pedro Salvado. 
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quarta-feira, 16 de outubro de 2019


Tanner pensait que décidément il ne comprenait rien à Gilmour. Si les faits d'une vie forgent les traits d'un visage, alors celui de Gilmour était un véritable puzzle. S'il était vrai que l'on pouvait tout lire à partir des rides et des cicatrices jusqu'à la forme des yeux et le repli de la bouche, alors ce visage ne disait quand même rien à Tanner. Tous ces points de repère étaient devenus anonymes dans le cas de Gilmour. Ses traits avaient la couleur terne de l'éphémère. Gilmour était insaisissable.
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 Mahloub, Jamal. La navigation du faiseur de pluie. Arles: Actes Sud, 1998, p 180.
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domingo, 13 de outubro de 2019

"A Mulher-Bala e outros contos" de Cláudia Lucas Chéu (Editora Labirinto, coleção contramaré nº 25).
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Apresentação, a 12 de outubro de 2019, na Livraria Almedina (Rua da Escola Politécnica, Lisboa), do livro A mulher-bala e outros contos de Cláudia Lucas Chéu, publicado pela Editora Labirinto na coleção contramaré com o Nº 25. Da esquerda para a direita da foto: Albano Jerónimo, Maria Quintans, Cláudia Lucas Chéu, Miguel Real, Victor Oliveira Mateus, Maria João Cabrita e Mag Rodrigues,
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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

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   A margem, por onde te defines, tem agora uma transparência que julgavas inalcançável. Metes as mãos na tessitura da cidade e elas regressam mais limpas do que no tempo em que misturavas monstros, assombrações, reflexos enviesados com desejos antecipadamente condenados. A margem, que tão bem acabaste desenhando, não se assemelha a outras apregoadas no decoro das praças, nem reproduz aquilo que contesta, com seus ídolos, seus ritos, suas máscaras, que, vendo bem, nunca te disseram nada e apenas te envenenavam a delicada beleza do tédio.
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© Victor Oliveira Mateus
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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

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                Adágio para o fim dos tempos
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                                  para Maria João Pires
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Gosto de coisas simples.
Do crepitar do fogo ao rés da terra.
Do raiar do sol ao fundo,
por entre as árvores, num ritual
pagão que me adensa a vida
e a todos me une, num misto
de silêncio e valores que não cedo.
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Gosto de tudo quanto diz
sem o estridor do enfeite
nem a rouquice desses ecos
sempre emaranhados
num turbilhão de ruídos,
que, ardilosos, tecem armadilhas
para o fim dos tempos.
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E gosto também do cair do dia,
desse adágio que me persegue
e na memória decifro,
como só às coisas simples faço
sem adornos nem avidez.
Caminho que grande se tornou;
vastidão urdida a seco
com fios de brandura e pequenez.
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© Victor Oliveira Mateus (Inédito)
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Saudade
Je vais d'une source tarie
vers les eaux du fleuve
je n'ai pas encore tout dit
de cette longue histoire
il reste une part d'obscur au fond du poème
je marche...


  Jesus-Bergey, Josyane de. alípio. S/c.: Éditions Vagamundo, 2016, p 51.
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Je suis celle qui vient
de l'autre pays
partagée entre le père
et l'enfance

Je me sais sans terre
ni ciel
n'appartenant qu'à l'instant
qui me voit vivre


  Jesus-Bergey, Josyane de. alípio, S/c.: Éditions Vagamundo, 2016, p 61.
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domingo, 6 de outubro de 2019



    O livro alípio de Josyane de Jesus-Bergey apresenta-se-nos, num primeiro momento, como uma cartografia de uma procura e como a interiorização de um enraizamento. Contudo, quer uma quer outro não se subsumem a uma qualquer itinerância de aspeto geográfico ou topográfico. O périplo levado a cabo pela poeta situa-se antes naquilo a que Simone Weil tão bem desenvolveu no seu L’ enracinement – uma procura de raízes que não se limita ao fisicismo do aqui, mas inclui igualmente outras dimensões: afetos (p 76, p 86), sistemas de valores (p 30, p 38, p 74) códigos linguísticos (p 22, p 24), tomadas de consciência (p 46, p 54), etc.
  A referência a Miguel Torga na epígrafe do livro (p 12), nome previamente encumeado por Nuno Júdice em nota introdutória (pp 5-6), atira-nos de imediato para uma quádrupla tecedura, cujos elos irrompem também neste livro de Josyane de Jesus-Bergey: a ligação à terra (p 28, p 48, p 72); a procura de uma autenticidade no modo de ir sendo (p 22, p 80, p 90)); a acuidade ao humano nas suas múltiplas dimensões e atividades, sobretudo a do trabalho (p 42, p 54, o penúltimo verso, p 68);  e, finalmente, o comprometimento com o mundo dos afetos ( p 58, sobretudo a última estrofe do poema). Mas não é apenas Torga que espreita por detrás desta poesia: outras vozes, sem que saibamos como, assomam à porta destes versos: Pascoaes, Aquilino, Ferreira de Castro e até um certo Camilo. No entanto, urge enfatizar que o tangenciar Pascoaes tem apenas a ver com a envolvência terrosa da paisagem (“Sou como tu/ uma transmontana/ de xisto e granito” p 72) e não com a dimensão ontológica da saudade: em Josyane de Jesus-Bergey a saudade é de passado, de um passado irremediavelmente perdido e que apenas pode ser vivenciado por imaginação e conjetura ( E tu permaneces aqui/ imóvel/ de braços abertos/ nos teus olhos reflectem-se/ o vale/ as suas vinhas/(…)/ Tudo se conjuga/ para me contar// As minhas raízes/ A minha vida/ Este país do meu pai!” p 90).
   Associada a esta ânsia de recriar, na mente, um dada dimensão perdida da temporalidade (o passado), está associada a necessidade de entender o seu presente, de entender o sentido do seu estar-aqui, e isto poderia tentar-nos a enquadrar esta procura numa aventura contingente e individualista, tentação até passível de ser suportada por alguns poemas ( p 20, p 80, p 82), todavia, a passagem do individual ao universal transpassa todo o livro, aliás, essa universalidade aparece muitas vezes até com um caráter fusional (“Já não há estrangeiro/ a sombra apagou-se/ e ouço-te” p 28; “os odores misturados/ do teu país ao meu” p 64) e não é só esta busca que serve de paradigma às outras que constantemente empreendemos é também a própria espacialidade, que pelo desalento e pela nostalgia da caminhante acaba por se tornar coisa imprecisa e de somenos valor (“ Estou aqui, Alípio/ entre duas fronteiras” p 66). Por tudo isto, poder-se-á dizer que a procura da poeta, bem como a interpretação, muitas vezes dolorosamente interiorizada, que dela faz, não só enformam os versos que lhe aparecem, mas também revelam essa zona de mistério e de obscuridade que essa sua procura, ou melhor, que a nossa procura, não conseguirá jamais colmatar: “ desta longa história/ permanece algo de obscuro no fundo do poema/ eu caminho… “
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© Victor Oliveira Mateus
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sábado, 5 de outubro de 2019

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                                          Noite Vertical


                                                         lembrando S. João da Cruz


 Noite
companheira de delírios
incrustados no branco da casa;
cercada de fogachos e lírios
que o obscuro sempre vasa.
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Noite
insurreta, persistente,
alvo em senda por mim percorrida,
que transforma no meio da gente
o negro em tons de vida.
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Noite
como um terreno pejado
por fantasmas e assombrações,
lavras em oiro com teu arado
pó que cobre os corações.
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Vem, ó noite vertical,
antigo sopro conducente ao dia!
Vem! Transmuta o desespero
num oceano d’Alegria.
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Mateus, Victor Oliveira. Llama de Amor Viva, Antología en homenaje a San Juan de la Cruz. Salamanca: Edifsa, 2019, p 192.
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sexta-feira, 4 de outubro de 2019


                          Fabula

Volle provare la dissoluzione
della carne. Provarla con coscienza.
Rendersi terra fertil, ma senza
morire; vivo senza soluzione.


    Galloni, Gabriele. Creatura breve. Roma: Edizioni Ensemble, 2018, p 10.


            Pro Verbis # 2

Su questa terra secca che si sbriciola
a ogni minima impronta di passaggio
vivente; a dirsi che un nuovo passaggio
(sia pure lontanissimo) è possibile.


     Galloni, Gabriele. Creatura breve. Roma: Edizioni Ensemble, 2018, p 11.
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quinta-feira, 3 de outubro de 2019


                  Fábula

Queria tentar a dissolução
da carne. Prová-la com consciência.
Tornar-se terra fértil, mas sem
morrer; vivo sem solução.


   Galloni, Gabriele. Creatura breve. Roma: Edizioni Ensemble, 2018, p 10 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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              Pro Verbis  # 1


Nesta terra árida que se desfaz
ao mínimo sinal de uma viva passagem,
dizendo-nos que uma nova passagem
(ainda que longínqua) é possível.


    Galloni, Gabriele. Creatura breve. Roma: Edizioni Ensemble, 2018, p 11 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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