domingo, 20 de junho de 2021


               La otra cólera de Aquiles


No les pedí a los dioses más distancia
entre ellos y yo
que la del cuerpo de Patroclo
desposeído de su alma.

Y amé ese cuerpo tanto y tan
negándome a mí mesmo otro trofeo,
que le ofrecí la furia
del desertor mejor que la del héroe.

Sólo así pude disputarle
su botín a la muerte desde el mismo
aterrador orgasmo
del fuego al que se unció
en la pira: una última
retribución desesperada
de todo lo que ya
iba a ser subalterno para siempre.
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 José Manuel Caballero Bonald. Quién sino tú (Antología 1952-2012). Madrid: Bartleby Editores, 2014, p 80.
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sábado, 19 de junho de 2021



                       O cavalo e o cavaleiro

Era uma vez um cavalo, e sobre o cavalo um cavaleiro. Que elegantes
pareciam no sol do Outono, aproximando-se de uma estranha cidade!
As pessoas apinhavam-se nas ruas ou chamavam de altas janelas. As
velhas sentavam-se entre vasos de flores. Mas quem olhasse em volta
em busca de outro cavalo ou outro cavaleiro, olharia em vão. Meu ami-
go, disse o animal, porque não me abandonas? Sozinho, podes orientar-
-te por aqui. Mas abandonar-te, disse o outro, seria deixar para trás uma
parte de mim, e como posso fazê-lo se não sei que parte és?


 Louise Gluck. Noite Virtuosa e Fiel. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2021, p 111 (Tradução de Margarida Vale de Gato).
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sexta-feira, 18 de junho de 2021


               Teoria da Memória

Há muito, muito tempo, antes de ser artista com tormentos,
afligindo-me o desejo, mas incapaz de formar apegos dura-
douros, muito antes disso, eu era um glorioso governante
que unia todo um país dividido - foi o que me disse uma adi-
vinha que me leu a sina. Há grandes coisas, disse ela, à tua
frente, ou talvez atrás de ti: é difícil ter a certeza. E todavia,
acrescentou, que diferença faz? Neste preciso instante és 
uma criança de mão dada com uma adivinha que lê a sina.
Tudo o resto é hipótese e sonho.


   Gluck, Louise. Noite Virtuosa e Fiel. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, p 37 (Tradução de Margarida Vale de Gato).
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quinta-feira, 17 de junho de 2021


                      Encruzilhada


Corpo meu, agora que não viajaremos juntos por muito mais tempo,
começo a sentir por ti uma renovada ternura, muito crua e
desconhecida,
como aquilo que recordo do amor quando era jovem -

um amor que tantas vezes foi tolo nos seus objetivos,
mas nunca nas suas escolhas, nos seus ardores.
Demasiado exigido à partida, demasiado o que não pôde ser prometido -

A minha alma tem sido tão temerosa, tão violenta:
perdoa a sua brutalidade.
Como se fosse essa alma, a minha mão desliza cautelosa por ti,

não querendo ofender,
embora ansiosa, enfim, por conseguir expressar-se enquanto substância:

não é da Terra que irei sentir falta,
é de ti que irei sentir falta.


 Louise Gluck. Uma vida de Aldeia. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2021, p 137 (Tradução de Frederico Pedreira).
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segunda-feira, 14 de junho de 2021


         receita para um incêndio


senta-te logo de manhã
no banco do jardim
espera que as mimosas
te cubram d'amarelo os ombros


finge-te distraído
envolve-te com todo o sol
que consigas


escancara a porta da tua casa
para que a armadilha não falhe
abre igualmente as janelas
todas as janelas
e o coração sobretudo o coração


quando escutares uns passos decididos
e a presa entrar (por fim) em tua casa
unta-te com os mais finos óleos que encontrares
e incendeia-te
arde
como só as coisas raras o sabem fazer


   Victor Oliveira Mateus. uma casa no outro lado do mundo. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 46 (Posfácio de Fernando Pinto do Amaral).
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domingo, 13 de junho de 2021

      zenão de cítio


estimados caminhantes
que quereis vós desta casa
aqui nada há que vos possa interessar
o riso fácil
os transes de afrodite
os desmandos de dionysus
ou as conspirações da ágora


aqui só teríeis o rumor do vento
a limpidez dos regatos
a solidão das bétulas e dos cedros
a cadência do destino
e sobretudo
este silêncio
que levei décadas a construir


estimados caminhantes
passai de largo
preferi antes
quem convosco se harmonize


passai de largo
e
libertai-me a soleira
quer venhais por mal ou por bem
afastai-vos
não vá eu ter de vos soltar os cães


  Victor Oliveira Mateus. uma casa no outro lado do mundo. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 34 (Posfácio de Fernando Pinto do Amaral).
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sábado, 12 de junho de 2021

 
   a arte de mal cavalgar toda a cela


enganei-me
não era esta a rua que procurava
não era esta a cidade
nem sequer a porta


as figuras também não eram estas
as que eu procurava
não tinham assim os olhos
tão ávidos
tão cheios e tão secos ao mesmo tempo
tão esganados e dementes


não sei como vim aqui parar
aqui até os cães dançam
à volta de si próprios
e as árvores (envergonhadas)
lançam as raízes para fora da galáxia


enganei-me
aquilo que procurava
não tinha este bolor
esta pátina cheirando a vazio e uso
estas pústulas a torpedearem-me o caminho


vou-me embora
tanta felicidade não me faz bem ao coração
devolvam-me - por favor - a cela de onde vim


 Victor Oliveira Mateus. uma casa no outro lado do mundo, Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 32 (Posfácio de Fernando Pinto do Amaral).
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sábado, 22 de maio de 2021


Prémio de Poesia Victor Oliveira Mateus
Regulamento II Edição - 2021
1 - O presente regulamento define as normas
que regem o concurso Prémio de
Poesia Victor Oliveira Mateus, instituído
pela Editora Labirinto.
2 - Este concurso, que terá a sua segunda
edição no presente ano, tem uma
periodicidade bienal.
3 - Objetivos
3.1 - Estimular a criação literária, bem como o
aparecimento de novos autores.
3.2 - Fomentar a criação poética, pretendendo
assim homenagear este importante
género literário.
4 - Participantes
4.1 - Podem participar na Segunda Edição do
Prémio de Poesia Victor Oliveira Mateus
poetas de todas as nacionalidades,
desde que a obra submetida a concurso
se apresente em língua portuguesa, em
qualquer das suas variantes.
4.2 - Não podem concorrer a este Prémio:
traduções, antologias e trabalhos já
premiados.
5 - Condições técnicas de participação
5.1 - Os poemários poderão ser de tema e
forma livres e não devem exceder 25
versos por página, até ao máximo de 50
páginas.
5.2 - Cada autor deverá submeter a concurso
um único trabalho inédito, não podendo
nenhum dos poemas aí incluídos ter já
sido editado quer em suporte de papel
quer digital.
5.3 - Não serão admitidos trabalhos
concorrentes a outros Prémios.
6 - Apresentação das obras e entrega
Os originais serão enviados, sob
pseudónimo, pelos candidatos para o
e-mail editoralabirinto@gmail.com e,
deverão ter em conta a seguinte
informação/anexos:
A) Anexo 1 (Obra)
B) Anexo 2 (Identificação do concorrente;
este segundo anexo será guardado,
sob sigilo, no Secretariado do Prémio,
pelo que o Júri não terá acesso a ele).
7 - Prémios
7.1 - O Prémio consiste na publicação do
projeto vencedor pela Editora Labirinto. O
autor premiado receberá 25 exemplares
da edição.
7.2 - O vencedor cede os direitos de autor à
Editora Labirinto, por um período de dois
anos a contar da data de edição.
8 - Júri
8.1 - O Júri da presente edição é constituído
por três (3) nomes reconhecidos da
Poesia e do Ensaio.
8.2 - O Júri não atribui prémios ex aequo,
podendo, no entanto, conceder Menções
Honrosas, caso assim o entenda.
8.3 - O Júri poderá decidir quaisquer casos
omissos neste Regulamento.
9 - Prazos
9.1 - O prazo para a admissão dos originais
inicia-se a 22 de maio, Dia do Autor
Português, e termina a 30 de outubro,
sendo o vencedor anunciado até finais de
dezembro.
9.2 - O livro será editado e apresentado até 25
de fevereiro de 2022, data de nascimento
do poeta Victor Oliveira Mateus.
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quinta-feira, 20 de maio de 2021


(...)
Andei guiado por ela, que me amava e coisa e tal,
mas não se casava comigo, eu não tinha eira nem beira,
estava comprometida com o Venceslau,
sapo-bronco que a tinha à trela,
    oferecia-lhe almoços e anéis nas festas populares
    com pirolitos e doce da Teixeira.
(...)

e eu não tinha nada para te dar,
a não ser amor,
não tinha emprego certo,
estava à espera que o "Notícias"
publicasse o anúncio de trabalho ideal.
(...)

Meti-me no fiat 600 sem acertar à primeira
com a chave na ranhura da ignição,
bêbado de pés gelados,
    porque o vinho verde é assim mesmo,
    gela os pés de uma pessoa a partir de horas ilícitas,
até que o carro pegou e dirigi-me para a Boavista,
desci a Rua Nossa Senhora de Fátima
com o cheiro do vazio às três da manhã,
parei numas obras à direita de quem desce,
havia lá mais dois carros,
uns andaimes e umas tábuas de construção.

Estavam ali duas mulheres,
pela cor dos lábios e o tamanho das saias na madrugada
eram da vida,

    como da vida é qualquer um àquela hora.
Vieram na minha direção e eu disse-lhes logo
para entrarem no fiat 600,
uma ao meu lado e a mais alourada no banco de trás,
a do banco da frente de cabelo preto pingão,
cheirava intensamente a perfume extra-doce
     e disse-me que eu já não conseguia endireitar
     o meu padrão de vida,
enquanto a outra, no banco de trás, olhava para a cena
e fungava para um lenço com as pestanas flácidas.
(...)
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 António Ferra. estrada de cinza. Leça da Palmeira: Eufeme Poesia, 2021, pp 16-19.
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terça-feira, 18 de maio de 2021


Está já à venda uma Antologia em que participo: Sou Tu Quando Sou Eu, Homenagem à Amizade, Prefácio e Coordenação da Profª Maria Teresa Dias Furtado. A obra foi publicada pela Poética Editora.
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quinta-feira, 13 de maio de 2021


 



Já à venda : "uma casa no outro lado do mundo" (Editora Labirinto, 2021) com Posfácio de Fernando Pinto do Amaral.
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Locais de venda:
Livraria online da Editora Labirinto
Lisboa: Leituria, Snob, Ferin, Tigre de Papel
Porto: Flanêur, Unicep
Aveiro: Livraria da Universidade de Aveiro
Vila Real: Traga Mundos
Livrarias Bertrand e Almedina nas diversas cidades e Plataforma Livreira Wook.
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A Apresentação do livro "uma casa no outro lado do mundo" decorrerá no dia 22, por zoom, a partir da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva (Braga) e contará com as seguintes presenças: Alfredo Pérez Alencart (Espanha), Cláudia Lucas Chéu (Portugal), Isabel Aguiar (Portugal), Marta López Vilar (Espanha), Ângela Gentile (Argentina).
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Hora do evento: 19:00H hora de Portugal; 20:00H hora de Espanha; 23:00H hora da Argentina.
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            Coração Adiado

é tudo demais
mesmo o que é de menos
está tudo errado
mesmo o que é certo

é incerto falar
atirar palavras
ao ar
como um mágico
solta pássaros alados
para de imediato
os prender em agarrados gestos
e lhes roubar as asas

não sabes
que o voo é oficina de asas?

ao rés do chão do teu desconcerto
em asas quebradas
os pássaros repousam na escuridão

                   *

que ofício é esse
de rasgar com as mãos
palavras?

que ofício é esse
de deslumbrar os olhos
para depois os arrancar sem dó?

um oficiante arde em fogo interior
seu fogo que alastra

amedrontado em puro terror
se consome
na rosa em chama de um
coração adiado
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  Ana Mafalda Leite. Janela para o Índico, Poesia Incompleta (1984-2019). S/c.: Rosa de Porcelana Editora, 2020, pp 182-183 (Prefácio de Jessica Falconi).
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sexta-feira, 7 de maio de 2021


    Livro de Soror Saudade


diz-me ó alegria dos meus olhos de quantos azuis se desfaz o
mar de quanta leve neblina a tarde te leva diz-me porque partes
se o mar acendes ao partir diz-me ó alegria dos meus olhos se
eu te lembro devagar
ao anoitecer se me prolongas os passos se a memória te levanta em
torno se lembras o rosto da água atirado a cumes nesta ilha de
silêncio se lembras o fim da tarde
o meu anoitecer diz-me ó alegria dos meus olhos quantas
palavras não tem o silêncio e de quantos azuis o céu se
aconchega no mar - oh! estas nuvens intensas por sobre o tecto do
mundo pousando como vias lácteas de sonhos densos como
mantos de suave noite - porque eu vou nas nuvens poisada
porque eu regresso ao fim da tarde o coração de azul intenso -
diz-me ó alegria dos meus olhos
se divinhas meu rosto quieto na tardenoite levado o
mar abrindo-se infinito
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  Ana Mafalda Leite. Janela para o Índico, Poesia Incompleta (1984-2019). S/c.: Rosa de Porcelana Editora, 2020, p 82 (Prefácio de Jessica Falconi).
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domingo, 2 de maio de 2021


 Poema 6 do Ciclo Te adivinaba en todo, en todo te buscaba


Ave de presa aventurando el vuelo
volvió el amor. Reconocí el sonido
de sus alas al rozar la aterida
ceniza de mim labios.
Y acepté sus señales.
     No podía
no suceder. Mi juventud estaba
interrumpida.
Suspendida del aires.
Quieta en un fotograma. En una pausa.
Tal vez en un paréntesis,
entre dos signos nocturnales.


Fue necesario
activar sus colores. Meditarlos.
Asumir la propuesta. Entrar en la esperanza.
Había
infinitas razones para hacerlo.
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 Angelina Gatell. En Soledad, Con Ella - Antología 1948-2105. Madrid: Bartleby Editores, 2015, p 107 (Prólogo de Manuel Rico).
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sábado, 1 de maio de 2021


              Abuelos

La abuela y el abuelo
juntos pasean
cogidos de la mano
por la alameda.

El abuelo murmura:
"Qué bien le sienta
este pañuelo blanco
a mi morena!"

La abuela se sonroja:
"Si alguien te oyera...!"
Y la brilla la risa
como una estrella.

En cada arruga luce,
blanca, una perla
y en sus ojos se mece
la primavera.

La abuela y el abuelo
pasan y dejan
un rastro luminoso
por la alameda.


Angelina Gatell.  En Soledad, Con Ella - Antología 1948-2015. Madrid: Bartleby Editores, 2015, p 79 (Prólogo de Manuel Rico).
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sábado, 24 de abril de 2021


 No dia 25 de abril de 2021 estarei presente nesta Ação Literária emitida a partir da Argentina com autores de vários países: 18:00H hora de Buenos Aires, 22:00H hora de Lisboa.
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 Hoje, dia 24 de abril de 2021, pelas 16:00H hora de Portugal, uma sessão literária Pela Liberdade com autores de vários países. Agradeço à Organização o ter-me convidado.
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sexta-feira, 23 de abril de 2021


Na minha juventude
apaixonavam-me a beleza e a inteligência.
Agora, já mais maduro, apaixona-me a bondade.

Se alguém que junte a bondade e a beleza
eu me prostrarei a seus pés. Assim foi Diotima.

Nos meus sonhos de nos isolarmos e vivermos juntos
longe de todos, um dia arquitectei a nossa moradia.


  Manuel Silva-Terra. Holderlin. S/c: Editora Licorne, 2021, p 40 (Prefácio de Isabel Aguiar). 
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sábado, 17 de abril de 2021


 O Instituto Cervantes, através da sua delegação de Nápoles, organiza, por zoom, no próximo dia 21, pelas 16:30H hora de Itália, 15:30H hora de Portugal, uma Sessão de Leitura Partilhada dedicada à obra da poetisa chilena e Prémio Nobel, Gabriela Mistral. Essa sessão, na qual me incluirei, terá a colaboração de autores de vários países.

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segunda-feira, 12 de abril de 2021


Estarei longe das serras eléctricas dos homens
só e soberana. Por enquanto sou um sonho
concentrado em ser "Eu" fora de mim
ser fruto e abrigo para as aves.

Tudo o que está em estado nascente é poético
mas também o que está em estado poente o é.
Tudo o que se desvanece evanesce.

Cansado pelo longo caminho de pedras e cardos
tinha as botas gastas e os pés quase nus em ferida
quando um gato me saltou em frente
velho, era só pele e osso, arranhado em chagas vivas.

Debrucei-me sobre ele. Era afinal uma gata.
Os olhos claros eram ainda belos
beijei-a na boca e ambos nos salvámos.

Não tínhamos ainda chegado ao fim do caminho.


  Manuel Silva-Terra. Holderlin. S/c.: Editora Licorne, 2021, pp 32-33 (Prefácio de Isabel Aguiar).
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segunda-feira, 5 de abril de 2021


                           Telescópio


Há um momento após desviares o olhar
em que te esqueces de onde estás
pois tens vivido, parece,
noutro lado, no silêncio do céu nocturno.

Deixaste de estar aqui no mundo.
Estás num lugar diferente,
um lugar onde a vida humana não tem sentido.

Não és uma criatura num corpo.
Existes como as estrelas existem,
participando na sua quietude, na sua imensidão.

Até que voltas a estar no mundo.
De noite, numa colina fria,
a desmontar o telescópio.

Só depois percebes
que não é falsa a imagem
mas a relação.

Vês de novo como cada coisa
fica tão longe de todas as outras.


  Louise Gluck. Averno. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2020, p 125 (Tradução de Inês Dias).
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segunda-feira, 29 de março de 2021


Poema 13 do Ciclo "Prisma"

Chuva de Primavera, depois uma noite de Verão.
Uma voz de homem, depois uma voz de mulher.

Crescias, eras fulminada por um raio.
Quando abrias os olhos, estavas ligada para sempre ao teu verdadeiro amor.

Só aconticia uma vez. Depois tratavam de ti,
a tua história acabava.

Acontecia uma vez. Ser fulminada era como ser vacinada,
ficavas imune para o resto da vida, 
ficavas ao abrigo de tudo.

A menos que o choque não fosse suficientemente profundo.
Então não ficavas vacinada, mas viciada.


  Louise Gluck. Averno. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2020, pp 45-47 (Tradução de Inês Dias).
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sábado, 27 de março de 2021


         Canção de Embalar


Descansa agora. Foram
demasiadas emoções.

O crepúsculo, depois a noitinha. No quarto
cintilam pirilampos, aqui, acolá, aqui, acolá,
e a funda doçura do Verão entra pela janela aberta.

Não penses mais nestas coisas.
Ouve-me a respirar, ouve-te a respirar
como os pirilampos, cada pequeno sopro
é um clarão onde aparece o mundo.

Já cantei muito para ti na noite de Verão.
Hei-de conquistar-te, no final: o mundo não pode conceder-te
esta visão contínua.

Deves aprender a amar-me. Os humanos devem aprender a amar
o silêncio e o escuro.


   Louise Gluck. A Íris Selvagem. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2020, p 119 (Tradução de Ana Luísa Amaral).
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quinta-feira, 25 de março de 2021


                            Matinas


Perdoa-me se digo que te amo: aos poderosos
mente-se sempre, já que os fracos são sempre
impelidos pelo pânico. Não posso amar
o que não consigo conceber, e tu não revelas
quase nada: serás como o espinheiro,
sempre o mesmo no mesmo lugar,
ou serás como a incoerente dedaleira, que primeiro floresce
feito espinho rosado nesse declive junto das margaridas,
e no ano seguinte é cor de violeta por entre o roseiral? Entende
como nos é inútil este silêncio que em nós convida à crença
de que podes ser tudo, dedaleira e espinheiro,
a rosa vulnerável e a tenaz margarida - só nos resta pensar
que nunca poderias existir. É isto
que queres que nós pensemos, isto explica
o silêncio da manhã,
os grilos cujas asas ainda não se roçam, os gatos
que no pátio não combatem?


  Louise Gluck. A Íris Selvagem. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2020, p 31 (Tradução de Ana Luísa Amaral).
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sábado, 20 de março de 2021


 Seminário Web sobre a obra de Ana Maria Rodas, dia 24 de março (quarta-feira) 17:00H (hora da Guatemala). Palestrantes indicados no cartaz. A autora lerá poemas seus.

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terça-feira, 16 de março de 2021


                     Aprendizado
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Perguntei a meu pai enquanto caminhávamos:
- Pai, o que é a vida?
Meu pai ia com um facão numa das mãos, e dava golpes certeiros no capinzal, abrindo passagem. Eu ia atrás dele, admirado, observando como, num passe de mágica, o mundo se abria às minhas retinas ainda sem muito traquejo para ver o mundo. Ele suava. Eu suava. O braço de meu pai era incansável. Ele tinha afiado o facão na véspera, de modo que a lâmina não falhava diante do mato alto. O caminho se criava à nossa frente e eu estava cada vez mais espantado.
- A vida, filho - respondeu ele -, a vida é uma coisa que nunca é do jeito que a gente quer.
E continuou abrindo caminho a golpes de facão. Seguimos avançando.
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  Mário Baggio. verás que tudo é mentira. Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 2020, pp 15-16.
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domingo, 14 de março de 2021


Amor
    

     A mensagem que ela mandou não poderia ser mais clara: "Não quero. Não insista. Me esqueça."
   Ele leu e desligou o celular. Buscou no armário uma mala pequena onde coubesse o necessário. Percorreu metade do mundo. Viu as novidades, experimentou comidas, descobriu cores, admirou luares e constelações, conheceu pessoas, estudou culturas, aprendeu idiomas, cantou canções e dançou danças, calçou sandálias e andou descalço, bebeu água de mares desconhecidos e quase morreu de sede, recuperou a risada amortecida, comprou casa.
    Ali, na casa, deitado na rede e olhando o céu, ligou o celular e respondeu: "Como se eu pudesse!"
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 Mário Baggio. espantos para uso diário. Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 2019, p 79.
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sábado, 13 de março de 2021


 A FILGUA 2021, Feria Internacional del Libro en Guatemala, este ano por zoom devido à pandemia, terá um momento importante dedicado à Ministra da Cultura da Guatemala, e grande poeta, Ana Maria Rodas, momento esse em que participarei lendo e analisando o que desta autora já traduzi.

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sexta-feira, 12 de março de 2021


 O Ronda Leiria Poetry Festival decorrerá de 12 a 21 deste mês. A leitura de poemas, atividade em que também colaboro, irá ocorrendo ao longo do Festival. Parabéns à Organização do evento e a todos os outros autores intervenientes.

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terça-feira, 9 de março de 2021


 Realizam-se este ano as eleições para os Corpos Sociais de PEN Clube Português. Eis a lista que se apresenta às ditas eleições:
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Mesa da Assembleia Geral
Presidente - Teresa Martins Marques
1ª Secretária - Rita Mornoto
2ª Secretária - Teresa Sousa de Almeida.
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Direção
Presidente - Fernanda Mota Alves
Tesoureiro - José Mário Leite
Secretária - Maria João Cantinho
Vogal - Alcinda Pinheiro
Vogal - Elisabete M. de Sousa
Suplente - Fernanda Gil Costa
Suplente - João Rasteiro.
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Conselho Fiscal
Presidente - Victor Oliveira Mateus
Vogal - Rodolfo Begonha
Vogal - Filipa Vera Jardim
Suplente - Teresa Carvalho
Suplente - Sérgio Guimarães de Sousa.
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domingo, 7 de março de 2021


                124


Não me tragou o fogo

nem o furor das águas.


Tudo estava perdido

escrito, resolvido.

Estávamos dentro

da boca da fera.

O pássaro caído

no logro bem armado,

de súbito, vou.


Eras tu que passavas. Eras tu.


Mário Castrim. Do Livro dos Salmos. Alfragide, Editorial Caminho, 2020, pp 90-91.

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sexta-feira, 5 de março de 2021

       70


Vem depressa. Depressa.

Se queres ajudar-me

mas se tu queres mesmo

vem depressa.



Repara quando passo:

Ah, ah! - pois não os ouves?



Estou cada vez mais pobre

e miserável.



Se és quem dizem quem és, não tardes mais.



  Mário Castrim. Do Livro dos Salmos. Alfragide: Editorial Caminho, 2020, p 49.

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segunda-feira, 1 de março de 2021


 

        A Voz Humana


Vêm tempos difíceis.

No teu lugar não saberia que sentido


dar à impressão localizada dos passos

no rapto aos dias tensos, sucessivos.


A turbulência é garantida.

Aventura-te além das fábulas,


além da oculta mecânica

que move as cenas conhecidas,


a respiração levemente alterada,

ouvindo o bater do sangue


nas têmporas, vulnerável ao sono

e à luz súbita onde assoma


o fantasma de antigos erros, afinado

com a chave que une os pentagramas.


Que tonalidade imprimir, perguntas,

às palavras gravadas em minúsculas


pastilhas de sillício? A tua voz

humana   há-de ouvir-se pulsar,


quem sabe, daqui a milhares

de anos, entre as galáxias.



    Paulo Teixeira. a comoção do mundo. Alfragide: Editorial Caminho, 2020, p 86.

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021


 

Há dias em que o coração aperta e vou às árvores

Como que para me vingar. Aceno com o lenço

Para o longínquo e muito custosamente

Decido não chorar, enquanto faço


Com que o machado corte, ampute, abata, arruíne.

Depois lamento o trabalho que faço,

Nem mais nem menos do que um homicídio

Em massa, pior ainda porque é premeditado.


É detestável o confinamento, a intenção

Sonegada de me aproximar dos outros,

O ridículo de algumas situações em que caímos.


Como se adiam os beijos que não damos?

Com que cobardia andamos afastados?

Que derrotados poemas são estes que escrevemos?


 Amadeu Baptista.  poeira escura. Leça da Palmeira: edições Eufeme, 2021, p 55.

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

 

Tão triste que isto é mesmo se a alva chega.

Ouço os primeiros gorjeios da carriça,

Ouço o trinado dos melros. O guarda-rios

Canta. E eu sozinho aqui, transido deste frio,


A preparar a erva que o gado reclama,

Ansioso por um púcaro de chá que me alente

A alma, da gelada geada que à minha volta grassa.

Fose eu um fantasma e estaria a salvo.


Fosse eu um espectro e estaria certo

De não ter que me proteger do frio que faz,

Da ameaça do vírus que anda à solta.


Digo 'bom-dia' à vizinha que ontem me ignorou.

Ela olha-me nos olhos e abre um sorriso.

Pede-me que lhe desculpe o pavor que mostrou.

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 Amadeu Baptista. poeira escura. Leça da Palmeira: edições Eufeme, 2021, p 43.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

 

O poema Partida do livro Regresso (Editora Labirinto, 2010) traduzido para castelhano pelo Prof. Alfredo Pérez Alencart

Aqui:  https://salamancartvaldia.es/not/259275/partida-victor-oliveira-mateus-traducido-castellano/?fbclid=IwAR1jRgtQsOLnayx-t5LsvI1QpDwii-4VUKlljK1q3cT2mUuvAR6N-FwU0uc

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sábado, 20 de fevereiro de 2021


 Foram hoje anunciados os vencedores da 2ª Edição do Prémio Internacional de Poesia António Salvado, assim, o Júri - que tive a honra de integrar - decidiu atribuir:
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Aos livros em Língua Portuguesa:
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1º Prémio: "Elegia dos Pássaros" de Fernando Fitas
Menção Honrosa: "Passageiro do Real" de Renato Filipe Cardoso;
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Aos livros em Língua castelhana:
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1º Prémio: "Ángel Áspero" de Ernesto Luis Orozco
Menção Honrosa: "Armadura y escotes" de Maria Alejandra Chemes.
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