quinta-feira, 19 de maio de 2022
quarta-feira, 18 de maio de 2022
Este poema tem um gato e um pardal,
o gato mata o pardal,
o gato não come o pardal,
é um gato sem fome,
é uma morte inútil,
é a tua indiferença perante a dor de um pássaro,
és tu sem perceber que também sou pássaro
e que morro inutilmente todos os dias.
Raquel Serejo Martins. Valsa a vau. Lisboa: Poética Grupo Editorial, 2021, p 38.
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terça-feira, 17 de maio de 2022
segunda-feira, 16 de maio de 2022
terça-feira, 26 de abril de 2022
domingo, 17 de abril de 2022
sexta-feira, 25 de março de 2022
Coimbra, 19 de Março de 1943 - Faz pena. A gente elege entre trinta mil almas meia dúzia de indivíduos para conviver, e, afinal, chega perto deles a defender uma pureza política, uma pureza profissional, uma pureza sexual, e caem sobre nós mil argumentos dum pragmatismo dúbio, suspeito, que confrange. Longe de se receber estímulo para combater as tentações, encontra-se um escorregadoiro conivente para o abismo delas - É o meio - repito de cada vez, a tentar iludir-me. Mas é inútil vendar os olhos. Até o meio geográfico se pode vencer, quanto mais o meio social. Na luta contra as atraccções inferiores do ambiente humano é que está precisamente a beleza duma vida. O meio! Eles é que são o meio, assim perdidos, duplos, comprometidos com a podridão até à raiz.
Miguel Torga. Diário II. Coimbra: 4ª Edição, pp 144-145.
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sábado, 19 de março de 2022
domingo, 13 de março de 2022
terça-feira, 8 de março de 2022
Lamego, 22 de Março de 1940 - Não há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a grão, o esquecimento cobre tudo.
Ainda há dias pensava nisto a propósito de não sei que afecto. Nisto de duas pessoas julgarem que se amam tresloucadamente, de não terem mùtuamente no corpo e no pensamento senão a imagem do outro, e daí a meia dúzia de anos não se lembrarem sequer de que tal amor existiu, cruzarem-se numa rua sem qualquer estremecimento, como dois desconhecidos.
Esta certeza, hoje então, radicou-se ainda mais em mim.
Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino. E nem as portas, nem as janelas, nem o panorama em frente me disseram nada. Tinha cá dentro, é certo, uma nebulosa sentimental de tudo aquilo. Mas o concreto, o real, o número de degraus da escada, a cara da senhoria, a significação terrena de tudo aquilo, desaparecera.
Miguel Torga. Diário I. Coimbra: 7ª Edição, pp 135-136.
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segunda-feira, 7 de março de 2022
Coimbra, 6 de Dezembro de 1938 - Dia de confissão geral. Isto e aquilo da minha vida, do meu temperamento, desta incapacidade que tenho de criar harmonia. Os meus sete pecados mortais em carne viva.
...Quinto - a sede de amor absoluto que me devora;
Sexto - o clima tropical de violência e ternura que envolve o que penso e faço. Absolvido.
Depois do sétimo, porque não tentava eu dar forma capaz a tudo quanto dizia, que era realmente belo? Porque não. Porque um homem não se escreve.
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Miguel Torga. Diário I. Coimbra: 7ª Edição, p 85.
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sábado, 5 de março de 2022
sexta-feira, 4 de março de 2022
terça-feira, 1 de março de 2022
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
domingo, 20 de fevereiro de 2022
sábado, 12 de fevereiro de 2022
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
segunda-feira, 10 de janeiro de 2022
a psicanálise do fogo
trago-te para o meio do adro
lanço-te o fogo
crepitas no meio do
círculo
e dos cantares
ardes
há um incontornável apelo
da combustão
que não consigo evitar
brasas madeiro ou êxtase
tanto se me dá
trago-te para o meio de tudo
uma chama lambe-te até ao
topo
avivas-me coisas muito
antigas
talvez mesmo da infância
ardes
ardes e eu ardo contigo
sem saber modo nem razão
Victor Oliveira Mateus. Madeiro, Fólios de Poesia II. Penamacor: Câmara Municipal de Penamacor, 2021, p 47.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
quarta-feira, 15 de dezembro de 2021
domingo, 12 de dezembro de 2021
sábado, 11 de dezembro de 2021
segunda-feira, 6 de dezembro de 2021
João
de Mancelos é docente universitário e crítico literário. Paralelamente a essas
atividades tem desenvolvido, ao longo dos anos, uma intensa atividade no que
diz respeito à publicação de uma plurifacetada obra própria. Assim, e por não
ser a finalidade deste texto o enumerar toda a produção do autor, saliento
apenas: no ensaio, “O marulhar de versos antigos: a intertextualidade em
Eugénio de Andrade” (2009), “Magia negra: a obra de Toni Morrison” (2014),
“Todas as cores da América: a literatura multicultural” (2015); na poesia, “O
teu nome incendiado de azul” (2016); na ficção, “Nunca digas adeus ao verão”
(2021) e o presente livro de que passarei a falar.
Em
“a rapariga que adorava finais felizes “(edições Colibri, 2021), João de
Mancelos apresenta-nos um conjunto de treze contos que entretecem entre si
aspetos comuns, o que dota a obra de homogeneidade e coerência, mas que, com
exemplar fineza, introduz nesse mesmo comum uma miríade de categorias e
subcategorias da narrativa, que tornam cada conto, não só completamente
autónomo, como impossível de ser articulado com qualquer outro. Vejamos: entre
aquilo que é semelhante podemos notar um certo etarismo, não com qualquer
intento de descriminação, mas porque se visa fornecer um olhar específico sobre
dados modelos comportamentais e dadas formas de sentir (ex.: pp 54-55), por
isso, e à exceção do antepenúltimo conto, todos os narradores e personagens
rondam a idade dos vinte anos. Também ao nível literário estamos perante um
tipo de Realismo Social e Económico (atente-se às marcas da roupa, dos
utensílios, dos carros, aos tipos de alojamento, às ocupações dos jovens,
etc.), mas que, em dados momentos irrompe por um certo Realismo Lírico adentro
(ex.:pp 36-37, p 39, pp 85-87) e encontramos mesmo dois contos situados entre o
Fantástico e o Realismo Mágico (pp 59-63, 65-69) e estes dois contos, levam-nos
a concluir que nada neste livro foi deixado ao acaso: numa conferência dada em
2015, subordinada ao tema d’ “as configurações do real”, Tristan Garcia não
deixa de referir o ataque de Barbey d’Aurevilly a Zola, bem como o de Flaubert
a Balzac, quando diz que este último ao querer fazer romance sociológico acabou
desaguando em plena sociologia, já que para que serve, segundo T.G., reproduzir
um real que já está ante nós e que não nos necessita para absolutamente nada?,
daí a possibilidade de falar desse real de um outro modo e é aí que entra outro
tipo de ficção, nomeadamente a dos dois contos de João de Mancelos que
mencionei acima. Dito de outro modo: “em a rapariga que adorava finais
felizes”, o autor não só experiencia vários tipos de registos dentro do
Realismo (até de códigos linguísticos!) como também desmultiplica as categorias
da narrativa em subtipos vários: narrador não participante (pp 11-15), narrador
autodiegético (pp 47-51), narrador homodiegético (pp 65-69), etc., etc. O mesmo
acontece ao nível das outras categorias da narrativa. Estamos, pois, perante
uma tessitura onde o académico e o ficcionista decidem dialogar para,
utilizando todos os recursos ao seu dispor, dar a ver – e a ler – dados
agrupamentos sociais. E aqui, apenas como adenda, direi tão-só que João de
Mancelos foge a “pintar” guetos ou elites: as suas personagens e os seus
narradores são gente normal, daquela que se cruza connosco diariamente nos cafés,
nas gasolineiras das autoestradas, nas estações de comboio; normal, não no
sentido do espetacular denunciado por Debord, não no sentido do narcísico
denunciado por Marie-France Hirigoyen, mas normal no sentido estatístico de
Aldous Huxley ou no sentido do produzido por uma forma de poder específica como
em Foucault, dito de outra maneira: João de Mancelos, através de um trabalho
incomum, traz até nós, em “a rapariga que adorava finais felizes”, gente comum.
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Victor Oliveira Mateus
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021
segunda-feira, 29 de novembro de 2021
sexta-feira, 26 de novembro de 2021
quinta-feira, 25 de novembro de 2021






