sábado, 12 de fevereiro de 2022


Qué fuerza convoca la mañana que es capaz de levantar a los que tienen el corazón cansado con un lento amanecer? Qué extraña confidencia trae para que la atiendan cada día los que ya se han abandonado? Lo primero que mis ojos veían al despertar era la ventana en el techo de la buhardilla, que enmarcaba el cielo difuso de Bolonia, empujado por ese viento que no lo dejava detenerse. Ese cielo se limitaba a cerrar días y abrir noches, sin envidiar la altura de otros cielos. De él aprendí a renunciar sin sufrimiento, a no poner resistencia a lo que no se puede parar. Aprendí a dejar de exigir para empezar a agradecer las ofrendas que a mi alrededor brotaban y que estaban ahí para servirme. El párroco de Saint Nicola insistía cada semana en que es tan importante servir a los demás como dejarse servir a uno mismo. Necesitábamos más atención que justicia. Poco a poco empecé a entender que Bolonia no me impedía el deseo, sino la desmesura de los deseos.
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 Alejandro Simón Partal. La Parcela. Barcelona: Caballo de Troya, 2021, p. 85.
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022


* 18. Há uma chama avulsa que se agita por entre os escombros da beleza. É uma forma de questionação como qualquer outra. É uma saudade de fogo. Lupa que se inclina sobre o infinito. Por isso, ofereço-te, não a rosa, votada à cinza, mas o frágil canto que dela sou capaz. Aceita se quiseres esta ausência, réplica espavorida com que esperamos despertar a mesma noite sem nome. No eco feliz do que não voltará a ser, reconhecemos uma espécie de alegria.

* 19. A árdua arte das palavras permite aprofundar o abismo. Não me ocorre muito mais. São apenas ficções que minam o retrato, que esburacam o relato, a sabotagem de todas as leis da identidade. Ardor impessoal com o qual não saberia viver. Escrevo para ti, não sei escrever para mais ninguém. Tendo naturalmente para a fantasia, para a efabulação dos factos mais concretos. Misturo tudo e dessa amálgama improvável nasce a mais objectiva impostura que me prende. Como explicar um tal sentimento de urgência? Aqui estão elas: pegadas envenenadas, assombro por enterrar.
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 Ricardo Gil Soeiro. Tratado da mão. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2021, pp 22-23.
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022


a psicanálise do fogo

 

 trago-te para o meio do adro

lanço-te o fogo

crepitas no meio do círculo

e dos cantares

 

 ardes

há um incontornável apelo da combustão

que não consigo evitar

brasas madeiro ou êxtase

tanto se me dá

 

 trago-te para o meio de tudo

uma chama lambe-te até ao topo

avivas-me coisas muito antigas

talvez mesmo da infância

 

 ardes

ardes e eu ardo contigo

sem saber modo nem razão


Victor Oliveira Mateus. Madeiro, Fólios de Poesia II. Penamacor: Câmara Municipal de Penamacor, 2021, p 47.


  

 

 

 





 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021


                 A casa iluminada


Olhai honestamente para o vosso passado
escondido da rua pelos arbustos
oferecendo-se aos pedaços
naquilo que o rasurado quis extirpar
nos trechos sem relação que vos assaltam no sono
no desabamento, na estranheza
outro nome possível se transcreve


Considerai as vossas memórias pré-históricas
as primeiras declarações de amor pronunciadas
com lábios de sangue
a inervação magnética do vosso coração
dentro da caixa anatómica
dentro de uma caverna
na jangada que vos leva


Aprendei a observar com delicadeza
a terra inóspita antes de passar
a face molhada por uma chuva repentina
e o seu invencível sentido


Somos ainda os nativos, os mais remotos


Assim que chegarmos ao mar alto
e perguntarmos por que razão
seremos baixados por cordas
à casa  demolida ainda iluminada
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José Tolentino Mendonça. Introdução à pintura rupestre. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 50-51.
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021


              Falando em línguas


Em Praga, descobri um café
sem música nenhuma a ameaçar-me as musas,
só as vozes humanas
vestidas de uma língua que não sei,
de declinações tantas e muito
fricativa

À minha frente, dois jovens desatentos
a tudo o que não seja pele e olhar,
nesse desejo inconsequente e belo
de acolher o abismo,
de ser um corpo só, uma só alma
(ou isso que chamamos ao que
nos sobrevoa)

Foi partilhada a fatia de bolo que pediram
em êxtase comum,
neste café deste pedaço curto da cidade,
e a língua de uma música tão estranha para mim
vestiu-se de paixão,
foi declinada com os dois sorrindo,
comendo o bolo, seria doce e bom,
mereceria Magnificats quem sabe,
decerto o olhar deles, sim,
porque daqui, do canto do café onde me sento,
sou ignorante
da língua e dos costumes,
mas não o sou do amor

Podia o bolo ser moldado entre ovos
sem sabor, farinha muito rude e pouco fina,
que lhes havia de saber na mesma
àquilo a que chamamos paraíso:
um corpo em sobressalto e a língua
a apetecer palavras generosas,
como beatífico ou resplandecente

E a gente toda sentada a conversar neste café
sem música, a cidade, o céu já a escurecer,
tudo agora à volta deles ganha um halo
de luz
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  Ana Luísa Amaral. Mundo. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 86-87.
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Dia 18 será a Apresentação do Nº 4 da Revista Acanto na qual colaboro, para mais informação ver aqui:
https://www.jornaldeleiria.pt/noticia/numero-quatro-da-revista-acanto-apresentado-em-lisboa?fbclid=IwAR35f3C-qnVX4f8x2NZReI6B3iDpKVQk8BWCyhzVzU3uV7t5Gj0kPKsZdAs
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domingo, 12 de dezembro de 2021


É antigo o meu olhar. Vejo de muito longe e com traços inseguros todos os caminhos.
O tempo passa como um pressentimento inquieto. Afasta-se. Estreita-se. O que me espera, eu sei, é o ruidoso silêncio do esquecimento.
As minhas raízes hão-de fincar-se na terra, revelando o sinal invisível do abismo, à espera das cinzas, na perfeita simetria do coração, nas inumeráveis palavras.
Os meus passos, mais lentos, devoram a distância que me separa da mudez e conhecem a cor da poeira levantada pelos pés quando os pássaros iniciam um voo solitário.
Para além do horizonte, o mistério do invisível pertruba-me como um recomeço sem memória, sem limites, sem retorno.
Estendo as mãos para tocar a luz cada vez mais distante, cada vez mais indecisa, cada vez mais imprevista. E fixo essa luz até ao apagamento do brilho nos meus olhos.
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 Graça Pires. Antígona passou por aqui. S/c.: Poética Edições, 2021, p 80.
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sábado, 11 de dezembro de 2021


Continuarei a definir o exíguo espaço de uma errância no culto da palavra. Habita-me a expectante mudez de um náufrago preso ao barco que o salva.
Escavo o traçado de um alfabeto de subtil simbologia. Como deriva de âncoras sem retorno, ou um sacramento, ou uma gíria mística, ou uma vaga promessa de alegria, protejo na bainha do texto uma sintaxe quase sagrada.
Na lonjura de vozes antigas seguro a luz. Assombro-me da paisagem. Deixo que as palavras cedam inteiramente ao indizível subterrâneo da paixão.
Com um alarido preso à boca, leio os poetas das palavras claras e quebro no interior das pálpebras os versos mais cúmplices.
Semelhante a um primitivo nómada, guardo comigo o fogo da poesia, para que nunca se extinga e me seja confissão e esconderijo.
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 Graça Pires. Antígona passou por aqui. S/c.: Poética Edições, 2021, p 52.
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2021


João de Mancelos é docente universitário e crítico literário. Paralelamente a essas atividades tem desenvolvido, ao longo dos anos, uma intensa atividade no que diz respeito à publicação de uma plurifacetada obra própria. Assim, e por não ser a finalidade deste texto o enumerar toda a produção do autor, saliento apenas: no ensaio, “O marulhar de versos antigos: a intertextualidade em Eugénio de Andrade” (2009), “Magia negra: a obra de Toni Morrison” (2014), “Todas as cores da América: a literatura multicultural” (2015); na poesia, “O teu nome incendiado de azul” (2016); na ficção, “Nunca digas adeus ao verão” (2021) e o presente livro de que passarei a falar.

Em “a rapariga que adorava finais felizes “(edições Colibri, 2021), João de Mancelos apresenta-nos um conjunto de treze contos que entretecem entre si aspetos comuns, o que dota a obra de homogeneidade e coerência, mas que, com exemplar fineza, introduz nesse mesmo comum uma miríade de categorias e subcategorias da narrativa, que tornam cada conto, não só completamente autónomo, como impossível de ser articulado com qualquer outro. Vejamos: entre aquilo que é semelhante podemos notar um certo etarismo, não com qualquer intento de descriminação, mas porque se visa fornecer um olhar específico sobre dados modelos comportamentais e dadas formas de sentir (ex.: pp 54-55), por isso, e à exceção do antepenúltimo conto, todos os narradores e personagens rondam a idade dos vinte anos. Também ao nível literário estamos perante um tipo de Realismo Social e Económico (atente-se às marcas da roupa, dos utensílios, dos carros, aos tipos de alojamento, às ocupações dos jovens, etc.), mas que, em dados momentos irrompe por um certo Realismo Lírico adentro (ex.:pp 36-37, p 39, pp 85-87) e encontramos mesmo dois contos situados entre o Fantástico e o Realismo Mágico (pp 59-63, 65-69) e estes dois contos, levam-nos a concluir que nada neste livro foi deixado ao acaso: numa conferência dada em 2015, subordinada ao tema d’ “as configurações do real”, Tristan Garcia não deixa de referir o ataque de Barbey d’Aurevilly a Zola, bem como o de Flaubert a Balzac, quando diz que este último ao querer fazer romance sociológico acabou desaguando em plena sociologia, já que para que serve, segundo T.G., reproduzir um real que já está ante nós e que não nos necessita para absolutamente nada?, daí a possibilidade de falar desse real de um outro modo e é aí que entra outro tipo de ficção, nomeadamente a dos dois contos de João de Mancelos que mencionei acima. Dito de outro modo: “em a rapariga que adorava finais felizes”, o autor não só experiencia vários tipos de registos dentro do Realismo (até de códigos linguísticos!) como também desmultiplica as categorias da narrativa em subtipos vários: narrador não participante (pp 11-15), narrador autodiegético (pp 47-51), narrador homodiegético (pp 65-69), etc., etc. O mesmo acontece ao nível das outras categorias da narrativa. Estamos, pois, perante uma tessitura onde o académico e o ficcionista decidem dialogar para, utilizando todos os recursos ao seu dispor, dar a ver – e a ler – dados agrupamentos sociais. E aqui, apenas como adenda, direi tão-só que João de Mancelos foge a “pintar” guetos ou elites: as suas personagens e os seus narradores são gente normal, daquela que se cruza connosco diariamente nos cafés, nas gasolineiras das autoestradas, nas estações de comboio; normal, não no sentido do espetacular denunciado por Debord, não no sentido do narcísico denunciado por Marie-France Hirigoyen, mas normal no sentido estatístico de Aldous Huxley ou no sentido do produzido por uma forma de poder específica como em Foucault, dito de outra maneira: João de Mancelos, através de um trabalho incomum, traz até nós, em “a rapariga que adorava finais felizes”, gente comum.

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Victor Oliveira Mateus

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021


como uma ilha     temos naufrágios por todos os lados
os pontos cardeais são exercícios de respiração
natação de almas perdidas

somos todos nós     nós de gravata

passa a caravana do luxo
os cães ladram
de dentes nos moinhos
pés no deserto
ainda agora um magro e um gordo
por aqui passaram num cavalo magro
e num burro
duas ambiguidades divinas

atiram-se moedas ao ar e cavam-se fontes
fundam-se cidades romanas
somos enxame
estamos no chão do progresso

os números apressam-se no calendário
nos galhos da árvore dos antepassados
a modernidade é uma mãe
uma máquina de calcular
não chamem mãe à bela baleia branca
perdoem-lhe o tato
a perna do capitão
o fim não é o pior
o pior é o aprodrecimento
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 José Gardeazabal. Viver Feliz Lá Fora. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, pp 35-36.
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segunda-feira, 29 de novembro de 2021


   Como tem mudado o tom desta narrativa! Perco as rédeas dos meus nervos. A unidade do que somos - é tão fácil perdê-la! Dá-me a ideia de que me pegaram pela mão, arrastando-me para uma feira alucinante de surpresas. Quem entra na roda, subindo, descendo e cabriolando sem o querer, só poderá parar, recuperar-se, quando a roda parar também. E a desconexão dos factos? Sinto-a, mesmo sem a ir averiguar no que aí fica escrito. As vozes da coerência ensurdecem nestas malhas de neblina, ficam só audíveis os gritos.
   Mas tudo deve ser da noite. À hora em que vos escrevo, as lâmpadas adormecem nas esquinas, penduradas, como enforcados, da névoa ribeirinha. Ainda pensei em percorrer as ruas - fugindo de mim. Hoje, porém, seria inútil. Prefiro, daí, continuar amanhã. Amanhã é dia.
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Fernando Namora. domingo à tarde. Lisboa: TV Guia Editora, 1996, p 150.
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sexta-feira, 26 de novembro de 2021


por isso me chamam maga
        feiticeira
        outras vezes irmã
e por todos os nomes respondo e me reconheço

a noite magnífica e total começa já a cair sobre as colinas
e sobre o rio que me chama
eu respondo a voar pelo trilho das aves

ele vem altivo sobre as águas
e os nossos corpos
feitos dum metal raro
cintilam como purpurinas

este é o meu deus
faça-me em mim segundo a sua vontade
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  Teresa Alvarez. A Encenação do Amor. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 172.
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quinta-feira, 25 de novembro de 2021


se as palavras fossem coletes de salvação
eu salvaria uma rua
talvez um bairro inteiro

escrevo
como se estivesse amarrada a esta mesa
mas bendigo este ofício
enquanto fico a ouvir os sons da tarde que se acaba

o cão olha-me fixamente
então levo o pássaro de vidro
e saímos os três pela janela a voar como no dia inicial

vamos até ao rio
ocupamos um cacilheiro
o cão corre atrás das gaivotas
e o pássaro de vidro voa livre rente às águas
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 Teresa Alvarez. A Encenação do Amor. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 105.
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segunda-feira, 22 de novembro de 2021


Fica aqui um momento do Festival de Poesia de Laurel/ Granada de 2020. Esta foto, que desconhecia, acabei de a encontrar na net. Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Juan Carlos Martin Cobano, Luis Pedro Paz, Stefania Di Leo, Gloria Fernandez, Pedro Enriquez, Alfredo Pérez Alencart, Victor Oliveira Mateus, Boris Rozas.
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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Na foto da esquerda para a direita: Delmar Maia Gonçalves, Victor Oliveira Mateus, Manuela Gonzaga, Luis Pires dos Reys.
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PRÉ-PUBLICAÇÃO
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Breve contributo para uma leitura de O caminho dos sete sentidos de
Manuela Gonzaga

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                                                Victor Oliveira Mateus

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 Estruturar um livro de poesia com uma produção textual que abrange algumas décadas com textos que oscilam entre os longos poemas monostróficos e temas tangenciando o registo memorialístico e onírico, que, registe-se, jamais caem no prosaísmo, sem esse trabalho perder a coerência interna que deve sempre presidir a um livro de poesia, uma iniciativa desse tipo, não acessível a muitos, é levada a cabo com subtileza e eficácia por Manuela Gonzaga em O caminho dos sete sentidos.

Não sendo possível, através da poesia, expor um sistema filosófico, nem modelos científicos e cosmogónicos devidamente articulados e fechados é, no entanto, viável cismar-se poeticamente em torno dessas áreas disciplinares, temos como exemplos: Antero de Quental, Teixeira de Pascoaes e Natália Correia no que diz respeito ao filosofar, e no que diz respeito à ciência convém não esquecer o célebre Limite de idade de Vitorino Nemésio. Manuela Gonzaga, neste seu livro, entrega-se a inquietações intelectuais distintas dos poetas referidos. Logo no poema Perséfone (p 17) estabelece as três dicotomias que irão ser o fundamento organizativo desta obra: sombra/ Sol, permanência/ devir cíclico, morte/ vida:

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Sou a rainha da sombra a senhora

do reino das trevas a anfitriã

dos mortos.

 

(17, 1-3; neste texto o primeiro número dirá sempre respeito à página e os seguintes indicarão os versos)

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 Estas linhas axiais, em torno das quais se estrutura este livro, surgirão recorrentemente, embora com outras formulações, veja-se o poema Deméter :

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 O Senhor dos Infernos guarda

a minha filha.

Fez dela rainha

Do seu vasto reino.

 

(20, 16-19)

 Veja-se também, no mesmo poema, a problemática do “devir cíclico”:

 Agora sim, minha alma luz,

adorada

vais voltar.

Perséfone, estou à tua espera

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 (21, 20-24)

 Estes tópicos não nos surgem apenas nos poemas com carga ontológica, mítica e cosmogónica, eles irrompem igualmente em poemas onde o antropológico é predominante, como por exemplo no extenso poema África :

 

Cais de náufragos

em cidades mortas

onde aportei em meu contínuo naufragar

depois de enterrar os mortos

e esquecer o local das suas sepulturas.

Às vezes ainda lá vou

queimar imagens de deuses

em lareiras que nem existem

e ouço-me

a chamar por eles

e fico

de mãos feridas a escavar palavras e silêncios.

Procuro, procuro.

 

(45, 17-24; 46, 1-5)

 Estes versos fazem ressaltar dois outros temas fundamentais deste livro: um, a morte e a vida não são opositivas; dois, a comunicação entre os dois territórios processa-se através de ritos. Estas teses aparecem-nos tanto em filósofos cristãos como em religiões pré-cristãs: vejamos, por exemplo, o final do Sermão 5b de Eckhart, onde é eliminando o criatural que se vivifica em nós o ser divino:

 Aí onde termina a criatura, começa o ser de Deus. Ora, tudo o que Deus te pede, é de sair de ti mesmo segundo o teu modo criatural de ser e deixar Deus entrar em ti.

 (In Eckhart, Traités et Sermons. Paris: Flammarion, 1993, p 256, tradução e sublinhados de minha autoria)

 Esta infração da Lógica da Identidade, onde a morte pode vivificar e a vida ser uma espécie de morte e onde até a sombra pode iluminar, conduzindo-nos a um monismo de fronteiras esbatidas e de permeabilidade entre territórios aparentemente distintos, a esta infração responde um texto de Manuela Gonzaga, Testamento de vida:

 E nestes dias, nestas noites, todas as verdades são diferentes e contraditórias, e essa contradição em si mesma é uma verdade também, e nestes dias, nestas noites passam por nós restos de estrelas, caudas entrançadas de cometas…

 (79, 1-4)

 Nesta linha de leitura, que é a minha, a mediação e a intercomunicação entre o Diferente, ou melhor, entre as múltiplas vertentes do Mesmo , ou ainda, e para usar um conceito desse filósofo pagão que foi Plotino, do Uno, faz-se através de Rituais, veja-se, nas páginas 22 e 23, o poema Elêusis :

 

Sol Céus Vida

minha bendita luz e claridade

calor!

(…)

eis-me de novo nunca cheguei a partir

Nunca!

(…)

Um alto rei

que dizia:

a minha rainha é livre de deixar os seus reinos

 

(22, 1-7; 23, 1-3)

 Esta vitória da luz e da claridade, neste poema, parece apontar para uma síntese redentora e contradizer tudo o que até agora tenho dito acerca das dicotomias Morte/Vida, Sombra/Sol, contudo, convém esclarecer que o discurso anterior se referia ao Ser e neste poema está em causa o Ente. É o homem ou a mulher que através de um Rito alcança a luz e a claridade, é disso que o poema fala.

Eram vários os santuários e/ou lugares de iniciação na Grécia Antiga, a poeta neste seu livro refere aquele que alcançou maior estatuto, o de Elêusis, ao sul da Atenas. Aqui, a religião ainda muito próxima da dos cretenses, introduz novos aspetos como o culto “dos mortos também, como nos dão testemunho os traços de sacrifício perto das tumbas micénicas. Surgem grandes deuses novos, já gregos, como Atena, Zeus (…) Deméter, da qual o mais antigo telestérion (sala de iniciação), em Elêusis, remonta à época micénica; é possível que tenham sido edificados templos, pela primeira vez, mas somente no fim do período.” (In Paul Petit, O mundo  Antigo. Lisboa: Edições Ática, 1976, pp 45-46). Convém, no entanto, enfatizar que eram vários os cultos e as modalidades de rituais, já na Grécia homérica tínhamos, por exemplo, “Em Éfeso, o sumo-sacerdote, que mais tarde usará o nome persa de “Megabyse” carregado de ornamentos reais e sacerdotais de púrpura e oiro, conduz a procissão anual de Artémis, ele é o encarregado de representar a deusa no exterior, nas festas e nos jogos. Em Claros, o sacerdote de Apolo pode exercer a função de profeta. “(In Émile Mireaux, A vida quotidiana no tempode Homero. Lisboa: Livros do Brasil, S/d., p 77, tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen), contudo, Manuela Gonzaga opta por aquele rito de estatuto mais elevado: “Em Elêusis uma das funções essenciais do hierofante consiste em “revelar” aos iniciados os objectos sagrados durante as cerimónias da “epoptia”, a iniciação do segundo grau.” (In Émile Mireaux, op. Cit. P 77). Depois desta referência ao poema Elêusis e de referir como este modo iniciático de desvelamento do real adquire impacto na mensagem que transpassa todo este livro, tornam-se evidentes três conceitos que se apresentam como corolário desta minha linha de leitura: o Caminho, a Aprendizagem (Introspetiva ou Iniciática), o Viandante, aliás evidenciados no próprio título da obra: O caminho dos sete sentidos.

As referências aos conceitos de Caminho e de Viandante atravessam todo este livro, muitas vezes metamorfoseados em vocábulos outros:

 Disseram:

Olha de frente, e era o abismo.

No meu caminho.

 

(30, 8-10)

 

(…) abriu caminho através dos sargaços

Onde se prendia e afogava a minha alma.

 

(39, 7-8)

 

Alguns vão-se embora

Há procura

 

(42, 4-5)

 

E sei que vou acabar por lhe abrir a porta, os braços, o coração,

a alma, o corpo (…) porque é dele que fujo desde o princípio dos

tempos e é ele que quero desde a eternidade, e é ele que procuro

desajeitadamente (…) tacteando às cegas o caminho dos sete

sentidos,,,

 

(78, 7-13)

 Vemos neste último excerto, que o percurso que os humanos são chamados a trilhar, e que assinalei ao longo deste texto, se faz mediante uma Aprendizagem triádica: introspetiva, em diálogo com o meio e iniciática, e é da conjugação de todas elas que resulta a apreensão desse Sentido inerente ao nosso estar-aqui, que nos é dado pelos (nossos) sete sentidos. O número de sentidos nos humanos varia segundo o entendimento dos diversos cientistas, e pode ir dos sete geralmente referidos (olhar, audição, odor, tato, paladar, proprieceção (apreensão espacial do corpo) e equilíbrio) até mais de três dezenas), contudo a poeta jamais refere – explicitamente - quais os sete sentidos que entende necessários ao caminho, e isso parece-me bastante interessante, já que essa ocultação, esse mistério, faz corpo com aquilo a que poderei chamar o nó substancial do livro. Convém, no entanto, não confundir os sentidos tal como são enumerados pela psicologia, pela biologia e outras ciências que falam do corpo com os sentidos de índole metafísica, ética ou mesmo cartográfica e desse equívoco salva-nos o poema Ausência da página 41:

 Presenças ausentes

Presságios

Sinais em todos os sentidos

um rumor de seda

amachucada

passos furtivos

recordações

insistentes

 

Lá fora a noite

agarra-se à janela

 Por fim, e em jeito de epílogo desta leitura, direi tão-só que esta minha interpretação de O caminho dos sete sentidos de Manuela Gonzaga, esta minha chave para uma porta que não existe – como a poeta diz num dos primeiros poemas do livro – aponta para um conceito que atravessa igualmente todo o livro, o conceito de Fundamento que irrompe nos poemas sob quatro formulações: a Grande Mãe (pp 31, 48), Pai (pp 50, 74), Deus (p 71) e Rei (pp 26, 58); quatro termos que referem o mesmo: esse Fundamento que escapa ao rigor e à objetivação, mas que alguns dos Viandantes sabem que Há ao fundo, e na base, do Caminho.

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terça-feira, 16 de novembro de 2021


    Escrevo estas recordações com um mal-estar que não tenho capacidade para definir. É que da maneira como as narro, elas surgem-me tão adulteradas e ridículas que seria bem melhor, nem que fosse por pudor, guardá-las para mim. E talvez sejam mesmo ridículas e não haja modo de lhes dar coerência e dignidade. A vida é assim. É por isso que as histórias que se contam nos bons livros são suportáveis: torcem a vida, inventam-na, até lhe darem verosimilhança e uns restos de grandeza. (...)
    Mas já agora que comecei e me é urgente pôr cá fora uns entulhos para melhor os clarificar e esquecer, terei de ir por diante. Não volto a pedir-vos desculpa de ser tão desastrado nestas evocações.
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 Fernando Namora. domingo à tarde. Lisboa: TVGuia Editora, 1996, p 59.
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quarta-feira, 10 de novembro de 2021


                 Manuel Silva-Terra e a Crítica da Razão Geométrica


                                                  por Victor Oliveira Mateus


Neste ano de 2021, Manuel Silva-Terra publica um novo livro: Holderlin (Editora Licorne). Comedido, discreto, este poeta tem vindo ao longo dos anos a edificar uma obra consistente e de uma circunspeção invulgar no panorama atual da nossa poesia. Alheia a circunstancialismos epocais e à gratuitidade de tantos determinismos, a poesia de Manuel Silva-Terra tem optado pelo cismar, e pela inquirição, não só daquilo que no humano é interioridade, mas também não descurando todos os vetores (cultural, económico, ecológico, etc.) que contextualizam o que essa interioridade é chamada a viver.

MST inicia o seu Holderlin com um poema que é simultaneamente uma invocação à mãe e uma justificação da recusa do poeta alemão em enveredar pela vida clerical. Este poema, formado por duas estrofes (uma quadra e uma sextilha), em versos heterométricos e livre de qualquer esquema rimático, apresenta-se neste livro como paradigma das preocupações estilísticas que marcarão toda esta obra. Mas há mais: neste poema frontispicial correm os dois veios que irão estar interconectados ao longo de todo este Holderlin , e que são: os aspetos biográficos do poeta romântico e as inquietações do eu poético relativas à contemporaneidade.

Quanto ao primeiro veio aqui referido encontramos logo a referência a Leuffen, (11/6, o primeiro número dirá sempre respeito à página e o segundo à linha do texto) a cidade onde nasceu, assim como a presença da mãe (11/1) – convém referir que o pai de Holderlin morreu cedo -, já quanto ao segundo veio, concentremo-nos nas alusões à Liberdade e às asas, termos esparsos por todo o poema.

Se aceitarmos a tese generalizante de Joseph Beuys de que “todo o homem é um artista”, teremos de enfatizar que nem todos o são do mesmo modo, MST demarca-se de um diletantismo à imagem de um Marino Aurati, bem como de uma visionação à la Aleister Crowley; embiocar o discurso não é a marca de água desta poesia, já que para o complexo basta a intuição (1) do poeta, bem como aquilo a que ele almeja, e que não se restringe, obviamente, a qualquer tipo de práxis lúdica, antes centra-se no vivido e numa certa degenerescência do meio, que com esse vivido interage, pelo que MST, se acaba colocando num continuum onde se insere uma miríade de autores (2). Por tudo isto, o complexo metamorfoseia-se e atinge-nos naquilo que em nós é mais profundo. Veja-se, por exemplo, um “momento” poemático extremamente forte:

Os deuses ainda não acabaram a tarefa

de criar um homem.

A terra carrega a sua leveza

e o céu o seu peso.

O Homem é uma criatura inacabada

por isso imperfeita.

E assim estamos violentamente sós

selados pelo sinete do porvir.

Cada um é uma construção feita

a partir de materiais recolhidos no entulho

de antigos fundamentos e reconstruções.

(p 26)

Por conseguinte, e se o poético não reside exclusivamente no Objeto, como prefeririam os adeptos de um Realismo Especulativo, mas antes – como eu penso - na Correlação entre ele e um Sujeito que o apreende e interpreta, poder-se-á dizer que esta poesia se instala naquilo que é claro e distinto para, a partir daí, instaurar a fulguração desse mesmo poético. Dito de outra maneira: este Holderlin estabelece-se no seio de uma Razão Geométrica, sitia-a, e lança os seus dardos a partir daí; é a célebre traição por dentro tal como a praticaram Diderot, Voltaire e d’ Holbach. Vejam-se também o que poderia ser uma Arte Poética e que ilustra a minha tese:

Pensam que o poema é apenas

Um conjunto de palavras alinhadas?

Não. Em cada poema

cada palavra é uma gota de sangue do ser-poeta.

O poeta é aquele que bebe o cálix até ao fim

- Seja do que for – até ao fim!

Seja de fogo, seja de gelo.

O poeta esvazia o cálix, seja de veneno, seja de amor.

O poeta não gosta do bom gosto

nem aprecia a sensatez.

A poesia nada faz pela metade.

(p 25)

***

Como um gato

o poema deve ter pelo sedoso

e língua áspera

chegar rápido e em silêncio

preparar o salto para o teu colo.

Em troca dá-te o ron-ron do universo.

O poema gosta de brincar

jogar com as palavras

enroladas numa bola de papel

mas pode ferir-te com as garras

se o excitares demasiado.

O poema deve ser diurno

mas ver melhor durante a noite

as profundidades da alma.

O poema deve iluminar e cegar.

(pp 42-43)

E todo este Holderlin percorre uma via simultaneamente dual e com dois caminhos paralelos: a) no relativo à biografia do poeta alemão, assumem destaque os poemas onde a figura de Diotima (3) tem uma presença privilegiada (pp 17, 23, 40), mas também se encontram versos com referências à família Zimmer (14/6), que o acolheria nos seus últimos anos; a Píndaro (18/7) poeta que ele traduziria; a Schiller, seu mestre (22/14); ao rio Neckar (16/25), que banha a cidade de Leuffen, onde ele nascera, etc.; b) o segundo caminho é aquele onde o poeta escalpeliza todo este aqui que nos é dado viver, bem como o processo que a este ponto nos trouxe: a “Companhia do Lucro” que nos roubou a alma (18/26); Auschwitz (19/7); Greta na Cimeira Mundial do Clima (20/15); o cerco de Leninegrado (24/22); Hiroxima (27/24); a chuva ácida (39/22), enfim, nada escapa à lucidez – tantas vezes desalentada – do poeta:

Tornei-me uma pessoa sensível, dizem

porque adquiri o hábito de andar com uma navalha no bolso.

Por isso me afasto dos homens.

(p 32)

Esta lucidez está, por vezes, eivada de uma ironia ácida, onde o peso das maiúsculas nos impede qualquer desatenção:

A poesia é um Pandemónio

para os Donos Disto Tudo.

Amo sobretudo as prostitutas, sabes?

São autênticas.

(p 36)

E à pergunta “Que fundações são as deste mundo?” (p 30), MST dá ele mesmo a resposta, que surge, aliás, como título deste meu texto: “Não sabíamos da maldade de razão matemática/ posta ao serviço das engrenagens mecânicas. “(p 19); “Vejo os melhores espíritos da minha geração/ trabalhando em publicidade e marketing.// Outros desenvolvendo algoritmos/ enquanto as baleias sufocam com os plásticos.//(…) E eu perdido neste labirinto, sem fio nem Ariadne.” (p 31). É por esta hecatombe que nos é dada vivenciar, e que o poeta põe a nu, que Isabel Aguiar – no seu rigoroso e poético prefácio a este livro – relaciona, e bem, esta obra de MST com o conceito de meta-ética de Rosenzeig (4): um adequado olhar sobre um livro raro.

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(1) “Ce mouvement est, bien entendu, l’intuition, mais interprétée non pas comme une faculte privilégiée et supraintellectuelle de connaissance, c’est-à-dire comme une manière néo-romantique d’aborder le réel, mais plutôt – et sur ce point Bergson lui-même avait maintes fois insisté – comme capacité de se poser au niveau de la durée et de suivre toutes ses nuances.” Carlo Migliaccio in Bergson pour maître. Magazine littéraire, Nº 333 – Juin 1995, p 36.

(2) “El arte (en particular la poesia y la música), oberva Ortega, era a comienzos del siglo veinte algo de enorme importância tanto por su contenido, que abordaba los grandes problemas de la existência, como por la solemnidad y la dignidade que su ejercicio conferia. En pocos lustros esta digna función se pierde: el arte se há visto investido de um processo de privación de vida, que lo há empujado hacia la periferia de la experiencia vital. El arte se há convertido en algo próximo al juego o, incluso, al deporte, al tiempo que todo Ocidente parece haber entrado en su fase de puerilidad.” Mario Perniola in La estética contemporânea. Madrid: Machado Libros, 2016, pp 49-50.

(3) Susette Gontard, mulher de um aluno seu, Jacob Gontard, que viria a ser o seu grande amor. Após o último encontro de ambos, em 1800, a saúde mental de Holderlin iniciou uma deterioração acentuada.

(4) Cf. Rosenzweig, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Paris: Éditions du Seuil, 2003, pp 121-124.

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In Lógos, Biblioteca do Tempo, Nº 9/ Novembro 2021, pp 161-167.

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domingo, 7 de novembro de 2021


E é afinal um modo como qualquer outro de resolver o problema da existência, esse de aproximar suficientemente as coisas e pessoas que de longe nos pareceram belas e misteriosas, para descobrirmos que não têm mistério nem beleza; é uma das higienes que se podem escolher, higiene talvez não muito recomendável, mas que nos dá uma certa calma para passarmos a vida e também nos resignarmos à morte, uma vez que nos faz não lamentar coisa alguma, persuadindo-nos de que alcançámos o melhor, e de que o melhor não é grande coisa.
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 Marcel Proust in Em Busca do Tempo Perdido Vol. 2, à sombra das raparigas em flor. Lisboa: Livros do Brasil, S/d, p 511 (Tradução de Mário Quintana).
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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

 

Acaba de sair o Nº 8 da "Revista Fluir" editada por José Pacheco. Nela colaboram, entre outros: José Pacheco, Afonso Reis Cabral, Amadeu Baptista, Isabel Cristina Pires, Victor Oliveira Mateus, Afonso Cruz, Norberto Morais, Patrícia Reis, Fernando Venâncio. Podeis ver a versão digital aqui:

https://online.flippingbook.com/view/220855280/


A versão em papel estará em breve à venda.

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