segunda-feira, 8 de janeiro de 2024


Recensão de Victor Oliveira Mateus do romance O Evangelho Segundo Lázaro de Richard Zimler (Porto Editora, 2016), publicada - na altura - na Revista Pessoa e no Site Casal das Letras. Esta recensão motivaria depois um longo diálogo entre V.O.M. e R.Z., que seria também publicado na Revista Pessoa.
.

APONTAMENTOS EM TORNO
D’O EVANGELHO SEGUNDO LÁZARO
DE RICHARD ZIMLER


                                             Quem não pode morrer
                                             arranque a lápide
                                             levante e ande

                                             Até quando?
                                             Até onde?

                                             Edmar Monteiro Filho, Lázaro

 

A vida e obra de Jesus Cristo não têm sido temas apelativos para o romance português contemporâneo. Se o cinema ocidental tem visto no assunto matéria inesgotável para as suas abordagens (Pasolini, Scorsese, Zeffirelli, Gibson, etc.), o mesmo acontecendo com a música dita erudita (Bach, Liszt, Messiaen, etc.), já o romance luso fica-se por duas meras incursões na história sagrada: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”  (1991) de José Saramago e “Os Últimos Dias de Pôncio de Pilatos” (2011) de Paula de Sousa Lima. Se outros motivos não existissem, o facto de nos encontrarmos perante um território literariamente inóspito, já seria de louvar a temeridade com que Richard Zimler se lança na construção da sua narrativa. Sem nos esquecermos que a relação da História com a Cultura tem sido uma das dominantes na ficção de Zimler, urge, no entanto, acrescentar que em O Evangelho segundo Lázaro há uma vertente psicologista – fundada quer numa sistemática introspeção do narrador, quer numa análise do relacional – que, tomando igualmente a dianteira, forma com os aspetos históricos e culturais uma tríade que, não só dota a estrutura narrativa de coerência e sistematicidade, como apresenta a tese central do livro com uma razoabilidade que incita a reflexão e o questionamento.
Este romance de Zimler integra-se num estilo realista alicerçado no histórico, no cultural e no sócio-ideológico, contudo, este realismo é constantemente atravessado por momentos de intersubjetivismo e de intrasubjetivismo, que o autor assinala a itálico. Convém acrescentar que este psicologismo nada tem a ver com as exaustivas análises do mundo interior levadas a cabo por Proust no seu emblemático romance; em Zimler os excertos em itálico mantêm-se presos ao imediatismo do instante vivenciado (Cf. p 25) ou são puras conjeturas em torno do pensamento ou do monólogo interior do outro (Cf. p 52, p 70, p 332). É este aspeto estilístico, bem como a escorreita articulação da intriga e o modo de tratar o tempo narrativo, que dotam O Evangelho segundo Lázaro de uma tessitura sólida e de uma fruição agradável e enriquecedora. Relativamente à questão do tempo narrativo, Richard Zimler demarca-se do romance fragmentado e do articulado emparelhamento dos planos narrativos, optando – de modo exímio e coerente – por uma linearidade diegética constantemente transpassada por analepses (Cf. p 83), elipses (Cf. p 75), resumos (Cf. p 402), prolepses (Cf. p 17). Também no que diz respeito aos aspetos psicológicos já referidos é importante considerar a forma rigorosa como são desenhados atitudes, modelos comportamentais e, sobretudo, as personalidades das personagens como por exemplo as de Jesus, Marta e Anás, o anterior sumo sacerdote, cujas ações aparecem no livro com uma inventariação de pormenores digna de um tratado científico.
O Evangelho segundo Lázaro apresenta um prólogo, à guisa de advertência, para que o pergaminho que vai ser exposto não possa ser roubado, vendido, desfigurado ou queimado (p 9). Após este Conselho amigo, Lázaro lança-se na sua versão da vida de Jesus, tomando como início da narração a história da sua própria ressurreição (pp 13-31), mas sem esquecer de referir o recetor do pergaminho – Yaphiel, o seu neto vivendo em Alexandria -, bem como o tempo histórico e o espaço geográfico da narração. Um dos aspetos mais interessantes deste livro é a forma como se entrecruza a preocupação de rigor de Lázaro com as zonas de sombra que o autor incute no discurso do narrador – exemplo: Lázaro, durante o tempo em que esteve morto não vislumbrou quaisquer sinais de uma qualquer transcendência, o que, obviamente, o deveria direcionar para um ateísmo convicto (na página 271 fala-se mesmo da sua perda da fé!), todavia, várias são as passagens do livro em que ele invoca o Senhor (Cf. p 415); outro exemplo: Lázaro não fundamenta de forma suficientemente clara a forma como entende o regresso de Jesus – aqui e ali – após a sua crucificação, se por vezes levanta a possibilidade de o vir a reencontrar “ quer na sua própria pele, quer na pele de outro homem ou mulher” (p 439), posição esta que tangencia a teoria platónica da transmigração da alma, outras vezes  parece querer substituir o conceito de aparição pelo de visão (p 381-384, p 440), seguindo de perto a sistematização operada por Ratzinger relativamente a investigações teológicas que o precederam. A questão da ressurreição – quer a de Lázaro, quer a de Jesus – é um dos temas fundamentais deste livro, contudo, Zimler afasta-se de toda a tentativa primária de clarificar o fenómeno (uma das tais zonas de sombra já referidas!), parecendo querer deixar para o leitor a liberdade de interpretação, já que são exatamente as palavras de Jesus que irão operar a cisão entre a visão judaica da dos primeiros cristãos no que diz respeito à tríade morte/ fim dos tempos/ ressurreição (Cf. “Ce qu’ils n’ont pas dit de Pâques” de Daniel Marguerat in “Les premiers temps de l’Église”, org. Marie-Françoise Baslez, Gallimard, 2004, pp 92-100): Marta e Maria sabem que Lázaro ressuscitará no fim dos tempos, mas isso não parece consolá-las, daí reprovarem Jesus por não ter chegado a tempo ( Cf. Daniel Marguerat, op. cit. p 99), por sua vez este, apesar de saber que ainda naquele dia (e o fim dos tempos é, então, trazido para o presente!) Lázaro poderia estar diante do Senhor, mesmo assim, decide trazê-lo de novo à vida. Eis os dois pontos fundamentais deste livro: a ressurreição de Lázaro e a figura de Jesus!
A figura de Jesus não é, no entanto, nesta obra, apresentada como a do filho unigénito de Deus, como aquele que sendo Deus encarnado participa da sua substância e da sua natureza. É evidente que é um filho de Deus, mas no sentido em que todos o somos, talvez com capacidades e aptidões superiores às do vulgo para comunicar com a transcendência, mas é apenas isso e nada mais. Por conseguinte, em O Evangelho segundo Lázaro, Jesus é frequentemente apresentado (apenas) como: profeta (p 237), milagreiro (p 261), um ser extraordinário (p 214, p 265), mago (p 177, p 295), “auxiliador/ comunicador à distância” (p 338, p 356), curandeiro (p 358), feiticeiro (p 196). Ora, e aqui Richad Zimler insere exemplarmente o seu livro no ambiente teológico e filosófico não só da época por ele abordada, mas também daquelas que imediatamente se lhe seguiram – exemplos: Apolónio de Tiana (final do século I D.C.) viajou por todo o Império Romano tendo granjeado fama de mago, profeta e operador de milagres, aliás, também a tese de divindades intermédias ou de seres mediadores era bastante comum, como podemos ver em Numénio de Apameia (Síria, século I D.C.) e em Plutarco de Queroneia ( 46-120 D.C.), sendo este o mais notável representante do chamado Platonismo Médio e em Fílon de Alexandria (30 A.C. ?), convém não esquecer que é exatamente em Alexandria que reside a tia de Lázaro, Ester, e será nesta cidade que a personagem que dá título ao livro encontrará um dos seus refúgios, bem como algumas das primeiras figurações de um cristianismo emergente, deturpador e fanatizado. Será em Alexandria, já perto do final do romance, que Lázaro irá conhecer os arautos de uma nova religião alicerçada numa figura que nada tem que ver com o Jesus que ele conheceu e com quem conviveu desde a infância.
Mas O Evangelho segundo Lázaro não é apenas uma obra inserida, de modo escorreito, numa cultura a partir da qual lança a sua mensagem. Os aspetos político-ideológicos (Cf. p 333), económicos e sociais são a outra trave mestra do romance: após a sua ressurreição, Lázaro regressa a casa numa ruela onde as pessoas se começam a amontoar para, diariamente, lhe pedirem a bênção ou, até mesmo, a cura para uma ou outra maleita. Este fenómeno, bem como a cumplicidade com um Jesus, que, pelo discurso e pela ação, vai afrontando os poderosos do seu tempo, acabará trazendo enormes problemas aos dois amigos. Veja-se, por exemplo: Jesus libertando um escravo (p 212), as críticas que faz a Caifás (p 214), a sua recusa da passividade ante o poder de Roma (p 218), etc. O afrontamento de Jesus aos valores da conformidade, bem como a solidariedade – por vezes cautelosa – demonstrada por Lázaro, têm duas consequências inevitáveis: a prisão e crucificação de Jesus e a perseguição movida a Lázaro – e família - que o leva a ter de abandonar a Palestina. O conflito, inicialmente com a casta sacerdotal - sobretudo com o despótico Anás, o antigo sumo sacerdote – que teme a perda de privilégios, alastra depois ao poder temporal e, apesar de não se estar perante um modelo político teocrático, o que é facto é que a execução de Jesus enfatiza a frase de Henri Pena-Ruiz para este tipo de sociedades: “Dieu et César pour le pire” (In “Qu’est-ce que la laicité?”, Folio, 2003, pp 50-56). Lázaro tudo faz para tirar o seu amigo da prisão: pedidos a Lucius, seu patrão; tentativa de persuadir Augustus Sallustius, o áugure de Pilatos, mas nada surte efeito. Estava-se perante o inevitável (pp 354-373)! Com parte da família assassinada como represália, resta a Lázaro uma única saída: a fuga, primeiro para Jericó, depois para Rodes… No final do romance, surge a explicitação do porquê da necessidade de escrever este seu Evangelho, da necessidade que sentiu em expor a Yaphiel, seu neto, aquilo que foi a verdade factual da vida de Jesus, aquela que ele vira com os seus próprios olhos e não a propagada naquele momento pelos seus seguidores que pululavam mundo afora.
 Richard Zimler articula assim de modo inextricável três variáveis: a preocupação com a verdade objetiva de que o narrador se faz arauto; as “pausas” de cariz reflexivo (Cf. p 221, p 243), que, porque distanciadas umas das outras, poderão parecer incipientes e desnecessárias e os momentos carregados de forte poeticidade, sobretudo os que relevam da relação de Lázaro com Maria, uma das irmãs, e com Jesus, onde o corpo e os sentidos assumem sempre uma conotação positiva (Cf. p 347, p 371). É a conjugação destas últimas variáveis com o referido no segundo parágrafo deste texto, que fazem d’ O Evangelho segundo Lázaro uma obra de valor inestimável e imperdível.

.

.

 


 


Recensão de Victor Oliveira Mateus do romance Um Tempo a Fingir da autoria de João Pinto Coelho, publicada na Revista Oresteia no dia 19 de setembro de 2021.
.

Uma leitura de Um Tempo a Fingir de João Pinto Coelho

 

Penso correta a leitura do mais recente romance de João Pinto Coelho a partir de uma grelha interpretativa alicerçada nos conceitos de: continuidade e rutura. Pelo que não julgo despiciendo aplicarmos esta dicotomia às mais diversas categorias da narrativa: narrador, tempo, espaço, intriga, etc. Vejamos: num primeiro momento deparamo-nos com uma narradora participante (Annina), que vai desfiando a sua história, sem que o leitor tenha dados para saber se essa mesma história é verdadeira ou a fingir, contudo, nos capítulos com a voz de Annina encaixam-se irregularmente outros com a voz do seu irmão, Ulisse, cuja função é clarificar os anteriores. Como narrador heterodiegético que é, Ulisse não deixa de nos alertar, no entanto, para o estatuto da mentira e do fingimento na personalidade da irmã e em tudo o que ela irá deixar escrito:

“Sim, é nas mentiras de Annina, em todas as omissões, que encontro a sua variante fidedigna, a maior honestidade da minha sorellina, pois decidiu impô-las a si mesma antes de as deixar por escrito.”

(p. 17)

“Afinal, mentiras desculpáveis a somar a tantas outras que Annina deixou por escrito.”

(p. 117)

“E pronto, o preâmbulo está escrito. Se lestes nas entrelinhas, já sabeis tudo o que interessa.

Ou nunca vos ocorreu que a minha Annina é um rio?

Um rio de águas furiosas a esfolar-se nos rochedos.”

(p. 154)

A partir da página 155, apenas a voz de Annina se escuta, com uma meteórica aparição de Ulisse (pp. 391-396) para nos confirmar, não só o fechamento da ação relativa ao destino da personagem principal e dos seus escritos, mas também para, de uma vez por todas, deixar claro que em Annina tudo o que era, em substância, nos conduzia indelevelmente ao paradoxo de que a verdade, sobretudo da ação principal, radica no facto de ocorrer em um tempo a fingir:

“É por isso que voltei, para vos deixar estas linhas como errata de um livro que vive de omissões. 

Chegou então o momento de vos falar de Cosimo e dizer sem rodeios que tudo o que leram sobre ele não passou de uma mentira…”

(p. 393)

O par continuidade/rutura que adotei como chave da minha leitura de Um Tempo a Fingir não nos surge apenas nos Narradores, ele irrompe igualmente na caraterização das outras personagens — exemplo: a professora Bartolini tem dentro de si a pega Gioconda; o sociopata Marzio Falaschi, o marido que não perdoa traições; a lésbica Alessia corre a par da esposa arrebatada e enfeitiçada pela sua gravidez, etc., todavia, é na dimensão do Tempo, que, sobretudo a nível formal, a dita dualidade se impõe com mais veemência: a) os dois narradores (Annina e Ulisse) tecem o enredo da obra partindo de horizontes distintos da temporalidade: Annina fala/escreve a partir das décadas de 30 e 40, enquanto que Ulisse escreve/clarifica sem sair dos anos 50; b) dentro do discurso de Annina podemos encontrar autênticas clivagens temporais, quer através de resumos, quer de outras figuras como a analepse que se encontra na página 245, em que a narradora, abruptamente, faz uma rutura na desventura de Cosimo, para relatar um episódio da sua infância. Creio forçar um pouco esta minha linha de leitura, no entanto, não posso deixar de referir os momentos de humor, bem como os de poeticidade, que, não sendo propriamente um par antinómico, transpassam ao longo desta obra, dotando-a de fluidez e de aprazimento, e imprimindo à meticulosa arquitetónica do livro uma vivacidade que o afasta de qualquer hermetismo de tipo neobarroco. Aqui ficam: um excerto de humor (neste caso negro) e outro do poético:

“Ele estava sentado no sofá, o jornal pousado nos joelhos, a olhar de boca aberta para a figura milagrosa que tinha à sua frente. Ficara sem palavras, parecia admirá-la com o seu sorriso atónito e a expressão apatetada.

– Não dizes nada? – perguntou-lhe a Falaschi, cada vez mais regalada com o efeito que causava.

E ele nada dizia.

Pudera, estava morto.”

(p. 169)

“Ultimamente, os dias envelheciam logo pela manhã. Naquele não. Peppino tinha o condão de adiar o entardecer, chegava a parecer capaz de travar o passo às nuvens para deixar o sol à vista”.

(p. 179)

 

*

No enredo que assoma em Um Tempo a Fingir, a estória de Annina aparece como ação central: uma jovem judia que vive na localidade italiana de Pitigliano na época imediatamente anterior ao início da II Grande Guerra, época essa em que a direita extremista se organiza em Itália sob a batuta de Mussolini, mas Annina vive também os momentos sórdidos dessa referida guerra. Os incidentes por onde a sua vida vai passando — quer Annina os tenha vivido mesmo, quer os tenha sublimado no que vai escrevendo — são da mais diversa espécie: costureira ao lado da mãe, amante do marido da patroa, pega num lupanar de luxo, prisioneira dos fascistas, etc. No filigranar do seu romance, João Pinto Coelho deita mão de tudo o que a memória cultural lhe vai acenando, e que pode dotar a sua obra de autenticidade e eficácia: referi já o cómico e o poético, mas existem muitos outros elementos: a) as fugas de Annina com Cosimo para as cavoni (pp. 187-195) trouxeram-me à mente algumas páginas de Herculano, sobretudo no que diz respeito ao papel da negritude noturna na estória amorosa; b) a matança do porco (pp. 203-205), por sua vez, lembraram-me a ruralidade do Manuel da Fonseca de “Mataram a Tuna”; c) algumas das ações secundárias, como as de caráter social, económico e político fizeram-me reviver obras de realizadores de cinema como Vittorio de Sica e Rossellini, e mesmo a interconexão do político com a festa de bordel, salvaguardando as especificidades dos espaços de festa, mostraram-me analogias com “O Baile” de Ettore Scola; d) por fim, a caraterização psicológica das personagens: as perturbações da personalidade em Marzio Falaschi e na professora Bartolini, a bipolaridade de Alessia, os picos depressivos do Dr. Sedicario, etc. 

Convém, no entanto, e à guisa de conclusão, deixar bem claro que não estamos perante uma tateante procura de uma qualquer novidade informe e que mal se vislumbra, um navegar à bolina do já sido. Não! É bem claro o que se pretende alcançar! E foi exatamente por isso que deixei Peppino para o fim, essa personagem com que o romance se inicia e se encerra; Peppino, o que colhe aquilo que os outros já não querem para, a partir daí, criar um novo que extasie; Peppino, o arquétipo do maravilhamento; imagem de todo aquele que ousa, mesmo que o seu tempo seja Um Tempo a Fingir.

 


 

(1) “É a isto que eu chamo a ultradireita. Esta divide-se, por seu lado, em dois grandes subgrupos. A direita extremista rejeita a essência da democracia, isto é, a soberania popular e a regra da maioria. O exemplo mais infame da direita extremista é o fascismo, que levou ao poder Adolf Hitler (…) e Benito Mussolini, o Duce italiano, e foi responsável pela guerra mais destrutiva da história mundial. A direita radical aceita a essência da democracia, mas opõe-se e elementos fundamentais da democracia liberal, especialmente, aos direitos das minorias, ao Estado de direito e à separação de poderes. Estes subgrupos opõem-se ambos ao consenso da democracia liberal do pós-guerra, mas de maneira fundamentalmente diferentes. Enquanto a direita extremista é revolucionária, a direita radical é mais reformista.” (Cas Mudde, in O regresso da Ultradireita, da Direita Radical à Direita Extremista. Barcarena: Editorial Presença, 2020, p. 19).

 



 

sábado, 6 de janeiro de 2024


      A JANGADA QUE CORRE O RIO LI

.

.

Corre a jangada nas calmas águas do rio Li, nesse extenso sul

do grande continente oriental. Navega um panda-gigante, sentado

parece uma criança apesar da idade. Mastiga o quase inexistente

bambu, agarrado pela raiz à existência, florestas de sonhos

que sucumbiram lentamente pela ferocidade humana. O cenário

é mágico, saído da remota possibilidade de ser um filme

de ficção científica; dorme o encantador de serpentes,

hipnose de crentes dissimulados, que choram lágrimas de crocodilo,

furtivos e ausentes de chão, de atmosfera, revoltos na densa bruma

entre os montes de relevo cárstico. Chegará aos pagodes

de Gullin, gémeos de um ventre profundo, a lua e o sol

que o lago assimila pelas horas pedidas dos dias; fez-se noite

em Xingping. Sai o pescador pela madrugada fora quase rasante

sobre o silêncio da vida inteiriça, ensina o corvo-marinho

domesticado para agarrar as escamas duras na fome à porta.

A jangada desce o rio Li, com as barbas ao vento, o peso

dos sentimentos no olhar cansado, sobrancelhas carregadas

e rugas nos dedos mecanizados. Desce lentamente a jangada

o rio Li, engolindo as sombras da chuva, bebendo as lágrimas

de um povo milenar, somando as montanhas, que no bolso

dos afluentes levam os bandos até ao mar.

.

.

 Carlos Nuno Granja. “As Entranhas da Alma Proscrita”. Castelo Branco: RVJ Editores, 2023, p 7.

.


 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024


esperar-te-ei sempre  -  não te esqueças

mesmo que não pareça
.
.

  Filipa Barata. Palavras sem cicatrizes. Fafe: Editora Labirinto, 2023, p 25 (Prefácio de Marta López Vilar).
.
.
.

 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024


A Poesia  de Paura Rodriguez Leyton foi publicada na Revista Oresteia no dia 10 de dezembro de 2023.
.

Fragmento de Los momentos del fuego
.

Es una oliva preciosa la santa cruz….
Santa Teresa de Ávila
.
.
Cantos de arena – I
.
1
.
Lo supieron sus manos
cuando acarició la rosa
y el aire trizado
brilló en cada coágulo de luz.
.
Un tajo hirió el tiempo:
una breve eternidad
inundó el mundo
y las aves
callaron
y los grillos
no latieron en la noche.
.
Entonces
el filo
espinado
de un grito
congeló
cada pétalo.
.
2
.
Lo supo el remoto diseño de su piel.
Un aroma dulce
ungió cada tramo de epidermis.
Como arpegio de certero augurio
la brisa susurró el misterio.
(En el corazón del desierto
un campo de nardos apenas balbuceó).
.
3
.
Desde antes de nacer
sus ojos lo supieron.
Miraron la ruta peregrina,
la sed de la tierra
marcada por densas lágrimas
que golpeaban al caer.
Sus ojos contenían la noche:
hondo pozo
de agua fresca,
sonido
en la palabra
piedra.
.
4
.
La semilla lo sabía
antes
de ser
óvalo henchido de río
que regó viñas
sembrando altas sombras.
.
Un gorjeo
perturbó
la armonía
de las hojas
lanceoladas de un olivo.
Hasta el huerto
llegó
el rumor
germinado
en un sueño
y un luminoso verde
encendió la mañana.
(La tierra
entregó
su húmeda presencia).
.
5
.
Apenas nacidas,
las nervaduras
de las hojas
ya lo supieron
y su savia
estremeció el humus.
(Latidos
cristalizados en hojarasca
corearon la lluvia).
.
6
.
Desde su recóndito lecho
su corazón también lo sabía.
Cuando estalló en canto
(a veces gemido, a veces silencio),
estallaron unas ganas de reír,
humanas ganas de brotar en carcajadas
y cuadricularse en llanto.
Su corazón se abrió
en ruta abisal
hacia sí mismo.
.
El brillo
de la luna
se inscribió
en su memoria,
memoria de cíclicos médanos
que aún gotean.
¿Qué dolores
maquillaron
su alma?,
¿qué asombros
nacieron
de sus ojos?
.
7
.
De su corazón brotaron
trémulas oraciones
mordidas hasta el tuétano.
Lo supieron
sus huellas
labradas en el tiempo:
(cenizas de longevo alfabeto).
.
Tembló la brizna:
infinito
errar
de un canto íntimo.
De tímpano
en tímpano
avanzó la marea.

*****

Cantos de areia – I
.
1
.
Souberam-no as suas mãos
quando acariciou a rosa
e o ar dilacerado
brilhou em cada feixe de luz.
.
Um golpe feriu o tempo:
uma breve eternidade
inundou o mundo
e os pássaros
calaram-se
e os grilos
não cantaram na noite.
.
Então
o gume
espinhoso
de um grito
congelou
cada pétala.
.
2
.
Soube-o o impreciso esboço da sua pele.
Um perfume doce
ungiu-lhe cada fragmento da epiderme.
Como o certeiro arpejo de um presságio
a brisa sussurrou-lhe o mistério.
(No coração do deserto
um campo de nardos estremeceu apenas).
.
3
.
Logo após nascer
os seus olhos adivinharam-no.
Contemplaram a rota peregrina,
a sede da terra
marcada por espessas lágrimas
que golpeavam ao cair.
.
Os seus olhos encerravam a noite:
fundo poço
de água fresca,
sussurro
na palavra
pedra.
.
4
.

A semente sabia-o
antes
de ser
vala inundada pelo rio
que regava vinhas
semeando altas sombras.
.
Um gorjeio
perturbou
a harmonia
das folhas
lanceoladas de uma oliveira.
.
Ao horto
chegou
o rumor
ampliado
num sonho
e um verde luminoso
iluminou a manhã.
(A terra
ofertava
a sua húmida presença).

5
.
Mal nasciam,
as nervuras
das folhas
já o sabiam
e a sua seiva
remexia o húmus.
(Batidas
cristalizadas na folhagem
harmonizavam-se com a chuva).
.
6
.
A partir do seu recôndito leito
o seu coração também o sabia.
Quando irrompeu o canto
(às vezes gemido, às vezes silêncio),
surgiu também uma vontade de rir,
uma humana vontade de gargalhar
e de se desfazer em pranto.
O seu coração abriu-se
numa rota abissal
na sua própria direção.
.
O brilho
da lua
inscreveu-se
na sua memória,
memória de cíclicas dunas
que ainda acenam.
Que dores
mascararam
a sua alma?,
que assombros
nasceram
dos seus olhos?

.

7

Do seu coração brotaram
trémulas orações
mastigadas até à medula.
Souberam-no
as suas pegadas
lavradas no tempo:
(cinzas de um longevo alfabeto).
.
Tremeluziu o chuviscar:
infinito
errar
de um íntimo canto.
De tímpano
em tímpano
foi avançando a maré.
.

.

Tradução de Victor Oliveira Mateus



 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

A Poesia de Maria Grazia Calandrone foi publicada na Revista Oresteia no dia 10 de junho de 2022. A foto da publicação é da autoria da fotógrafa Barbara Ledda.
.

INTERIORE INVERNAL

a Gaetana, mia nonna

Ogni volta che ti penso – ma non è esatto
scrivere che ti penso, semplicemente
consisti
nel peccato
di amare la vita – vedo la cucina
d’inverno, l’ammattonato a scacchi di graniglia bianca
e verde, il carrello carico
di broccoli e arance, le foglie generose
e scure sporgere all’orlo
delle buste, l’aria fredda, la brina sui vetri
e il sole di mezzogiorno
intiepidire la soglia
di marmo, i vasi
di gerani al davanzale, le arance sul vassoio, i pavimenti
passati a cera. Un interno perfetto. E la tua muta
presenza seduta
come un sasso negli anni sulla riva del fiume,
la tua esistenza concentrata all’angolo
della cucina. Mentre il mondo cambiava (la guerra
del Vietnam, Pasolini, Moro,
la caduta del Muro
di Berlino) tu come gli animali
stavi senza domande. Senza dolore. Semplicemente
esistere. Esistere
e basta. Essere casa come sono casa
i corpi, gli abbandoni, le guarigioni.

E il tuo corpo alla fine oltre il limite umano sporgeva chiaro
all’orlo della vita come le foglie
d’arancio dal carrello. Esistevi oltre il limite,
per non lasciarmi sola. Curavi il disamore
che sarebbe arrivato, nella mia vita
come in ogni vita, con il tuo essere
come la pietra d’angolo
della realtà, quella che argina
l’incrollabile vuoto
della materia, l’albero appena prima del deserto.

***

INVERNO INTERIOR

Para Gaetana, minha avó

Todas as vezes que penso em ti – mas não é exato
escrever que penso em ti, simplesmente
consiste
no pecado
de amar a vida – vejo a cozinha
de inverno, a tijoleira com um padrão quadriculado de grés branca
e verde, o carrinho carregado
de brócolos e laranjas, as folhas generosas
e escuras acenando nas beiras
dos sacos, o ar frio, a geada nas janelas
e o sol do meio-dia
a aquecer a soleira
de mármore, os vasos
dos gerânios no peitoril, as laranjas na bandeja, os pavimentos
encerados. Um interior perfeito. E a tua muda
presença sentada
como uma pedra ao longo dos anos na margem do rio,
a tua existência concentrada no canto
da cozinha. Enquanto o mundo girava (a guerra
do Vietname, Pasolini, Moro,
a queda do Muro
de Berlim) tu como os animais
permanecias sem interrogações. Sem dor. Simplesmente
existir. Existir
e basta. Ser casa como são casa
os corpos, os abandonos, os restabelecimentos.

E o teu corpo no final além do limite humano emergia claro
na orla da vida como as folhas
da laranjeira no carrinho. Existias para além do limite,
para não me deixares só. Curavas a falta de amor
que chegaria, à minha vida
como a todas as vidas, com esse teu ser
de pedra angular
da realidade, aquela que estanca
o inabalável vazio
da matéria, a árvore que antecede o deserto.

Tradução do italiano de Victor Oliveira Mateus


INTELLETTO D´AMORE

La poesia è anarchica, risponde a leggi solo proprie, non può e non deve piegarsi a nient’altro
che a se stessa.
La sua legge interiore è ritmo, musica assoluta.
Questo spiega la commozione che proviamo nell’ascoltare letture di poesia in lingue a noi sconosciute.
Abbiamo l’impressione di comprendere
anche se non capiamo le parole,
perché le nostre molecole consuonano con la musica profonda della poesia,
che è la stessa in ogni lingua: un ultrasuono, un rumore bianco.
Una lingua invisibile, un ronzio nucleare
traducibile per approssimazione,
una sonorità che entra in risonanza con la parte più estranea e profonda delle nostre molecole
e col rombo primario della materia
che compone la sedia
sulla quale sediamo.
Come certa musica – penso al Chiaro di luna di Ludwig van Beethoven – è un linguaggio
letteralmente universale:
i poeti lo scrivono da sempre, ma le recenti scoperte astrofisiche lo confermano
con rigore scientifico, non più solo intuitivo: il nucleo più profondo di noi
è composto della stessa materia delle stelle.
Parole di Margherita Hack: «Tutta la materia di cui siamo fatti l’hanno costruita le stelle. Tutti gli elementi, dall’idrogeno all’uranio, sono stati fatti nelle reazioni nucleari che avvengono nelle supernovae, stelle molto più grandi del Sole, che alla fine della loro vita esplodono e sparpagliano nello spazio
il risultato di tutte le reazioni nucleari avvenute al loro interno».
Dalle scoperte ultimissime sappiamo ancora che
metà degli atomi che formano i nostri corpi è materia prodotta fuori dalla Via Lattea, viene da una distanza
che non si può
commensurare.
La vibrazione delle nostre molecole entra in risonanza materiale con la vibrazione dell’universo,
fin dentro l’universo sconosciuto. Questa forza
«che move il sole e l’altre stelle»
è quella che Dante chiama «amore».
La poesia intercetta il corale profondo e ininterrotto di questa forza, intona la sua voce
al rombo delle stelle extragalattiche
e al rombo primario della materia
che compone la sedia
sulla quale sediamo.
È un oggetto fatto di parole
sempre d’amore.
E basta.

***

INTELECTO DE AMOR

A poesia é anárquica, apenas obedece às suas leis, não pode nem deve vergar-se a nada além de si mesma.
A sua lei interior é ritmo, música absoluta.
Isso explica a comoção que experimentamos ao ouvir leituras de poesia
em línguas para nós desconhecidas.
Temos a impressão de compreender
mesmo se não entendemos as palavras,
porque as nossas moléculas se harmonizam com a música profunda da
poesia,
que é a mesma em todas as línguas: um ultrassom, um branco rumor.
Uma língua invisível, um zunido nuclear
traduzível por aproximação,
uma sonoridade que entra em ressonância com a parte mais admirável
e profunda das nossas moléculas
e com o rugido primordial da matéria
que compõe as cadeiras
em que nos sentamos.
Como certa música – estou a pensar na “Sonata ao luar” de Ludwig van
Beethoven – é uma linguagem
literalmente universal:
os poetas escrevem-na desde sempre, mas recentes descobertas da
astrofísica confirmam-no
com rigor científico, e não pela mera intuição: a nossa mais profunda
essência
é formada da mesma matéria das estrelas.
Palavras de Margherita Hack: “Toda a matéria de que somos feitos
formou-se a partir das estrelas. Todos os elementos, do hidrogénio
ao urânio, foram produzidos pelas reações nucleares que ocorrem nas
supernovas, estrelas muito maiores do que o Sol, que no final das suas
vidas explodem e dispersam pelo espaço
o resultado de todas as reações nucleares que ocorreram no seu interior.”
Das últimas descobertas sabemos ainda que
metade dos átomos que formam os nossos corpos é matérias produzida
fora da Via Láctea, vem de uma
distância que não se consegue
medir.
A vibração das nossas moléculas entra em ressonância material com a
vibração do universo,
no seio de um universo desconhecido. Esta força
“que move o sol e as outras estrelas”
é aquela a que Dante chama “amor”.
A poesia interceta o coral profundo e ininterrupto desta força, sincroniza
a sua voz
com o rumor das estrelas extragaláticas
e com o rugido primordial da matéria
que compõe as cadeiras
em que nos sentamos.
É um objeto feito de palavras
sempre de amor.
E basta.

Tradução do italiano de Victor Oliveira Mateus


Maria Grazia Calandrone è poetessa, scrittrice, giornalista, drammaturga, autrice e conduttrice Rai, regista per «Corriere TV». Tiene laboratori di poesia in scuole pubbliche e carceri. Premi Dessì, Europa, Lerici Pea, Metauro, Montale, Napoli, Pasolini, Trivio per la poesia, Bo-Descalzo per la critica letteraria. Ultimi libri Serie fossile e Il bene morale (Crocetti 2015 e 2017), Gli Scomparsi – storie da «Chi l’ha visto?» (Pordenonelegge 2016), Giardino della gioia (Mondadori 2019), Fossils (SurVision, Ireland 2018), Sèrie Fòssil (Edicions Aïllades, Ibiza 2019), l’antologia araba Questo corpo, questa luce (Almutawassit Books, Beirut 2020) e il romanzo Splendi come vita (Ponte alle Grazie 2021, semifinalista Premio Strega). www.mariagraziacalandrone.it

A foto desta publicação é da autoria de Barbara Ledda ©

The photo in this publication was taken by Barbara Ledda ©