sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Pré-publicação (Este trabalho, uma tradução de um longuíssimo monólogo oral, não está ainda concluído... terminá-lo-ei em breve.)
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                                             A CONDIÇÃO FEMININA
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                                                                Marguerite Yourcenar
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  Bem, a mulher na nossa época! Primeiro é preciso pensar no que é uma mulher e, creio, que a primeira nota que tomaremos é que uma mulher é um ser humano, que naquilo que lhe diz respeito quanto à ordem sexual – o que é, evidentemente, considerável como domínio!- ela comporta-se e age, biologicamente, como um homem: ela digere, o seu cérebro funciona, ela anda, ela serve-se das mãos para tomar contacto com as coisas e trabalhar, serve-se dos pés para andar e o conjunto desta organização é, num primeiro momento, uma organização humana. É preciso, creio, nunca esquecer isto, que quando pensamos nas mulheres pensa-se geralmente de dois modos: ou pensa-se a partir do ponto de vista dos homens, sendo elas então um grupo distinto; ou pensa-se na reação das mulheres, enquanto reagem contra os homens e aqui temos mulheres em oposição aos homens. Quando ultrapassamos estes dois pontos de vista, apercebemo-nos que uma senhora, que compra o jornal, que telefona para os bombeiros porque dadas instalações precisam de reparação, quando assina um cheque para pagar as despesas do mês, etc., se comporta exatamente como um homem o faria nas mesmas circunstâncias; ela é prisioneira das circunstâncias sociais do mesmo modo e, nesse momento, elas não se sentem nem mais nem menos mulheres. Lembro-me perfeitamente de me ter acontecido que certas mulheres quando me entrevistaram perguntaram: quantas vezes por dia se sentiu mulher e se experienciou a si própria enquanto mulher?... Claro que quando compramos um vestido – embora também haja calças para mulheres -, quando compramos sapatos, pois há sapatos diferentes para homem e para mulher ou quando descemos à cave de um restaurante e está refletida na porta uma mulher bela, nesse momento, claro, automaticamente e de modo rotineiro, sentimo-nos mulher, mas nos outros campos, que são as grandes ocasiões da vida, isso não acontece, e penso que isto é muito importante. Além disto, há o facto de certas mulheres, sempre ou em algumas épocas da sua vida, serem muito mais mulheres do que outras, são cem por cento mulheres e outras são-no muito menos, com vários elementos masculinos, e que outras são cinquenta por cento masculinas e cinquenta por cento femininas e existem mesmo outras que possuem aquilo a que nós chamamos uma forte masculinidade, e só isto já daria um grande debate, o que é isso de ser do tipo masculino?, e não nos esqueçamos, por exemplo, que quando falamos da condição das mulheres no passado elas estavam em grande desvantagem ante as leis, o que era verdade, por exemplo, apareceu recentemente em França um livro que se intitulava “Gabrielle Perreau, femme adultère” de um certo advogado chamado [Pierre ] Darmon e que conta com grande detalhe, a partir dos Arquivos da Biblioteca Nacional, a história de uma mulher do século XVIII que passou quase toda a sua vida na prisão, porque o marido levou à letra a lei que permitia mandar prender a sua mulher quando esta lhe era infiel, quando lemos isto, na modalidade habitual do casamento francês pelo registo… pergunto-me quantos maridos teriam tomado esta decisão, creio que foi algo que existiu mais na papelada do que na realidade, mas mesmo considerando que as mulheres tenham conseguido algumas vantagens legais ao longo dos séculos, por exemplo, o poderem elas próprias fazerem o seu testamento ou organizarem as suas próprias finanças e tudo isso…  mas isso é verdade só nos papéis. Quando observamos, por exemplo, uma mulher da pequena burguesia que dirige uma boutique, apercebemo-nos de que é o marido que faz as entregas e que é ela, encostada ao balcão, que toma todas as decisões, ontem à tarde, eu e um amigo, trazendo as compras da vila, perguntávamo-nos se era a mulher ou o marido que dirigia [a loja] , finalmente, portanto, há uma grande diferença quando observamos entre o que está imerso e o que se passa num ponto de vista legal, não nos esquecemos disso, não nos esquecemos que as mulheres dos séculos XVII e XVI não eram ministras de Estado nem Presidentes como em Israel ou na India, mas, por outro lado, jogam um papel formidável na política que fazem os ministros, elas não eram académicas mas faziam os académicos… quando entrei para a Academia – fui a primeira mulher a entrar – encarreguei-me da acalmar todos aqueles senhores dizendo-lhes que não estavam ameaçados, que se seguia apenas a ordem do tempo e que outrora outras mulheres estiveram muito mais do que agora colocadas num pedestal e que nenhum tivera a ideia de lhe oferecer uma cadeira na Academia.
   O que me inquieta no feminismo de hoje, com o qual estou sempre de acordo quando se trata de salários iguais para igual mérito, é evidente, quando se trata da liberdade da mulher no que diz respeito às funções femininas, como por exemplo a limitação dos nascimentos sob todas as suas formas, etc., eu estou completamente de acordo com tudo isso, evidentemente, mas há, contudo, um elemento incómodo: é o elemento da reivindicação contra o homem, uma tendência para a mulher virar-se contra o homem, o que não me parece natural, que não me parece necessário e que tende a estabelecer guetos, de guetos estamos nós já fartos, e quando vejo as mulheres num estabelecimento para mulheres ou num clube só para mulheres, ou qualquer outra coisa … ou restaurantes só para mulheres digo-me se não serão de novo os guetos. O que teria acontecido há trinta anos se nós tivéssemos dito: você não tem o direito de entrar num restaurante para mulheres?, e estamos em vias de recriar isso, o que é lamentável, é que as coisas só se farão por uma compreensão e uma simpatia… e uma grande colaboração entre homens e mulheres, e penso o mesmo para a relação do homem com as outras espécies animais, todos serão salvos pela simpatia e pela compreensão e pela ausência de ignorância recíproca… e gostaria de ver as mulheres pensarem numa espécie de fraternidade humana, em vez de se oporem… um grupo contra o outro, é o que me impede de aderir, de assinar o meu nome na maioria dos prospetos de grande parte das organizações feministas.
   Não gosto de etiquetas e não gosto daqueles que separam e reduzem os seres a certas atitudes, penso que uma mulher deveria ter a liberdade de ser tanto mulher, ou tão pouco mulher, quanto o desejasse, isso prende-se com outra dificuldade que se coloca na nossa época… um pouco como em todas as minorias, um pouco como as velhas instituições quando se regeneram, como a igreja católica relativamente ao comunismo, luta-se a favor das liberdades que resultavam úteis, talvez mais do que das liberdades que seriam úteis nesse momento presente. Sabemos bem que há cinquenta anos, ou duzentos anos, havia épocas em que as mulheres era suposto ficarem fechadas no interior das suas casas a tratarem só da cozinha, se não tinham meios de ter uma cozinheira, ou a vigiarem a cozinheira se tivessem uma, mesmo assim elas sonhavam outras coisas, por exemplo como em Moliére em “Les femmes savantes” onde as mulheres se deviam ocupar da cozinha e não de ler o dicionário, isso é, evidentemente, extremamente vexatório, mas na realidade, ainda quando vemos a realidade da época, apercebemo-nos que frequentemente outra coisa… nos nossos dias a situação não é tão dramática como a referida, mesmo ao nível da vida doméstica e o que se produziu, infelizmente, é que muitas mulheres fizeram da vida masculina o ideal, é uma ideia engraçada já que a vida dos homens não é tão ideal quanto isso, e sonham ser o equivalente desse senhor que se levanta às sete e meia da manhã, pega na sua mala, engole o seu café a correr e precipita-se para o escritório, como ideia de libertação é uma ideia que me deixa fria… e a ideia de carreira, a ideia de sucesso, do sucesso no domínio, do sucesso no dinheiro, ser uma administradora que organiza, que tem pessoas ao seu serviço, sob as suas ordens, tornou-se para a mulher o ideal do sucesso humano, na minha opinião é uma derrota lamentável para os dois sexos, pois se um homem também só tem isso para oferecer é bem triste e se uma mulher o imita e sonha com uma carreira desse tipo ela aperceber-se-á mais tarde que fracassou em muitas coisas… o importante será estabelecer um novo ideal humano, um ideal que ofereça aos seres talvez não necessariamente mais ócio, mas mais liberdade de atividade e de escolhas, mas menos num mundo onde o trabalho se tornou sacrossanto, se tornou uma forma hipócrita de escravatura, já que as pessoas não fazem mais nada do que isso, estão obcecadas e quando o abandonam, porque vão para a reforma, deixam-se morrer ou entregam-se a dados jogos inúteis, ora, em vez disso seria importante estabelecer uma espécie de igualdade humana na qual nas horas se partilhasse as tarefas, os trabalhos, os prazeres, simplesmente, em companhia…. até hoje o feminismo, esse feminismo a cem por cento, não colocou a tónica nestes aspetos e há ainda outra coisa, há um facto que me deixa siderada, quando vemos certas revistas femininas e vemos um artigo instigador na primeira página dizendo que a condição da mulher é atroz e que ela se deverá erguer a uma condição igual à do homem, sobre isto e sobre aquilo, mas ao virarmos a página vemos sobre um magnífico papel brilhante uma imagem de cosméticos, um sutiã, uns sapatos de salto alto e toda uma imensidão de coisas que pertence ao velho arsenal da mulher objeto, parece que essas mulheres querem jogar em ambos os lados do tabuleiro, mas ou bem que se é uma mulher com uma mochila às costas que faz excursões ou que partilha o trabalho doméstico com o seu marido,  seu amigo, o seu irmão ou quem quer que seja ou é uma senhora coberta de cosméticos e jóias geralmente pagas por um senhor qualquer, ora as duas coisas não se conjugam e é frequente ver-se ainda o balançar entre uma atitude e outra um grande número de mulheres, então, evidentemente, eu não condeno quando quatro homens entre cem e quando quatro mulheres entre cem falam infalivelmente mal dos homens ou das mulheres e nos dois casos temos a impressão que são fórmulas abstratas, como as fórmulas algébricas, quem são esses homens?, quem são essas mulheres?, e que em cada caso e isso é de novo um mundo psicológico, um mundo da sensibilidade humana que me incomoda muito, asseguram-nos que os homens não entendem as mulheres e vice-versa, não vejo nenhuma razão para que isso seja verdadeiro, pois de uma parte e de outra trata-se de seres humanos, mas creio que há de novo uma certa atitude religiosa que impediu o homem  de se aproximar livremente à imagem animal, certas atitudes de parecer bem, de conveniência, etc. têm impedido muita coisa, até que ponto os dois sexos podem, poderão, confraternizar e compreenderem-se sem as rotinas ou as fórmulas de hoje… e há outra coisa que me choca sempre: é o papel enorme jogado pelo ciúme, sobretudo na literatura francesa, desde os primeiros romances de amor ou de uma tragédia de Racine, há duas personagens, um homem e uma mulher apaixonados ou um que o está e o outro não… parece que a ideia de posse, a hostilidade contra toda a liberdade que poderá ter o outro joga aqui um papel, ouso dizer, de três quartos na conceção que a França tem do amor, isto parece-me miserável, Montherland dizia: o ciúme é um sentimento de primeira… não sei porquê, eu direi entes que é um sentimento de costureirinha, enfim, um sentimento de dactilógrafas insignificantes com pouca instrução, mas é certo que esta noção está completamente arruinada pela questão do tomar posse da parte de um e do outro que é o ciúme, o homem crendo-se o mestre, o possuidor, e a mulher, no outro lado, crendo-se absolutamente como possessão do marido e nos dois casos se se tivesse sido mais maleável ter-se-ia salvo a situação tradicional, talvez mesmo sem se recorrer ao divórcio, que não passa de um modo de escapar a essa situação, mas trazendo os seus próprios dramas e problemas sobretudo se há crianças, como vejo frequentemente acontecer à minha volta, mas essa espécie de compreensão fraternal, seja isso o que for, entre homem e mulher, manteve-se na nossa época muito rara, o pior nesta situação é que se criam bloqueios que são excessivamente difíceis de superar, como por exemplo a mulher construindo em si essa ideia artificial de um homem como dono, o que nunca o é, como chefe, como um homem que ama o dinheiro, como o homem que triunfou e que está sempre longe de o ser.. e dando-se essa imagem como ideal está terrivelmente afastada da ordem das coisas e, por exemplo, perdeu o sentimento, que certos homens estão em vias de adquirir, ou então que jamais o perderam, do charme da importância da vida – não direi doméstica, porque doméstica é uma palavra boba… o que quer dizer doméstica? – mas, enfim, cozinhar, ordenar as coisas em seu redor, arranjar-se para que o seu espaço, quando se tem um pequeno apartamento de duas salas ou se é uma casa na província que terá quarenta, seja muito mais agradável para viver, enfim, servir-se desse género de trabalhos para embelezar o mundo nesse pequeno canto onde se está é muito considerável… e relativamente à cozinha, como diz frequentemente um psicanalista, é uma forma de amor, dar de comer às pessoas é um modo de dizer que as amamos, exatamente como com os animais
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© Marguerite Yourcenar.
© Da tradução: Victor Oliveira Mateus.
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Pré-publicação (Texto que me foi pedido por um autor que está a organizar uma obra subordinada ao tema "Tristeza". Penso que essa obra sairá em breve. Ora, eu que nunca percebi porque é que a felicidade tem de ser sinónimo de alegria, de balbúrdia, e que já vi tantas pessoas serem felizes de uma forma calma, branda e, até mesmo, triste, enviei este texto... pois pode-se ser feliz de muitos modos.)
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                                       Solidão incompleta
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    Solidão incompleta, prado imenso onde as oliveiras se retorcem em preces que ninguém escuta e onde o silêncio, embalador, imprime os brilhos da infância no rastro inapagável dos mortos. Casa longínqua com janelas entaipadas e uma porta abrindo-se para o alto, casa para o desacerto das crianças, entre cavalos de papelão e pássaros sem canto nem asas. Solidão incompleta com suas bermas floridas, mas só às vezes, para os animais desgarrados aceitarem a inexistência dos caminhos, enquanto eu, avesso aos anúncios das gargalhadas açaimadas, debruço-me para o rumor das frases -irrompendo a medo - no branco onde me desenho e persisto. Solidão incompleta com assomos de uma memória que resiste, porque, vendo bem, toda a felicidade é triste.
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 © Victor Oliveira Mateus
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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

PRÉ-PUBLICAÇÃO
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                        VELHICE: MÁSCARAS E UNIVOCIDADE
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                         Eu, uma criança, muito velha, olho ao longe, para
                         além das ondas, em direcção à casa maternal,
                         a terra das migrações,

                                                  Walt Whitman
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    Não é difícil imaginar como o corpo e o rosto podiam permanecer imperscrutáveis nas comunicações, não presenciais, das primeiras décadas do século XX. A ocultação do rosto nas comunicações à distância era assim um comportamento de evitamento que salvaguardava, remetente e destinatário, do pormenor e de uma exposição minuciosa das marcas do tempo. Nestas décadas, o outro longínquo como tal permanecia, bem ao contrário do longínquo-próximo que nos é dado pelas redes sociais, whatsapp e meios similares das primeiras décadas do século XXI. Nesses primeiros decénios do século XX, e neste contexto sociocultural, visava-se o longe pelo telefone modelo castiçal, pertença exclusiva das classes altas ou de certos estabelecimentos comerciais aonde os pobres se deslocavam se acaso precisassem de telefonar, mas também proliferava o correio aéreo e terrestre onde a língua do remetente passada a preceito no verso da estampilha e da pestana do sobrescrito dava os últimos retoques para a eficácia da comunicação. Estes eram os modelos comunicacionais predominantes, que, contudo, não excluíam outros provindos do século anterior como os adstritos à columbofilia, ao morse, etc., que ainda hoje se mantém em círculos muito específicos. Alguns destes meios de comunicação, ao longo do tempo e em Portugal, sofreram derivações, como, por exemplo, os aerogramas tão usados aquando da guerra colonial, todavia, o que podemos enfatizar é que estávamos sempre perante a ocultação do rosto, só acidentalmente desvelado em fotografias a preto e branco que esporadicamente se enviavam a destinatários perfeitamente identificados.
   Acompanhar o processo de envelhecimento do outro ausente mantinha-se assim conduta ingente e quase sempre de resultados gorados. Todavia, se não se pode acompanhar um dado processo no mesmo, isso não obstaculiza a apreensão de uma ou outra dada etapa, do seu produto final e da inquietação sobre o tema com a consequente reflexão em torno do mesmo, aliás, na esteira do que sempre tinha sido efetivado desde a Antiguidade.
   Em 1970, Simone de Beauvoir publicaria o seu La vieillese (Ed. Gallimard), que segundo palavras da filósofa se destinava a produzir na reflexão em torno do mundo dos idosos o mesmo efeito que o Le deuxième sexe (Ed. Gallimard, 1949) havia produzido no universo feminino. O livro em questão, organiza-se em duas grandes secções: como a sociedade encara a velhice e como as famílias e os vários filósofos a têm visto, mas também a vida através do olhar de um cidadão idoso, isto é, as condições socioculturais que rodeiam a velhice: pobreza, marginalização, negligência, anonimato. Esta obra, que visa dar-nos o sentido unívoco do que é a velhice, dá-nos acima de tudo, com a máxima exigência, todo um conjunto de máscaras com que ela se nos tem apresentado: máscaras sociais, económicas, culturais e políticas. Em entrevista televisiva posterior, Beauvoir confirmará que envelhecer é muitas coisas ao mesmo tempo: uma degenerescência de órgãos, uma diminuição ou anulação de funções biológicas e cognitivas, uma condenação à falta de trabalho e consequente quebra no nível de vida e mesmo à rotulagem de pária e empecilho, como o testemunha o escabroso epíteto posto a circular por um jovem ligado a uma governação de triste memória, que apelidou os reformados de peste grisalha. Pela altura desta entrevista de Beauvoir, Sartre concede também outra, onde, acidentalmente, refere a sua situação de velho, aqui o filósofo regressa ao capítulo dedicado ao Regard do L’être et le néant , bem como à conceção de Inferno esparsa por todo a sua obra dramática, diz ele que a apreensão de si enquanto idoso é uma apreensão mediatizada e não imediata nem espontânea, que é quando vai a uma manifestação e ouve alguém dizer: deixem passar o velho, que é aí que ele se perceciona enquanto velho, por conseguinte, a velhice são os outros. Torna-se aqui claro o hiato entre as duas abordagens do mesmo tema, quer quanto ao afunilar de cariz essencialista, quer quanto à abrangência visando particularidades.
  Na entrevista já referida, e sempre com a preocupação de demonstrar o quanto a contemporaneidade subverteu o valor ser velho, Beauvoir afirma que o hoje se opõe aos mitos, onde os velhos se consideravam sábios, veneráveis e respeitáveis, esta tese parece, no entanto, não confirmada pela estrutura dos próprios mitos greco-latinos, onde até Cronos devora cinco dos seus seis filhos e Zeus se vinga do próprio pai agrilhoando-o nos mundos subterrâneos, aliás, o próprio Hesíodo não se esquece de referir Poseidón e Zeus como distribuidores de bens e males aos homens (Cf. Los trabajos y los dias, Aguilar, 1973, pp 63-64). Se na estrutura do mito o velho não tem um estatuto e um papel unívocos, o mesmo sucede em toda a literatura da Antiguidade, pois, se em Homero, circula o ancião Príamo, semelhante aos deuses (Ilíada, XXIV: 372) e aqui podemos encontrar o velho integro, cioso da honra, da dignidade e do culto dos mortos (Ilíada, XXIV: 322-691), se em Sófocles se nos defronta um velho integro mas sofredor e injustiçado (Cf. Filoctetes, Cotovia, 2006, p 27, pp 44-45; a opção por exemplificar com este texto não tem a ver apenas com a sua qualidade, mas também com o magistral desempenho que Luís Miguel Sintra teve desta personagem, no então Teatro da Cornucópia), o que é um facto é que também podemos achar, em toda esta literatura, o velho imbecilizado, ridículo e digno de escárnio (Cf, Aristófanes, As Nuvens, 1984: 140-165, 475-519). As máscaras da velhice são, por conseguinte, múltiplas, quer na obra de Beauvoir quer nos exemplos da Antiguidade para que ela remete, não existem, nem numa nem em outros, uma preocupação de tipo ontológico, que intente determinar a nível substancial o que é isso de velhice, que nos diga de forma unívoca o que se oculta por baixo desse conceito, preocupação não muito diferente a que percorre um outro continuum, paralelo, que se reporta de Cícero aos nossos dias.
   Em Catão-O-Velho ou Da Velhice (Sociedade Editora Livros de Bolso, 2009), Cícero apresenta-nos um diálogo entre Catão, Cipião e Lélio, onde o primeiro irá refutar as quatro grandes falhas atribuídas à velhice: que afasta os homens dos negócios, que enfraquece o corpo, que suprime os prazeres da vida e que se encontra perto da morte. Logo no início da obra Catão estabelece a tese de que a velhice não é, para o sábio, um mal, já que se deve seguir o curso natural da vida. Esta aceitação do inevitável como veículo para a serenidade e o respeito pela ordem da natureza, princípios fundamentais do Estoicismo, atravessam toda esta obra: “(…) nós, que seguimos a natureza, o melhor dos guias, e a ela obedecemos como a um deus, somos realmente sábios.” (Cícero 2.5) e será a partir deste postulado que o filósofo demonstra que a velhice não é um mal. Quanto ao afastamento dos negócios, este argumento é desmontado com vários exemplos (Cícero 6.15-8.26), já que nada impede um velho de ser um excelente senador, um magistrado justo, um bom aconselhador de agricultores e tantas outras ocupações e negócios; relativamente à relação da velhice com o enfraquecimento do corpo, diz Catão: “Voltando a mim, - estou com oitenta e quatro anos(…) certamente já não possuo aquela força física dos tempos quando era militar (…) e, contudo, como vedes, não me sinto enfraquecido ou abatido devido à velhice (…) tenho menos força do que cada um de vós. Mas, vós não tendes a força do centurião Tito Pôncio; e será ele mais excelente por isso?” (Cícero 9.27-10.33), através de um processo de relativização demonstra-se que a falta de vigor não tem uma relação necessária com a velhice nem com a excelência, mas antes com a saúde e a sua falta, já que a debilidade tanto ataca velhos quanto jovens; no que diz respeito à relação velhice-prazeres (Cícero 12.39-18.65), Catão esmiuça os vários tipos de prazeres, alguns deles tão prejudiciais ao corpo quanto ao cultivo da virtude, por conseguinte, por que não há de sentir um velho mais prazer na reflexão e na observação da natureza do que um jovem na voluptuosidade e nos festins?; por fim, a quarta falha atribuída à velhice: o facto de ela estar perto da morte (Cícero 18.66-23.85) e aqui o autor é claro, pois a morte encontra-se perto de todas as idades: “Tem a juventude, muito mais do que a nossa idade, ocasiões para morrer: as doenças grassam mais facilmente entre os jovens…” (Cícero 19.67). Cícero trilha depois o caminho anunciado por Platão na Apologia e no Fedon : “depois da morte, ou não existe sensação ou, se existe, ela é agradável” (Cícero 20.74). Vemos, neste livro, que, embora não se determinando a univocidade do que é isso de velhice, e dela apresentando-se as mais diversificadas máscaras, apesar disso, ela não é um mal, mas antes um estado intrinsecamente ligado à acalmação dos sentidos, ao cultivo da razão e da virtude e, por fim, ao seguimento e respeito pela ordem da natureza. Este não encontrar uma definição, à boa maneira socrático-platónica, do que é a velhice em-si, mas antes a sua caraterização por vetores que a desvelam numa positividade multifacetada, ou seja, como fase da existência intimamente ligada à acalmação, ao saber, à virtude, à serenidade, será, então, este modelo de abordagem que se irá impor às reflexões subsequentes. Assim, Séneca criticando os que esbanjam o tempo que lhes é dado viver, ao contrário dos que nele refletem e aceitam a ordem da natureza e entendem a vida como uma preparação para a morte, diz que para os primeiros a vida é sempre curta, enquanto que para os segundos ela é um tempo suficiente, e Séneca conclui: “Os velhos fracos pedem mais anos de vida; fingem ser mais novos do que de facto são; confortam-se com este engano e enganam-se (…) Mas quando, por fim, alguma doença lhes recorda a sua mortalidade, morrem aterrorizados como se não estivessem apenas a deixar a vida, mas a serem arrancados a ela (…) Mas aqueles cuja vida não está envolvida em nenhum negócio vivem longamente. Não desbarataram a sua vida, não a desperdiçaram aqui e ali (…) Assim, por curta que seja, é plenamente suficiente e, portanto, sempre que o seu derradeiro dia chega, o homem sensato não hesitará em receber a morte com um passo firme.” (In Da brevidade da vida, Coisas de Ler, p 23). Séneca insiste, por conseguinte, na tese de que a razão arranca todos os vícios e que para aquele que a cultiva não há desterro possível nem temor que o amedronte, seja este o da pobreza, o da velhice ou o da morte: “Se não considerares o teu último dia como castigo mas como uma lei da natureza, quando tiveres lançado do teu coração o temor da morte, não entrará em ti qualquer terror” (In Consolação para Helvia, Coisas de Ler, p 59).
   Vemos ainda que para o entendimento do que é a velhice em-si de pouco nos servem os contributos gerontológicos, sempre tão úteis na sua aplicabilidade prática, mas com as habituais falhas ao nível da delimitação de etapas e seus elementos constitutivos, bem como as compreensíveis incapacidades dos conhecimentos provindos da geriatria, todavia, os contributos vindos de um universo outro que o das ciências, como temos visto, também não deixam de se nos apresentar sempre com seus jogos de incompletude e refrações, pelo que poderemos aferir algumas conclusões intermédias: ao contrário da reduzida variabilidade etária das outras fases da vida (infância, puberdade, etc.) na propalada velhice essa variabilidade pode chegar às dezenas de anos; ao contrário do caráter fixista das mutações biofisiológicas (maturação das estruturas cognitivas, alterações no tipo de pensamento, maturação de dados sistemas como por exemplo o endócrino, etc.) que ocorrem nas outras fases da vida, na velhice nada nos garante que surjam processos demenciais, incapacidades físicas ou momentos de mendicidade afetiva e económica. Há, pois, uma abissal falha entre o olhar que se debruça sobre a velhice procurando-lhe a sua univocidade e aquele outro que identifica e esquematiza as outras fases da vida! Dela poderemos, e num regresso aos Estóicos, dizer tão-só e serenamente: “ Tudo está em transformação, tu mesmo és uma mudança constante e, em certo sentido, uma dissolução; é assim para o mundo inteiro.” (Marco Aurélio IX: 19), ou ainda: “ É ridículo e estranho todo aquele que se surpreende com um acontecimento da vida!” (Marco Aurélio XII:13). Contudo, esta aceitação serena da velhice não é apanágio do hoje ocidental, onde o culto do aparente e do vistoso, bem como a hipervalorização da juventude estabelecem cânones e engrossam mercados nas mais variadas áreas socioculturais, que nem sequer deixam de fora as mais diversas artes como o cinema e a apresentação pública do poeta. A civilização ocidental é, hoje, uma civilização assustada, que, entregue à ganância - para usar o termo de Peter Singer - e ao torvelinho do quotidiano, projeta nas gerações que a procederam os temores que o vazio que foi edificando não consegue superar. Nestes mecanismos de projeção e pânico certos epifenómenos mereceriam um estudo social e psicanalítico mais aprofundado, como por exemplo a associação velhice/lar de idosos (aliás, a própria análise da linguagem é reveladora de frustrações e mecanismos defensivos, pois como fuga ao medo sempre surgem novos conceitos: idoso, terceira idade, quarta idade, personas maiores , etc.), mas na associação acima referida não ocorre um estudo comparativo entre os residentes dos ditos lares e os milhares de crianças e jovens que vagabundeiam, adoecem e morrem em países asiáticos, africanos e da América latina. E eis-nos assim regressados aos quatro argumentos da obra de Cícero referida no início desse ensaio!
      A impossibilidade de fixar num mero conceito ou numa única representação geral e abstrata de cariz científico esse estado, ou processo, comummente conhecido por velhice, visto a singularidade invadir toda a tentativa de generalização e o particular irromper aqui e ali e, com suas intrusões e variáveis não esperadas, recorda-nos o que um reputado psiquiatra e sexólogo disse acerca da problemática da orientação sexual, referiu ele, numa das suas crónicas, que não existe heterossexualidade nem homossexualidade, mas sim heterossexualidades e homossexualidades, assim, por abuso e paráfrase, poder-se-á também dizer que não existe velhice, mas velhices, velhos que aqui ali se poderão assemelhar, mas que também se podem distinguir (até ao nível da relação idade/ processos degenerativos) segundo os mais diversificados contextos e experiências vividas. É, portanto, a relação de afinidade que induz os processos de rotulagem e categorização, já que a velhice não tem um sentido unívoco, não passa do célebre flatus vocis à boa maneira do nominalismo de semelhança defendido por Guilherme de Occam: “ (…) o universal é um sinal, nada mais. O nominalismo de Occam consiste em manter esta posição, sem desfalecimento.(…) Occam nega essas essências (…) Este mestre de Oxford vê muito bem que pôr uma realidade equivale a pôr um indivíduo…” ( In A Filosofia na Idade Média de Paulo Vignaux. Coimbra: Arménio Amado Editor, 1959, p 195).
   Esta recusa do universal e a omnipresença invasora do particular, se, por um lado apaga a essência daquilo de que se fala, por outro, não impede o acesso a conhecimentos e a aplicações práticas, do mesmo modo, aliás, que em Occam o singular podia sempre gerar no intelecto conhecimento. E este balancear do fenoménico e da sua cognoscibilidade é particularmente patente no modo como os diversos indivíduos vivenciam a sua própria velhice e a do outro – vejam-se dois exemplos radicalmente distintos: Montaigne, referindo que o modo como encaramos os bens e os males depende da opinião que deles temos (Essais: I:XIV), cita o que o poeta latino Albio Tibulo diz dos sofrimentos de dadas mulheres para parecerem mais novas, pois “Elas têm o cuidado de arrancar pela raiz todos os seus cabelos brancos e de reconstruirem um rosto novo removendo a pele envelhecida” (Elegias I:VIII), ora, se os romanos praticavam já a cirurgia estética e esta tinha empenhadas seguidoras, passados largos séculos não há ainda uma posição universal sobre tal modo de iludir o envelhecimento, como se pode ver numa entrevista – existente no youtube - que a romancista, poeta e atriz Rosa Lobato de Faria concedeu, diz a escritora acerca das operações plásticas, com aquela habitual sensibilidade com que costumava olhar o real e que depois punha nas palavras quando dele falava: “(…) tenho pensado bastante no assunto e de repente fiquei com medo que a minha cara, depois de uma plástica, perdesse algumas expressões que eu acho que só se tem no último terço da vida, uma delas é a da ternura infinita que eu só vejo nos olhos dos mais velhos.” Também a volatilidade das datações e das periodizações enfatiza a irrupção do particular, como já referimos, no que se pretendia positivo e unívoco e um dos casos mais interessantes foi o do próprio Montaigne que em 1570, com 38 anos e julgando-se velho, se entrincheira na sua torre para refletir, distanciar-se da realidade e escrever a sua obra, contudo, quando “chegou o ano de 1580. Durante dez anos esteve na sua torre, isolado do mundo e acreditou que acabaria assim. Agora reconhece o seu erro e Montaigne sempre reconhece os seus erros. O primeiro deles foi julgar-se velho aos trinta e oito anos, preparar-se para a morte demasiado cedo e, de facto, ter-se enterrado vivo. Tem quarenta e oito anos e, com surpresa, constata que os seus sentidos não estão fragilizados, pelo contrário, estão mais vigorosos, o pensamento mais esclarecido, a alma igualmente tranquila, mas mais ávida, mais corajosa, mais impaciente.” (In Montaigne de Stefan Zweig. Porto: Assírio & Alvim, 2016, p 70) e o filósofo dedica, então, o tempo que se segue a viajar, qual “homem de quarenta e oito anos, que brinca sempre com a velhice, tem mais vitalidade do que os jovens (…) chega ao seu castelo a 30 de novembro de 1581, mais jovem, com o espírito mais vigoroso e mais sagaz do que nunca. Dois anos depois nasce o último dos seus filhos.” (Cf. Stefan Zweig, Op. Cit. pp 79-81), após esta viagem, e como assinalava a obra de Cícero referida no início, Montaigne ainda é solicitado para esse árduo negócio que é conciliar o último dos Valois (Henrique III) com as pretensões ao trono do primeiro Bourbon (Henrique de Navarra, futuro Henrique IV). Sempre jogando à cabra-cega com a velhice será ainda pouco antes de morrer que Marie de Gournay, pouco mais velha do que a sua filha mais nova, se apaixonará por este homem através da sua obra.
   O remover-se uma definição, positiva e universal, de velhice das diversas áreas de cariz científico pelo que nela circula de aleatoriedade, coincide com a incapacidade da antropologia filosófica em estabelecer, como temos vindo a ver, um objetivo semelhante. O mesmo sucedendo com quaisquer experiências ao nível do senso comum das quais salientamos duas: a) quando perguntámos a uma turma do 7º ano quem era a professora de inglês (pergunta direcionada e tendenciosa, já que houve o cuidado em escolher alguém rondando os quarenta anos e demasiado negligé ), a resposta foi precisa: era uma velha que costumava andar vestida deste e daquele modo, quando depois pegámos na resposta obtida e, na hora seguinte, expusemos a situação a uma turma do 12º ano, cujas idades oscilavam entre os 17 e os 22 anos, toda a turma se riu da ingenuidade dos colegas mais novos; b) quando um familiar de 21 anos, durante um jantar de amigos, deixa sair: “É que o meu primo tem a idade da minha avó paterna, mas a minha avó é velha… acho que foi sempre velha, só que o meu primo não é velho, não consigo vê-lo como velho.” E eis-nos, portanto, atirados para afirmação de Sartre, para a mediação do olhar na coisificação dessa etapa da vida vulgarmente apelidada de velhice. Vemos, por conseguinte, e regressando a Montaigne, que o espírito apreende estímulos e perceções segundo a medida que melhor lhe parece, devendo afastar-se sempre, para bem ajuizar, da ansiedade, da impaciência e da violência do desejo (Essais 3:X), até porque um mesmo acontecimento, como é aqui o caso da velhice, tem muitas facetas, e estas a uns podem suscitar indiferença ou riso, enquanto que a outros podem trazer dor e lágrimas (Essais 1:XXXVIII) e não é sem alguma ironia que Montaigne – muito antes das mortes nos campos de refugiados, por afogamento no Mediterrâneo, nas guerras e atentados de diversos tipos, nas pandemias por novas batérias cada vez mais resistentes, no tédio dos possidentes, nas overdoses, na fome extrema, etc., muito antes disto tudo, mas num tempo onde os níveis de mortalidade na infância, na juventude e na maturidade eram enormes – não é sem ironia, dizíamos, que ele afirma que a morte motivada pela falta de forças trazida pela velhice é a mais rara de todas e a que menos se usa (Essais 1:LVII) e reforça: “Morrer de velhice é uma morte rara, singular, extraordinária e muito menos natural que os outros tipos de morte” (Essais 1:LVII). E eis-nos, de novo, regressados à obra de Cícero referida no início deste texto, bem como aos nossos noticiários onde os estropiados, os fugitivos, os degolados, raramente são velhos. Vendo bem, e à guisa de conclusão, viemos à vida para representar um papel, depende de nós apenas representá-lo bem ou mal, mas qual o tipo de papel e se ele será de curta ou de longa duração isso escarpar-nos-á sempre (Cf.  Manuel d’Épictète de Arrien, 17). Esta tese de Epicteto aparecerá depois, recorrentemente, ao longo da cultura ocidental, embora com outras formulações, como se pode ver em La vida es sueño de Calderon de Labarca e em A tia Tula de Miguel de Unamuno.
   Impossibilitados de, a nível ontológico, apreendermos uma determinação categorizadora de tudo o que nos vários entes pulula e dá pelo nome de velhice, impossibilitados igualmente de encontrar um enunciado suficientemente claro e distinto, que aglutine e explique os diversos processos de degenerescência e/ou envelhecimento, resta-nos a farmacodinâmica tradicional, as terapias mais ou menos inovadoras como, por exemplo, a da dança estimulando atividades neuronais e físicas e restam-nos os objetivos a impor a si próprio que a tradição literária e filosófica, em cuidadas práticas e observações, deixou esparsa por inúmeras obras, podemos mesmo concluir este texto com uma das inúmeras máscaras da velhice, um olhar singular que uma dessas velhices individuais, sem dramatismos nem esconjuros, lançou sobre si própria: “A velhice ajuda a superar muitas coisas. Quando um homem idoso abana a cabeça ou murmura algumas palavras, uns vêm nisso a expressão de uma sabedoria esclarecida, outros um sintoma do envelhecimento. Quanto a saber se a sua relação com o mundo deriva da sua experiência, da sabedoria que ele foi adquirindo ou apenas dos problemas circulatórios de que ele padece, isso permanece um mistério, até para o próprio velho.// É somente envelhecendo que nos apercebemos que a beleza é rara, que compreendemos o milagre que constitui o desabrochar de uma flor no meio das ruínas, a persistência das obras literárias através dos montões de jornais e de extratos bancários.” ( In Éloge de la vieillesse de Hermann Hesse. Paris: Calman-Lévy, 2018, pp 71-72).
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 ©  VICTOR OLIVEIRA MATEUS
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domingo, 21 de outubro de 2018

O XXI Festival Iberomericano de Poesia de Salamanca
Aqui:   https://salamancartvaldia.es/not/192032/xxi-encuentro-poetas-iberoamericanos/galeria/26/#galeria
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segunda-feira, 1 de outubro de 2018


   Le jour de ses seize ans, sa mère le convoque et lui dit: "À présent vous êtes un homme, vous devez connaître la vie." Elle fait coulisser la porte d'un petit salon, où une prostituée attend son fils. Elle l'y fait entrer et rouvre la porte une heure plus tard. La semaine suivante, la mère convoque de nouveau le fils, fait coulisser la porte du même petit salon, où un associé de son époux, connu pour ses moeurs versatiles, sirote un verre de brandy. Une heure plus tard elle rouvre la même porte, raccompagne poliment t l'associé de son époux jusqu'au portail de leur demeure, rejoint son fils et lui dit: "Maintenant vous savez l'une et l'autre chose. Il vous appartient de choisir."
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 Dreyfus, Arthur. Histoire de ma sexualité. Paris: Éditions Gallimard, 2014, p 157.
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domingo, 30 de setembro de 2018

Momentos do World Poetry Movement realizado este ano em Alcochete (29/9/2018)

O encontro de dois escritores: brasileiros Everardo Norões e Cristina Ohana
Um dos momentos do jantar
Momento antes do Festival: Alberto Pereira, Cristina Ohana, Victor Oliveira Mateus e Everardo Norões
Um outro momento do jantar, onde se pode ver à frente Tito Lívio e à esquerda, a meio da mesa, André Osório
.A atriz Elsa Wellenkamp ("Amor de perdição" de Manuel de Oliveira), o pianista e intérprete Rogério Godinho e o poeta Luís Filipe Sarmento.
Outro momento antes do Festival: Alberto Pereira, Cristina Ohana e Victor Oliveira Mateus

                                                               Uma pausa
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sexta-feira, 28 de setembro de 2018



   Alguém bateu à porta do vestíbulo.
   Era Cornélia, toda em lágrimas, com o filho Miguel Ângelo.
   Pôs-se de joelhos diante da cama e começou a lamentar-se em voz alta.
   - Senhor, nosso benfeitor, senhor, nosso benfeitor.
   O moribundo já não ouvia.
   - Sou eu, Cornélia, a viúva de Urbino. De Francesco Amadori. E este é o seu afilhado, Miguel Ângelo.
(...)
   Comecei a chorar.
   Tive um acesso de fúria.
   Renunciaste à vida dos sentidos, e aquele a quem amavas não está aqui. Deste-lhe o teu sentimento, grande como nenhum outro. Sofrias, crendo que os teus braços eram indignos de abraçar a pessoa amada. Mas ele era uma sombra. Deste-lhe o rosto de Cristo, e tu, senhor, foste o seu brinquedo. Se ele queria, tu empalidecias, se ele queria, o sangue inundava o teu rosto. Vias o mundo com os seus olhos. Tendo asas mais fortes, preferiste elevar-te com as dele. Deixaste-o apoderar-se de tua vontade. Preferiste ser a Lua que reflectia a sua luz, a luz do Sol.
   Voltei a mim.
   O moribundo deixara de estertorar. (...) Foi então que apareceu Tommaso del Cavaliere.
   Sentou-se num banco, apoiou o cotovelo no joelho, calado.
   - Já há muito tempo que o Mestre está a dormir?- perguntou subitamente.
   - O Mestre está a morrer.
   Tommaso virou lentamente a cabeça, levantando os olhos para mim. Depois virou-a de novo, e apoiou o queixo nas mão enlaçadas.
(...)
   - Durante toda a vida o Mestre não fez outra coisa senão dar.
   - Era rico.
   - Era um pobre.
   Tommaso evitou o meu olhar. Calámo-nos
   De repente o doente gemeu.
   Tommaso levantou-se de um salto.
   - Á...gua - sussurrou o Mestre.
   Quando eu ia buscar um copo, Tommaso inclinou-se sobre ele.
   - Mestre - disse em voz alta e clara - sou eu, Tommaso, sou eu Tommaso... Não me reconhece, Mestre?
   Os olhos brilhantes do Mestre estavam imóveis.
   - Sou eu, Tommaso, eu, Tommaso - gritava.
   Deixou-se cair num banco e escondeu o rosto nas mãos- Chorava.
(...) Daniello da Volterra conseguiu regressar a tempo de o ver morrer (...). Com dois dedos, Daniello da Volterra cerrou as pálpebras do morto.
   Tommaso inclinou-se e depositou um beijo sobre o rosto imerso na paz da morte.
   Mas ele já não o sentiu.
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 Stryjkowski, Julian. Tommaso del Cavaliere. Lisboa: Edições Cotovia, 1990, pp 88-93.
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Nota - A passagem "Deste-lhe o rosto de Cristo" refere-se ao facto de, com um certo mal estar, os católicos terem vindo a descobrir, tempos depois, que o Cristo de Miguel Ângelo tinha o rosto de Tommaso del Cavaliere.
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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

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Festival com jazz, fado, performance e poesia. Participantes: Everardo Norões, Tito Lívio, Elsa Wellenkamp, Victor Oliveira Mateus, Cristina Ohana, Alberto Pereira, Virgínia do Carmo, Raquel Serejo Martins, Luís Osório e André Osório.
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terça-feira, 25 de setembro de 2018


   Um sentimento de vergonha acompanhava-o sempre. Tinha vergonha da sua fraqueza, das suas hesitações, da sua timidez e da sua origem humilde. Enxertou-as com sincera convicção na árvore genealógica dos Canossa, rica em condes e imperadores, Infelizmente, os seus modos traíam-no. Brigava com toda a gente, recusava-se a pagar à velha Catarina o mês em que ela estivera doente. Tratava os outros com aspereza. Não se portava melhor com os grandes senhores.
   Uma vez chegou a ofender Leonardo da Vinci sem razão alguma. (...) As pessoas tinham medo do Mestre. Chamavam-lhe "terrível". O papa Leão X disse que o temia porque era rude e selvagem. O papa Clemente VII considerava-o um ruão sem educação alguma, sempre pronto a sentar-se sem ser convidado a fazê-lo, e por isso preferia estar de pé na sua presença. Durante uma discussão com Júlio II, irritado, pôs o chapéu na cabeça. Ele mesmo o contou a Daniello da Volterre.
   - Já é muito bom não me ter mandado cortar a cabeça - disse, rindo-se.
   Certa vez deu-se uma cena engraçada, como nas comédias do cardeal de Bibbiena. Foi em Bolonha, onde o papa se encontrou com o Mestre após a sua fuga de Roma. Júlio II levantou o seu báculo de marfim e gritou:
   - Em vez de seres tu a correr atrás de mim, sou eu que corro atrás de ti.
   Um prelado que estava presente, no intuito de acalmar a ira do papa, tentou justificar o comportamento do Mestre pela falta de bom senso e de tacto.
   Só então o papa verdadeiramente se encolerizou.
   - Como te atreves a ofender o nosso artista? Fora daqui! - gritou e indicou-lhe a porta.
   Mas o pobre prelado não se moveu, estava como que pregado ao chão.
   - Ponham-no fora - gritou o papa aos camareiros - e apliquem-lhe umas bastonadas.
(...) A maior vergonha, porém, era causada pela sua fealdade. Envergonhava-se de ter o rosto deformado.
   - Ao lado do meu rosto feio, o rosto daquele que amo é ainda mais belo.
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  Stryjkowski, Julian. Tommaso del Cavaliere. Lisboa: Edições Cotovia, 1990, pp 50-51.
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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Festival Literário de Ovar - 4ª Edição (2018)



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O jovem artista foi apresentado ao Mestre, então com sessenta anos, por um primo do cardeal Niccolò Ridolfi, o escultor Pierantonio, que ajudava o Mestre nos trabalhos do túmulo de Lourenço e Juliano, na Sacristia Nova da Igreja de San Lorenzo. Uma grande amizade unira depois o Mestre ao cardeal Ridolfi. Tommaso, jovem pintor, exercia sobre todos um fascínio particular. Pierantonio, Vasari, biógrafo do Mestre e obviamente Varchi não tinham palavras suficientes para exprimir o seu enlevo. É preciso reconhecer, em abono da verdade, que o jovem não tinha ninguém igual em toda a cidade de Roma. Belo como um anjo, encantava todos com a sua agudeza de espírito, discrição e galantaria: qualidades dos melhor nascidos.
(...) Um trecho da carta não foi enviado. Como tudo já terminou, posso citá-lo. De resto não há nada nele que não houvesse em outras cartas (em vários sonetos pode encontrar-se uma expressão poética dessa passagem). "Tudo o que vejo - escrevia o velho enamorado - tudo, murmura ao meu ouvido, tudo me pede e induz a que te ame. Tudo o que não és tu, é nada para mim. Tenho saudades de ti, meu sol, e ardo não só de ti, mas de tudo que tem traços de semelhança com as tuas sobrancelhas e com os teus olhos. E quando estais ausentes, meus olhos, minha vida, cai a noite. Quem vos perdeu, perdeu o céu."
   Numa outra carta, que levei a Tommaso del Cavaliere, o Mestre prestava-lhe homenagem:(...) Além das cartas levava também presentes. Uma vez foi um desenho de Ganímedes, raptado por uma águia, outra as Bacanais, outra ainda Faetonte fulminado, ao cair no Pó (...).
   Tommaso del Cavalieri habitava um palácio em Trastevere. Fiquei deslumbrado pelo esplendor da sua residência e com muita pena comparei-a com a nossa, modesta casa na Rua Macel de Corvi.
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 Stryjkowski, Julian. Tommaso del Cavalieri. Lisboa: Edições Cotovia, 1990, pp 14-16.
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domingo, 23 de setembro de 2018


A importância de Tommaso Cavalieri nos poemas de Miguel Ângelo. Aqui:
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https://books.google.pt/books?id=34YwHXU19VoC&pg=PA94&lpg=PA94&dq=romance+tommaso+cavalieri&source=bl&ots=318OrzyvIn&sig=ryV78VkproWt1l7AqWy3HPvBMss&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwiB2qyP3NHdAhVRUBoKHbHiCeoQ6AEwDnoECAEQAQ#v=onepage&q=romance%20tommaso%20cavalieri&f=false
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       Domingo à tarde em Falconwwood

O olhar do menino entrou no meu poema
E não mais saiu. Era um olhar sentido
Na revolta de uma exclusão cruel e súbita.
Sentado num banco frente à mesa da festa
não o deixam falar com os conhecidos
Entre vizinhos e colegas de turma na escola.
Quase tudo em seu redor era em miniatura
locomotivas e linhas de volta à infância
Porque o carvão e os apitos são verdade.
O olhar do menino era em ponto grande
e a sua dor tinha o volume da sua idade
Sete anos bem medidos no seu olhar.
Não era problema não o terem convidado
mas sim a proibição de se aproximar
E de comunicar com as crianças da festa.
Festa com pouco de muito recomendável
além de bolos de fábrica e sumos de pacote
Bebés e mães com problemas hormonais.
Vejo no menino de Falconwood o meu olhar
quando na minha vida outros me disseram
Que queres daqui? - como quem bate a porta.
E ao bater a porta deixam do lado de fora
os sonhos de quem, como eu, só queria fazer
Um breve recado sobre o tempo que passou,
Nos jornais, nas revistas e nas editoras
nos encontros e desencontros das letras e da vida
Muitas vezes ouvi a pergunta - Que queres daqui?
Foi esse desprezo, essa vaidade, esse rancor
que eu vi hoje no olhar triste do menino
Nos comboios miniatura de Falconwood.
Lá tudo é miniatura desde o fumo ao apito
desde as várias linhas às passagens de nível
Tudo menos o olhar do menino afastado.
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  Francisco, José do Carmo. as casas de blackheath park e outros poemas. Lisboa: Apenas Livros, 2018, p 10.
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Nota - foram respeitadas: maiúsculas, minúsculas e pontuação, tal como está no livro.
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sábado, 22 de setembro de 2018


Então, Erend tirou o véu que o ocultara e todos perceberam quão belo era e quanto precisavam do seu rosto. A avó pediu: "Não voltes a esconder-te." Envaideciam a criança com os seus modos, e os olhos dele brilhavam cruelmente, de acordo com a sua majestade. Awa pensou que queria igual deferência para o seu próprio filho que se agarrava ao braço esquerdo de Walid e de quem toda a gente se esquecia.
   Erend incorporava toda a esperança que era tão pouca já, defeituosa, prestes a viciar-se nas cedências. Tornar-se-ia indigna antes mesmo de mendigar, a esperança, tornar-se-ia uma dessas criaturas que vivem só das oportunidades e a oportunidade estava toda no alcance dos olhos do rapaz.
(...) Anoitecia, e Erend virou-se para o poente. O que ele viu, todos poderiam ver, porém tinham perdido certos hábitos e confiavam pouco nos sentidos. O sol, ao dissolver-se no horizonte, não mostrava o aspecto habitual. Algo nele embatia e o fragmentava, algo que eles tomaram, a princípio, por um furor de pássaros, que, de facto, se distendia velozmente, evoluindo como um bando em sobressalto.
   Mas eram nuvens. Ondulavam como fumo, com uma rapidez surpreendente, numa força expansiva que parecia gerada dentro delas. A luz do sol, vermelha, emoldurava-as por um instante e debruava, às vezes, com fio de ouro, os brevíssimos contornos. Os caminhantes viam a chegada desse elemento negro e poderoso que, a triunfar, lhes salvaria a vida. E então disseram: "Vamos", ainda que se aproximasse a noite. Seguiriam, não as estrelas, como sempre os homens tinham seguido, mas a sua ausência.
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 Correia, Hélia. Um bailarino na batalha. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2018, pp 94-95.
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sexta-feira, 21 de setembro de 2018


   E, na manhã seguinte, estava um rio.
   Era um pequeno rio que lutava contra o seu próprio leito, um frágil ser cercado de ameaças, muito veloz no modo de correr e sempre em sítio igual, no mesmo sítio. As margens arenosas inclinavam-se, estranhando a matéria transparente, fugidia e tenaz que as separava, intrometida numa circunstância que era o deserto e a sua soberania. Queriam naturalmente aniquilá-lo, e não somente as margens, mas também a depressão onde ele se desenhava absorvia toda a água que podia.
   Mas o pequeno rio porfiava, fabricava os seus próprios aliados, ervas capazes de criar raízes fortes que se agarravam como dedos ao chão solto e o obrigavam a mobilizar-se, depois arbustos que se levantavam e lutavam com a sombra e a frescura contra um excesso de evaporação.
   Era uma força concentrada, um solitário que nem rumorejava. O deserto não queria mudar nem mudaria pela intromissão de um corpo estranho. Acontecia entre eles a guerra suave, a guerra controlada. Desgastavam o mais que conseguiam, sem, no entanto, perderem nem cor nem compostura.
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  Correia, Hélia. Um bailarino na batalha. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2018, p 47.
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quinta-feira, 20 de setembro de 2018


                                  Caminar en la noche

   Te despertó una noche un caminar descalzo hacia tu
cama. Alguien, al parecer, perseguía un destino, y ese destino
concluía en ti. Con el oído atento como nunca, esperaste,
temblando, cercado por el miedo. Por fortuna los pasos
avanzaban sin desplazarse en una línea recta, sino en una
obsesiva, delirante espiral.
   Por fortuna? Si quien te perseguía no te halló, no llegó
a ti al final físicamente, nadie ha cruzado nunca a tu interior
como aquel que, en la noche, quiso alcanzarte describiendo
círculos.

  Oliván, Lorenzo. Para una teoría de las distancias. Barcelona: Tusquets Editores, 2018, p 91.
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            Era la hora

Era la hora. Nuestra hora única.
La que nos pertenece por completo a nosotrso tan sólo,
porque en ella los dos,
el uno al otro, ávidamente insomnes,
con desconcierto, nos pertenecemos.

Era un golfo del tiempo,
nuestra cala,
nuestro rincón de juegos - sin orden, sin medida -,
nuestro pozo
de todos los anhelos presentidos,
nuestro imán roto de temblor sonámbulo.

La noche se abismaba
en un vértigo absurdo
de contemplaciones,
como si se observase
y observara a las cosas
a la vez
desde todos los ángulos.

Noche en su laberinto,
éxtasis del mirar,
y superposición abierta, en fuga,
de confusas imágenes
que ella misma en lo oscuro
sin fin iba creando.

Era la hora. Nuestra hora única.
Tú me llamaste sin ninguna voz,
con el aire hecho tacto,
con la mente hecha piel,
con la distancia vuelta alto voltaje,
vibración.

Yo te llamé obviando las palabras,
con mi voz recordada desbordándose dentro de tu oído,
con mis dedos alzándose hasta ti
por los caminos en que me intuías,
con las aguas de todas las corrientes
en las que, tras fluir, confluíamos ambos.

Era la hora. Nuestra hora única.
Desatendimos todo, y atendimos, ardientes, a quien llamaba así,
a quien guiaba desde su deseo,
a quien creaba desde su deseo tan lejano en la noche
(en mitad de esa noche que era toda miradas)
el deseo del otro.
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  Oliván, Lorenzo. Para una teoría de las distancias. Barcelona: Tusquets Editores, 2018, pp 39-41.
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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

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Sessão de Encerramento da 4ª Edição do Festival Literário de Ovar (2018): Rodrigo Guedes de Carvalho, Maria João Cantinho, Victor Oliveira Mateus, Pedro Guilherme-Moreira, Carlos Nuno Granja. Cobertura fotográfica de Joaquim Margarido.
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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

FLO, 4ª Edição, de 13 a 16 de setembro.

Festival Literário de Ovar com 40 escritores e ilustradores junto ao rio Cáster

A quarta edição do Festival Literário de Ovar arranca na quinta-feira e até domingo propõe diversas iniciativas com cerca de 40 escritores e ilustradores, entre os quais Rodrigo Guedes de Carvalho, Álvaro Laborinho Lúcio e Jacinto Lucas Pires.
Promovido pela Câmara Municipal de Ovar, o evento decorre no Jardim do Cáster e integra venda de livros, painéis de discussão, espaços para interpretação de poesia, leitura de contos, workshops de ilustração, sessões de autógrafos e vários momentos de conversa entre escritores e leitores.
"Temos apostado numa programação cultural dinâmica, arrojada e diferenciadora, que se ajuste a vários e diversificados públicos", declarou à Lusa o presidente da autarquia, Salvador Malheiro.
Segundo o autarca, "o Festival Literário de Ovar foi criado para promover o livro e a literatura num ambiente descontraído e informal, como tem sido imagem de marca do evento, mas, mais do que incentivar a leitura e revelar novos livros e escritores", o evento dá "a conhecer novos temas e debates, diferentes opiniões e novas visões".
A coordenação do festival cabe ao escritor Carlos Nuno Granja, que o descreve como um certame "com cariz alternativo no panorama nacional dos eventos literários".
"O seu ambiente informal e envolvente descontraído facilitam um convívio mais generalizado, de grande proximidade entre os escritores e os leitores", disse, acrescentando que esta proximidade ajuda a afirmar "a importância da literacia na construção de uma identidade e do pensamento livre em constante reflexão, algo que só os livros podem conceder".
O programa da edição de 2018 do Festival Literário de Ovar inclui também o que o presidente da Câmara considera "um momento especial" dedicado à história do concelho": a apresentação do Volume 4 do "Dicionário da História de Ovar", que tem autoria de Alberto Sousa Lamy e, segundo Salvador Malheiro, constitui "uma obra valiosíssima que regista e recupera memórias coletivas do povo vareiro".
Entre os autores, ilustradores e outros convidados do festival de 2018 incluem-se: Alberto Sousa Lamy, Luís Carlos Patraquim, Álvaro Laborinho Lúcio, Bruno Henriques, Jacinto Lucas Pires, Joana Bértholo, Rodrigo Magalhães, João Morales, Manuela Leitão, Miguel Borges, Carlos Nuno Granja, Fernando Pinto do Amaral, Fernanda Mira Barros, Marcelo Teixeira, Cristina Almeida Serôdio, Manuela Gonzaga, Isabel Nery, Joel Neto, João Rios, João Paulo Sousa, André Domingues, José Gardeazabal, Cristina Marques, Pedro Seromenho, Sofia Fraga, Maria João Cantinho, Filipa Martins, Raquel Gaspar Silva, Pedro Guilherme-Moreira, Rodrigo Guedes de Carvalho, Victor Oliveira Mateus, Carlos Fiolhais, Anabela Dias, Carla Anjos, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Aurelino Costa, Clara Haddad, Manuela Leitão, Miguel Borges, Pedro Seromenho e Sofia Fraga.
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   Admito que dou a impressão de navegar em plena ópera oitocentista. Sofrendo como sofro, nem sequer tenho a prudência de fugir ao ridículo. Se calhar, até isso nos é interdito: uma dor de aparência normal.
   Mas de todo este caos, uma pergunta se levanta: seremos obrigados a admitir que, para a nossa raça, a ordem é impossível? Suponho que não é caso, Laurent, para pedir a tua opinião.
(...) Com quanta ingenuidade te prestaste ao jogo perverso dos Munaris! Mas eu amo-te. E, porque te amo seguir-te-ei onde quer que vás. (...)
   São dignas de espanto, as naturezas como a minha. Julgam-nos fracos, crêem que o mais pequeno sopro nos derruba. Enganam-se: somos uma espécie que não cede. Não creio, Laurent, que possa ceder. Sabes que te amo e que não posso deixar-te; mas agora vejo-te (não, dantes não te via) e amo-te agora sem ilusões sobre aquilo que és.
(...) Decidi ir ter contigo sem demora: parto depois de amanhã. Entusiasma-me a ideia de voltar a ver-te. Mas o entusiasmo não é tão alienante que me faça aceitar a desordem que tu, por estupidez ou ingenuidade, escolheste para ti. Amo-te, sem dúvida, mas não me deixarei contaminar por ti.
(...) E já que continuo a amar-te, terei de reconstruir aquilo que foi despedaçado.
   Conta comigo dentro de três dias em Paris. É possível que, quando chegar, ainda nem tenhas recebido esta carta nem as que a precederam. Não importa: mais do que contigo, foi comigo próprio que falei.
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 Coccioli, Carlo. Fabrizio Lupo. Lisboa: Edições Cotovia, 1991, pp 99-102.
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sexta-feira, 7 de setembro de 2018


   Mas farto de saber que Catarina é por assim dizer antiquada, uma miúda que nasceu neste milénio mas parece ser transportadora de uma alma antiga, uma hospedeira designada, uma catraia que gosta mais de conversar com velhos do que com os da sua idade, parece por vezes estar a receber instruções preciosas que lhe poderão ser úteis quando for ela a velha neste mundo.
   Pedro Gouveia coloca o seu braço sobre os ombros dela, puxa-a um pouco para si, é um abraço de quem segura.
   - E já falastes com o teu avô depois daquilo da tua irmã? Agora que já sabes
(...)
   - Sabes o que é esquisito? Agora que penso nisso, por exemplo, se eu estivesse a ver um filme e visse uma cena assim, uma rapariga que fica a saber que teve uma irmã gémea que morreu muito pequenina, ia achar que ela ia ficar desfeita, muito revoltada com a família, arrancar cabelos e assim
   - E não foi assim contigo, ainda bem, mas se for, um dia destes, que as dores às vezes ficam a dormir mas acordam, não te preocupes, vai ter com eles, zanga-te, é sempre melhor assim 
   - Eu sei, mas acho que não, quer dizer, por agora não, eu sei que pode parecer esquisito, mas sabes uma coisa que pensei logo, é que não tem comparação com o que tu passaste
   Catarina é assim, uma alma antiga dentro de uma adolescente, fala de caras sobre a morte da filha de Pedro Gouveia, e o médico agradece com um sorriso...
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 Carvalho, Rodrigo Guedes. Jogos de Raiva. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2018, pp 387-388.
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segunda-feira, 3 de setembro de 2018


   - O que é um segredo, mãe?
   É das palavras que mais cedo confundiu Santiago Sereno, não se percebendo, ainda hoje, se a assimilou, porque Maria Clara, apanhada na surpresa de todas as mães com certas questões
   - Um segredo, filho, então um segredo, deixa vá ver, um segredo é uma coisa que não se pode dizer
   - Não me podes dizer porquê?
   - Não, não é isso, estou a explicar-te que é uma coisa que nunca se diz, nunca se conta a ninguém
   - Mas aqui neste livro diz "e ele foi a correr contar o segredo que tinha escutado ao encostar o ouvido à porta"
   Maria Clara corou, conteve um sorriso para não confundir ainda mais o filho, ainda tão pequenino, com o olhar pediu a ajuda dos irmãos que estavam também na sala, Nuno Maria a estudar e Ana Teresa a espreitar a televisão, e eles riram-se com gosto
   - E agora, doutora Clara, como é?
percebendo todos que Santiago começara a sua dolorosa caminhada de estupefacção com o mundo e com o que as pessoas são quando ninguém está a olhar. Passará a vida a fazer perguntas que soam descabidas e talvez não sejam, quem poderá dizer.
   Hoje, ao olhar enternecida o filho nos jardins do hospital, a passear o rafeiro velhote e a conversar com Sousa, O Xerife, a doutora Maria Clara continua sem saber de que tanto falam, é lá com eles, entendem-se, é o seu segredo. Como nunca foi a correr contar a ninguém, muito menos a Santiago, o segredo de Jorge Sousa.
   Passou muito tempo desde a chegada do Xerife ao hospital, alguns dos que conheceram a história já se reformaram (...). O dia em que a chamaram para ir depressa, era preciso acudir a um homem que tinha chegado descontrolado. E ela desceu e deu de caras com um animal.
   Desgrenhado, olhos muito abertos sem nunca pestanejar, as veias do pescoço a empurrarem a carne (...) pontapés nas cadeiras, no garrafão grande de água, que está num suporte de plástico a fazer o pino, pegou num extintor, rodopiou outra vez
   - Larga caralho, larga-me, tenho de as ir buscar, tenho de as ir buscar
   Hoje, ao ouvir a filha, no restaurante onde jantam com Pedro Gouveia
   - Como é que deixámos isto chegar aqui, mãe? Em nome de quê, mãe?
apercebe-se da enorme diferença entre os segredos, se fossem precisas provas da diversidade doentia de tudo o que nos rodeia, aí estão os segredos, uma palavra única, tantas formas de lidar com ela.
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  Carvalho, Rodrigo Guedes de. Jogos de Raiva. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2018, 213-214.
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