sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A Académie Française foi criada em 1635 por Richelieu, no reinado de Luís XIII, a ela compete ainda hoje a regulamentação do francês (vocabulário, sintaxe, etc.) é formada por 40 cadeiras, as dos imortais, que as ocuparão até à morte ou caso decidam resignar a esse estatuto. Apenas em 1980, e com forte empenho do escritor e académico Jean d' Ormesson, uma mulher consegue entrar na Casa dos Imortais.
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   Não tenho filhos e não o lamento. Sem dúvida, nas horas de fadiga e de fraqueza, em que nos renegamos a nós próprios, acusei-me por vezes de não ter procriado um filho que me continuasse. Mas esse desgosto tão vão baseia-se em duas hipóteses igualmente duvidosas: a de que um filho forçosamente nos prolonga e a de que este estranho amontoado de bem e de mal, esta massa de particularidades ínfimas e bizarras que constitui uma pessoa mereça ser prolongado. Utilizei o melhor que pude as minhas virtudes; tirei partido dos meus vícios; mas não tenho especial empenho em legar-me a alguém. Não é, aliás, pelo sangue que se estabelece a verdadeira continuidade humana...


 Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, p 222 (Tradução de Maria Lamas).
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

 Soube mais tarde que Antínoo aproveitara aquela ausência para persuadir Chábrias a acompanhá-lo a Canopo. E voltou a casa da feiticeira.
(...) Mas de manhã aconteceu-me tocar, por acaso, num rosto  coberto de lágrimas. Perguntei-lhe com impaciência a razão daquele choro; respondeu-me humildemente desculpando-se com a fadiga. Aceitei a mentira; tornei a adormecer. A sua verdadeira agonia passou-se naquele leito, a meu lado.
(...) não sei em que momento aquele belo lebréu saiu da minha vida. Pela décima segunda hora, Chábrias entrou, agitado. Contrariamente a todas as regras, o jovem havia saído da barca sem explicar o fim e a duração da ausência: tinham passado pelo menos duas horas depois da partida.
(...) Não havia nada mais a fazer senão explorar a margem. Uma série de reservatórios que deviam ter servido outrora para cerimónias sagradas comunicava com a enseada do rio: à claridade do crepúsculo, que descia rapidamente, Chábrias avistou na borda do último tanque uma veste dobrada e sandálias. Desci os degraus escorregadios: Antínoo estava deitado no fundo, já mergulhado no lado do rio. Com a ajuda de Chábrias, consegui levantar o corpo, que pesava, subitamente, como pedra. Chábrias chamou os barqueiros que improvisaram uma maca de pano. Hermógenes, chamado à presa, só pode verificar a morte (...) Tudo se desmoronava; tudo pareceu extinguir-se. O Zeus Olímpico, o Senhor de Tudo, o Salvador do Mundo aluíram e ficou só um homem de cabelos grisalhos soluçando na ponte de uma barca.


   Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, pp 177-179 (Tradução de Maria Lamas).
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020


(...) era demasiado fino para se não aperceber de que sucede com as violências da virtude o mesmo que com as do amor, que o seu mérito está precisamente na sua raridade, no seu carácter de obra-prima única, de excesso de belo.


  Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, p 149 (Tradução de Maria Lamas).
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domingo, 2 de fevereiro de 2020


   Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz  de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras.


 Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, p 113 (Tradução de Maria Lamas).
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   A moral é uma convenção privada; a decência é uma questão pública; todo o desregramento excessivamente visível deu-me sempre a impressão de uma exibição de má qualidade.


Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, p 105 (Tradução de Maria Lamas).
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sábado, 1 de fevereiro de 2020


       Oración de Penélope

Toda el agua del mar
para calmar la sed de los que viven
más allá de la orilla.
Aquí las rocas y mi cuerpo frente
a las rocasd de Léucade
donde suelo gozar la libertad.
Antes gozaba a plena luz del día
más de cincuenta amantes - eran días
como la vida largos - sin amar a ninguno.
Pero llegó la noche y con ella la muerte,
la vida fue otra vez una mentira
y la noche fue eterna.

Sus ojos son oscuros, y su lengua
ha rozado la lengua gruesa y blanca
de la sombra del Érebo.
Sus manos se tiñeron del color
del bronce y de su rostro.
Le temo, yo le temo
cerradas ya las puertas de palacio
donde mi cuerpo es suyo y mi voz
ya nunca pide auxilio, pues los ruegos,
los gritos y palabras son grilletes
y a él le satisfacen.

Ya no sé qué es condena, ni qué absolución
aunque las dos me atan a estas rocas.
Yo vivo en una sola y gran oscuridad,
mi vida tiene dueño: es un hombre
y no los inmortales.

Las olas siempre vuelven a la playa,
igual que el pájaro en los meses cálidos,
pero no quise nunca su regreso.
Pedí que su camino fuera largo
y ahora pido que el aire me abandone
y no regrese nunca.

Que los dioses concedan mi plegaria.
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 Vega, Mario. La mala conciencia. Madrid: Hiperión, 2019, pp 34-35.
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020


         O Sonho de um Verão


O incessante acorde das ondas
num qualquer lugar do mundo,
onde tudo é mais fácil e a brisa
da noite nos envolve.
Os risos, os amigos, o sereno
rumor da história
quando, descendo a encosta,
sentimos a areia em nossos pés.
A vida era tão-só
o calor e uma casa à beira-mar.

E era outra vida aquela que vivíamos
nos meses d'inverno,
onde o amanhã não era ontem para sempre
e o tempo ia impondo
o seu implacável exílio da vida.
Por isso decidimos o exílio,
mas um outro mais simples e benévolo,
em essência mais nosso, podermos ser,
num instante, nós mesmos para sempre.

Compreendemo-lo de imediato,
nós escapámos da ruína
mas outros, nem sempre dos nossos,
tiveram de esperar na estação,
no cais, sem casa, sem trabalho,
implorando ao menos um lugar
ou um prato vazio
onde extinguir-se ou extinguir suas penas.

A viagem salvou-nos,
foi suficiente, e regressámos todos
inteiramente felizes.
No último dia, uma folha caiu
de uma árvore do jardim
e suspirámos com o olhar colado
na enseada e no molhe.

Depois abalámos seguros
de que a realidade supera o sonho
e não podemos escapar continuamente
à sua implacável visão,
à visão brutal de uma miséria
que jamais conheceremos.

Escapámos - soube-o então!- convencidos
de que o mundo é perfeito
num outro lugar do mundo.


Vega, Mario. La mala conciencia. Madrid: Hiperión, 2019, pp 18-19 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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terça-feira, 28 de janeiro de 2020


             desamar o silêncio 


como posso eu amar ainda o silêncio
depois de ouvir um pássaro cantar
no teu peito inundado de azul?
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 Mancelos, João de. Luzes distantes Vozes perdidas. Lisboa: Edições Colibri, 2020, p 47.
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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020


            pássaros de sombra


que melancólicos pássaros de sombra
vêm poisar
nos ramos da memória?
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 Mancelos, João de. Luzes distantes Vozes perdidas. Lisboa: Edições Colibri, 2020, p 34.
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Luís Rego escreve na Agenda Açoriana sobre o romance Maria Bettencourt, Diários de Uma Mulher Singular (Editorial Planeta, 2019) de Henrique Levy.
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DESASSOSSEGO LITERÁRIO

Tenho um fraquinho por livros que conseguimos ler de uma só vez, quase com uma só respiração, de um só trago. Falo muito na Pomba, mas O EstrangeiroO Velho e o Mara MetamorfoseA Alice no País das MaravilhasO Bracinho, entre muitos outros, enquadram-se numa categoria muito particular: o pequeno romance. E estes livros funcionam muito bem porque as emoções resultantes da leitura ficam mais compactas e acabam por ter mais impacto e profundidade. Tentei ler de uma só vez O Rapaz do Tambor de Lata, ou mesmo A Montanha Mágica e falhei redondamente, ou porque caí para o lado, ou porque a córnea se irritou comigo ou com o livro, não sei.

Foi um pouco neste espírito velocista que me agarrei ao livro Maria Bettencourt, Diários de uma mulher singular. Quando senti o livro pela primeira vez percebi de imediato que o conseguiria ler de uma só vez. Depois foi só esperar pelo momento certo.
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Dia 1 de janeiro de 2020
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Comecei e acabei hoje de ler um livro muito interessante do Henrique Levy sobre a intricada vida de uma mulher, inserida numa ideia de família, com algum peso social na ilha de São Miguel, Açores. Um dos pontos que mais me agarrou à leitura foi precisamente o facto de se passar nos Açores. Não posso deixar de me admirar com a coragem do Henrique, que não sendo de cá, transportou-me para uns Açores que acredito existirem. Em muitos pontos e linhas os Açores que conheço e reconheço. E isto vai desde a paisagem, à geografia concisa, mas também à cultura e à linguística. E eu gosto muito de ler livros que me conseguem fazer sentir Açores, e que este arquipélago não é um mero pano de fundo para uma história qualquer. Depois, também creio ser de uma coragem extrema um homem escrever na pele de uma mulher. Não é fácil, e é francamente assustador. Os homens são considerados péssimos escritores de personagens femininas. O Henrique, que disse gostar de águas agitadas, parece ter-se atirado de alma e coração a esta tarefa.
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29 de janeiro de 1970 - Página 84
Um toque de surrealismo. Maria Bettencourt decide vender, e vende, um dos T’s do seu nome ao agora TTavares.
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13 de abril de 1970 - Página 85
A Maria Betencourt tenta readquirir o segundo T. E consegue, embora tenha de pagar o dobro do valor que recebeu pela venda inicial.
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11 de maio de 1972 - Página 123
Há uma frase, creio que do Daniel de Sá, "sair da ilha é a pior forma de ficar nela”, que me parece falar sobre ausências. Eis que Firmino diz, às tantas, “Só vale a pena morar para sempre em alguém, se para isso não for necessário ausentarmo-nos de nós.” Tem um pouco de filosofia e poesia e funcionou muito bem naquele momento do livro.

17 de maio de 1972 - Página 129
“Nunca percebi a razão para a mamã me ter ensinado, desde pequena, a agradecer a Deus por mais um dia! Pois, afinal, para nós, é sempre menos um dia”. A religião a desembocar no distante existencialismo, uma espécie de quente e frio para a sobremesa.
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“Ó bezuga! Atiram, como piropo, os mestres, quando passo numa qualquer obra. Para, reles, acrescentarem, após constatarem a espessura das minha lentes. Tira os óculos e vamos brincar à cabra cega!”

Também gosto muito do sentido de humor e gostei muito deste momento, que hoje seria considerado sexista. O que vale é que estávamos em 1972.
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30 de junho de 1976 - Página 139
Após votarem, pela primeira vez na vida, e de uma forma quase arbitrária, Maria reflete sobre o facto. “Mas que raio de legalidade terá o resultado destas eleições se todos tiverem votado como eu e a Tázinha? Uma em fúria, outra com problemas de classe. A partir desse dia, comecei a desconfiar da democracia!”. Creio que a dúvida permanece até hoje, ficando também a certeza de que se a Maria tivesse um partido qualquer podia muito bem ser deputada. O jeito que não tinha dado? É que a profissão de bombista está cada vez mais difícil.
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7 de janeiro de 2020.
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Hoje vejo-me a escrever sobre o livro do Henrique por todas as razões acima mencionadas, e porque gosto muito do tom informal e descontraído. Gosto também do anacronismo, pois não existe a preocupação de emprestar uma sequência lógica e correcta entre as entradas no diário. E finalmente gosto da simplicidade dos diálogos e da forma em que entram na narrativa, sem pedir licença, faz favor, rompendo com as normas de etiqueta literária até aqui estabelecidas. Quem terá criado tais regras?

Fica evidente que é uma pergunta que não preocupa minimamente o Henrique. E se puder dar uma opinião, já que não fiz mais nada até aqui, creio que faz muito bem. 
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Luís Rego
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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020


Ninguém chegou, nem sequer o ressoar
de distantes passos desde este outro céu escrito,
não tenho notícias de mim próprio, e é estranho;
porém conservo sobre a mesa os afectos,
a oração da infância, imagens às quais não dei nome,
e o xadrez do desvelo.

Não tenho nem uma testemunha, doador ou guia,
alguém que veja dentro de mim e que dê andamento aos relógios.

O cheiro a sândalo impregna tudo.

Desfolhei abril até ao último cruel segundo
e tudo é detido.

A quietude dura o mesmo do que esta luz que me abate,
cada ruído é uma hora,
de dura casca o momento.

O olhar detém-se nos recantos.

Ando de um quarto para outro,
como num passeio sob as nuvens,
a tocar as ranhuras do tempo
com o frio pegajoso nas mãos.

Rememoro o musgo a cobrir a quietude,
o óxido que sigiloso faz crescer escombros,
o tédio escavando portas e paredes
e o júbilo de juntar pedras para o porvir.

Hoje não haverá descanso.
O repouso reduz-se a nada para sempre.

Preservo o hábito de passar o índice
sobre água clara deixando-se desejar.

De repente surpreende-me a presença de alheias lembranças
e de dias extraviados.

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 Rodríguez, Gerardo. Poemas de Almanaque para Entretener Marionetas. Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 116-118 (Tradução de António Salvado).
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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Digna Irreverência . Aguerrida Conmoción (Editora Labirinto, 2019). Livro bilingue: tradução espanhola de Jacqueline Alencar.


                   penélope

fico por casa.
tenho de limpar o pó às ideias velhas.
algumas gavetas de pormenores por esclarecer.
a prateleira central da comoção
tem bastante espaço ainda por ocupar:
tenho de decidir o que lá fica
e o que estou disposta a conter.
fico por casa porque há um friso de névoas
que não se desvanece com o aspira-dor
pois as dores visíveis são enganosas
habituam-se a lidar com o espelho
desafinam as selfies do dia-a-dia
incriminam passos inocentes
para resguardar o que move e importa
a este lar do puro deslumbramento
onde todos nos acolhemos no Outono.
fico por casa temerária dos espirros
e das tosses sinalizadoras da fraca
resistência do peito, deste meu peito
tão forte de ressonâncias e ritmos
como prenho de saudades e memórias.
fico por casa, meu querido amor querido.
espreitarei à varanda o pôr-do-sol
virei esperar à janela, com as cadelas
o teu regresso dessa diáspora, meu ulisses
vagueando entre o temor e o valor
mais nobre que alguém algum dia honrará.
fico por casa ansiando a maré
do teu corpo, esperado encontro de chama
com a chama que bem resguardo e acalento
mesmo que os teus passos marinheiros
desconheçam ou desconfiem: mesteres
difíceis da viagem humana
ficarmos, por vezes, presos a uma imagem
uma representação que nos querem conferir
mas não nos cabe nem caracteriza ou contenta.
fico por casa sem tocar mais na colcha
porque quero ser co-criadora do mundo
e neste mundo aqui e agora quero o regresso
do meu herói de carne, osso e lava viva
independentemente da cor dos caracóis
e sem que nada mais importe do que a vida
que nos tem agastado e afastado por marés
de consolo e desconsolo; exauridos.
fico por casa, tomo aos ombros a sagrada colcha
abotoo o corpete de luz e alegrias
aceito a força imensa da brisa salgada
que se te adianta sempre quando vens.
fico por casa onde estremeço, renascida:
e despudoradamente tua enquanto viva.
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 Toscano. Maria. Digna Irreverência. Aguerrida Conmoción. Fafe: Editora Labirinto, 2019, pp 76-77 (Tradução para espanhol de Jacqueline Alencar).
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sábado, 4 de janeiro de 2020

Duas novas traduções de um poema de um livro meu datado de 2004.
Publicadas aqui: https://www.facebook.com/notes/marcela-filippi/qu%C3%A9-voz-llora-por-m%C3%ADquale-voce-piange-per-me/3256311297731377/?hc_location=ufi
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Quale voce piange per me
dall'altra parte delle grandi pietre? Quale lamento? Quale mormorio
attraverso la debole ombra degli arbusti? Forse è il vento: il colpo
di uno strano vento oceanico sul mio volto mentre dormo.
O forse è il sole che annodandosi alle lunghe nuvole, poi cade verticale
sul mio corpo. O potrebbe - Cosi lo sa? - anche non essere nessuna
di quelle cose; forse solo lo sfuggente sibilo di un rettile
nella sua astuzia per tentarmi.

Ma no, nulla di tutto ciò potrà piangere per me dall'altra parte
delle grandi pietre. Nulla, a meno che non sia l'eco dei tuoi occhi;
il blu sdilinquito di quegli occhi in cui il mio sogno era una nave
illusoria e le parole naufragavano nella radice del mio desiderio.
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Mateus, Victor Oliveira. Pelo Deserto as Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler, 2004, p 15 (Tradução de Marcela Filippi).
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Qué voz llora por mí
al otro lado de las grandes piedras? Qué lamento? Qué murmullo
por entre la débil sombra da los arbustos? Tal vez sea el viento: el
golpe de un extraño viento oceánico en mi rostro mientras duermo.
O tal vez sea el sol, que angarzándose a las largas nubes, cae después
vertical sobre mi cuerpo. O también - Quién sabe? - tal vez no sea ninguna
de esas cosas: tan sólo el huidizo silbido de una reptil en su
astucia para tentarme.

Pero no, nada de eso podrá llorar por mí al otro lado
de las grandes piedras. Nada, a no ser el eco de tus ojos; el azul
desmayado de esos ojos donde mi sueño era un barco ilusorio
y las palabras naufragaban en la raíz de mí deseo.
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Mateus, Victor Oliveira. Pelos Deserto as Minhas Mãos. Carcavelos: Coisas de Ler, 2004, p 15 (Tradução de Freddy Castillo Castellanos).
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Ver também aqui:  http://intraduzionisolmar.blogspot.com/2019/12/que-voz-llora-por-mi-quale-voce-piange.html?m=1 
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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020



                        Gramática do desejo


Essa lâmina de fogo é o desejo,
essa maré de ouro,
esse rebento de névoa
que em ti abrigas, estremeço,
com um mero olhar.
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Um acorde no ar
desafinando todos os muros.
Algo feito de humidade
como um caracol cujo ouvido
um som de vida e morte reconhece.
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Talvez uma pele que arrasta
ainda filamentos de lábios
extraviados na luz.
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Algo que anoto e, na página,
é um puro toque entre os meus dedos,
como uma concha e suas espirais,
como a música e a noite,
como o raio de um corpo que me escapa.
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 Gan, Trinidad. Donde Está el Fuego 7. Brooklyn, NY: Editorial Cuadernos de Humo, 2018, p 6 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019


           O purificador nocturno


Às vezes ignoro as luzes,
o que gravita como ofício de poder.
É uma insónia intacta e sem estrelas
em que a rosa abre as mãos,
aquece a fruta desabrochada
e rebenta os poemas
que cantam e estremecem
fora do mundo.
A tectónica vivificada pela força do sal
que é uma queimadura nos dedos
a escreverem o cristal
até se tornarem transparentes
como corpos diluídos pela chuva.

A identidade é fechar as pálpebras
à noite
e virar-se de costas
para acender a salvação.


  Pessoa, Maria João. Emoções Fora da Lei. Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 30.
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Nota - Prémio Internacional de Poesia António Salvado/ Cidade de Castelo Branco.
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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019


                                                         A Caça


   Há muito que a mulher procurava algum consolo nas aplicações de encontros e obtinha apenas a crença minguante em emparelhar com alguém que a satisfizesse.
   Na véspera, siderada pelo marasmo em que vivia, pegou no telemóvel e horas depois viu-se estacionada numa rua sem saída. Encontrou-se com um rapaz de vinte e nove anos - um deputado. Começaram a foder na parte de trás do carro dele, com as pernas dela apoiadas uma em cada janela. Era a primeira vez que se encontravam. Não pretendia voltar a vê-lo. Nunca repetira um encontro. Não valia a pena. Talvez o problema residisse em si própria, na sua falta de interesse por cumprir as regras. "Não se fode no primeiro encontro." Qualquer mentecapto sabe as regras.
   Em ocasiões regadas a álcool, tinha estado com mais do que uma pessoa por noite - o seu recorde foram três. Naquela noite também saiu com ideias de caça grossa. Foi jantar sozinha e, ao balcão de um dos restaurantes mais icónicos da cidade, onde era cliente assídua, aviou uma garrafa de vinho. Decidiu então começar por marcar encontro com o menos atraente da lista. Escolheu uma pensão perto do restaurante. Já estava no quarto quando ele chegou. O pobre rapaz era inexperiente, mostrou-se nervoso e constrangido quando a mulher abriu a porta. Afinal não era gordo, tinha um rosto redondo, e as rugas eram de expressão, típicas de quem se ri bastante. Suava um pouco junto ao buço, pôde vê-lo pelo brilho excessivo junto ao lábio superior. Pareceu-lhe um leitãozinho e isso despertou-lhe ânsias de o comer. O rapaz ainda tentou fazer conversa, mas a mulher não lhe deu abébias, enfiou-lhe a língua na boca num gesto ostensivo de gula. O sexo fora demasiado gentil e efetuoso, o que a encheu de enfado. Ainda não tinha abandonado o quarto, aproveitando a ida do leitãozinho à casa de banho, e já estava de telemóvel na mão a tratar do encontro seguinte. Apercebeu-se que o aparelho tinha pouquíssima bateria. Aceitou ir ter a casa de um tipo com quem não tinha trocado mais de vinte linhas de conversa. Não era longe da pensão. Despediu-se do leitãozinho. "Até nunca  mais". Apanhou um táxi para a morada que o tipo lhe indicara por mensagem. As fotografias mostravam um homem forte, moreno, musculado. Ia comê-la com ganas, tinha esperança que sim. Apanhou o elevador até ao segundo andar e tocou à campainha. Reparou no tapete da entrada onde podia ler-se "Chegay". Segundos depois apareceu o tal homem. As fotografias faziam jus à imagem presencial. Estava perante um enorme cavalão de fato de treino e com aparência de bimbo, é certo, mas ainda assim com mais de um metro e noventa de altura. Puxou-a gentilmente pelo pulso direito para dentro de casa e, após ter fechado a porta, encostou-a com o peito à parede, colocando-a de costas para si. Arregaçou-lhe a saia a apalpou-lhe o rabo todo. Foi sodomizada contra a parede durante uns bons quinze minutos. Quando apanhou o elevador para sair do prédio, doía-lhe um pouco o rabo e não estava satisfeita. Ouvira histórias de pessoas que foram agredidas nestes encontros com desconhecidos. Nunca tinha isso em mente quando decidia ir à caça. A fome era superior ao receio, e além disso era um traço da sua personalidade - ser deveras imprudente. Por isso, mal se viu na rua voltou a pegar no telemóvel. Infelizmente, o visor a negro indicava falta de bateria e, portanto, o fim da caça,.
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 Chéu, Cláudia Lucas. A Mulher-Bala e outros contos. Fafe: Editora Labirinto (Coleção contramaré Nº 25), 2019, pp 109-110.
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"A Mulher-Bala e outros contos" de Cláudia Lucas Chéu. Fafe: Editora Labirinto, 2019.
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terça-feira, 24 de dezembro de 2019


lembras-te? eu chovi o profundo sangue até à flor da pedra e tudo
secou por sobre a mesa aberta e nua e nem um sismo
breve e só de eu haver florido me amanheceu - oculto
Job abismado e estreito sob os bordados luz dos cimos da Hora.
riram canções de roda a levedar a dor e eu silêncio e chão,
lembras-te?
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lembro-me, paramentado já da terra longa perscrutei a estrada
na pele, na pedra, na ossatura da voz, na paciência sã do porejar
da rosa
pétala a pétala e icei-me - cão lazarento no desespero último
da vindima do amor - cravei os dentes nos tornozelos
do vento: pungente exumação, despertar silencioso, lento
rasgar do insaciável ventre do unânime e tirânico lodo. Tu
lembras-te? lembro-me do sangue à flor da estrada
aberta e nua e enlameada de eu chover todo e pobre ______
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mas uma gota houve dissonante e sem nome, tão simples - perfeita
manhã de adeus; pirâmide de todas as lágrimas - rigorosa e
lúcida a irrigar
os sulcos das minhas mãos vazias onde me reouve de
sórdida sombra.
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e eis que regressas vaidoso verão pejado do âmbar dúctil
e laudatórios sins
e tudo seca - iteração acerba - por sobre a mesa verde e aberta
de bordados luz atoalhada; regressas insaciável, tirânico e unânime
a alvorar
galopes, sono e sol e és poder e impotência só       extinção
e chama fulminante: farisaica boca a devorar o breve sismo do meu
brotar
do latente imo da pedra rumo à noite em branco do silêncio.
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  Rocha, José Rui Rocha. O Livro Breve da Pedra Errante. Fafe: Editora Labirinto (Coleção contramaré Nº 27), 2019, pp 16-17.
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"O Livro Breve da Pedra Errante"  (Editora Labirinto, 2019) de José Rui Rocha, Menção Honrosa no Prémio Internacional de Poesia Victor Oliveira Mateus 2019.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Nos primeiros anos que se seguiram a 2000 a Labirinto organizava uns pequenos livros temáticos em que participaram vários autores. Os temas foram vários: a Liberdade, o Natal, a Mulher, etc. Colaborei em alguns deles. Quando me convidaram para o livro cujo tema seria o Amor, resolvi fazer uma provocação: escrevi um poema de uma grande simplicidade, simplista mesmo, pejado de imagens batidas a só com rimas pobres. Ninguém percebeu a minha artimanha e alguns amigos pensaram mesmo que eu estava numa fase de grande mediocridade, que estava a escrever como um menino de 9/10 anos. Pois bem, confesso agora: era mesmo uma coisa desse tipo que eu queria fazer, e pela reação dos pares consegui: eu pretendia um pequeno texto, muito primário, baseado na belíssima cena acima sugerida do filme Peixe Lua de José Álvaro Morais. Quem vir a cena no youtube perceberá! Ora, nesta época de Festividades, creio que fica bem uma coisa sobre o Amor, algo cuja arquitetura seja tão-só uma inocência deste tipo, um fulgor que aproxime.
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.E se te transformasses em pássaro?
Eu transformava-me em céu, um vasto céu azul com nuvens de fogo
nas pontas e sulcos de pétalas no centro: um fulgurante azul celeste
criado só para ver todo o fascínio do teu irromper,


E se te transformasses em água?
Eu transformava-me em fonte, ou talvez numa nascente, que a ânsia
de ver-te inundasse e nas paisagens que te vou escrevendo a minha
sede abrandasse.


E se te transformasses em estrela?
Uma imponente estrela de espuma com brilho de lava e gestos de
vento? Eu transformava-me em sombra, uma sombra incandescente,
onde tu: pássaro, água ou estrela, pudesses andar e na varanda da
minha espera devagarinho viesses pousar.
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  Mateus, Victor Oliveira. Coleção Afetos, Amor: Fafe: Editora Labirinto, 2008, p 56.
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

OBRAS RECÉM PUBLICADAS EM QUE COLABORO:
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1. O Sangue dos Rios . Antologia Poética organizada por Pedro Miguel Salvado, Carlos d'Abreu e António Lourenço Marques. É uma obra publicada pela Câmara Municipal do Fundão e que se insere nas comemorações dos 100 anos do nascimento de Fernando Namora.
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2. Da Ruína da Palavra à Magia do Nome (Matosinhos: Seda Publicações, 2019). É uma Antologia Crítica e Pessoal dedicada à obra de Ricardo Gil Soeiro. A obra integra ensaios de: Maria João Cantinho (coordenação), Armando Pego Puigbó, Hugo Pinto Santos, Manuel Gusmão, Francisco Serra Lopes, Fernando Silva, Felipe Cammaert, Victor Oliveira Mateus, António Carlos Cortez, Maria do Rosário Lupi Bello, José Ángel Cilleruelo e Rodrigo Inácio Meneses (Antologia Crítica) e Ricardo Gil Soeiro (Antologia Pessoal).
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       A tentação: fala a serpente


Olha como é macia
a minha pele, mais macia
que a dele

como dispenso pernas,
braços, mãos, e me confundo
a verde e a castanho,

e o tronco atrás de nós
se compraz no meu corpo
e toda a árvore estremece
de prazer

Vem comigo e partilha
o segredo de ser sob
as estrelas: um lume
original

Não tenhas medo,
não te assustem as cores
da minha pele
nem o meu olho em fenda,
porta de entrada para tantas delícias
perdidas no jardim

nem esta coisa bífida
que fala,
mas que eles dizem fundir-se
com o mal

A lisura macia
que te ofereço
não custa o sal da terra:

tem o preço
do sol
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   Amaral, Ana Luísa. Ágora. Porto: Assírio & Alvim, 2019, pp 97-98.
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019


         Salomé após o crime


Quantas vezes te vi
e me surpreendi porque te olhava?
Sentindo a tentação de te espiar
e o desejo de amar
o que não tinha

Como saber
pelos sonhos mais nus
que me assaltavam
que eu não era paisagem
para ti?

Dizem luxúria só
onde houve amor
e um crime tão enorme de luxúria:
mas eu quis-te indefeso
como festa,
os teus lábios a festa para mim

Quantas vezes me vi
pensando no meu crime
e na história dos homens
a julgar-me!

Mas o que eu li
na bandeja do crime
foram os olhos com que tu
me olhavas
(finalmente eu paisagem)

e a luxúria
que há sempre
no amor


  Amaral, Ana Luísa. Ágora. Porto: Assírio & Alvim, 2019, pp 41-42.
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terça-feira, 10 de dezembro de 2019


        Carta a mim mesmo


Entre um mar de imagens vago
bêbedo nas paisagens interiores
da madrugada.
Lembro os cavalos que um dia
montei num poema improvisado.
Cavalos que saltavam a incerteza
e a carne acumulada da solidão.
Lembro as casas sem luz, estranhas
que um dia ergui com palavras.


Agora sou aquele construtor
mais velho, mais lavrado
seu coração de pedra,
mais limpo e menos pesado,
livre das lascas que arrancaram
o amor e o mar,
as garras do medo e do vento.
Sagrado cinzel do amor,
dá-me tempo
para olhar a imagem esculpida
da verdade que levo dentro.
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 Salgueiro, Alfredo Ferreiro. Teoria das Ruínas. S/c.: Poética Edições, 2019, p 37.
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domingo, 8 de dezembro de 2019


                     As moscas


Sorvem restos de açúcar
as moscas congregadas
pelo cheiro do poeta
no recanto do café.

Um poeta nunca morre
completamente.
É a compensação
por ter passado a vida
meio morto.

As moscas acodem
por causa da doçura
que sua amargura verte,
a doce melancolia
da paixão perene
que o ata e desata
em versos de violência e paz,
a golpes de amor e de espada.

As moscas sabem.
É doce a maldição
que do poeta mana,
é o sangue, é o suor,
é a lágrima que o associal
verte para redimir
a perversa sociedade.
É o cativeiro vital
de quem acode
chorar o que outros
entregam à morte.

Por isso as moscas libam
a lírica miragem
daquele que as observa.
Imortais companheiras
que versificadas zoam
sobre um corpo a desalmar-se
no recanto de um café.
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 Salgueiro, Alfredo Ferreiro. S/c.: Poética Edições, 2019, pp 26-27.
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sábado, 7 de dezembro de 2019


   A perfeição coloca-nos perante a realidade como se de um facto consumado se tratasse (...) Existe só para ser admirada... à distância. A amizade construída sobre esse chão é devorada por uma tensão nascísica: escolhemos "amigos" pela sua importância, estatuto, aparência. Fazemos da amizade uma busca do aplauso. (...).
   Abraçar a imperfeição é aceitar a amizade como uma história em aberto, que conta ativamente connosco. Na imperfeição é sempre possível recomeçar. A imperfeição permite-nos compreender a singularidade, a diversidade, o real impacto da passagem do tempo em cada um. É verdade que as nossas fragilidades dão-nos também a ver as nossas singularidades. E é o impacto da fragilidade em nós que mostra a nossa realidade mais profunda, mostra a vida de Deus e os seus vestígios. Nesse sentido, a imperfeição humaniza-nos. Acolhê-la é uma condição necessária na amizade, e na maturação pessoal que nos cabe fazer. O mais urgente é aprender a semear, num trabalho de confiança, de desprendimento e simplicidade cada vez maiores. (...) Todos somos feridos, opacos, inacabados. Cada um de nós traz dentro de si uma quantidade irrazoável de sonhos sufocados, de pontas desacertadas, de palavras que não chegaram a ser ditas, de uma violência interior, mais difusa ou concentrada. Mesmo a nossa felicidade vem misturada com a memória de infelicidades que ainda nos ardem, mesmo que as calemos. Somos mais verdadeiros, porém, quando tomamos consciência disso e quando o partilhamos na confiança de uma amizade. Os mecanismos de autodefesa e de culpabilização só nos isolam mais.
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 Mendonça, José Tolentino. Nenhum Caminho Será Longo. Para uma Teologia da Amizade. Prior Velho: Paulinas Editora, 2019, pp 143-146.
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019


   Muitas vezes, quando vamos ao encontro do nosso rosto, sentimos com surpresa que passou um tempo. Aconteceram ambas as situações: tanto temos uma aguda consciência da passagem do tempo, como o tempo para nós é uma surpresa, pois não demos que tenha passado, ou tenha passado, por nós, assim. Numa vida espiritual acesa precisamos de meditar sobre o tempo (...).
   Falar do tempo é falar desta complexa aparição a nós próprios, referir a surpresa com que nos colhemos, nomear o espanto de, tantas vezes, sermos uns completos estranhos para nós próprios (...) pois cada um de nós é um fluxo, uma viagem, um projeto aberto, uma epifania inacabada..
(...) Os amigos trazem à nossa vida uma espécie de atestação. Os amigos sabem o que é para nós o tempo. Eles testemunham que somos (...) E fazem-no não com a superficialidade que, na maior parte das vezes, é a das convenções, mas com a forma comprometida de quem acompanha. O olhar do amigo é uma âncora. A ela nos seguramos em estações diferentes da vida para receber esse bem inestimável de que temos absoluta necessidade e que, verdadeiramente, só a amizade nos pode dar: a certeza de que somos acompanhados e reconhecidos. Sem isso a vida é uma baça surdina destinada ao esquecimento. (...) Já escrevia Aristóteles na Ética a Nicómaco: "O homem feliz tem necessidade de amigos." Nós adoecemos da ausência de amigos. Precisamos desse reconhecimento mútuo, pessoa a pessoa: um reconhecimento não fundado no confronto ou na competição, mas no afeto; não determinado meramente pelas leis da justiça ou pelos vínculos de sangue, mas assente na gratuidade. (,,,) Mesmo se for um único instante de contacto o que tivermos, tal basta para deixar transparecer uma amizade que existe.
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Mendonça, José Tolentino. Nenhum Caminho Será Longo. Para uma Teologia da Amizade. Prior Velho: Paulinas Editora, 2019, pp 111-118.
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quinta-feira, 14 de novembro de 2019


Quero dizer-vos que estou aqui
e me pergunto de onde venho,
como cheguei,
quem me pegou na mão e disse:
Vem e fala, vem e escreve.
E eu falei e eu escrevi.
Depois foi só esperar
que a voz soubesse
o recado das ondas
e as palavras fossem o trilho
onde toda a aventura é uma campina aberta
à espera da semente que a fecunde.
Não sei se sou a terra ou sou o grão,
se sou a mão ou o arado.
Sei que vou continuar na voz do vento,
no vaivém das marés,
sem perguntar se vasta é a planície,
quem me espera na outra face da Lua.
Ninguém me deu o livro das verdades,
mas eu vou.
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 Quitério, Licínia. Travessia. S/c.: Poética Edições, 2019, p 62.
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quarta-feira, 13 de novembro de 2019


A minha terra é a cama onde me deito,
a mesa dos manjares e da tristeza,
o braço amigo mesmo longe,
mesmo frio.
A minha história é a da outra
que foi pelos caminhos
do cristal e da ferrugem
e voltou pálida e estranha,
com olhos plenos de paisagens
onde navegavam árvores ardentes.
Os ossos das casas espreitam
o latido dos cães,
a pressa das lagartixas.
Mas há o debrum azul
a serenar tempestades,
o oiro matinal a engravidar searas,
o luar a amparar os fugitivos.
Assim a terra onde me vivo,
me prossigo.
Por vezes canto e espero.
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 Quitério, Licínia. Travessia. S/c.: Poética Edições, 2019, p 26.
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domingo, 10 de novembro de 2019


Podem ver aqui um vídeo sobre o ROIZ 1º Encontro de Música e Poesia Luso-Hispano-Americana

Zona Histórica de Castelo Branco: 18/ 18 novembro/ 2019.
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https://www.youtube.com/watch?v=rRYnQzlMWgA&feature=youtu.be 
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sábado, 9 de novembro de 2019

A apresentação do livro Travessia de Licínia Quitério decorreu na Biblioteca Camões (ao Chiado, Lisboa) no dia 9 de novembro de 2019. Segue o texto de apresentação da obra:
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      Algumas notas sobre o livro Travessia de Licínia Quitério
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    Travessia é a nova obra de Licínia Quitério. O livro apresenta-se-nos como um conjunto de poemas, predominantemente longos, com versos livres, ou heterométricos, sendo a estrutura poemática sempre monostrófica e sem qualquer preocupação de rima. Neste sentido, ao nível formal, poder-se-á dizer que Travessia se insere no que tem sido a produção que se tem seguido ao Modernismo e ao Pós-Modernismo. Contudo, se quanto à forma este livro foge às formas fixas, já ao nível semântico há uma deliberada opção por todo léxico proveniente da tradição: o vento, as falésias, o coração, o mar, as casas, etc.  O motivo desta conjugação, desta enxertia estilística, não se prende com deliberações circunstanciais ou de uma dada tentativa de inserção em qualquer “escola” literária, mas antes com a necessidade de articular um cismar poético com um sentido que se pretende coerente, bem como com uma certa eficácia do dito junto do leitor.
   A Travessia de que nos fala o presente livro de Licínia Quitério não se restringe ao caminhar através do mundo físico, embora também o seja; não é um termo, por conseguinte, com um sentido unívoco: pluriforme e plurissignificativa esta Travessia vai-se desdobrando, ante os olhos do leitor, em várias vertentes:
a)     é uma travessia no próprio discurso poético, com as palavras e pelas palavras: “(…) as barcas/ pejadas de palavras,/ pediriam um vento de feição”;
b)     é uma travessia no próprio modo como apreendemos o real: “O nosso olhar/ com o real não se conforma./ Busca a ilusão, dizes,/ eu digo, o infinito”;
c)     é também uma travessia simultaneamente existencial e ontológica, onde se joga a presença e o destino do homem: “Donde vens, de que terra te perdeste,/ que procuras no meio do nada/ que recado me trazes”:
d)     é uma travessia cronológica e histórica, onde a duração e a temporalidade jogam uma cartada fundamental: “No tempo de seres forte, não havia/ cavalo que não domasses/(…) que te amedrontasse/(…) Fizeste filhos a perpetuarem/ a tua beleza, a tua força.”; “Envelhecidos de abandono e ferrugem/ os caminhos já não levam nem trazem”;
Constatamos, assim, que este poemário de Licínia Quitério, pretende retirar o ser humano do ruído e do turbilhão que no hoje o envolvem e, escalpelizando o seu ir sendo aqui, devolve-lo a uma lucidez que se tem vindo a esbater, inserindo-o igualmente na sua condição essencial de ser de passagem: apesar de estatutos polvilhados de arrogância e ambições desmedidas, o ser humano não é mais do que um ser de passagem, um Caminhante numa mera Travessia: “ De passagem vamos,/ neste trem de ferro,/ a engolir paisagens, casas.”
   Os símbolos predominantes nesta poesia encontram-se implicados naquilo que somos e na tarefa a empreender, e neste território as palavras e a Poesia assumem um estatuto privilegiado de mediação: “sem rumo as barcas, / pejadas de palavras, / pediriam um vento de feição”; “ Num verso longo é que se joga a vida./ Um verso , longo e branco/ com sabor a caminhos/ a lonjuras.”;  “A chuva cai/ e eu sou uma frase/ que experimenta voar.”; “Caminhos que é preciso dizer”. Se o hoje é, como já disse, marcado pelo ruído e por uma alienação turbilhonar, muitas vezes consentida (“Andamos apressados na colheita dos dias,/ não vá o sol queimar a pele dos frutos,/ (…) Temos medo de chegar tarde”), então, a Travessia tem de ser levada a cabo com o auxílio de muitos fatores coadjuvantes: a memória, a circunspeção, o não nos deixarmos fixar no desalento e na solidão e ousarmos sempre a persistência (“Esqueceste tantos nomes, tantos rostos,/ mas aprendeste a vastidão da praia,/(…) É hora de empunhares o arco,/ seres a flecha. A pedra,/ Sozinho vais./ Ninguém pode ser a tua estrada”). Vemos, pois, se ninguém pode fazer a minha Travessia por mim, se ela se me apresenta, por vezes, eivada de escolhos, não irá ser, no entanto,  isso que me impedirá de a fazer, de, após a queda, levantar-me e retomar o meu percurso, ou seja, neste livro de Licínia Quitério o sentido da ousadia e da persistência superam sempre os momentos de nostalgia e de desalento: “ Fica pequeno o coração/ mas a nossa casa continua firme,/ a nossa pele ao abrigo das feras.”; “Anima-te,/ Se não sabes cantar,/ compõe sílaba a sílaba/ pequeninas palavras de rimar./(…) Amargura não serve, podes apagar.”; “Ninguém me deu o livro das verdades,/mas eu vou. “ Esta visão remete-nos invariavelmente para os matizes sócio-culturais e económicos que ressumam, aqui e ali, na poesia de Licínia Quitério: 1º uma visão positiva do estatuto da mulher: “Só na boca das mulheres/ a água se detém/à espera de ser leite e ser criança”; “Tudo é possível nos dias da penumbra/ se uma mulher vestida de vermelho/ pensa na infância e a desenha.”; 2º um questionamento da arbitrariedade da norma: “ De noite caminham os proscritos da alegria/ e os recusados do banquete.”; “São vultos contra a luz./ Têm dentro pessoas que procuram/ o outro lado, sempre o outro lado/ do muro, do bosque, da praia,/ do nada que às vezes dizem vida,”; 3º esta desmistificação da norma, não se limita tão-só ao trazer a mulher para o centro, ela invade, em certos momentos, subtemas bem específicos como os debates atuais em torno da questão do género e o desmascarar de estereótipos relacionados com a questão da orientação sexual: “Homens nascidos de mulheres./ Homens amantes de mulheres./ Homens amantes de outros homens,/ Todos iguais na hora de chegar,/ na hora de partir.”, esta igualdade no diferente acaba por se enquadrar nos debates atuais em torno das teses da neurobiologia de Jacques Balthazart, aliás, como também a abordagem da questão do género e do feminino entronca em obras de filósofos como Foucault, Judith Butler, Thomas Laqueur (Cf. “Nous” de Tristan Garcia. Paris: Grasset: 2016, pp 134-145). Retomo as minhas palavras para a Licínia, aquando de um nosso telefonema: “ É interessante como tu mantendo todo um léxico que é da tradição, acabas por desembocar em questões extremamente atuais em torno das quais circula muito da filosofia francesa contemporânea”. Penso que foi mais ou menos isto que lhe disse!
   Um outro aspeto fundamental desta Travessia é que ela se nos apresenta não como uma imagem da linearidade, mas antes como um caminho disruptivo e, muitas vezes, de etapas pouco claras no momento e a poeta serve-se do suplício de Tântalo para ilustrar esta ideia: “O relevo do dorso a suportar o céu,/ a beber nuvens./ Convida o homem a subir./ Ele vai, cai, rasga-se nas pedras,/ ergue-se, sempre./ Chegado ao cume, desdobra bandeiras./ Grita:/ Isto é meu, este sou eu./ A montanha deixa rolar uma pedra./ É o seu modo de medir o tempo.”. Este excerto tem, todavia, dois níveis de leitura: se um por lado assoma a crítica social, onde o eu se afirma através da posse (“Isto é meu, este sou eu.”), por outro, aponta-se para algo mais radical, essa Travessia onde o homem vai, cai, rasga-se nas pedras e sempre se reergue. Este “reerguer após a queda” aparece nesta poesia com duas particularidades: é um momento da ordem natural, mas é também um Imperativo Ético, onde a Justiça e a Liberdade jogam uma cartada fundamental, atente-se ao desdobrar bandeiras, por tudo isto disse já que a ousadia e a esperança superam nesta escrita os momentos de desalento, creio podermos dizer que estamos perante um movimento ascendente rumo a uma dimensão específica da temporalidade: o futuro, esta Travessia incorpora toda a experiência vivida pela poeta e deixa-se dizer através das palavras, ou melhor, através da Poesia: “Dá-me um novo alfabeto/ e eu te darei meu livro de aventuras.”, mas neste livro de aventuras, neste falar da Travessia, o passado tem apenas uma função instrumental, jamais preponderante. E aqui a poesia de Licínia Quitério aproxima-se da filosofia de Miguel Real, e não apenas da sua filosofia, mas também da sua obra romanesca: se lermos romances como As memórias secretas da Rainha Dona Amélia ou Cadáveres às costas encontraremos, algumas vezes, a expressão “Não fiques preso a cadáveres”. Este primado de um futuro, ainda que desconhecido na sua essência, ainda que indistinto no seu germe, é o que regenera a ação do homem, é o que dá sentido à Travessia poética de Licínia Quitério.
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                                              Victor Oliveira Mateus
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quarta-feira, 6 de novembro de 2019


           El prospecto


Usted no puede dar a luz.
Ahora. Ni nunca.
Hágase a la idea.
Usted no puede dar a luz. Acaso no leyó el prospecto?
Le recomiendo que no vuelva a escribir sobre el tema,
podría acabar en depresión.
Considere la opción de un animal doméstico.
Póngale nombre, hágale fotos, súbalas a las redes sociales,
verá cómo crecen los me gusta en las publicaciones,
cómo decenas de amigos le alivian su dolor.
No lo olvide: la ciencia es exacta, nunca engaña.
Pero anímese, usted es muy valiente, yo le admiro,
su elección sexual es un acto de resistencia.
Se llora por los muertos, no por los que no han nacido.
No tiene usted motivos para estar triste.
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  Néstore, Ángelo. Actos Impuros. Madrid: Ediciones Hiperión, 2017, p 54.
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terça-feira, 5 de novembro de 2019

                      
                          Comunhão 


Todos os dias um torno de ferro
detém-me à entrada do ginásio.
O vidro insonorizado faz do local um escaparate.
Do lado de cá observo um homem loiro, barbeado,
com corte militar e camiseta verde sem mangas.
Ostenta uma vaidade sofisticada na franja
e as calças largas, deixam adivinhar-lhe os pêlos aloirados do púbis.
O rapaz dá um sorvo no seu batido de proteínas
e coloca sobre os ombros todo o peso que a masculinidade lhe exige.

Gostaria de saber em que está pensando
enquanto dobra os joelhos teatralmente.
Quantas vezes contará até dez.
Se lhe doem os braços, as costas.
Quem é a mulher que o espera em casa.

O rapaz loiro levanta o rosto, extenuado.
Excita-me o suor da sua barba,
a normalidade com que as gotas humedecem a toalha.
Imagino-me a atravessar a vidraça que nos separa.
Abro a boca debaixo da sua barba, tiro a língua para fora
tal como um menino ajoelhado frente a um altar.
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  Néstore, Ángelo. Actos Impuros. Madrid: Ediciones Hiperión, 2017, p 18 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

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     Resposta de Eurídice, como quem perdoa


E se te quis seguir por que não te quis seguir?
Acabou-se-me o amor ao    abraçar-te a morte.
A mesma sílaba aguda
trasladada de uma artéria qualquer do coração.
Não é possível aprendermos o outono sem morrer também;
Não pode uma mulher ver
o amor cair e    ainda assim
viver.
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 Duarte, Rita Taborda. As Orelhas de Kerenin. Lisboa: Abysmo, 2019, p 77.
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sábado, 2 de novembro de 2019

   
           Gestos Extensos


Requer gestos   extensos   fatigados,
mas é uma invenção simples:
o miocárdio musculado recolhido e
freneticamente delirante   a avançar   a desistir
a porfiar   a desandar de novo
até sobrar só o conchego desta cova aberta
e franqueada. E eu, imo fêmea,
vivendo-a como   coisa íntima   tão densa de raízes.


A solidão carece companhia, tu bem sabes,
uma ilha   se extensa em demasia
nem ilha é   só continente.

E tu cumpriste - tão bem  - o teu papel.
Olha para trás, regada a sementeira:
o nódulo húmido da saudade principia
a germinar. Vê: começo a florir
a despontar   como uma pedra.
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 Duarte, Rita Taborda. As Orelhas de Karenin. Lisboa: Abysmo, 2019, p 27.
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