quinta-feira, 2 de junho de 2022

                 HÁ-DE PASSAR

                    "For me lips that have smiled, eyes that have shed tears"
                         In Song of Myself, Walt Whitman



E o meu rio corre
e assim avança,
mesmo se as paredes da alegria
se estreitam e é então que
lanço estas âncoras recitativas
para passar,
mesmo de lado,
a fazer espaço com os cotovelos:
aqui ao leme sou mais do que eu.
Porque tenho e tu tens adamastores desmedidos
e lá ao fundo cantam as sereias o sonho dos cínicos −
não ouço, não quero ouvir,
as paredes estreitas hão-de florir
apesar daquele filho da puta ali em baixo
andar a convencer-me de que não.
Espanca a cadela e os ganidos
enfiam-se-me no pensamento −
o ouvido é um bicho de eco infinito,
nada nunca passa, é o caracol da eternidade.
A polícia não quer saber, ninguém quer,
vou à janela para que ele saiba que eu vejo
e hoje gritou-me outra vez,
puta do caralho, vai para dentro ou esmago-te
os cornos.
Não ouço, não quero ouvir, podes cantar, sereia,
hão-de florir.
Sou impotente, é certo, não consigo salvar a cadela,
nem impedir que vendam meninas para o tráfico,
nem coisa alguma destas que dariam cabo de mim
quando as paredes se estreitam,
mas eu passo,
hão-de florir.
E a alegria passa também, nem que seja à cotovelada:
há uma miúda, Michaela DePrince,
já deve ter vinte anos, agora,
é bailarina profissional
numa boa companhia, na Holanda,
veio da Serra Leoa, internada no orfanato por um tio.
Depois de assistir ao assassinato do pai, à mãe morta à fome,
ainda viu ser cortada a barriga à professora grávida,
por uma aposta,
à catanada corta-se
o penúltimo vínculo de esperança
O último, uma folha apanhada na rua,
naquele orfanato ao fundo do inferno,
uma bailarina de tutu cor-de-rosa jogada pelo vento,
e ela, quatro anos de idade,
sem ter feito uma única pirueta na terra batida,
agarra-a,
sem saber dizer ballet,
e ela: aqui ao leme sou mais do que eu,
hão-de florir.
E foi da África à América do dêem-me os vossos pobres –
que afinal existe.
A América existe sempre.
As paredes da alegria estreitam-se, mas a gente passa.
Todos os impotentes transbordam uma fúria omnipresente
e eu, ah eu, nessa fúria bem esmagava os cornos
àquele traidor do pacto que os cães fizeram com os homens
quando abandonaram a alcateia para ser matilha.
E era bem capaz de cortar à catanada
um cobarde de orfanatos.
Mas até ao mostrengo que trago dentro
e que a voar roda três vezes,
e à sereia que lá do fundo de mim canta,
respondo, aqui ao leme sou mais do que eu,
e o meu rio corre
e assim cresce o mar,
e as paredes fazem espaço
e o meu poema há-de passar.
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 Eugénia de Vasconcellos. Livro da Perfeita Alegria. Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2021, pp 27-29.
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quinta-feira, 26 de maio de 2022


         o lugar do silêncio


não sei se acreditas
mas às vezes
penso que se fosses
uma felosa
como uma pequenina
que vi no alto
da montanha maior
da serra dos dinossauros
se fosses esse pássaro
eu queria ser como tu
para ter
tantas possibilidades
sobretudo a de voar
contigo
bem ao teu lado
voar
espreitando-te
de vez em quando
talvez tocando
com uma asa
numa das tuas asas
ao de leve
para não nos despistarmos
(o que se calhar
até era
o melhor
que nos poderia acontecer
que nos despistássemos
pelos ares)
...
mas antes disso
desse toque
mágico
de asas
eu queria mesmo
era voar
contigo
(espreitando-te
é claro
disso não
abdicava)
eu queria voar
contigo
até ao mar
lá em baixo
voar
contigo
sem medo
das grandes gaivotas
e dos peixes
que dizem que saltam
metros e metros
acima da água
queria voar
contigo
do topo da serra dos dinossauros
do topo do mundo
e escolher
exactamente
o lugar do silêncio
onde haveríamos
de pousar
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  António Manuel Venda. Barcelona. S/c: On y va, 2021, pp 33-35.
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sexta-feira, 20 de maio de 2022

quinta-feira, 19 de maio de 2022



Queria confundir-me
num bando de pássaros em migração,
mas perco o meu tempo.


Sinto muito, não minto
e não saio deste labirinto.


Sigo de embaraço em embaraço,
ser adulto tem de ser isto.


Passam-se dias, semanas,
sem saber de ti,
pior, sem sentir saudade.


Bebo,
fumo mais cigarros,
faço bom e mau sexo,
vou ao cinema,
vejo demasiada televisão,
deixo os livros, quase sempre,
sem virtude, a meio
e os poemas também.
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 Raquel Serejo Martins. Valsa a vau. Lisboa: Poética Grupo Editorial, 2021, p 110.
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quarta-feira, 18 de maio de 2022



Este poema tem um gato e um pardal,

o gato mata o pardal,

o gato não come o pardal,

é um gato sem fome,

é uma morte inútil,

é a tua indiferença perante a dor de um pássaro,

és tu sem perceber que também sou pássaro

e que morro inutilmente todos os dias.


 Raquel Serejo Martins. Valsa a vau. Lisboa: Poética Grupo Editorial, 2021, p 38.

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            Não te esqueças


De levar o melhor de cada um,
a potência plural de cada um,
o olhar mais sincero de cada um
quem te salvou,
quem olhaste nos olhos,
quem amaste profundamente
quem amas profundamente
com toda a luz do teu coração.


Não te esqueças de te sentar no lugar mais improvável,
por exemplo:
em frente de uma repartição no domingo, às três horas da tarde
na berma de uma autoestrada, no meio de um estádio vazio,
a meio do trajeto para tua casa,
de te sentares na berma,
de pôr as mãos no joelho
de respirar profundamente;
de não esperar nada de ti nem de ninguém –
de esperar tudo – absolutamente tudo – de ti e de toda a gente.
De aproximar uma folha dos olhos.
De imaginar o mar prateado
de comer a dobrada mais fria,
de fazer festas a um cão malhado:
e Arder. Arder. Arder.


Que amanhã dez mil borboletas vão chegar a Michoacan,
que para os gregos humanidade era um verbo,
que tudo é caminho e perder-se faz também parte do caminho,
que virar certas páginas é um incêndio
que este é um poema para a vida
que os animais não choram –
que os animais não riem –
que és um animal privilegiado
que afinal os animais choram e os animais riem
e que tens de esquecer tudo novamente
e aprender tudo outra vez a cada segundo que passa,
que uma pessoa é uma coisa que arde,
que madura, que ri, que se sustenta dentro de um fio,
que agora mesmo alguém cai abruptamente,
que uma estrela do mar é virtualmente eterna
e pode nunca morrer –
que um poema pode nunca morrer –
que um poema nunca morre – que na verdade (e talvez
virtualmente)
morremos a cada segundo (com um relógio no pulso)
que agora mesmo, no centro da América, uma mãe decide não
respirar,
dançar por dentro, nascer novamente,
que, devagar, um caracol sobe um muro branco numa aldeia da
Sicília
que um homem começa a sua marcha,
que nada se detém quando um homem começa a sua marcha,
que um continente pulsa,
que só podemos ver com os olhos dos outros.


Não te esqueças de perder uma chave,
de chegar atrasado a todos os compromissos,
de te sentar a meio do teu percurso,
no lugar mais inesperado, na hora mais inesperada,


De respirar fundo
De arder...

               Não te esqueças.
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Nuno Brito. Ode Menina. Porto: Editora Exclamação, 2021, pp 22-23.
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terça-feira, 17 de maio de 2022


Junto ao cais aprendi alguns dissabores,
por exemplo: a altura em que atento
à sombra do copo de cerveja
me falaste com olhos húmidos
de uma tarde de pura liberdade
passeando por cidades desertas.


Não desaprendi a memória, não:
guardo-a comigo para usos modernos.
Soube esperar melhor alguns momentos
de pouca importância, já não anseio
sentado no espelhado colo da noite.


Na verdade, perdi-me a bom perder
de todos os enredos que me trazes agora à mesa
como um mapa nervoso de veios marinhos.


Dois amigos encontram-se uma, duas vezes,
para sempre perdidos da memória que foi.
Alguém, quiçá um de nós, se lembrará de dizer:
«É bom, ainda é bom estar aqui.»
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Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 64.
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segunda-feira, 16 de maio de 2022


A saudade era outra.
As praias corriam livres de gaivotas
para o fundo do mar.
Só amanhecia tarde.
Tudo era muito tarde para nós,
vivíamos juntos sem o sabermos.

*

O canto da ave
aterra no meu ombro
polido, entre a concreta confusão
os olhos vendados avançam
para mais uma hora chegada
ao lume das conversas.
*

A noite na terra:
tenho os materiais todos reunidos,
as trevas do trabalho — lápis, aparas,
as réstias do desengonçado estaleiro.



O ecrã baço faz destilar a pobreza do verbo.
As parcas notícias no televisor submarino
de uma pacata vila costeira —
música de câmara para a morte que tarda.
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Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 24-25.
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terça-feira, 26 de abril de 2022


 O Ronda Leiria Poetry Festival decorreu de 22 a 25 de abril na cidade de Leiria com a presença de vários escritores portugueses e estrangeiros. Na foto, a Mesa 1 do dito Festival que foi dedicada às Revistas de Poesia e ocorreu na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, no dia 23 pelas 11:00H. Nessa Mesa e da esquerda para a direita: Mirna Queiroz (Revista Pessoa), Maria João Cantinho (Revista Caliban), Paulo Costa (Revista Acanto e moderador do debate), Victor Oliveira Mateus (Revista Oresteia) e André Osório (Revista Lote).
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domingo, 17 de abril de 2022


O RONDA - Leiria Poetry Festival
decorre na cidade de Leiria de 22 a 25 de abril de 2022.
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Mesa 1: no dia 23 de abril de 2022, 11:00H, na Biblioteca Afonso Lopes Vieira
Tema da mesa: as Revistas de Poesia (nela estarão presentes autores que dirigem algumas das principais revistas de poesia de Portugal).
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André Osório (Revista Lote)
Maria João Cantinho (Revista Caliban)
Mirna Queiroz (Revista Pessoa)
Victor Oliveira Mateus (Revista Oresteia)
Moderador do debate: o poeta Paulo José Costa.
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sexta-feira, 25 de março de 2022

 Coimbra, 19 de Março de 1943 - Faz pena. A gente elege entre trinta mil almas meia dúzia de indivíduos para conviver, e, afinal, chega perto deles a defender uma pureza política, uma pureza profissional, uma pureza sexual, e caem sobre nós mil argumentos dum pragmatismo dúbio, suspeito, que confrange. Longe de se receber estímulo para combater as tentações, encontra-se um escorregadoiro conivente para o abismo delas - É o meio - repito de cada vez, a tentar iludir-me. Mas é inútil vendar os olhos. Até o meio geográfico se pode vencer, quanto mais o meio social. Na luta contra as atraccções inferiores do ambiente humano é que está precisamente a beleza duma vida. O meio! Eles é que são o meio, assim perdidos, duplos, comprometidos com a podridão até à raiz.


Miguel Torga. Diário II. Coimbra: 4ª Edição, pp 144-145.

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sábado, 19 de março de 2022


DIA MUNDIAL DA POESIA: 21 de março de 2022.
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Numa iniciativa conjunta da George Mason University (Virgínia, U.S.A.) e da P.U.C.M.M. (Pontifícia Universidad Católica Madre y Maestra  da República Dominicana) celebra-se, no próximo dia 21, o Festival Arte Vivo (de Poesia) com colaborações de autores de vários países. Atendendo ao facto de se terem de considerar os fusos horários dos diversos países, a colaboração portuguesa iniciar-se-á às 9:00H de Lisboa. O Festival prolongar-se-á ao longo das 24 horas desse dia e pode ser acompanhado nos canais do Facebook e do You Tube das referidas Universidades. A delegação portuguesa é formada pelos seguintes autores:
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Leocádia Regalo
João de Mancelos
João Rasteiro
José António Franco
Maria do Sameiro Barroso
Maria Toscano
Miguel Barreto
Victor Oliveira Mateus
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domingo, 13 de março de 2022


  Geres, 23 de Agosto de 1942 - Não queira coisas impossíveis, - dizia-me hoje uma mulherzinha que andava na serra à lenha, quando eu tentava subir a uma penedia inacessível.
   - Quero, quero! - respondi-lhe obstinado.
   Ela então olhou-me com uns doces olhos de ovelha tosquiada pela vida, e sorriu melancòlicamente. Depois, pôs o molho à cabeça, e partiu.
   E eu fiquei-me o resto da tarde ali, a ver cair o sol e a pensar em que sonho irrealizável teria aquela alma simples posto um dia o desejo, para com a sua desilusão formular uma frase tão carregada de renúncia e amargura.


   Miguel Torga. Diário II. Coimbra: 4ª Edição, p 58.
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terça-feira, 8 de março de 2022

Lamego, 22 de Março de 1940 - Não há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a grão, o esquecimento cobre tudo.        

   Ainda há dias pensava nisto a propósito de não sei que afecto. Nisto de duas pessoas julgarem que se amam tresloucadamente, de não terem mùtuamente no corpo e no pensamento senão a imagem do outro, e daí a meia dúzia de anos não se lembrarem sequer de que tal amor existiu, cruzarem-se numa rua sem qualquer estremecimento, como dois desconhecidos.   

    Esta certeza, hoje então, radicou-se ainda mais em mim.

   Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino. E nem as portas, nem as janelas, nem o panorama em frente me disseram nada. Tinha cá dentro, é certo, uma nebulosa sentimental de tudo aquilo. Mas o concreto, o real, o número de degraus da escada, a cara da senhoria, a significação terrena de tudo aquilo, desaparecera.


 Miguel Torga. Diário I. Coimbra: 7ª Edição, pp 135-136.

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segunda-feira, 7 de março de 2022

 

Coimbra, 6 de Dezembro de 1938 - Dia de confissão geral. Isto e aquilo da minha vida, do meu temperamento, desta incapacidade que tenho de criar harmonia. Os meus sete pecados mortais em carne viva.

...Quinto - a sede de amor absoluto que me devora;

    Sexto  - o clima tropical de violência e ternura que envolve o que penso e faço.  Absolvido.

     Depois do sétimo, porque não tentava eu dar forma capaz a tudo quanto dizia, que era realmente belo?   Porque não. Porque um homem não se escreve.

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 Miguel Torga. Diário I. Coimbra: 7ª Edição, p 85.

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sábado, 5 de março de 2022


         Pedaços


O teu pensamento
quebra-se nas palavras
dos teus lábios

Recolho com cuidado os pedaços
ordeno-os, firo-me,
e crio um novo pensamento
meu.
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 Thurídur Gudmundsdóttir. Pelos nossos corações passa a linha de fogo, antologia de poesia islandesa. S/c.; Ed. Contracapa, 2021, p 266 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).
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sexta-feira, 4 de março de 2022


Foi eleita ontem, dia 3 de abril de 2022, a lista dos novos corpos sociais do PEN CLUBE PORTUGUÊS:
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MESA DA ASSEMBLEIA GERAL:
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PRESIDENTE- Teresa Martins Marques
PRIMEIRA SECRETÁRIA - Rita Marnoto
SEGUNDA SECRETÁRIA - Teresa Sousa de Almeida
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DIRECÇÃO:
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PRESIDENTE- Fernanda Mota Alves
TESOUREIRO E VICE- PRESIDENTE- José Mário Leite
SECRETÁRIA- Maria João Cantinho
VOGAL- Elisabete M. de Sousa
VOGAL - Alcinda Pinheiro
SUPLENTE- Fernanda Gil Costa
SUPLENTE- João Rasteiro
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CONSELHO FISCAL:
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PRESIDENTE- Victor Oliveira Mateus
VOGAL - Rodolfo Begonha
VOGAL- Filipa Vera Jardim
SUPLENTE- Teresa Carvalho
SUPLENTE- Sérgio Guimarães de Sousa
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terça-feira, 1 de março de 2022


                     Vocação


Ali vai, o glutão e ébrio
quantas vezes não desejei
deixar a minha cruz da casa
e segui-lo?
poderia sentar-me a seus pés
à sombra de uma figueira
e admirar
as suas graciosas palavras
ou correr com ele na praia
ou vê-lo desenhar na areia figuras de peixes
ou ir buscar barro
para modelar pássaros
depois iríamos a uma festa
de algum cobrador de impostos
ou a uma boda camponesa
onde houvesse bastante
que comer e beber
com muito gosto armaria a tenda na praça
escandalizando os fiéis da paróquia
e derrubaria as mesas dos vendedores
no pátio do templo.
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 Vilborg Dagbjartsdóttir. Pelos nossos corações passa a linha de fogo, antologia de poesia islandesa. S/c.: Ed. Contracapa, 2021, pp 171-172 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022


        Hora de voo


É o verão
que pinta de azul as empenas
do amanhecer.
Ninguém o pode negar.

A trombeta muda de som
quando é outono na montanha.
Canta, pássaro.

Ele coroou o vento de flores
que exalaram o seu aroma
desde que ela as viu.

Canta, pássaro
canta e afugenta os caminhos da noite.


  Stefán Hordur Grímsson. Pelos nossos corações passa a linha de fogo, antologia de poesia islandesa. S/c.: Ed. Contracapa, 2021, p 90 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022


Se te dou a mão é por receio, é a maldade dos corpos
que como árvores se despem no vento. Solitárias.
A idade que tudo transfigura. A solidão nasceu
e em pedras deixou-se ficar nos leitos
onde as águas escorregam mudas e em pânico,
os seus leitos de morte, de pânico surdo.
Soou o desespero dos homens, as sombras mais severas
vibraram
ao peso do ar, e é noite.
Água escura sobre tão solitárias pedras,
no vazio das janelas
que se querem trancadas, por onde o vento
sem licença para entrar.
Os corpos não se despem mas pela mão unem-se
no seu lamento comum.


  Miguel Marques. Canto de Tebas. Silveira: Letras Errantes, 2021, p 46.
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022


Quando, meu Deus, irão inventar
um computador que tenha capacidade
não só de recordar
mas também de esquecer,
esquecer rangendo docemente?
Bem sei
que não vou ver esse dia,
no entanto continuo à espera,
ardentemente,
com a tremenda força de todos os meus defeitos.


  Penti Saaritsa. O mundo adormecido espera impaciente, antologia de poesia finlandesa. S/c.: Ed. Contracapa, 2021, p 302 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).

 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022


Quando o verão tinha descarregado a sua chuva como folhas
e também as folhas tinham caído, tinha chegado Setembro,
vi deslizar um pássaro sobre a minha cabeça,
uma sombra de mim que vivia na terra,
presságio de Outubro, sem palavras, mas a mesma canção.

  Bo Carpelan in O mundo adormecido espera impaciente, antologia de poesia finlandesa. S/c.: Ed. Contracapa, 2021, p 129 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).
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domingo, 20 de fevereiro de 2022


Me acerqué a él, que se mantenía en el mismo sitio, con las piernas pegadas para aliviar el frío, con la lumbre del cigarro iluminando las yemas amarillentas. Miré sus pies sobre los adoquines que ahora brillaban de otra manera, con esas ráfagas que la escarcha recoge. Tenía la zapatilla derecha desatada. Me agaché y se la até lentamente, como si estuviera enseñando a un niño a abrocharse sus zapatos. Formé un arbolito perfecto con el cordón negro rodeando el tronco e hice doble nudo. Los coches pasaban a nuestro lado. La gente miraba de soslayo la imagen de un hombre arrodillado atando los cordones de un hombre en pie. Había llegado a esa dignidad sin proponérmela. Notaba el frío del adoquín subiendo por mi rótula. Al levantarme, pocos centímetros separaban su cara de la mía. Y seguimos juntos calle abajo.
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 Alejandro Simón Partal. La Parcela. Barcelona: Caballo de Troya, 2021, p 155.
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sábado, 12 de fevereiro de 2022


Qué fuerza convoca la mañana que es capaz de levantar a los que tienen el corazón cansado con un lento amanecer? Qué extraña confidencia trae para que la atiendan cada día los que ya se han abandonado? Lo primero que mis ojos veían al despertar era la ventana en el techo de la buhardilla, que enmarcaba el cielo difuso de Bolonia, empujado por ese viento que no lo dejava detenerse. Ese cielo se limitaba a cerrar días y abrir noches, sin envidiar la altura de otros cielos. De él aprendí a renunciar sin sufrimiento, a no poner resistencia a lo que no se puede parar. Aprendí a dejar de exigir para empezar a agradecer las ofrendas que a mi alrededor brotaban y que estaban ahí para servirme. El párroco de Saint Nicola insistía cada semana en que es tan importante servir a los demás como dejarse servir a uno mismo. Necesitábamos más atención que justicia. Poco a poco empecé a entender que Bolonia no me impedía el deseo, sino la desmesura de los deseos.
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 Alejandro Simón Partal. La Parcela. Barcelona: Caballo de Troya, 2021, p. 85.
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022


* 18. Há uma chama avulsa que se agita por entre os escombros da beleza. É uma forma de questionação como qualquer outra. É uma saudade de fogo. Lupa que se inclina sobre o infinito. Por isso, ofereço-te, não a rosa, votada à cinza, mas o frágil canto que dela sou capaz. Aceita se quiseres esta ausência, réplica espavorida com que esperamos despertar a mesma noite sem nome. No eco feliz do que não voltará a ser, reconhecemos uma espécie de alegria.

* 19. A árdua arte das palavras permite aprofundar o abismo. Não me ocorre muito mais. São apenas ficções que minam o retrato, que esburacam o relato, a sabotagem de todas as leis da identidade. Ardor impessoal com o qual não saberia viver. Escrevo para ti, não sei escrever para mais ninguém. Tendo naturalmente para a fantasia, para a efabulação dos factos mais concretos. Misturo tudo e dessa amálgama improvável nasce a mais objectiva impostura que me prende. Como explicar um tal sentimento de urgência? Aqui estão elas: pegadas envenenadas, assombro por enterrar.
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 Ricardo Gil Soeiro. Tratado da mão. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2021, pp 22-23.
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022


a psicanálise do fogo

 

 trago-te para o meio do adro

lanço-te o fogo

crepitas no meio do círculo

e dos cantares

 

 ardes

há um incontornável apelo da combustão

que não consigo evitar

brasas madeiro ou êxtase

tanto se me dá

 

 trago-te para o meio de tudo

uma chama lambe-te até ao topo

avivas-me coisas muito antigas

talvez mesmo da infância

 

 ardes

ardes e eu ardo contigo

sem saber modo nem razão


Victor Oliveira Mateus. Madeiro, Fólios de Poesia II. Penamacor: Câmara Municipal de Penamacor, 2021, p 47.


  

 

 

 





 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021


                 A casa iluminada


Olhai honestamente para o vosso passado
escondido da rua pelos arbustos
oferecendo-se aos pedaços
naquilo que o rasurado quis extirpar
nos trechos sem relação que vos assaltam no sono
no desabamento, na estranheza
outro nome possível se transcreve


Considerai as vossas memórias pré-históricas
as primeiras declarações de amor pronunciadas
com lábios de sangue
a inervação magnética do vosso coração
dentro da caixa anatómica
dentro de uma caverna
na jangada que vos leva


Aprendei a observar com delicadeza
a terra inóspita antes de passar
a face molhada por uma chuva repentina
e o seu invencível sentido


Somos ainda os nativos, os mais remotos


Assim que chegarmos ao mar alto
e perguntarmos por que razão
seremos baixados por cordas
à casa  demolida ainda iluminada
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José Tolentino Mendonça. Introdução à pintura rupestre. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 50-51.
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021


              Falando em línguas


Em Praga, descobri um café
sem música nenhuma a ameaçar-me as musas,
só as vozes humanas
vestidas de uma língua que não sei,
de declinações tantas e muito
fricativa

À minha frente, dois jovens desatentos
a tudo o que não seja pele e olhar,
nesse desejo inconsequente e belo
de acolher o abismo,
de ser um corpo só, uma só alma
(ou isso que chamamos ao que
nos sobrevoa)

Foi partilhada a fatia de bolo que pediram
em êxtase comum,
neste café deste pedaço curto da cidade,
e a língua de uma música tão estranha para mim
vestiu-se de paixão,
foi declinada com os dois sorrindo,
comendo o bolo, seria doce e bom,
mereceria Magnificats quem sabe,
decerto o olhar deles, sim,
porque daqui, do canto do café onde me sento,
sou ignorante
da língua e dos costumes,
mas não o sou do amor

Podia o bolo ser moldado entre ovos
sem sabor, farinha muito rude e pouco fina,
que lhes havia de saber na mesma
àquilo a que chamamos paraíso:
um corpo em sobressalto e a língua
a apetecer palavras generosas,
como beatífico ou resplandecente

E a gente toda sentada a conversar neste café
sem música, a cidade, o céu já a escurecer,
tudo agora à volta deles ganha um halo
de luz
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  Ana Luísa Amaral. Mundo. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 86-87.
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Dia 18 será a Apresentação do Nº 4 da Revista Acanto na qual colaboro, para mais informação ver aqui:
https://www.jornaldeleiria.pt/noticia/numero-quatro-da-revista-acanto-apresentado-em-lisboa?fbclid=IwAR35f3C-qnVX4f8x2NZReI6B3iDpKVQk8BWCyhzVzU3uV7t5Gj0kPKsZdAs
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domingo, 12 de dezembro de 2021


É antigo o meu olhar. Vejo de muito longe e com traços inseguros todos os caminhos.
O tempo passa como um pressentimento inquieto. Afasta-se. Estreita-se. O que me espera, eu sei, é o ruidoso silêncio do esquecimento.
As minhas raízes hão-de fincar-se na terra, revelando o sinal invisível do abismo, à espera das cinzas, na perfeita simetria do coração, nas inumeráveis palavras.
Os meus passos, mais lentos, devoram a distância que me separa da mudez e conhecem a cor da poeira levantada pelos pés quando os pássaros iniciam um voo solitário.
Para além do horizonte, o mistério do invisível pertruba-me como um recomeço sem memória, sem limites, sem retorno.
Estendo as mãos para tocar a luz cada vez mais distante, cada vez mais indecisa, cada vez mais imprevista. E fixo essa luz até ao apagamento do brilho nos meus olhos.
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 Graça Pires. Antígona passou por aqui. S/c.: Poética Edições, 2021, p 80.
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sábado, 11 de dezembro de 2021


Continuarei a definir o exíguo espaço de uma errância no culto da palavra. Habita-me a expectante mudez de um náufrago preso ao barco que o salva.
Escavo o traçado de um alfabeto de subtil simbologia. Como deriva de âncoras sem retorno, ou um sacramento, ou uma gíria mística, ou uma vaga promessa de alegria, protejo na bainha do texto uma sintaxe quase sagrada.
Na lonjura de vozes antigas seguro a luz. Assombro-me da paisagem. Deixo que as palavras cedam inteiramente ao indizível subterrâneo da paixão.
Com um alarido preso à boca, leio os poetas das palavras claras e quebro no interior das pálpebras os versos mais cúmplices.
Semelhante a um primitivo nómada, guardo comigo o fogo da poesia, para que nunca se extinga e me seja confissão e esconderijo.
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 Graça Pires. Antígona passou por aqui. S/c.: Poética Edições, 2021, p 52.
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2021


João de Mancelos é docente universitário e crítico literário. Paralelamente a essas atividades tem desenvolvido, ao longo dos anos, uma intensa atividade no que diz respeito à publicação de uma plurifacetada obra própria. Assim, e por não ser a finalidade deste texto o enumerar toda a produção do autor, saliento apenas: no ensaio, “O marulhar de versos antigos: a intertextualidade em Eugénio de Andrade” (2009), “Magia negra: a obra de Toni Morrison” (2014), “Todas as cores da América: a literatura multicultural” (2015); na poesia, “O teu nome incendiado de azul” (2016); na ficção, “Nunca digas adeus ao verão” (2021) e o presente livro de que passarei a falar.

Em “a rapariga que adorava finais felizes “(edições Colibri, 2021), João de Mancelos apresenta-nos um conjunto de treze contos que entretecem entre si aspetos comuns, o que dota a obra de homogeneidade e coerência, mas que, com exemplar fineza, introduz nesse mesmo comum uma miríade de categorias e subcategorias da narrativa, que tornam cada conto, não só completamente autónomo, como impossível de ser articulado com qualquer outro. Vejamos: entre aquilo que é semelhante podemos notar um certo etarismo, não com qualquer intento de descriminação, mas porque se visa fornecer um olhar específico sobre dados modelos comportamentais e dadas formas de sentir (ex.: pp 54-55), por isso, e à exceção do antepenúltimo conto, todos os narradores e personagens rondam a idade dos vinte anos. Também ao nível literário estamos perante um tipo de Realismo Social e Económico (atente-se às marcas da roupa, dos utensílios, dos carros, aos tipos de alojamento, às ocupações dos jovens, etc.), mas que, em dados momentos irrompe por um certo Realismo Lírico adentro (ex.:pp 36-37, p 39, pp 85-87) e encontramos mesmo dois contos situados entre o Fantástico e o Realismo Mágico (pp 59-63, 65-69) e estes dois contos, levam-nos a concluir que nada neste livro foi deixado ao acaso: numa conferência dada em 2015, subordinada ao tema d’ “as configurações do real”, Tristan Garcia não deixa de referir o ataque de Barbey d’Aurevilly a Zola, bem como o de Flaubert a Balzac, quando diz que este último ao querer fazer romance sociológico acabou desaguando em plena sociologia, já que para que serve, segundo T.G., reproduzir um real que já está ante nós e que não nos necessita para absolutamente nada?, daí a possibilidade de falar desse real de um outro modo e é aí que entra outro tipo de ficção, nomeadamente a dos dois contos de João de Mancelos que mencionei acima. Dito de outro modo: “em a rapariga que adorava finais felizes”, o autor não só experiencia vários tipos de registos dentro do Realismo (até de códigos linguísticos!) como também desmultiplica as categorias da narrativa em subtipos vários: narrador não participante (pp 11-15), narrador autodiegético (pp 47-51), narrador homodiegético (pp 65-69), etc., etc. O mesmo acontece ao nível das outras categorias da narrativa. Estamos, pois, perante uma tessitura onde o académico e o ficcionista decidem dialogar para, utilizando todos os recursos ao seu dispor, dar a ver – e a ler – dados agrupamentos sociais. E aqui, apenas como adenda, direi tão-só que João de Mancelos foge a “pintar” guetos ou elites: as suas personagens e os seus narradores são gente normal, daquela que se cruza connosco diariamente nos cafés, nas gasolineiras das autoestradas, nas estações de comboio; normal, não no sentido do espetacular denunciado por Debord, não no sentido do narcísico denunciado por Marie-France Hirigoyen, mas normal no sentido estatístico de Aldous Huxley ou no sentido do produzido por uma forma de poder específica como em Foucault, dito de outra maneira: João de Mancelos, através de um trabalho incomum, traz até nós, em “a rapariga que adorava finais felizes”, gente comum.

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Victor Oliveira Mateus

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021


como uma ilha     temos naufrágios por todos os lados
os pontos cardeais são exercícios de respiração
natação de almas perdidas

somos todos nós     nós de gravata

passa a caravana do luxo
os cães ladram
de dentes nos moinhos
pés no deserto
ainda agora um magro e um gordo
por aqui passaram num cavalo magro
e num burro
duas ambiguidades divinas

atiram-se moedas ao ar e cavam-se fontes
fundam-se cidades romanas
somos enxame
estamos no chão do progresso

os números apressam-se no calendário
nos galhos da árvore dos antepassados
a modernidade é uma mãe
uma máquina de calcular
não chamem mãe à bela baleia branca
perdoem-lhe o tato
a perna do capitão
o fim não é o pior
o pior é o aprodrecimento
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 José Gardeazabal. Viver Feliz Lá Fora. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, pp 35-36.
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