sábado, 8 de julho de 2023


O mundo envelhece, às vezes aziago,
e nós esbanjamos todo o tempo nele.
Sei que é lamentável repetir, mas tu lembras-te
da neve a derreter no fundo raso dos olhos,
como era fácil imaginá-la sem um mapa à mão -
pendurávamos as palavras na corda do rosto
para que soasse tudo certeiro e bem-intencionado?
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Não era perdão o que pedíamos
nesses tempos altivos, era a carne branda
da companhia porque éramos jovens
e vagamente interessantes. A palavra amigo
não tinha sentido algum, era mais um copo de água
numa mesa onde não havia comida, só o tilintar
dos talheres de prata roubados num rasgo de fantasia.
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Hoje podes escrever-me todos os dias.
Não sou rico nem ressentido.
Se me vires na minha cadeira
de-trás-para-a-frente não perguntes -
assisto só aos campos neutros da história,
o costume: o rapaz que fazia poemas de guerra,
o intelectual solene e não-parisiense
que numa mesa de pé-de-galo compôs
muitos versos recalcados à mãe dele.
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Levo para todo o lado o meu cinto-faroeste,
mal me esqueço da minha manha bem disfarçada -
não sou eu que digo que o mundo envelhece,
são coisas que vou ouvindo na rude telefonia
ao passear pelo alpendre de quatro paredes.
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Quando é que ficámos interessantes?
Tu lembras-te. sim, quando ainda em jovens
trocávamos por graça a ordem dos acontecimentos:
fazíamos girar gaivotas nos tectos negros das roulottes
e derramávamos cerveja no areal a caminho do mar,
engolindo corpo e espírito numa espécie de autofagia,
tão bela, demente. Podes escrever-me todos os dias.
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  Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 31-32.
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quarta-feira, 28 de junho de 2023

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Acaba de sair em Espanha Una casa al otro lado del mundo (Editorial Juglar, 2023) de Victor Oliveira Mateus com tradução do poeta Pedro Sánchez Sanz e Prólogo do Prof. Dr. Fernando Pinto do Amaral.
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sexta-feira, 2 de junho de 2023


          Contradição

Se me fazia bem amar-te?
Não sei...
Era como um poema
em diferido
um cântico de cores
apunhalado 
pela voz.
Às vezes chegava
como rumor de chuva
cadenciada
ou aroma intenso
de goivos ao anoitecer
mas tão ausente
das coordenadas palpáveis
onde os corpos se moviam
que ainda fico a pensar:
seria bom amar-te
assim sem referências
sem traçado de rotas?
Não sei...
Só releio as reticências
no perfil do afago
um perfil de rosto errante
entre mãos
e pele despida
ávida da espada das águas
antes da luz do alvorecer.
E tenho na cabeça
as grades da prisão
dos teus dedos
pintadas por um sol
de abismos quentes
a desmesura do querer
em franjas de contradição.
Se me fazia bem amar-te?
Não
não
não
nunca faria...
Então porque te amava
desde o som da voz
até ao infinito
do meu peito?
Seria só impressão
como um castelo
esfumado na paisagem...


Maria Heleva Ventura. Quando o Silêncio Falar. Rio Tinto: Mosaico de Palavras Editora, 2023, pp 24-25-
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Nota
A Foto 2 mostra o texto da contracapa deste livro.
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sábado, 27 de maio de 2023


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              Livro I: 1 / 1094 a 1 – 1095 a 12(O bem e a atividade humana. A hierarquia dos bens).

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“Toda a arte e toda a investigação, e paralelamente toda a ação e toda a escolha tendem para um qualquer bem., ao que parece. Também se tem afirmado, com razão, que o Bem é aquilo para que todas as coisas tendem.

Mas observa-se, de facto, uma certa diferença entre os fins: uns consistem em atividades, e os outros em certas obras, distintas das próprias atividades. E aí onde existem certos fins distintos das ações, nesses casos as obras são por natureza superiores às atividades que os produzem.

Ora, como há uma multiplicidade de ações, de artes e de ciências, os seus fins são também múltiplos: assim, a arte médica tem por finalidade a saúde, a arte de construir os barcos o navio, a arte estratégica a vitória e a arte económica a riqueza. Mas em todas as artes deste género que relevam de uma única potencialidade (do mesmo modo, com efeito, que sob a arte hípica caem a arte de fabricar os freios e todos os outros ofícios que dizem respeito ao aparelhamento dos cavalos, e que a própria arte hípica e toda a ação que se relaciona com a guerra caem, por suaa vez, sob a arte estratégica, é por esse mesmo modo que as outras artes estão subordinadas às outras), em todos estes casos, podemos dizer, os fins das artes arquitetónicas devem ser preferidos a todos os das artes subordinadas, já que é em vista dos primeiros fins que perseguimos os outros. Pouco importa, de resto, que as próprias atividades sejam os fins das ações, ou que à parte dessas atividades, exista qualquer outra coisa, como no caso das ciências de que temos falado.

Se, portanto, há, nas nossas atividades, um qualquer fim que desejemos em si-próprio, e os outros apenas por causa dele, e se nós não escolhemos indefinidamente uma coisa em vista de uma outra (pois nesse caso proceder-se-ia até ao infinito, de tal modo que o desejo seria fútil e vão), torna-se claro que esse fim não poderia ser mais do que o bem, o Soberano Bem. Não é verdade que, dado tudo isto, que para a condução da vida, o conhecimento desse bem tem um grande peso, e que, tal como os arqueiros que têm um alvo sob o olhar, para a condução da vida, o conhecimento desse bem é de um grande peso, e que, iguais aos arqueiros que têm um alvo sob o olhar, nós poderemos, mais facilmente atingir o objetivo que convém? Se assim é, nós devemos tentar, mais ou menos nas suas grandes linhas, a natureza do Soberano Bem, e dizer de que ciência particular ou de qual potencialidade ele releva. Ser-se-á de opinião que ele depende da ciência suprema e arquitetónica por excelência. Ora, uma tal ciência é manifestamente a Política, pois é ela que dispõe quais são entre as ciências aquelas que são necessárias nas cidades, e quais os tipos de ciências que cada classe de cidadãos deve aprender, e até que ponto o estudo lhes será exigido; e veremos ainda que mesmo as potencialidades mais apreciadas estão subordinadas à Política: por exemplo a estratégia, o económico, a retórica. E já que a Política se serve das outras ciências práticas e que, por outro lado, ela legisla sobre o que é preciso fazer e sobre aquilo de que nos devemos abster, o fim desta ciência englobará os fins das outras ciências; de onde resulta que o fim da Política será o bem propriamente humano. Mesmo se, com efeito, há aí identidade entre o bem do indivíduo e o da cidade, de todo o modo é uma tarefa manifestamente mais importante e mais perfeita de apreender e de salvaguardar o bem da cidade: já que o bem é seguramente amável mesmo por um indivíduo isolado, mas ele é mais belo e mais divino aplicado a uma nação ou às cidades.

Eis, portanto, os objetivos da nossa investigação, que constitui uma forma de política.

Nós teremos cumprido suficientemente a nossa tarefa se tivermos dado os esclarecimentos que comporta a natureza do tema que tratamos, pois, com efeito, não se deve pretender o mesmo rigor em todas os debates indiferentemente, não mais do que o que se exige nas produções da arte. As coisas belas e as coisas justas que são o objeto da Política, dão lugar a tais divergências e a tais incertezas que se pode crer que elas existem apenas por convenção e não por natureza. Uma incerteza semelhante apresenta-se também no caso dos bens da vida, em virtude dos danos que dela frequentemente provêm: já se viu, com efeito, pessoas perecerem pela sua riqueza, e outras perecerem pela sua coragem. Devemos, portanto, contentarmo-nos, quando se trata de semelhantes assuntos e partindo de semelhantes princípios, de mostrar a verdade de um modo aproximativo e em bruto; e quando se fala coisas assumidamente seguras e quando se parte de princípios assumidamente seguros, não se pode alcançar senão conclusões do mesmo tipo. É neste mesmo espírito, desde logo, que deverão ser acolhidas as diversas perspetivas que formulamos: porque é de um homem culto não procurar o rigor para cada género de coisas a não ser na medida em que a natureza do assunto o admita: é evidentemente quase tão insensato aceitar de um matemático raciocínios prováveis quanto exigir de um mestre de retórica demonstrações propriamente ditas.

Por outro lado, cada um julga corretamente naquilo que conhece, e nesse domínio ele é bom juiz. Assim, portanto, num determinado domínio, ajuíza bem aquele que recebeu uma educação adequada, enquanto que, numa outra matéria que exclua toda a especialização, o bom juiz é aquele que recebeu uma cultura geral. Também o homem jovem não é um auditor adequado às lições de Política, porque ele não tem nenhuma experiência das coisas da vida, que são, porém, o ponto de partida e o objeto dos raciocínios dessa ciência. Além do mais, estando inclinado a seguir as suas paixões, ele não retirará desta atitude nada de útil nem de proveitoso, já que a Política tem por fim, não o conhecimento, mas a ação. Pouco importa, de resto, que se seja jovem pela idade ou jovem pelo caráter: a insuficiência a este respeito não é uma questão de tempo, mas ela é devida ao facto de se viver ao sabor das suas paixões e que se precipite na perseguição de tudo aquilo que se vê. Para os irrefletidos desta espécie, o conhecimento não serve para nada, assim como para os intemperantes; para aqueles, ao contrário, cujos desejos e os atos são conformes à razão, o saber nestas matérias será para eles de um grande benefício.

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Aristote. Éthique a Nicomaque. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1979, pp 31-39 (Nouvelle Traduction avec Introduction, Notes et Index de J. Tricot); versão portuguesa de Victor Oliveira Mateus.

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quinta-feira, 25 de maio de 2023


       
                                                XVI (Voz 2)


O amor é um hábito. Um hábito sem anúncio nem previsão. A dado momento, sem que saibamos como, esse hábito transforma-se em vício: esse vício, essa falta de respeito por nós próprios, a mim manteve-me sempre atento, afastando-me das tempestades em que a maioria dos humanos se vê envolvida. A desconfiança é, pois, uma máscara prodigiosa, com ela protegem-se os vulneráveis, mesmo correndo o risco de lhe arremessarem uma monstruosidade que não possuem. Percebi isto demasiado cedo, na nossa adolescência, por entre os jogos que os três costumávamos inventar. Os segredos são como aquelas montanhas em que o tempo vai reorganizando a poeira, sobrepondo camada em cima de camada: a dado momento, olhamos para trás e começamos a duvidar se algo foi de facto vivido ou se o inventámos para compensar uma falha qualquer. Acompanhado de hábitos e segredos vou-me transformando em fantasma, tento deslizar pela quinta sem que me notem, por vezes penso até que poderia passar através das paredes e das portas que ninguém repararia. Cada um protege-se como sabe e eu escolhi este alheamento sem acusações a nada nem a ninguém. Quando não acreditamos na estima que dizem dedicar-nos, o melhor que temos a fazer é correr a escondermo-nos. Há nos humanos uma propensão para a lamúria e para a acusação, mas de ambas as coisas estou eu livre, o meu isolamento é a minha forma de ser feliz, nele basto-me a mim próprio sem precisar de apontar o dedo a quem quer que seja. Escrever - esse modo de esquadrinhar hábitos e segredos - é uma tarefa dispensável: escreve-se sempre sobre o passado, mesmo quando o presente o atualiza e lhe dá um colorido que pensamos novo. Escreve-se sempre sobre essa fantasia com que decidimos vestir o que não há e, nesse sentido, é uma ocupação gratuita. Tudo isto pensei hoje, logo de manhã, para te falar do meu desinteresse, da minha apatia, enquanto Jamie lá continua tentando pôr ordem: na papelada, na quinta, em mim. Por vezes, olha-me com reprovação ou atira uma frase para que me sinta culpado. Aos poucos, sinto-o a assumir uma responsabilidade que não lhe conferi, e, se não lha conferi, também não lha vou tirar. Nancy passou a manhã ao telefone com Sarah. Julgo haver novidades!


  Victor Oliveira Mateus. O Diabo Desceu em Chichester. Fafe: Editora Labirinto: 2022, pp 49-50.

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terça-feira, 23 de maio de 2023


Maintenant que la neige est tombée
dis-moi si nous vivons encore
ou si nous sommes enterrés?
Non, ne dis rien: sur terre, au ciel ou dans la tombe
à quoi me serviraient les mots?
Je n'ai reçu du Seigneur ni la mer rose
ni la force de me venger des ennemis
mais la faculté de pleurer la peine des autres
et de sourire avec amour à leur bonheur.
Seuls au monde, trempés jusqu'aux os
des soldats lancent des boules de neige.
Ils ont la même blancheur sous leurs ailes d'anges.
Ils ne sont coupables de rien, comme les enfants.


 Boris Ryji. La neige couvrira tout. Devesset: Cheyne Éditeur, 2020, p 35 (Traduit du russe et préfacé par Jean-Baptiste Para).
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Traduzido para português a partir da tradução francesa, por Victor Oliveira Mateus:
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Agora que a neve insiste em cair
diz-me se ainda vivemos
ou se estamos já sepultados?
Não, não digas nada: na terra, no céu, ou no interior do túmulo
para que me serviríam as palavras?
Do Senhor não recebi nem um mar rosa
nem a força para me vingar dos inimigos,
mas tão-só esta faculdade de chorar a dor dos outros
e de sorrir, amorosamente, ante a sua felicidade.
Abandonados no mundo, ensopados até aos ossos,
soldados brincam com bolas de neve.
Trazem uma imensa brancura sob as suas asas de anjos.
Não são culpados de nada - tal como as crianças.
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quarta-feira, 10 de maio de 2023


                  Talvez o poeta não devesse arder na neve...


Houve um tempo em que cada coisa batia certa com cada coisa. Cada canto de folha acertado com cada canto. Havia um canto para cada pérola que caía no mar. Uma palavra era um vapor tão leve que soprar nesse silêncio fazia círculos no mar. O ar era tão limpo que o azul se vinha ajustar ao azul e a linha do horizonte era uma língua ateada nas palavras que sempre nasciam desse peito de luz. A pele das coisas era tão fina que os fios do texto se abriam para entrar a mansa luz do olhar. A paisagem cabia numa mão e um salto de bailarina fazia deslocar o mundo para um outro plano, onde as rosas nasciam só de vê-las.

Nesse tempo, meu amor de nenhures, ardiam nos jardins fogos que ateavam sem que neles as asas da pele tingissem de azul os campos das borboletas e os aromas frescos da lavanda. Aromas de jardins de "jadis", antes mesmo de nascer na pele grossa dos muros essa verdura toda que envolve a espessura do muro e faz do verde o bosque onde a minha alma respira, ainda.


   Maria Sarmento. Alma D' Hybris, Tomo I, Símile e súmula (de jardins). Porto: Edições Sem Nome, 2022, p 32.
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terça-feira, 9 de maio de 2023


Tudo, mesmo o amor, provém do
embate. Não porque o choque seja
necessário, mas, sem o impacto
causado pelo sopro da respitação,
o ar ficaria retido na sua origem.
Tudo, mesmo o amor, se desloca,

até o som da voz. Vivemos a pensar
nos benefícios de uma fusão ou de
uma igualdade, mas até no âmago da
natureza, nada é absolutamente igual
nem de ninguém, só se dispersa. É
isso, a vida, juntar uma gota a outra

gota de modo lento, ágil, moderando
o golpe com um pouco menos de sal,
um pouco mais de sol - tomando
as rédeas ao impulso que parece ser
tudo, tal como a dança do amor, e
se derrete na morte inexistente.


  Ana Marques Gastão. Oníricas. Porto: Assírio & Alvim, 2023, pp 56-57.
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quinta-feira, 4 de maio de 2023


Num fim de tarde parei junto a uma árvore
e desatei a ohar o voo de uma ave branca.
Tantas aves se cruzaram comigo e nunca me
tinha demorado a observar-lhes a ondulação
dos movimentos.
Pareciam divertir-se na dança das asas contra o céu.
Por vezes elas riam-se daqueles que tinham ficado
em terra. E tinham razão. Eu queria acompanhá-las
agarrado a um pato, naquele trajecto sem fronteiras
e desejava ter asas para segui-las na determinação
do voo.
Foi a primeira vez que percebi que tinha de viver
com limitações.
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 António Ferra. a primeira pedra. Lisboa: Edição do autor, 2023, p 13.
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terça-feira, 2 de maio de 2023


Serei presença este ano na 8ª Edição do Festival Internacional de Poesía en El Lugar de Los Escudos (México). Aproveito igualmente para agradecer publicamente o convite da organização da IX Semana de la Poesía en Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), que, por motivos pessoais, não me foi possível aceitar, ficando no entanto aqui a minha gratidão para com todos estes autores e agentes culturais. Muitíssimo obrigado!
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quarta-feira, 26 de abril de 2023


Dia 30 de abril apresentar-se-á o livro TU da poeta romena Elena Liliana Popescu, esta obra inclui textos de todos os tradutores desta poeta, incluindo um do administrador deste blogue. O evento decorrerá, via zoom, a partir da Roménia e com entradas em várias cidades de diversos países. 
Horário desta apresentação: 17:00H (hora de Bucareste); 15:00H (hora de Lisboa).
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domingo, 23 de abril de 2023

 

          perdi o teu caminho



perdi o teu caminho:

já não posso regressar

a mim.



      João de Mancelos. Coração de aluguer. Famões, Edições Colibri, 2023, p 58.

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sábado, 22 de abril de 2023



                 elegia do canto distante


o canto daquela ave
que memória distante
recita ainda?


 João de Mancelos. Coração de aluguer. Famões: Edições Colibri, 2023, p 77.
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quinta-feira, 20 de abril de 2023


                  A nitidez das coisas


No silêncio da casa, quando as madeiras estalam,
espero o movimento da engrenagem do tempo,
a manifestação evidente da máquina do mundo,
as pás do moinho moendo a farinha dos dias,
os dentes trincando a pele da feroz existência,
o rolar dos minutos no relógio náufrago da manhã,
o zumbido da mosca contra sua imagem no vidro da sala.


No silêncio da casa, quando estremecem os móveis
e trepidam os eletrodomésticos nas redomas de vidro,
zunindo tudo num uníssono cantochão melancólico,
espero o levantar da poeira do chão entre as moedas
nítidas do sol e as moendas trituradoras de emoções,
a polia que range a palavra contra a indiferença e a solidão,
o destino dos pratos e talheres prisioneiros lentamente
desfazendo-se em barro e mortal ferrugem.


As coisas morrem sem pânico enquanto olhamos
distraídos o vento levantando as cortinas da sala.


Só as coisas são nítidas e têm alma e acreditam
na vida eterna.


José Eduardo Degrazia. As cidades condenadas. Porto Alegre: Invencionática, 2023, p 97.
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terça-feira, 18 de abril de 2023


George fechou a porta. Pairava sobre os três um silêncio com o travo dos grandes enigmas, um halo onde transparecia o receio de que uma qualquer fúria pudesse surgir, trazendo em si as marcas do irremediável. Nenhum deles ousava falar. George cirandava entre os dois canapés de veludo cinzento e o biombo lacado, onde do preto irrompiam delicadas flores de cerejeira, íris e lótus ao despique com pássaros minúsculos. William observava-o. Conhecia-lhe bem aquela capacidade de refrear os impulsos, aquela prudência de que uma qualquer palavra desajustada pudesse conduzir a um arrependimento futuro. George parou: na sua frente uma Daphne de mármore, que alguém colocara, no meio do salão, frente a um espelho enorme que denunciava um descalabro de décadas. Sentiu o frio do mármore a percorrer-lhe a mão, o corpo, os instintos mais primários que ele tentava controlar. Voltou-se e foi colocar-se frente a Jamie, que, embaraçado,, permanecia de pé encostado a uma das janelas. Pensou acusá-lo, dizer-lhe: confiei em ti. meti-te na minha casa, dei-te os meus amigos, os meus segredos e vê o que fizeste, vê como retribuiste; pensou dizer-lhe que se sentia traído, que a traição a um amigo é da ordem do indesculpável, pensou dizer-lhe tanta coisa, mas nem uma sílaba lhe assomava aos lábios. Olhou-lhe fixamente os olhos, a pele fina e avermelhada do rosto, os cabelos onde o brilho se deixava vencer por uma humidade pastosa e seborreica. William, sentado no outro lado da sala, percebeu naquele preciso momento o que existia entre aqueles dois homens, percebeu que aquela coisa que ali se acabara de denunciar era de tal modo imensa, que nenhum dos dois conseguira ainda imaginar. George não se desviou um milímetro sequer. Jamie enfrentando-lhe o olhar conseguiu, no entanto, ciciar: desculpa! George continuava ausente. Virou-lhe as costas. Expirou ruidosamente e, vencido, deixou-se cair numa das poltronas. Virou o rosto para William como quem pede um resgate, uma solução, uma qualquer boia que lhe pudesse corrgir a situação: diz-me como irei eu sair disto? Como irei explicar, a quem quer que seja, que acabei de descobrir que o meu pai teve um caso com Barbara Ashley, e que dessa aventura nasceu Nancy; a quem, no leito de morte, a mãe revelou tudo? Não é que a existência de bastardos no meio dos Webber-Cohen me afete; a ridícula pose do preconceito nunca me contagiou. O problema não é esse! O problema é como irei revelar o que sei. Jamie aproximou-se:
- Deixa-me ser eu a contar-lhe o que fiz. Ela acabará por entender. - George virou a cabeça para William, que, do outro lado da sala, acenou a cabeça em gesto de concordância. Jamie continuava esperando uma resposta. George levantou-se, passou-lhe a mão pelos cabelos, despenteou-lhos, tentou esboçar um sorriso e disse para ambos: vamos à cidade desanuviar.
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Victor Oliveira Mateus. O diabo desceu em Chichester. Fafe: EditoraLabirinto, 2022, pp 59-60.
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segunda-feira, 17 de abril de 2023


    Pássaro azul


Voa pássaro azul
através do círculo
das paredes.
Voa pássaro azul,
a tempestade 
é o teu ninho.


   José Eduardo Degrazia. As cidades condenadas. Porto Alegre: Invencionática, 2023, p 117.
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sexta-feira, 14 de abril de 2023

 

Estás equivocado

si atesoras fortuna,

se consagras tus días al ahorro

precaviendo un mañana

de natural incierto.


Acumulas riqueza

de una materia sin valor alguno.


No hay posesión que valga

lo que vale un instante

de una vida vivida en plenitud.


No cuentes las monedas. No avaricies

otra cosa que el tiempo

que fluye entre tus manos.


Es la felicidad

solo cuanto se escapa y es breve y nada.


   Antonio Manilla. Lenguas en los árboles, Antología poética (1997-2022). Granada: Aliar Ediciones, 2023, p 85.

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quarta-feira, 12 de abril de 2023


               Em certa idade, o cinzento é uma cor alegre


Aprecia tudo quanto tens.
Que não te importe se chove ou faz sol,
desde que o possas dizer.


És dono de um tesouro
que apenas a ti pertence e ninguém
to pode destruir.


Tenta ser feliz
fruindo todo o efémero que subjaz no perene,
desfrutando o eterno do fugaz.


É sabedoria da vida
que por vezes um segundo contenha um ano inteiro;
que o perfume se dissipe e a rosa persevere.


Se viveres o suficiente,
verás que com a idade se tornam relativos
os prazeres e as sombras:


que no esquecimento se alberga a memória
e a memória esquece
que tudo não é mais do que eco.


E, sobretudo, tem presente.


(O futuro é silêncio,
e o momento que vives e se apaga
pode bem ser o último, por isso
cuida desse teu tesouro).


Apenas de ti depende
a alegria do último momento.


 Antonio Manilla. Lenguas en los árboles, Antología poética (1997-2022). Granada: Aliar Ediciones, 2023, pp 83-84 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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domingo, 9 de abril de 2023

Na primeira quinzena de maio apresentar-se-á, na cidade de São Paulo (Brasil), o livro O anjo entre o deserto e o não de Alexandre Bonafim, poeta, ensaísta e prof. na Universidade. Federal de Góias. Segue abaixo o Prefácio que tive a honra de escrever para esse livro, Prefácio esse que está também online no blogue da editora brasileira que publica a obra.
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         As configurações do anjo e do deserto na poesia de Alexandre Bonafim

por Victor Oliveira Mateus

O livro O anjo entre o deserto e o não, de Alexandre Bonafim, insere-se numa temática que tem, ao longo dos séculos, percorrido a cultura ocidental: o deserto enquanto apelo e fonte de saber e de transmutação do indivíduo que ousa vislumbrá-lo e percorrê-lo. Contudo, essa persistência temática em diversos autores não conduz a uma homogeneização dos resultados, já que cada olhar enforma de uma experiencia vivida específica e de um sistema de valores e de crenças individual; poderemos, eventualmente, encontrar zonas que se tangenciam nas diversas abordagens, mas sem que a originalidade de cada uma delas seja posta em causa.



O deserto em Alexandre Bonafim apresenta, assim, algumas características fundamentais: encontra-se associado ao dizer (O deserto diz / com simplicidade / a luz); (Dizer o verdadeiro poema/ é sempre ter a língua amputada); relaciona-se com a interioridade e a ação (Dentro dos meus pulsos/ um deserto desatou a ira/ dos cavalos selvagens); é apanágio de poucos: daqueles que decidem empreender a aprendizagem poética enquanto técnica linguística e que ousam trilhar esse caminho.



O percurso intentado pelo poeta não é coisa pacífica (Nada no mundo pode abrigar/ essa dor estrangeira/ extraterrena/(…) que perfura meus ossos/ meus sonhos), é, por conseguinte, não só uma senda eivada de obstáculos, por vezes tumultuosos, mas sobretudo uma aprendizagem que recusa todo o tipo de solipsismo; afirma-se antes como um acrescentamento do eu mediante uma relação dialógica com o meio e com o outro, e são estes os dois últimos vetores o fundamental deste "O anjo entre o deserto e o não", aliás, tal como aparecem em grandes escritores de outras nacionalidades. Empreendendo uma dialética em relação a esse vazio do deserto, o poeta acrescenta ainda a forte presença do outro, metaforicamente já anunciado no título (anjo): presença desejada, presença amada, mas muitas vezes também presença como germe de mágoa e de desalento. A aprendizagem dos afetos é, neste livro e indubitavelmente, uma apreensão não resultante de um qualquer delírio ou de uma relação fantasiada, mas de uma constante interiorização obtida através de um complexo e contínuo diálogo com o mundo natural, com a palavra e com o outro, outro esse, por vezes, sob a figuração de uma forte proximidade afetiva.



Dialeto



Teu rosto

jorro de uma palavra

na plenitude

de um idioma cego

(...)



Teu rosto

orquídea

melancólica

vermelha

como a fuga

dos garças

rumo ao sul



Há, no entanto, neste livro, uma deliberada urdidura da ambiguidade, que remete o leitor, em dadas circunstâncias, para uma interconexão de referentes, como se estivéssemos ante uma encantada casa de espelhos, onde o poeta tanto pode estar a falar de um outro exterior a si, como de si próprio, como ainda do cume absoluto da sua arte: o dizer poético, e caberá ao leitor, recusando todo o tipo de passividade, aceitar o desafio e fazer-se cúmplice desta aventura poética, deste deserto; um exemplo disto a que poderei chamar uma ambiguidade triádica poderá ser encontrada no poema Cigano:



Ele caminha entre o silêncio e o não



Nos lábios o veneno

a rosa vermelha

esmagada pela melancolia



Ele sempre busca a ardência

a caricia de um delicado algoz



Outra figuração do deserto de Bonafim pode ser encontrada na sua maleabilidade estrutural. Dito de outro modo, este deserto pode surgir nos momentos mais inesperados e nos contextos mais imperscrutáveis: na infância, no quotidiano, na afetividade (Deitei-me sobre tua pegada// De mim restou-me apenas/ o leve contorno do teu não), na memória (Entre meus sonhos/ queima o que foi/ o que não foi/ como a faca/ a perfurar na cicatriz/ uma nova ferida). Poder-se-á dizer deste deserto o que o filósofo Michael Foessel disse da Noite : “De fato, nem todos os eclipses são astrais: a noite pode surgir em contextos imprevistos e, às vezes, simplesmente porque os indivíduos decidem isso “ (1). Também o deserto de Alexandre Bonafim não se deixa espartilhar por quaisquer mapas ou cartografia, ele é uma instância muito mais lata e rica; é essa parcela do Ser cujo atravessamento, por vezes sofrido, trará ao poeta uma nova e enriquecida aprendizagem do Todo. Este tipo de hermenêutica do deserto pode ser encontrado também em muitos dos poetas portugueses – e foram vários! – que nas últimas décadas poetaram sobre o tema, veja-se o caso de Isabel Cristina Pires (2) – no poema Mapa-Múndi: (No mapa do mundo/ há um lugar/ onde ninguém foi./ Dói-nos/ esplendidamente.) e no poema Este Tempo Rápido do Mundo: (Este tempo rápido do mundo/ rouba-nos o corpo à dança sem relógio/ e dói no coração comido pelo nada./ Leva-nos consigo para dentro da aridez). Em ambos os casos, quer a poetisa portuguesa, quer o poeta brasileiro, filiam-se num continuum onde o metapoético se mescla com uma espinhosa aprendizagem, atente-se, a título de exemplo, às palavras de Alexandre Bonafim:



Poética



Poesia se faz

com arame farpado

contra a carne crua

contra a pele nua



Todavia, apesar dos dois poetas perfilharem uma conceção abrangente do deserto, há na escrita de Cristina Pires um pertinaz modo de olhar uma temporalidade específica e um cosmopolitismo não detetáveis em Bonafim, que opta, antes, por uma sensualidade, um erotismo e um alto lirismo raros na poesia contemporânea escrita em português, aliás, não é por acaso que ele no seu livro utiliza uma epígrafe de Dora Ferreira da Silva: dois versos dessa poeta maior que, no século XX, escreveu em português.



Neste livro de Alexandre Bonafim, o deserto desemboca num enraizamento quadrifendido do caminhante, simbolizando este o humano no seu passar pelo aqui: o amor-paixão à boa maneira de Stendhal como pode ser visto no poema Teu abraço; o alcançar de uma regenerada voz poética detetável no poema Poética; uma recuperação do corpo (do outro amado? Do texto? De ambos?) como assinala o poema Orgasmo e, finalmente, uma apreensão, em lucidez e verdade, do eu:



Palavra secreta



Eu sou o homem dos olhos impuros

mas minha boca pode ver o anjo de seis asas



Minha boca pronuncia a inocência

do mais ardiloso vício



Eis a aprendizagem feita através do deserto de Bonafim! Um acolhimento, como acima se disse, feito em clarividência e autenticidade: do amor, do corpo, da poesia e do humano. Este deserto demarca-se, portanto, de tantos outros, como o de Buzzati (3), do qual tudo se esperava e de onde nada de importante vinha, e que mais não era do que uma mera fronteira de ansiosas esperas: de rituais, de envelhecimentos e mortes; o deserto de Alexandre Bonafim é, ao invés, uma mescla de territorialidade e de experiências passionais e ontológicas.



Em O anjo entre o deserto e o não, numa cuidada urdidura de vaivém, num luminoso filigranado de imagens e de conseguidos processos de metaforização, Alexandre Bonafim dá-nos o fruto do seu apurado cismar poético: uma constelação, onde, como já referi, o amor, o corpo, o humano e a poesia se entrelaçam.



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Notas

(1) Foessel, Michael. La Nuit, vivre sans témoin. Paris: Éditions Autrement, 2017, p 156.

(2) Pires, Isabel Cristina. Deserto Pintado. Lisboa: Editorial Caminho, 2007.

(3) Buzzati, Dino. O Deserto dos Tártaros. Barcarena: Marcador Editora, 2014.

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segunda-feira, 3 de abril de 2023

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Morreu Sakamoto vítima de doença prolongada.
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Ryuichi Sakamoto (Tóquio, 1952/01/13 - Tóquio, 2023/03/28).