segunda-feira, 28 de janeiro de 2019


Prémio Internacional de Poesia António Salvado - Cidade de Castelo Branco
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(Ver aqui:  https://24.sapo.pt/vida/artigos/portuguesa-e-mexicano-vencem-premio-internacional-de-poesia-antonio-salvado )
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O Júri do Prémio acima referido constituído por: Alfredo Perez Alencart (Presidente do Júri), Fernando Paulouro das Neves, Rita Taborda Duarte, Victor Oliveira Mateus, Paulo Samuel, José Pires, António Candido Franco, Maria Barata, Enrique Móran, António Pereira e Manuel Nunes decidiu atribuir, por unanimidade o dito Prémio: à portuguesa Maria João Pessoa pelo seu livro "Emoções Fora da Lei" e ao mexicano Gerardo Rodriguez pela obra "Poemas de Almanaque para entreter".
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

AVISO:
o poema que se segue inclui palavrões.
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Nota:
. Pero Garcia Burgalês é um poeta trovador nascido em Burgos (Espanha), frequentou a corte de Afonso X de Castela e Leão e pensa-se que tenha frequentado a corte de Afonso III de Portugal.
Às cantigas de amor trouxe grandes inovações temáticas, pelo que é tido como um dos mais importantes poetas da escola galego-portuguesa. As suas sátiras são notáveis, quer pelas originalidades literárias, quer pela força com que critica os objetos ou as pessoas visados. A Cantiga aqui transcrita segue a grafia atualizada.
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Maria Negra é bem desventurada.
Porque anda tantas piças a comprar
se, nas suas mãos, de tanto as usar,
elas lhe morrem, triste malfadada?
A um caralho grande que comprou,
ontem, ao serão, logo o esfolou
e tem outra piça já amormada.

Ei-la à pobreza, de novo, voltada,
por comprar piças. Vede a desventura:
pissa que ela compre, pouco lhe dura,
depois que a mete na sua pousada.
Acontece-lhe ela morrer, então,
ou de tumores ou de torcilhão,
ou, portanto uso, ficar estragada.

É muita desventura, desgraçada
tantas piças por ano assim perder.
Compra-as caras e vão-se desfazer.
A culpa disso é da casa molhada
onde ela as mete, uma estrebaria.
Quando lhe morrem, a velha sandia
por piças berra, na terra deitada.
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 Burgalês, Pero Garcia. Cantigas obscenas, de escárnio e maldizer. Lisboa: notícias editorial, 2004, pp 104-105 (Coordenação de Orlando Neves).
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Na sequência do trabalho que a Profª. Dra. Eliane Robert Moraes da Universidade Federal de São Paulo vem desenvolvendo em torno da literatura erótica e obscena, este blogue decidiu abrir-se também a essa variante literária, aliás, riquíssima em Portugal e no Brasil. Neste estilo de literatura muitas variáveis podem ser detetadas: linguísticas, de costumes, de valores, de crítica social e política, etc., Assim, fica aqui um AVISO: sempre que algum desses textos for postado, sê-lo-á com o respetivo pré-aviso para que os coraçõezinhos mais sensíveis não saiam molestados. Começar-se-á por um conto meu: "O atrasadinho", que publiquei em 2006 na então Revista Minguante. É uma comédia de costumes e sobre a ganância que ainda hoje me faz sorrir. 

O Atrasadinho"
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Tudo por causa do raio dos olhos, parados, quase mortos. E eu ainda os abro mais, como se não visse. Autismo, disseram os médicos. O gajo é mas é atrasado! Decretaram os meus irmãos do alto da sua experiência. E assim fiquei: quase inexistente. O meu pai aproveitou-se: punha tudo em meu nome e olhava de soslaio para os meus irmãos. Malandros!, rosnava. Olha, filho, está tudo aqui! E apontava para uma caixa azul enterrada no quintal: os extractos, as aplicações. O pai assim fica descansado, acrescentava, como és atrasadinho. O meu irmão mais velho pirou-se cedo: comeu a filha do Hermenegildo e este apareceu aí com uma de canos serrados... Foi uma tourada aqui na rua! Pronto, casou! O mais novo atirou-se ao marido da Isilda do 2º Dto., um que era polícia, daqueles que dão porrada na malta. O maricão ainda apareceu aí com um olho negro. Mas a coisa deve ter mudado, porque depois encontrei-lhe uma coleira na cama. É do cão, disse o sacana. Qual cão?! Pensa que sou atrasadinho ou quê? Nós nem temos cão. E as algemas de que o polícia se esqueceu cá? Se calhar também são do cão. Quando o meu pai marou apareceram todos. Olha lá, perguntava-me o mais velho, sabes onde está a papelada? Eu abria os meus olhos azuis e babava-me. Não vês que é atrasadinho? Impunha-se a minha cunhada. O cabrão do mais novo é mais vivaço: como não me pôde roubar a mim, roubou o marido à Isilda. Essa puta agora não me larga: sabes p'ra onde é que eles foram? Eu abro os meus olhos azuis e deito a língua de fora. Ele é atrasadinho! Insiste a minha cunhada. Qual atrasadinho, qual merda, ele sabe é mais do que nós todos juntos!... Saíram agora as duas. Foram ao Super. Bem, também vou! As transferências já estão feitas e a casa de Genebra à espera. O avião é às oito. Não me posso atrasar! É que isto de ser sempre atrasadinho também cansa.

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terça-feira, 22 de janeiro de 2019


Poemas do livro Aquilo que não tem nome (Coisas de Ler, 2018) publicados no diário espanhol Crear em Salamanca . A tradução é da autoria de André Domingues e as fotos são de Jacqueline Alencart e de José Amador Martín.
Aqui:  http://www.crearensalamanca.com/poemas-del-portugues-victor-oliveira-mateus-traducidos-por-andre-domingues/
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 Saiu já o Nº 6 da Rua L - Revista da Universidade de Aveiro , que inclui dois poemas meus.
Aqui:  http://revistas.ua.pt/index.php/rual2/article/view/11849/9737
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domingo, 13 de janeiro de 2019

Dia 13 de fevereiro, pelas 17:00H,  na sala 5.2. da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, realizar-se-ão as eleições para o PEN Clube Português. A única lista que se apresentou ao ato é composta pelos seguintes: académicos, ensaístas, poetas e romancistas:
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LISTA A Lista concorrente às eleições para os órgãos associativos do PEN Clube Português em 2019, de acordo com o Artigo 5º do Regulamento Eleitoral 
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Delegado da Lista: Manuel Amador Frias Martins - Manuel Frias Martins 
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Mesa da Assembleia Geral: Ernesto José Rodrigues - Ernesto Rodrigues (Presidente) 
Nuno Filipe Camarneiro Mendes - Nuno Camarneiro (1º Secretário) 
Fernando Manuel Venâncio - Fernando Venâncio (2º Secretário) 
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Direcção: Maria Teresa Martins Marques - Teresa Martins Marques (Presidente) 
José António Viale Moutinho - José Viale Moutinho (Vice-Presidente e Tesoureiro) 
Paulo José Miranda Correia - Paulo José Miranda (Secretário) 
Fernando José Branco Pinto do Amaral - Fernando Pinto do Amaral (Vogal) 
João Manuel Vilela Rasteiro - João Rasteiro (Vogal) 
Francisco de Assis Garrido Belard da Fonseca - Francisco Belard (suplente) 
Maria Inês Ribeiro Lourenço da Fonseca - Inês Lourenço (Suplente) 
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Conselho Fiscal: Maria Cristina Nunes da Gama Carvalho Meira da Cunha - Cristina Carvalho (Presidente) 
Rui Miguel Mesquita Fernandes da Silva- Rui Miguel Mesquita (Vogal) 
Carlos Manuel Nogueira Fino - Carlos Nogueira Fino (Vogal) 
Ana Paula Coutinho Mendes - Ana Paula Coutinho (Suplente) 
Victor Manuel de Oliveira Mateus - Victor Oliveira Mateus (Suplente)
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019



  oh los ojos tuyos
  fulgurantes ojos


 Pizarnik, Alejandra. Poesía Completa (1955-1972). Barcelona: Lumen, 2018, p 389.
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                                      En honor de una pérdida
 

   La para siempre seguridad de estar de más en el lugar en donde los otros respiran. De mí debo decir que estoy impaciente porque se me dé un desenlace menos trágico que el silencio. Feroz alegria cuando encuentro una imagen que me alude. Desde mi respiración desoladora yo digo: que haya lenguaje en donde tiene que haber silencio.

   Alguien no se enuncia. Alguien no puede asistirse. Y tú no quisiste reconocerme cuando te dije lo que había en mí que eras tú. Ha tornado el viejo terror: haber hablado nada con nadie.

   El dorado día no es para mí. Penumbra del cuerpo fascinado por su deseo de morir. Si me amas lo sabré aunque no viva. Y yo me digo: Vende tu luz extraña, tu cerco inverosímil.

   Un fuego el el país no visto. Imágenes de candor cercano. Vende tu luz, el heroísmo de tus días futuros. La luz es un excedente de demasiadas cosas demasiado lejanas.

   En extrañas cosas moro.
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  Pizarnik, Alejandta. Poesía Completa (1955-1972). Barcelona: Lumen, 2018, p 345.
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019


viajera de corazón de pájaro negro
tuya es la soledad a medianoche
tuyos los animales sabios que pueblan tu sueño
en espera de la palabra antigua
tuyo el amor y su sonido a viento roto
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Pizarnik, Alejandra. Poesía completa (1955-1972). Barcelona: Lumen, 2018, p 147.
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019


           Fio de olhar

E aquele olhar seguiu-me.
Era curto o caminho, um corredor, uma porta.
Olhar curioso.
Vale uma parábola?
Uma mulher andando, um homem olhando.
Mais nada?
Mais nada.

E lá ficou o corredor e a porta.
E a mulher...
Sou eu.
Não valia mais que um olhar, embora curioso e
gracioso.
O homem...
Lá está, estará, interrogativo a olhar uma e outra
que passam.

Aquele olhar, aquele olhar!
Queria-o... como uma coisa que se agarra e que
se possui.
Mas para quê e como?
Fio de olhar, pura curiosidade.
Não é disparate lembrá-lo e tê-lo até notado?
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  Lisboa, Irene. Obra de Irene Lisboa Volume I, Poesia I: um dia e outro dia.../ outono havias de vir. Lisboa: Editorial Presença, 1991, p 304 (Organização: Profª Paula Morão).
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019


(...)
Comigo anda sempre,
torturando-me,
tão amargo sentimento
de desânimo
e de insuficiência...
que nem nos pobres,
ainda mais pobres que eu,
tenho conhecido!
De que se é pobre, afinal?

A impressão que sinto
é de que o mundo me foge...
de que tudo me falta...
paz, desejos, contentamento.
Erro desorientada!

Amei?
Não!
Não amei bastante,
não amei...
Dei os lábios
e dei o corpo,
furtivamente
e complacentemente,
sem prazer.
E quase fugi dos homens.
Por os aborrecer?
Não, pela dor violenta,
incomportável,
do seu desamor...
Os homens não amam!

Suponho
que toda esta desordem
em que me lançou
o meu desejo
e o meu retraimento,
este cansaço
ou enfado
dos bens ignorados
e repudiados,
me enfraqueceram...
me esgotaram...

E não é só isso!
É este sol...
É ver
e sentir correr a vida...
Este sol que teima em falar
de primaveras,
de anunciações!
(...)

Ó mais pensamentos!
Ó malévolo espírito
deste precoce dia
de verão!
Fechei as portas à luz...
mas cá dentro
ficou o calor,
ficou a quietação...
e neles boiando
este mísero sentido,
este desassossegado coração!
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Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume I, Poesia I: um dia e outro dias.../ outono havias de vir. Lisboa: Editorial Presença, 1991, pp 144-146 ( Organização: Profª Paula Morão).
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terça-feira, 1 de janeiro de 2019



   Uma voz que mal se ouve. Um rumor. Sopro a
inscrever novo alfabeto nos confins da memória, na
rijeza de um banco onde todas as tardes o esperavas,
enquanto os restaurantes entaipavam portas e janelas e
um jasmineiro, igualmente sem esperanças, dobrava-se
para dentro da tua infância, para dentro dessa dor que
não sabias definir nem localizar. Uma dor que persiste
ainda e que continuas usando para aplacar os vestígios
de um absoluto que a terra te roubou. Ah, sempre essa
voz que mal se ouve! A que ficou, para além de uma
qualquer presença física, para além do rigor da própria
morte. E este abandono, esta serenidade à mistura com
uma luz difusa, que, sem que saibas como, acaba sempre
por te atirar para os trilhos do poema.
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  Mateus, Victor Oliveira. Aquilo que não tem nome. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p 18.
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018


 Manual de instruções para fabrico de abraços a dois

Escolher o lugar a gosto,
uma sala cheia de janelas, a luz cortada por cortinas,
um disco a tocar canções ao piano no gira-discos,
um pouco de verde com odor a tílias,
a relva acabada de cortar,
a terra molhada de uma chuva de Verão,
um passeio largo
para não incomodar os transeuntes mais apressados.
Evitar dias de chuva, gabardinas, guarda-chuvas,
evitar as mãos dentro dos bolsos
como pássaros que nunca voaram do ninho,
evitar chapéus de pala e de aba,
camisolas ásperas de lã, luvas e cachecóis também.
Colocar os dois corpos frente a frente,
dar um passo, dois passos, três passos,
perceber uma orquestra
a tocar uma valsa em compasso ternário,
sendo que o mais provável é haver pelo menos um
que não sabe dançar.
Reduzir a distância, o vazio, o abismo, entre os corpos,
se necessário compensar desníveis de altura
com a elevação de um dos corpos em bicos de pés,
e com os braços
fazer um laço como se o outro corpo
um presente a embrulhar.
Por fim, um fim que é o princípio de tudo,
se confortável, se com vontade,
pousar a cabeça no ombro do outro corpo,
no peito do outro corpo,
sentir como respira,
se também bate acelerado o outro coração,
desfazer os bicos dos pés e ficar,
sem perceber que o tempo inexoravelmente passa,
em regra, de olhos fechados.
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 Martins, Raquel Serejo. Os invencíveis. S/c.: Poética Edições, 2018, pp 114-115.
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domingo, 30 de dezembro de 2018


   Funcionário do mês


Punha o coração no trabalho,
que mais podia fazer,
não ia deixá-lo em casa
o dia inteiro sozinho
a comer porcarias e a ver televisão.
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  Martins, Raquel Serejo, Os invencíveis. S/c.: Poética Edições, 2018, p 36.
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sábado, 29 de dezembro de 2018


                Vida Interior

La sensación que llega
sin esfuerzo.

La paz
de las tribulaciones,

el hálito que enhebra
la calma de este cielo
en la pupila clara
que no puede durar.

Alma perecedera, fluye sola,
sin esfuerzo.
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   Bernier, Juan Antonio. Así procede el pájaro. Valencia: Pre-Textos, 2004, p 44.
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018


A la hora del inútil paseo
el aire va arrojando
las hojas amarillas
de árboles sin nombre
sobre la carretera
que húmeda descansa
como cola de gato.

Si en esta hora desierta
tomase el pensamiento
su forma más sencilla,
adoptaría forma de cielo,
de tejado, de lana, de revólver,
no sin antes tomar
la forma de algún rostro
que sentimos lejano.
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 Bernier, Juan Antonio. Así procede el pájaro. Valencia: Pre-Textos, 2004, p 18.
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018


(Texto de Graça Pires, lido pela autora na Livraria Férin em novembro de 2018, como apresentação do livro Aquilo que não tem nome ).
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   Ao ler este título do Victor Oliveira Mateus ocorreu-me Ana Hatherly no seu verso: escrevo para dizer o que não pode ser dito.
   Porque este título é muito mais que um título. Encerra um pressuposto simbólico e real que, no dizer do autor, é o pedaço desse mistério para lá da morte e da vida (p 48). Encerra também a invenção de uma intimidade partilhada com os leitores através da palavra. Palavra, reveladora, libertadora, destruidora por vezes. Encerra ainda a ideia de uma causa vazia que podemos abranger até onde o limite o permitir. Como disse o filósofo da China antiga, Lao Tsé (604-517 A.C.) um vaso só é útil pelo vazio que tem dentro.
   Cada poema deste livro pode parecer-nos uma janela escancarada ou a fresta estreita que se entreabre a desvendar um rosto, um corpo, umas mãos, uma voz, ou uma paisagem iluminada por emoções.
   Dividido em três partes: Rito matinal, Poemas de amor e morte, Negro com azul ao fundo, o livro do Victor traz-nos uma poesia onde encontramos mistério, melancolia, amor, perda, sarcasmo.
   É uma poesia que muda de voz, que incorpora registos discursivos diferentes, que vão do dizer narrativo, à expressão lírica, ao concreto das coisas, ao tempo interior da memória, à elaboração de conceitos, à citação erudita, à invocação de algo que nos excede.
   De notar que quase todos os poemas permitem adivinhar a existência de um interlocutor que pode ser Deus e o Amor que não são traduzíveis por nenhuma imagem, que transcendem qualquer designação ou, como é referido na p 14:  (...) um deus, uma presença à qual, à falta de nome, amor chamássemos como se chama um pássaro, uma barca antes do fim, uma nova benfazeja que designasse em força o que não tem termo nem limite. Esse interlocutor pode ser também o desejo, a ausência: Depois de ti/ todas as ruas ficaram vazias/ e as casas entregaram-se, à humidade de um tempo sem destino (p 27), ou: agora que aqui não estás, deixa que o tempo afague este mármore sob o qual te vieste esconder (p 19). E pode ser a morte: Abro a janela e lá estás de novo/ na sisudez das paredes em frente (...) E vem-me também um cheiro a fim, um adejar negro nesta aparição (p 43). Podem ser os outros, porque é quando o poeta entra dentro de si próprio que melhor consegue ver os outros e encontra aquilo que é comum a todos: Afagas a mesa com tuas mãos de terra, mãos nodosas, habituadas à delicada tarefa das raízes (p 12). Pode ser também uma prece como no poema Invocação da p 34: (...) alivia-me deste presente/ que posso tornear e do peso de um passado/ que não posso corrigir. É como se estes interlocutores subvertessem os monólogos, inerentes à poesia mais intimista, ao encher-se de vozes que se interpelam e nos interpelam.
   Nos poemas do Victor percebe-se uma imagética ligada ao sobrenatural, aos lugares, às coisas, ao tudo e ao nada onde os olhos do poeta se detiveram e se perturbaram e se maravilharam, como se quisesse fazer uma síntese daquilo que o seu olhar é capaz de ver ou de intuir.
   As palavras são como um cristal, escreveu Eugénio de Andrade, realçando o seu carácter multifacetado: são de água, são de sede, são de fogo, tecem os textos que se cruzam e se entrelaçam entre si, a mesclarem a vivência dos dias com um mundo conhecido ou reconhecido através da reflexão, porque estes poemas, estou certa, vieram de algum lugar onde, como refere Maria Zambrano, se albergam os sentimentos indecifráveis, que saltam por cima daquilo que pode ser explicado.
   Permito-me dizer que o signo estruturador é o Azul, explícita ou implicitamente. O azul inicial, o azul seco, o azul luminoso, o azul jónico, o azul do céu e do mar, algo que, no dizer do poeta, nos leva a erguer o rosto para o alto, para a vastidão de uma serenidade azul que não cesse de (te) nos chamar (p 13). O poeta ajusta o azul ao ritmo dos poemas. Integra-o. Dá-lhe protagonismo, nesta poesia que é, ao mesmo tempo, pensamento, criação e imagem.
   Sabemos por Steiner que a linguagem do poema tem a capacidade de dizer muito mais do que ela significa, de significar muito mais do que diz. É assim com este livro que, desde as primeiras páginas, nos revela uma escrita de serenidade aparente, mas acabamos por descobrir que é uma escrita de sobressalto, que nos questiona, como se, na sua singularidade poética, cada palavra nos reservasse uma cilada...
   E, a propósito deste Azul, a cor da distância e da nostalgia, do amor e da mágoa, lembro Clarice Lispector: O inalcançável é sempre azul.
     Já no seu livro Quando Voltares o Victor escreveu: Azul do horizonte, de linha que o infinito indica - o indizível.
   Victor Oliveira Mateus consegue transfigurar as palavras numa cosmologia muito pessoal, como se a poesia fosse para ele a presença quase invisível de um rumor de palavras e silêncios que o levam a entender a vida humana como uma possibilidade do Universo ou de Deus.
   A última parte do livro, significativamente chamada Negro com azul ao fundo, tem um poema que reforça o que acabei de dizer. Por isso repito com o poeta: (...) De mim ficarão os escritos que irão truncar/ ou esconder no negrume dos novos templos,/ as suspeitas em torno do meu corpo/ perto do qual ninguém viram, nem poderiam/ ver. Ficará tudo o que quiserem infamar/ com os dejetos que lhes sobram das almas,/ tudo menos esse azul onde diariamente vivi,/ um azul jónico e luminosos, avesso ao negro/ que me impunham, mas que até ao fim recusei. (p 58).
   Parabéns Victor por este teu livro e por esta inesgotável fidelidade a todo um azul/ celeste (p 47), mesmo sabendo que qualquer palavra que se escreve pode parecer inquieta, mesmo a palavra Azul.
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Graça Pires (Lisboa, Livraria Férin, 10 de novembro de 2018.
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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

                                                           17.000 de Raquel Lanseros
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(Texto de autoria da poeta e Profª italiana Stefania Di Leo lido por Victor Oliveira Mateus, em outubro de 2018, na "Sala de la Palabra" do Teatro Liceo de Salamanca. Este texto funcionou como Apresentação do livro 17.000 (Editora Labirinto/ coleção contramaré) da poeta espanhola Raquel Lanseros.)
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   En este libro magnífico, Raquel Lanseros nos apresenta, como un juego de espejos, muchas imágenes poéticas: la búsqueda del yo poético, la referencia a voces clásicas (Keats, Rilke, Celestina, F. Garcia Lorca, Merimée) y el conocimiento de la poesia contemporânea (màs detenidamente Claudio Rodriguez) que poco a poco se nos va desplegando.
   Raquel Lanseros es una poeta y traductora nacida en 1973 en Jerez de la Frontera (Andalucia, España). Ha recebido numerosos galardones por su obra poética, destacando el Premio Unicaja (2008), el Premio Antonio Machado en Baeza (2009), el Premio de Poesía del Tren (2011) o el Premio Jaén (2013), además de un accésit en el Premio Adonáis (2005).
   Ya desde Leyendas del promontorio su primer poemario publicado, Raquel Lanseros estructura sus libros con conciencia, con rigor, construyendo un todo sin fisuras, un territorio simbólico donde desarrolla el doble fondo de su poesía: lo vital y lo intelectual sabiamente mezclado. La poeta afronta la escritura como un desafio frente a la historia y a la palabra, y lo hace sin solemnidades ni heroísmos. La forma poética (Innneresprachform) se ajusta a las exigencias del contenido, está suprimido el excesso de metáforas, sacrificada en parte la musicalidad del verso.
   Los temas tratados son de tipo universal, bùsqueda del yo, la eternidad, la música, el eros, el beso, la libertad, la oración, temas universales, que dan al libro 17000 un tono nuevo y un enfoque original.
  El desafio que acoge esta poeta desde un lenguaje desprovisto de muchos de sus aspectos líricos, pero pleno de una limpieza y sencillez que mantienen una densidad como palabra y como respuesta al mundo que la sostiene. Por ello en esta pluma abundan la ironia, la oscilación entre la duda y la reafirmación a las impossibilidades de la palabra.
   El eco de su voz acaba de llegar en Nápoles, directamente en italiano, traducido por Gelsomina Rea, cuyo ùltimo poema del libro Himno a la claridad o Inno allá chiarezza tiene claros y evidentes referencias a Claudio Rodriguez. El titulo 17000 nos remanda hacia temas ordenados y científicos, involucra con más frecuencia y audacia lo simbólico y refuerza sus significados mediante un ritmo más acentuado que la emparienta con la música. Así que, glosando a Valéry, el significado de su poesía resulta de al oscilación entre el sentido y el sonido
   Podemos, pues, pensar y comprender este libro con cierta objetividad crítica, en contra de las creencias del estecismo y el nihilismo vanguardista, que consideran a la poesía casi que inaccesible y cerrada a un posible análisis esclarecedor. No obstante, habría que estar de acuerdo con esa imposibilidad si se intenta un análisis simplemente racionalista, lógico o técnico de 17000 y no estaríamos listos a concebir su capacidad cognoscitiva inherente al pensar y que está abierta a los laberintos de lo inconsciente, es decir de lo onírico, pulsional y instintivo.
   La sensibilidad poética de Raquel Lanseros sólo es concebible como sensibilidad cultivada. Como la sensibilidad cultivada implica necesariamente (a más de la apertura a la ciencia, a la filosofia, la linguística) la educación de los sentidos, y esa educación se efectúa, ante todo, mediante las artes que le corresponden, podemos concluir que, si se saben desarrollar las indispensables mediaciones, la función de la poesía es de extraordinaria amplitud y eficacia soterrada a pesar de su apariencia frágil y inocua (paradoja planteada por Holderlin).
   En Potencialidad y biografia su poema inédito traducido al italiano por Antonio Nazzaro, Raquel Lanseros expresa su punto de vista sobre la vida: "Después y sin remedio llega el límite/ el resultado, la conclusión, la carrera, el balance/ el objetivo, el cierre/ la consumación./ Las cenizas que, para consolarnos, llamamos biografia./ Para alla la poesía es el lugar absoluto de la libertad."
   Es una poeta madura apesar de su juventud, y transmite el amor por la palabra delicada combinándola con versos combativos, luchadores, que recuerdan a los olvidados, o que dibujam otras geografias lejanas. La poeta que ha publicado también por Visor y Hipérion,en Italia acabamos de conocer su Fino a che saremo a Itaca, libro que dirige nuestra atención hacia Kavafis.
   La vida de Raquel Lanseros es un gran viaje, su voz es viva. Ella es una compañera luminosa. Su poesía es una constante sorpresa de percepciones y grietas en el pensamiento y en la sensibilidad. En su obra hay la presencia de maestros de todos los tiempos, reuniones y recuerdos. Todo visto con una sabiduría femenina moderna y antigua, dolorosa y maravillosa, herdada y transmitida.
   Su ideal poético coincide con una propuesta basada en la sinceridad, la autenticidad en la forma de interpretar el mundo. Para ella la poesia es un territorio de libertad, de resistencia hacia muchas cosas que no nos gustan, también es un territorio de investigación en la propria identidad, tanto individual como colectiva, es la manera de luchar en contra del pase del tiempo, de la brevedad de la vida. Su lenguaje es proprio, es un reflejo de su personalidad.
   17000 es una obra completa con referencias al arte (Van Gogh), a la música (Carmen de Bizet), a las matemáticas, una obra en la que la libertad se exalta y la eternidad tiene nombre. Su poesía es realmente un viento que deposita preciosos regalos en nuestras manos abiertas y en nuestros corazones, en nuestro sentir.
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  Stefania Di Leo
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

             Despedida

Me desperté a tu lado, envuelta en el perfume
a tabaco y a menta de tu cuerpo
como si se tratara de un vestido de seda
o una siamesa piel que nos uniera,
con el gozo aniñado de amanecer contigo.

Como cada mañana me diste un tibio beso,
bibiste tu café,
encendiste el primer cigarillo,
pusiste las noticias de la radio,
dijiste: "Va a llover, coge el paraguas".
Todo era normal en apariencia
- quién puede adivinar
los designios oscuros que trae el día?-
y me marché al trabajo sonriendo,
oyéndote silbar bajo la ducha.

Yo no escuché tus pasos alejarse
ni la puerta cerrarse,
como exigen los buenos finales de una historia.
Pero al entrar en casa un silencio terrible
de alas negras inmóviles, un ensordecedor
silencio nunca oído,
me golpeó el cerebro brutalmente.
Malherida quedó, de pie en la alcoba,
alguien que no era yo;
al principio pensé que estaba muerta.

Vi entonces tus zapatos, pedestales vacíos
donde ayer - todavía siendo mío -
te erguías orgulloso.
Escuché claramente el clamor de mi sangre
gopeando mi herido corazón como un tambor,
y supe con dolor que estaba viva.
Tus zapatos usados fueron tu despedida,
en su desolación de ataúd doble yacía,
ya sin cuerpo, nuestro amor derrotado.

Ellos eran tu última palabra,
la muda y elocuente señal de tu abandono.
El vacío trepó por las paredes,
como un súbito moho,
royendo los visillos,
la alegría de nuestras risas juntas,
y se fugó la luz como tu sombra.
Así llegó la noche, lentamente,
y comenzó la muerte que no acaba.
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  Daudet, Elvira. Del amor y sus frutos amargos (Antología 1956-2016). Madrid: Bartleby Editores, 2017, pp 87-89.
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018


Depois das chuvas, no enxurro, vislumbro traços
de um rosto que me lembra outro rosto
sombras ecos pictogramas
um segredo qualquer que há muito se desvaneceu.

Quanto mais nos elevamos ao céu
mais estéril a terra se torna, mais pungente é o desterro.
A voz assume o timbre do que nunca saberemos
e esquece o bafo do estrume que nos deu nome e apelido.

Somos ruínas no fundo de um poço, por entre as águas
insalubres do pensamento somos
quase a negação do que quase fomos.
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  Fragas, Rui Miguel. Sobre o prumo das falésias. Fafe: Editora Labirinto, 2018, 75.
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terça-feira, 18 de dezembro de 2018


Os pássaros levantam voo e devoram
a própria imperfeição. Entregam o coração
ao rigor frágil das asas
e propagam lume pelos veios do mundo.

Incendeiam florestas na ponta entontecida dos ramos
bruscos fogos invisíveis.
Desenham métricas impossíveis, pautas enigmáticas
até onde a luz ressurge de frente.

São vivos vulcões voláteis a subir e a descer
os declives da tarde
esses súbitos pássaros inadiáveis.

Não lhes inibe o voo as sombras do medo
nem os caudais do vento nem os espelhos errantes
do espaço. Nada inibe a ascensão, a queda inevitável.
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Fragas, Rui Miguel. Sobre o prumo das falésias. Fafe: Editora Labirinto, 2018, p 33.
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018


DEGLUCIÓN interrumpida.
Contracturas.
Reintegro a la tierra
del pasto sustraído.

En eso estaba cuando
una libélula pasó rozándole la boca.
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  Maillard, Chantal. Cual Menguando. Barcelona: Tusquets Editores, 2018, p 20.
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DESPERTARSE.
Para caer al día. O sin razón.
Esperar.
Volver al sueño.

Marisma estéril.
Salobre.
Comezón en la sutura.
Gorgoteo de sílaba asomando.
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 Maillard, Chantal. Cual Menguando. Barcelona: Tusquets Editores, 2018, p 16.
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018


   Escutar a própria sede é interpretar o desejo que há em nós. E, nesse sentido, importa certamente aprofundar o sentido desta palavra. Na parte final do Banquete de Platão surge uma interpretação do desejo que há de marcar a história do Ocidente até aos nossos dias. . O desejo é aí perspetivado como falta e tem a aceção de carência. (...) Como tal, ele não é um estado de posse, mas de desejo incessante da verdade, da beleza e da bondade que lhe faltam. Quando amamos o que se passa? Ocorre isto: o amor deseja os bens que não tem em si. A vocação do que ama é assim uma vocação mendicante: enceta os seus caminhos no desconforto das mãos vazias; dorme ao desabrigo; veste-se de forma andrajosa e insuficiente como um mendigo. Apenas recebeu os recursos para atrair e ser atraído, isto é, recebeu a sede. E assim vive. Por isso, temos de distinguir o desejo de uma mera necessidade, que se acalma e satisfaz na posse de um objeto. Não confundamos desejo com necessidades. O desejo é uma falta nunca completamente satisfeita, é uma tensão, uma ferida sempre aberta, uma exposição interminável à alteridade. O desejo é uma aspiração que nos transcende e que não determina, como a necessidade, um termo e um fim. A necessidade é uma carência circunstancial do próprio sujeito. O infinito do desejo é desejo de infinito.
   Na contemporaneidade, Simone Weil revisita o discurso platónico do desejo em chave mística. Ela repete que o desejo é uma enganadora armadilha quando se liga a objetos finitos, pois estes se tornam depressa em ídolos, erguidos no lugar do absoluto. Mas garante que o desejo é bom enquanto contém uma energia que se deixa orientar para o alto, para o divino. Nesse sentido, ela propõe uma educação do desejo, que nos torne vigilantes em relação às tentações de substituição, ensinando-nos, sim, a permanecer na falta, na incompletude, no vazio e na espera.
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 Mendonça, José Tolentino. Elogio da Sede. Lisboa: Quetzal Editores, 2018, pp 53-54.
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domingo, 9 de dezembro de 2018


   Não é fácil reconhecer que se tem sede. Porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós, por detrás das nossas habituais narrativas defensivas, assépticas ou idealizadas; é uma dor antiga que sem percebermos bem como encontramos reavivada, e tememos que nos enfraqueça; são feridas que nos custa encarar, quanto mais aceitar na confiança.
(...) Existe uma violência no mundo e em nós próprios que provém da sede, do medo da sede, do pânico que as condições de sobrevivência não estejam garantidas. Viramo-nos contra os outros.litigamos, achamo-nos enganados, queremos voltar ao passado, apressamo-nos a encontrar um bode expiatório. A sede destapa uma agressividade que nos surpreende, mas que, se formos honestos, está algures dentro de nós. Claro que não nos é grato reconhecermo-nos nessa imagem, mas ela oferece-nos pelo menos a possibilidade de nos tornarmos mais conscientes.
   A dor da nossa sede é a dor da vulnerabilidade extrema, quando os limites nos esmagam.
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  Mendonça, José Tolentino. Elogio da Sede. Lisboa: Quetzal Editores, 2018, pp 36-37.
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018


                       I

A mitad del día murmuró:
- Es el alba, no hay ejércitos, ni campesinos,
                          el mundo ha envejecido -

Se ha derrumbado otro día sobre Bizancio,
el escriba de apítetos detuvo su corazón
cuando el viento en las murallas
recordó los días de Constantinopla,
el antiguo aire del "Remoto Imperii".

Anunció
- Las estrellas no iluminarán las tumbas,
ciegas como el desierto devoraron los
nombres.

               II

Lejos, en Alejandría, alguien
recitará Kavafis,
en aquella ciudad anfitriona,
en el café junto a las barracas,
en la herida final.

           III

Todo estuvo allí:

La inmensidad,
el hombre que anunció a los bárbaros.

Todos saltaron hacia la noche.

            IV

Lenguajes en las piras.

Nadie sueña ya Bizancio,
la lluvia cae sobre la historia,
sobre las mercancías, esencias y viajeros.

Todo estuvo aquí.

 
  Gentile, Ángela. Bizancio. Buenos Aires: Summa Poetica, 2018, pp 13-16.
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018



E os rumos que gostaria de descobrir
continuam a aprisionar-me
na busca constante da transparência
com que me oculto.

Já sei que a analogia entre a imagem e o reflexo
só pode acentuar a contemplação.
Já sei que tudo parece suspenso
quando um clarão irrompe
da fenda do tempo
e traz ao mundo o sopro
do profundo eco.
Já sei que estamos todos na orquestra
e improvisamos fugas sem arte
como se quiséssemos evitar o grande ensaio
que a vida nos exige cada dia.

Como em exílio
permaneço distante das palavras
capazes de iluminar o meu refúgio.

Ninguém pode ouvir o meu poema
como eu ouço.
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  Regalo, Leocádia. A duas vozes. Coimbra: Palimage, 2018, p 51.
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018


Ao estar em mim o que me guardo como segredo,
desvendo o que me escondo por dentro,
como se percorresse os oceanos
da minha memória, que não tenho mais.

Fere-me o pássaro da tarde
que traz a noite nos olhos
à procura da árvore para adormecer.

Tudo é pequeno
como a estrela que tenho no bolso,
essa que desapareceu para sempre
sem o brilho dos espelhos.

Não me tenho mais
nem quero ver-me
a andar nas ruas
entre as abelhas e as pedras.

Procuro a igreja dos desesperados,
mas não sei as preces necessárias.
No entanto,
salva-me o silêncio
porque nada mais tenho a dizer.
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 Faria, Álvaro Alves de. A duas vozes. Coimbra: Palimage, 2018, p 14.
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sexta-feira, 30 de novembro de 2018



Mi ser es de silencio. En la quietud
del campo, solo, donde siempre,
debajo de las peñas, mantengo
la contemplación largo rato.
Sin más allá: vivir sintiendo
que la vida te pertenece
por completo, pararte a comprender
esa simpleza mientras te escucha,
largo rato, el silencio. Para volver
a congraciarse con el mundo.
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  Herrero, Fermín. Sin ir más lejos. Madrid: Ediciones Hiperión, 2016, p 54.
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quinta-feira, 29 de novembro de 2018



Peor fuera donde encontrar alivio.
No querría que el pájaro
de la hiedra cantase hoy
como acostumbra, sin ningún
recato. Que ofreciese de todas
todas lo que tengo. Ni tendré.
No voy a desgarrarme ahora, cuando
la tranquilidad se ha apoderado de la tarde
y si no fuese por las hojas en el suelo
y las plantas tronchadas, quién diría
la pedregada que cayó, aquel estruendo
que amedrentaba. En lo sombrío
una blancura de sudario permanece.
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  Herrero, Fermín. Sin ir más lejos. Madrid: Ediciones Hiperión, 2016, p 33.
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terça-feira, 27 de novembro de 2018


                       38.

Se tivesses uma mente de inverno,
compreenderias. Agora é tarde.

As aves vinham incendiar a primavera
e com ela as suas certezas.

A amizade com os intangíveis sinais da terra
era posta em causa. Uma coerência
era posta em causa.

Ou não eram as aves incendiárias.
O estímulo podia ser uma árvore dobrada pelo vento,
a extrema relação entre dois elementos
próximos, mas longínquos.

Celebra este muro.
O pretérito aquece-te os ossos,
regressa.
Celebra o que está para lá do muro:

um território não domesticado,
a mecânica dos exotismos,
a fonte de calor.

És, serás sempre, o herói civilizador,
e ignoras a minha fronteira,
o reflexo e a vontade do visível.
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Quintais, Luís. Agon. Porto: Assírio & Alvim, 2018, pp 48-49.
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domingo, 25 de novembro de 2018


Envelhecemos com uma vara
de medir o sol na linha do olhar.
Não entendemos os sinais inscritos
nas margens do abismo.
Nem os bosques onde se abrigam
as sombras e a chuva.
Nem a misteriosa relação dos astros
no lado mais silencioso dos céus.
Um surdo alvoroço ecoa, fúnebre, na paisagem
quando, para além das montanhas, o piar dos pássaros
é tão nítido como o sopro do medo que transtorna
a leve inclinação das planícies.
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 Pires, Graça. Uma vara de medir o sol. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p 59.
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Uma promessa na secreta aventura das sementes
e o cheiro dos pomares alastra sobre a sede
fendendo as bocas onde nascem as palavras
da desordem e da festa.
Quando as aves atravessam o gume do lume ateado
à prenhez dos trigos enrodilhamos no rosto
os traços da tristeza que nos arde no olhar.
Só o perfil alongado das árvores desafiando o sol
nos devolve a lembrança das cantigas à desgarrada,
na eira, quando a debulha do milho se fazia
com as nossas mãos predispostas a todos os afagos.
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 Pires, Graça. Uma vara de medir o sol. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p 31.
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sábado, 24 de novembro de 2018


   Gilles Deleuze (1925-1995) é também um autor que se preocupou em ler a pós-modernidade, contribuindo, em larga medida, para a sua sedimentação. Para começar, defende que a filosofia tem a sua origem numa relação directa com as artes, e ganha consistência na produção de conceitos a partir do novo, e não a partir das teorias já estabelecidas. Dito de outro modo, a filosofia pertence ao impensado, que habita os intervalos das relações entre o pensável e a própria arte, e as artes funcionam rigorosamente como o ponto de fuga do aprisionamento do pensamento em si mesmo. Na hierarquia das artes, o cinema surge como a própria "imagem" do pensamento, ou seja, demonstra o próprio acto de pensar a partir de uma noção de "sentido", anterior e irredutível ao próprio estabelecimento das gramáticas, dos códigos e das linguagens. Esta "lógica do sentido", remissível a uma "lógica da sensação", centrada numa noção complexa de "acontecimento", permite ultrapassar a cristalização do próprio significado das coisas em verdades ou proposições. A arte será, assim, aquilo que no seu "devir" antecede as próprias formas, aí se podendo captar as forças, a potência e o material inteligível que concitam e produzem os próprios conceitos de "eu" e de "nós", os quais são o resultado póstumo desse estado pré-subjectivo e "pré-linguístico".
   Neste contexto, a arte e o pensamento são essencialmente do domínio experimental, e não do domínio do juízo e das suas condições transcendentais, superando Deleuze as velhas máximas de que a arte é, na sua essência. comunicação, ou narrativa, mais ou menos determinadas historicamente. Na sua opinião, só a partir dessa condição experimental é que a arte pode gerar algo de novo, aí residindo a sua própria validação, isto é,  o que pode ser dito e visto na arte é uma produção do seu próprio processo, seja no que diz respeito à possibilidade múltipla e "rizomática" de significados, seja no que concerne à própria "produção" do sujeito.
   O conceito de "rizoma", aplicado a toda a realidade, implica a noção de rede, ou seja, um conjunto de linhas que permitem permanentes ligações entre os vários elementos, cuja interpretação, produzida a partir desse organismo, liberto de hierarquias, acaba por criar e reconfigurar permanentemente a realidade.
   Em colaboração com Guattari, Deleuze concebe ainda o capitalismo como um sistema esquizofrénico, cuja noção de indivíduo acabara por subalternizar todas as outras; deste modo, o indivíduo já não é concebido como um ponto referencial e hierarquizador de real, mas como uma máquina de desejo que luta pela sua total afirmação contra todas as imposições sociais e políticas. Este contributo pesará na problematização das questões relativas ao "género", enquanto construção cultural da própria identidade do indivíduo, por oposição à determinação natural do conceito de sexo, assim como na crítica a qualquer noção hegemónica de cultura.
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Pereira, José Carlos. O Valor da Arte. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016, pp 39-40.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2018


   Jacques Derrida (1930-2004) foi um dos autores que mais procurou desacreditar a noção clássica de verdade, defendendo que o sentido e o alcance de qualquer texto (leia-se igualmente: obra de arte ou objecto estético, que para o autor nada mais é do que um "traço") só pode ser encontrado nos jogos de linguagem que o precedem, e que consequentemente o geram e constroem, afastando, desde logo, qualquer referente externo à própria linguagem (concedida como um post-scriptum a si mesma), seja ele de natureza transcendente, transcultural ou tranhistórica. No seu pensamento, converge desde logo o pós-estruturalismo, corrente que se opõe ao racionalismo e ao cientismo, que o próprio Derrida engloba na noção de logocentrismo (centralidade do logos no pensamento ocidental), enquanto instância de verdade, à qual se afere predominantemente a tradição discursiva do ocidente; isto é, insurge-se contra a tradição  a partir da qual supostas noções metafísicas (Verdade, Beleza, Bondade) se apresentam, enquanto pretensos acontecimentos "originários", como a única fonte de validação prévia do discurso.
   À semelhança de Ferdinand Saussure (1857-1913), Derrida considera ainda que o homem é, essencialmente, um ser linguístico, mas, ao contrário do autor do Curso Geral de Linguística, recusa o carácter determinístico das estruturas universais da língua, ou seja, por um lado, o signo não tem relação com referentes exteriores a si mesmo, isto é, com uma realidade pré-existente, sendo apenas interpretável na relação com os outros signos; por outro, o significado encontra-se em permanente recomposição, fruto do referido carácter indeterminado da língua, o que implica necessariamente uma leitura "descontrutivista" de todos os significados que tendam a imperializar ou sequestrar a interpretação, inscrevendo-se nessa dupla matriz a dimensão pós-modernista, que caracteriza  o seu legado.
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  Pereira, José Carlos. O Valor da Arte. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016, pp 37-38.
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quarta-feira, 21 de novembro de 2018


             Amar a un conejo


Te dieron un conejo.
Te dejaron amarlo
sin haberte explicado
que es inútil amar
lo que te ignora.
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  Vitale, Ida. Cerca de cien, Antología poética. Madrid: Visor Libros, 2015, p 207.
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segunda-feira, 19 de novembro de 2018


       Pájaro

Lejos un tren va borrascoso
despidiendo un sonido muerto,
unas voces turban el aire,
un ladrido, solo, se muerde.

Pero el pájaro canta y todo
lo que no es pájaro refluye.
Pájaro-río, luz-dendrita,
luz oral, parcela preciosa,

dueño de su tiempo en el tiempo,
toda gloria su menudencia.
Existo más si este capullo
su seda sonora devana.

  Vitale, Ida. Cerca de cien, Antología poética. Madrid: Visor Libros, 2015, p 131.
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domingo, 18 de novembro de 2018


      Impaciencia


Qué aguardo junto a esta puerta
a la que nadie va a llamar?
La esperanza no me lo dice;
la vida sigue su pasar,
rápida como una nube
si la tormenta estallará.
Voces oídas no las oigo.
manos ceñidas ya no están;
labio de amigo, amor amigo,
también debieron despertar
de ser un sueño. Entonces pido
que todo vuelva a comenzar.
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 Vitale, Ida. Cerca de cien, Antología poética. Madrid: Visor Libros, 2015, p 39.
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sexta-feira, 16 de novembro de 2018


   Lamento de Porfírio ante o túmulo do mestre


Tem o amor tantos nomes e modos
de exacerbar a vontade, que em mim
sempre foi fraca, apenas instigada
pela ânsia de um saber que derramavas
no incipiente vaso que sempre fui.

Quando te ouvia lembrava a cidade
da minha infância, essa Tiro arrasada
por Alexandre, onde cedros, carvalhos
e o rondar dos lobos entorpeciam
a alma, como se um restauro fosse possível.

Quando te ouvia era a minha solidão
que falava, por nos saber evanescentes
no seio de uma unidade que fica,
como esta entrega às tuas palavras
e a uma esposa que sempre me partilhou.

Tem o amor tantos nomes e modos
que engrandecem, aproximam, e nos elevam
para lá do céu azul e da música das esferas,
mas nenhum consegue dizer o que de ti foi grandeza
nesta tristeza em que estás e esperas.
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  Mateus, Victor Oliveira. Aquilo que não tem nome. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p 59.
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   Poema da espera inútil

Depois de ti
todas as ruas ficaram vazias
e as casas entregaram-se
à humidade de um tempo sem destino.

Depois de ti
as árvores encarquilharam,
enquanto os pássaros, alucinados,
faziam os ninhos nas chaminés armadilhadas.

Nada se manteve como antes
na insalubre rotina dos homens
tão à deriva e sôfregos.

Apenas eu
para ali fiquei,
tal como no primeiro dia,
cicatriz entranhada
em sua espera inútil.
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 Mateus, Victor Oliveira. Aquilo que não tem nome. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p 27.
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             Ritual

Pouso a maçã sobre a mesa.
Uma mesa minúscula
entre o lambril e um monte de livros.

Desço a veneziana quase até abaixo,
para que a penumbra
se coadune com o silêncio.

Uma lâmpada de halogéneo
assoma por detrás
de uma das estantes
perto da janela.

Do interior da casa
nem o ruído dos canos,
nem o estalido dos móveis.

Tudo está no seu lugar devido
e o mundo está bem feito.

Deito-me, então,
no sofá do fundo
e começo a pensar em ti.
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 Mateus, Victor Oliveira. Aquilo que não tem nome. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p 26.
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   Desces o talude em direção ao rio, às águas onde o tempo é uma roca à espera dos elos que nunca tecerás e onde o júbilo, miragem intermitente de tantos, te concede essa nudez em que te vês e queres. Jamais alguém te devolverá o ruído da superfície, o vórtice daquelas canções, que, sem melodia, enfeitavam cicatrizes cuja origem nem sequer sabias. Desces para a frescura da margem. Encostas-te a um olmo. Esperas. Vendo bem, para nada te serviram os versos, as espinhosas dissertações, o capricho dos sentidos múltiplos. Sim, vendo bem, a felicidade é tão-só esta espera, esta serenidade entre uma árvore que te ampara e a leveza de um rio que te acena.
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 Mateus, Victor Oliveira Mateus. Aquilo que não tem nome. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p 16.
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Na sessão de apresentação do livro Aquilo que não tem nome (Coisas de Ler Edições, 2018) na Livraria Férin em Lisboa em 10/11/2018. Da esquerda para a direita: Graça Pires, Alberto Pereira, Amélia Vieira, João Rui de Sousa e Victor Oliveira Mateus.
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quinta-feira, 15 de novembro de 2018



Dicen que los primeros días de enero
son los más oscuros.

Mi abuelo me contaba que en su pueblo
habían inventado algunas
estrategias de fuego:
juntar las manos
con los vecinos
a la orilla de las palabras
que son como puertas
que borran todas las distancias.
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  Gatica, Marcelo. El Extramuro/ Valjaspool Muure (bilingue: espanhol/ estoniano). Tallinn: Kaanepilt Walter Isaac Mora Marambio (Izak One), 2018, 45.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Me acerco un poco.
La frase "el fin de la historia" es un espejismo.
Busco solo la línea exacta con que dibujar
el horizonte de un nuevo minuto.
La esperanza permanece intacta,
cuando se abren los muros a la hora de la comida
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 Gatica, Marcelo. El Extramuro/ Valjaspool Muure (bilingue: espanhol/ estoniano). Tallinn: Kaanepilt Walter Isaac Mora Marambio (Izak One), 2018, p 11.
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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

 

   Place de l'Odéon. Une femme me touche l'épaule. Elle doit joindre sa soeur, son télèphone est déchargé. Ses soixante ans parlent pour elle: je lui tends l'appareil. Elle ne sait pas comment ça marche. Elle préfère me dicter les chiffres. Son agenda en main, la femme s'interrompt: "Vous avez l'air triste, jeune homme." Je dis: "Mélancolique, peut-être. - Rien de grave j'espère?- Est-ce que l'amour est grave? - Vous avez rompu avec une fiancée?- Quelque chose comme ça." Silence. La femme reprend la parole: " Vous savez, une amie me disait ces mots voilà quelques jours: j'ai quitté trois fois mon mari. Je ne le supportais plus. Puis un jour j'ai retrouvé la pierre précieuse. Quand on aime quelqu'un, on a aimé sa pierre précieuse. L'éclat se ternit avec le temps. Elle s'oxyde, ou quelque chose comme ça. Mais il ne faut pas oublier la pierre précieuse que l'on a vue un jour."  
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 Dreyfus, Arthur. Histoire de ma sexualité. Paris: Éditions Gallimard, 2014, p 233.
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domingo, 4 de novembro de 2018

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                               A Morte do Poeta
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Se quiseres matar o poeta
não lhe abras brigas, questiúnculas,
polémicas na praça pública.
Se o quiseres, de facto, bem morto
sê seu amigo.
Seu muito amigo mesmo!
Escuta-lhe os desejos, as dúvidas,
os voos, por mais insignificantes
que te pareçam.
Se acaso ele necessitar, apresenta-lhe
até um livro em local de prestígio,
depois, em farsa bem encenada,
deixa escapar para os pares
que o livro não prestava,
mas não podias fazer de outro modo
já que és seu muito amigo.
Se quiseres matar o poeta
tece-lhe elogios nas redes sociais,
bem à frente de todos,
enquanto em mensagens in box
o vais apelidando de parco
de inteligência e fraquinho de estilo.
( O termo fraquinho costuma funcionar,
mas se alguém se te opuser poderás sempre
substitui-lo por um léxico mais brando,
mais brando mas igualmente eficaz,
algo como: irregular, de arte dúbia…).
Se quiseres matar o poeta
sê diligente, corrosivo, irónico
junto de críticos, dos editores, produtores
televisivos e o mais que possa surgir.
Por fim, quando o vires desfeito,
coloca-lhe o braço sobre os ombros
e queixa-te das injustiças do mundo,
contudo, e pelo sim pelo não,
certifica-te se da tumba não regressa.
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©  Victor Oliveira Mateus (Inédito).
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                                         Desencontros


   Sexta-feira. Horas? Talvez umas quinze, não sei! Mas que importância tem o tempo, quando tudo é rápido, voraz e sem consistência? Sexta-feira. Local? Talvez Avenida de Berna, não sei! Mas que importância tem o espaço, quando tudo é amorfo, desconchavada rotina e as pessoas teimam seu pouco a fingir de muito com enfeites de luzes e risos postiços? Caminhas. Agora sem a exibição das marcas, do júbilo nos cenários resplandecentes, sem uma qualquer ousadia que te transporte e salve, mas tão-só o olhar perdido, uma mala enorme, o cabelo revolto, a barba por fazer. Caminhas (agora sim!) com aquele resplendor só acessível aos que na cidade-loba resistem e que, malgrado os desencontros, nas dobras do tédio insistem. Caminhas de tal modo perdido e ausente, que nem vês o táxi parado, comigo na tua frente.
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© Victor Oliveira Mateus (Inédito).
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sábado, 3 de novembro de 2018

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 O Sítio "Casal das Letras" de Maria Augusta Silva e Pedro Foyos publicou hoje o meu ensaio Velhice: Máscaras e Univocidade, que no início do próximo ano surgirá numa Revista em papel.
Aqui:  http://www.casaldasletras.com/colaboradores_analise.html?fbclid=IwAR159rstbHObKgJ4tlI82k7hyfLVYXGp_LFC1c04K4yX9s2g2uGiDMKtUy0

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   Gosto das pessoas que arrastam dentro de si a vida com uma complacência rara, enquanto lhes vão caindo das algibeiras sementes que ninguém agarra. Gosto das pessoas que se fazem de vítimas, porque, na realidade, são-no e isso lhes pesa demasiado. Gosto igualmente das outras: as que também são vítimas, mas que há muito perderam o mundo na volatilidade das esperas. Gosto das pessoas que sabem distinguir o agora, sempre frenético e engolidor de almas, do instante sempre único, irredutível e, muitas vezes, eternizável. Gosto das pessoas que me olham nas bichas do supermercado como quem pede socorro. Gosto dos que caminham: serenos, indiferentes, à margem. Gosto daqueles a quem a angústia os faz sugar-me por dentro e a quem, por vezes, grito de cansaço, mas que no dia seguinte de novo ancoram em mim com uma fidelidade imensa e a sua perda irresolúvel. Gosto dos que preferem a penumbra ao exposto, os rituais e a sedução à voragem assassina do consumível. Gosto dos que, temerosos e não se querendo dispersar na massa indiferenciada, preferem ocultar-se e fugir daquilo que seguramente os devoraria. Gosto dos que fogem da exposição gratuita, da palavra vazia, da encenação ao rés de uma realidade amorfa e privada de qualquer resquício de espiritualidade ou reflexão, ou qualquer outro termo similar que prefiram. Gosto dos que há muito deixaram de correr para ficar em primeiro lugar, e, se acaso algo de semelhante lhes acontece, eles colhem-no com a sabedoria calma de quem se sabe de passagem e de que tudo vale muito pouco, ante o mistério tremendo do ter vindo à vida. Gosto dos melancólicos, dos angustiados, dos que sabem que jamais encaixarão na barbárie que todos os dias os vai cercando. Gosto dos náufragos que me olham naquela cumplicidade fraterna de quem sabe que nenhum porto existe. Enfim, gosto daqueles de quem todos fogem, mas que para mim foram sempre os mais fiéis e os mais estimados.
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© Victor Oliveira Mateus (Inédito).
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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Alteração de data!

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A apresentação do livro Aquilo que não tem nome passou do dia 4 para o dia 10 de novembro. Todos os outros elementos referidos no post abaixo se mantém.
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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

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O livro Aquilo que não tem nome (Coisas de Ler, 2018) será apresentado ao público no dia 3 de novembro (sábado), na Livraria Ferin (Rua Nova do Almada 70, Lisboa), pelas 16:00H. Este livro conta com um ensaio da autoria da Profª Drª Ana Paula Dias, e está neste momento a ser traduzido por um conhecido poeta português, já que será em breve também lançado na América de língua espanhola.
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