quinta-feira, 23 de setembro de 2021


 Parque dos Poetas, Templo da Poesia, Oeiras
Apresentação da Antologia
‘19 POETAS DE PORTUGAL’
Numa edição de Lastura Ediciones (Madrid) apresentamos no dia 1 de Outubro no Templo da Poesia, em Oeiras, com Isabel Miguel e Montserrat Villar González, uma obra única pelo universo representativo da poesia portuguesa actual, com:
Manuel Alegre, Ana Luisa Amaral , Rosa Alice Branco, Casimiro de Brito, Fernando Cabrita, Maria Cantinho, Luis Castro Mendes, Mário Cláudio, Renata Correia Botelho, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Isabel Isabel Maria Mendes Ferreira, Raquel Nobre Guerra, Victor Oliveira Mateus, Maria do Rosário Pedreira, João Rasteiro, Jorge Reis-Sá, Isabel de Sá, Cláudia R. Sampaio.
Foi com um gosto imenso que assinei o prólogo do volume. Deixo um agradecimento adicional à Lidia López Miguel e à Ana.
Dia 1 de Outubro às 18.00h.
Apoio à apresentação: Município de Oeiras
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quarta-feira, 22 de setembro de 2021

(Excerto do monólogo ficcionado do escultor Miguel Ângelo para o seu jovem modelo Gherardo Perini):
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.Se fosses meu filho, Gherardo, eu não te amaria mais, mas não teria que perguntar-te porquê. Toda a minha vida procurei respostas a perguntas que talvez não tenham resposta (...)
Assim, tu partes. Na minha idade já não se dá importância a uma separação, mesmo que definitiva. Eu bem sei que os seres que amamos e que nos amam mais se vão separando insensivelmente de nós a cada momento que passa. É também deste modo que se vão separando de si próprios. (...) É certo que compreendo que tudo isto é ilusão, como o resto, e que o futuro não existe. Os homens que inventaram o tempo, inventaram por contraste a eternidade, mas a negação do tempo é tão vã como ele próprio. Não há nem passado nem futuro mas apenas uma série de presentes sucessivos, um caminho perpetuamente destruído e continuado onde todos vamos avançando (...)
O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. (...) Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.
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 Marguerite Yourcenar. O Tempo Esse Grande Escultor. Miraflores: Difel, 2001, pp 18-19 (Tradução de Helena Vaz da Silva).
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segunda-feira, 20 de setembro de 2021


       Desencontro II


o mundo era a tua ostra


eu queria-te
pérola



    Renato Filipe Cardoso. Passageiro do Real. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 82.
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sexta-feira, 17 de setembro de 2021


                   Antes de tempo


éramos tão velozes
que a bala do amor
nos atingiu antes da partida


Renato Filipe Cardoso. Passageiro do real. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 66.

terça-feira, 14 de setembro de 2021


                                       Museu do Futuro

               mano e cielo e terra (Dante, Paradiso, XXV, 2)


Haverá somente peças desirmanadas nesse museu do futuro a que um dia chamámos planeta. Seja esta a melhor hipótese. Ocorreu-me, por entre destroços e sombras, definir o pensamento como o lugar onde corrigimos, em permanência, os abusos e as intrusões que nos legaram. Caminho dentro de uma cidade, retomo a sua capilaridade. Alguém te abandonou, como se abandona um artefacto sem préstimo, excluído da soberania da função, dos seus sistemas e métricas. Deverá haver um dia uma assinalável descrição destes objectos corrompidos, sem uso reconhecível. Haverá vitrinas, vidros limpos que separem a ferida dos que a contemplam, que os separem de vez, que os afastem de uma pestífera vontade de toque e apropriação. Cada um dos visitantes desse museu de peças desirmanadas será uma fera domiciliada na sua impotência perante o Paraíso que está para lá da mão, do céu, e da terra..
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 Luís Quintais. Ângulo Morto. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 107.
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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

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 Lembro-me do meu pai a tremer

de frio. O seu corpo magro

sacudido pela fúria do vento


numa praia fora de estação.

Lembro-me de como era frágil,

sem peso, exposto.


É essa a minha condição.

Eu sou aquele que se expõe

e morre ferido por uma lembrança.



   Luís Quintais. Ângulo Morto. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 32.

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segunda-feira, 6 de setembro de 2021


             Encantador de pássaros


Encantador de pássaros, tenho nos dedos o instante
dos rios em que se oculta um leve bater de asas,
a mestria do aceno reflectido no lago,
a chuva como a pele nas ledas madrugadas.
Um anelo de sedes irrompe-me dos lábios
reclamando da boca a memória da água,
o vitral de uma luz que venha e não se atarde
a derramar o sol entre cristais de orvalho.
Não sei como deter esta abstracta vontade de absorver o opaco,
segurar entre as mãos o adejar das asas,
beber a alquimia da lonjura do voo
predestinado à melodia da obscuridade
que carrega consigo o segredo das ásvores
e deixo-me ficar, como barro sedento,
ou vertigem de musgo segurando-se à laje,
observando o azul de um telhado sem casa
e o espanto da miragem crecendo num menino parado.


  Fernando Fitas. Elegia dos Pássaros. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 58.
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domingo, 5 de setembro de 2021


                         Rarefação


certas tardes a presença das coisas e de nós
rarefaz-se até ao remorso


é em março, em junho, em setembro,
caímos na melancolia do silêncio
sobre as paredes,
não habitamos lugar nenhum,
somos inóspitos
e sós


o ar queima ao passar 
nas narinas e pela boca


é como se uma violência
mansa, desmedida,
deslassasse o mundo
e fosse culpa nossa


como se nem a poesia
pudesse suportar dor tamanha,
nem para ela houvesse
consolo ou outra forma
de expiação


João Ricardo Lopes. Eutrapelia. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 48.
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domingo, 22 de agosto de 2021


(...)
A madrugada puxava o céu para cima como uma persiana
e de algures
o azul correu a direito em direcção ao mundo.
Então ultimamente ele liga-te.
Sim.
E diz-te que agora é melhor pessoa.
Mais ou menos.

E que mais.
E que não pode viver sem mim.
Sabes que dei com ele numa discoteca há umas noites e ele parecia vivo.
Ray o que é que ele quer que eu diga.
Não a pergunta é o que tu queres que ele diga.
Quero que ele diga que não pode viver sem mim.
Pois bingo.
Mas de modo a que eu acredite.
Lá estás tu a clamar às portas do paraíso.
Ou a sentir-me como me sinto como um corpo rasgado ao meio como um estado incompleto de algum metal num processo químico como uma gota de cobre incandescente à espera de ser ressuscitado
em ouro -
Não fiques à espera disso.
Figura de estilo.
Ele ainda tem roupa em tua casa?
Alguma.
Deita-a fora.
Não posso,
Conheces as regras para isto?
Não.
É porque há regras para isto. Um navio passa, forma-se um sulco e alguma espuma e depois desaparece.
Cala-te Ray.
Ele cuspiu.
Queres entrar para comer puré de batat? Depois tenho de pintar.
Estavam em casa do Ray.
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 Anne Carson. A beleza do marido. S/c: não (edições), 2020, pp 125-126 (Tradução de Tatiana Faia).
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sexta-feira, 20 de agosto de 2021


Porque me entregou a natureza a esta criatura - não lhe chames escolha minha,
eu fui aventurada: 
por alguma pura gravidade da própria existência,
conspiração do ser!
Tínhamos quinze anos,
era a aula de latim, fim da Primavera e fim de tarde, a perifrástica passiva,
por qualquer motivo virei-me na minha cadeira
e lá estava ele.
(...)
e não peço desculpa porque como disse a culpa não foi minha, eu estava desprotegida
em face da existência
e a existência depende da beleza.
No final. 
A existência não pára
até chegar à beleza e seguem-se então todas as consequencias que levam ao final.
Inútil é interpor uma análise
ou fazer sugestões equívocas.
Quid enim futurum fuit si ... O que é que teria acontecido se, etc.
A voz do professor de Latim
subiu e desceu em ondas calmas. Uma perifrástica passiva
pode substituir o imperfeito ou o mais que perfeito do conjuntivo
numa condicional irreal.
(...)
Porque é que tenho
esta frase na cabeça
como se tivesse acontecido há três horas e não há trinta anos!
Estou desprotegida ainda, agora que é noite.
Quão certos eles estavam em temer os seus perigos.
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 Anne Carson. A beleza do marido. S/c.: não (edições), 2020, pp 63-64 (Tradução de Tatiana Faia).
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terça-feira, 17 de agosto de 2021


                      Inferno


Porque te afastaste?

Saí viva do fogo;
como é isso possível?

Quanto se perdeu?

Nada se perdeu: tudo foi
destruído. A destruição
é o resultado da acção.

O fogo era real?

Lembro-me de entrar de novo na casa há vinte anos,
tentando salvar o que podíamos.
Louças, e assim. O cheiro do fogo
em tudo.

No meu sonho, ergui uma pira funerária.
Para mim, tu entendes.
Pensei que já tinha sofrido que chegasse.

Pensei que era o fim do meu corpo: o fogo
parecia-me o fim perfeito para a fome;
eram a mesma coisa.

E mesmo assim não morreste?

Era um sonho; pensei que voltava para casa.
Lembro-me de dizer a mim própria
que isso não funcionava; lembro-me de pensar
que a minha alma era por de mais obstinada para morrer.
Eu pensava que alma era o mesmo que consciência -
se calhar toda a gente pensa assim.

Porque te afastaste?

Acordei num outro mundo.
Tão simples quanto isto.

Porque te afastaste?

O mundo mudou. Saí do fogo
e entrei num mundo novo - talvez
o inferno, tanto quanto sei.
Não o fim da carência, mas carência
elevada ao máximo poder..


 Louise Gluck. Vita Nova. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, pp 93-95 (Tradução de Ana Luísa Amaral).
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segunda-feira, 16 de agosto de 2021


                    Castela


Sopram sobre Castela as flores das laranjeiras,
crianças pedem esmola

Conheci o meu amor sob uma laranjeira
ou seria uma acácia
ou não seria ele o meu amor?

Li sobre estas coisas, depois sonhei-as:
pode o despertar recuperar o que me aconteceu?
Os sinos de San Miguel
tocando à distância,
por entre sombras, o cabelo dele, de um louro pálido

Sonhei estas coisas, 
quer isso dizer que elas não aconteceram?
Que têm de acontecer no mundo para serem reais?

Sonhei tudo isto, a história
tornou-se a minha história:

ele deitou-se a meu lado,
a minha mão percorreu ao de leve a pele do seu ombro

Meio-dia, depois o cair da noite:
à distância, o som de um comboio

Mas aquilo não era o mundo:
no mundo, as coisas aparecem com um fim, absolutas,
a mente não as pode reverter

Castela: freiras que caminhavam aos pares por jardins escuros.
Fora dos muros de Anjos Sagrados
crianças a pedir esmola

Quando acordei, chorava,
não tem isso realidade?

Conheci o meu amor sob uma laranjeira:
só me esqueci
dos factos, não da ilação -
e algures havia crianaças, a chorar, a pedir esmola

Sonhei tudo isto, dei-me
por completo e para sempre

e o comboio devolveu-nos
primeiro a Madrid
depois ao País Basco
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 Louise Gluck. Vita Nova. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, pp 63-65 (Tradução de Ana Luísa Amaral)..
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terça-feira, 10 de agosto de 2021


            O voo insólito


É dentro dos teus olhos que o meu voo se faz,
embriagado voo a percorrer desertos,
remotas regiões que há pouco áridas
agora surgem frutificando, crescem.


Assinala brinquedos da infância
fogosamente a flamejar em dias
qu' infindáveis d' amor foram passando
bebendo em sonhos íntimas delícias.


E depois continua a desnudar
tudo o que tange música e alegria...
Nem sequer interroga a percorrida
senda e aos teus olhos tenta regressar...


Conhece apenas um lugar: é esse
onde, insólito embora, freme as asas:
no brilho dos teus olhos permanece
e pousa neles, pousa, sem... pousar.
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 António Salvado. Poemas para Nósside. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 86.
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domingo, 8 de agosto de 2021


Hay lugares investidos de sacralidad.
Mileno tras milenio, se han venido a absoluta eminencia,
se ha depositado en ellos, como se depositan el polvo,
la tierra o los arrastres, la tanta luminosidad.
Se han hecho sus accidentes materia significante,
habla para los ojos, luz para los sentidos.
Si uno transita sus parajes,
una silenciosa musicalidad se apega al cuerpo, y uno vive
espacios de tiempo recogidos en el tránsito.
Conozco, de esos sitios, algunos.
Uno me olía a estiércol y a res y a humo de paja,
luego me olía a luz solar, a lejanía,
todavía me huele a milagro cumplido.
En él toman nombre las gracias de la eternidad:
el cierzo, la grama, el nido, el pajar, las avenas.
Otro, no muy lejos de aquí. Suelo ir alguna vez;
a medida del acercamiento varían los paisajes,
se transmutan, salen del tiempo, se hacen nieve del cosmos,
ropage que me abriga.
Habla como un aletear de edades perecidas.
Uno desciende al valle investido de su virginidad.
Suelo que voy allí como elegido y sé,
mientras la permanencia se prolonga,
que no habrá inviernos para mí, ni estíos,
ni otoños sino sólo, un permanente abril.
Otro sé cerca del mar. Sube desde la costa
una cuesta lenta, despaciosa, joven y añosa como el tiempo,
tiene ese sitio sus sillares, sus desniveles,
su jardín con estautas, su biblioteca suya,
y lo que se ve: el fulgor que sume al visitante,
le otorga la aureola de lo incorrupto.
Otros tienen la gravedad del bosque;
infunden el temor de lo inconcevible;
inspiran la amenaza del barranco, negror de espelunca,
misterio de lo hondo abisal.
Sitios sacros también, no desprovistos aún
de su germinal hostilidad. Respetemos su furia contenida,
sus enramajes de primer asombro,
su genealogía tenebrosa para nos.
Lugares consagrados al secreto de todo acaecer.

A ninguno doy nombre, no los profane nadie.
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Arcadio Pardo. El Mundo Acaba en Tineghir. Madrid: Ediciones RIALP, 2007, pp 46-47.
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segunda-feira, 26 de julho de 2021


Quando ele se aproximou, puxou-me contra si e abraçou-me finalmente. Incapaz de reagir, mordi com força as palavras que tinha para lhe dizer. Quanto mais ele me apertava, mais elas se atropelavam para me entupirem a boca como amargos que restavam das minhas desilusões. Tola. Julgava eu que aprendera a não fraquejar à primeira; que a minha pele calejada, espessada pelo tempo e pelos golpes sofridos, saíra mais resistente do que uma couraça de vidro capaz de se estilhaçar ao primeiro sinal de mimo.
- Por onde tens andado? - perguntei-lhe com meiguice. - Fizeste-me tanta falta.
Ele riu-se como um garoto e, no seu modo atrapalhado, libertou-se do abraço. Depois, deu um passo atrás para me mirar de alto a baixo, mas, claro, era Peppino, e, ao reparar nos meus olhos, fez logo a leitura.
(...)
Podia ser tudo verdade, mas não tive qualquer dúvida de que a razão principal só tinha que ver comigo. Depois, lá me contou que passara em Pitigliano não havia muito tempo e fora aí que soubera onde me podia encontrar. Queria ver com os próprios olhos o que era feito de mim...
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 João Pinto Coelho. Um tempo a fingir. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2020, pp 340-341.
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segunda-feira, 19 de julho de 2021


La Colección DiezyNueve nos acerca a la poesía que se está escribiendo en estos momentos fuera de España. A través de la selección de diecinueve de las principales voces de cada panorama literario, diez pertenecientes a mujeres y nueve a hombres, nos adentramos en otras realidades, ritmos y formas que nos abren la mirada hacia un mundo literario tan metafórico como real y tan amplio como diverso. Aquí encontrarás poesía para pensarnos y para pensar al otro; poesía para construirnos más allá de los límites fronterizos.
Inauguramos esta nueva colección dirigida por las poetas Isabel Miguel y Luisa García-Ochoa Roldán con una exquisita selección de algunas de las principales voces literarias de Portugal, el país vecino al que tanto amamos y del que tanto queremos aprender. Han sido cómplices en esta edición el ensayista y activista cultural João Mendes Rosa y la escritora y traductora Montserrat Villar González.
Gracias a todos los autores y traductores que se han sumado a este gran proyecto con nosotras. No podemos estar más orgullosas del resultado
El 1 de agosto estará disponible en librerías 💚
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sábado, 17 de julho de 2021


   De repente, ouvi um bater de asas. O pássaro entrara na gruta, mas faltou-lhe o céu e enlouqueceu. Esbarrava contra as paredes e, a cada embate, teimava em não cair morto. A certa altura conformou-se e pousou num recesso da caverna, a uns metros de nós. Não sei se Cosimo deu por ele; não sei sequer se sentiu os meus dedos a afagarem o seu cabelo transpirado.
- Que aconteceu há bocado?- perguntei. Como não me respondeu, insisti: - Que é que tens?
   Então, levantou-se de repente:
-Tenho fome.
   A seguir, vestiu-se e saiu da gruta. Quando voltou, nem dez minutos depois, dobrara a camisola pelo peito, formando uma bolsa que enchera de bagas. Então, ajoelhou-se e despejou-as à minha frente.
- Mirtilos?- arrisquei.
   Ele riu-se_
- Groselhas.- Levei à boca uma mancheia delas e devo ter feito má cara porque se riu outra vez: - Azedas? Não te importes, matam-te a fome e a sede.
   Era verdade. Passado o arrepio, eram até comestíveis, e por isso sentámo-nos ao lado um do outro a debicar as bagas até ao fim da manhã.
   Restariam muito poucas, quando ele teve coragem:
- Vou-me embora, Aninna. Parto amanhã.
(...) Não havia lugar para mais, muito menos para um epílogo sem Cosimo nos meus braços. "Vou embora, Annina" não era só um adeus, era uma presságio de morte. Bastava-me olhar para ele para saber que era para sempre.
- A guerra chegou aqui - disse-me. Depois, riu-se da ironia:- Vou combater pelo Duce (...) e foi a partir daí que a cidade entrou na guerra.
   Também é vaga a memória dos dias que se seguiram. Das noites, não. Com a partida de Cosimo, regressaram os pesadelos, todos eles devastadores e todos no mesmo cenário.
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 João Pinto Coelho. Um tempo a fingir. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2020, pp 224-226.
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domingo, 11 de julho de 2021










(Conheci Angélique Ionatos em 2011, quando a cantora se deslocou a Lisboa para um concerto no Grande Auditório da Gulbenkian. Eu tinha acabado de publicar um livro com o seu nome no título. Após alguns contactos, consegui que alguém da organização proporcionasse o nosso encontro. Foi um momento alto: eu estava com alguns amigos, após o concerto ela veio ter connosco. Era uma mulher de estatura pequena, que, apesar disso, inundava o local onde estava. Simpatiquíssima: vinha ao longe e já vinha sorrindo para nós. Ficou surpreendida com a história do meu livro, que tive o cuidado de lhe oferecer, e eu dela fiquei com as palavras escritas na foto um: "Para o Victor, carinhosamente (em grego)... ", e fiquei também com a sua música e com o modo soberbo como cantava os grandes poetas. Foi com estupefação que soube do seu falecimento, após doença prolongada, no dia 7 de julho de 2021. Ionatos era uma das vozes maiores da diaspora grega, nascera a 22 de junho de 1954 e saira da Grécia após a instauração da Ditadura dos Coronéis. Fica aqui uma pequena homenagem que lhe presto: traduzi para português uns excertos de uma estrevista sua de 2014. O texto, como é óbvio, contém as habituais marcas de oralidade, que decidi não suprimir. Este texto mostra igualmente que A.I. era não só uma cantora imensa, mas também uma mulher inteligentíssima.)

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Entrevista de Angélique Ionatos ao “Triton” em 6 de março de 2014.

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 Os sonhos chamarão a si o tempo da sua vingança

 O papel de um artista é testemunhar o seu tempo. Parece-me impensável ser grega e não prestar atenção à situação em que o país se encontra. Não reconheço Atenas quando lá vou. Na província as pessoas ainda conseguem escapar, mais ou menos. Nas grandes cidades é assustador, quero dizer, eu não reconheço nada da Atenas da minha infância. Quando era pequena, por exemplo, jamais vi pessoas a chafurdar nos caixotes do lixo, jamais!, e os gregos eram também célebres pela sua hospitalidade, pelo modo como se ocupavam dos seus vizinhos, era qualquer coisa interiorizada o facto das pessoas jamais serem indiferentes à infelicidade dos outros, mas agora tornámo-nos numa metrópole assustadora. A mendicidade atingiu um nível assustador e vejo o rosto das pessoas quando se apanha o metro ou na rua: as pessoas estão ausentes, estão alhures, é o que chamamos a estratégia do choque, ou seja, depois de levarem golpe após golpe há uma apatia que se instala e então cada um pergunta-se: bem, como vou fazer para pagar a renda da casa ou para comer? Não se pode deixar de falar de tudo isto! E depois sinto-me encolerizada, encolerizada porque vejo o governo grego – que fala em nome do povo – mas vemos que todos eles estão empanturrados de alimentos… É indecente! São autenticamente uns bobos, uns palhaços, como lhes chamam os jovens. Não quero dizer – também – que isto é exclusivo da Grécia, ela é um membro gangrenado da Europa, mas penso que essa gangrena vai alastrar por todo o corpo: essa espécie de repartição verdadeiramente escandalosa das riquezas entre os países, entre os ricos e os pobres, não pode continuar, é uma coisa da ordem da mais extrema indecência, da obscenidade – penso que vivemos num mundo obsceno! É verdade que sou uma música e, por vezes, digo-me mesmo: mas para que serve fazer arte? Fazer música observando tudo isto? Mas… penso que serve!  Era René Char, esse grande poeta, que dizia: “Neste mundo não há um lugar para a Beleza, todo o lugar é para a Beleza!”, e tenho a impressão de que fazendo algo de Belo se suprime a feiura do mundo e damos coragem – sobretudo aos jovens – para não se deixarem ficar em silêncio, para que não se fiquem pela submissão. A resistência abraça-se de forma diferente: cada um resiste à sua maneira! Mas penso que o grande drama é que esquecemos sempre que somos demasiado efémeros, não compreendo como é que num mero instante que se pode viver se pode ter a  sensação de que se é eterno, isto é, se as pessoas tivessem quotidianamente consciência da sua precaridade, do lado efémero do ser humano, talvez a vida fosse diferente, contudo, as pessoas afastam a morte como algo que não existe; nós vivemos em sociedades onde a morte não tem direito de cidadania, portanto, forçosamente esquecemos que esquecendo a morte esquecemos igualmente a vida, já que é a morte que dá sentido à vida; e agora, que envelheço, não há um único dia em que não me diga: eis que estou do outro lado!, é uma contagem ao invés!, já vivi muito mais do que aquilo que me resta viver, todavia, será que isso tem importância? Todas as coisas acabam por se tornar muito relativas, em todo o caso eu sinto-as assim!

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Um sopro de liberdade

 Quando se trata de música, tenho alguma dificuldade em falar disso, porque não podemos ser ao mesmo tempo parte e juiz; não podemos fazer música e falarmos dela. Faz já quase quarenta anos que faço espetáculos: fiz duos, fiz trios, fiz espetáculos com pequenas orquestras de câmara e penso que o encontro com a Katerine * foi muito belo e importante, foi a primeira vez que trabalhei com uma grega numa forma de duo, e o facto de estar com uma jovem grega e de termos as duas as mesmas preocupações foi também uma outra porta que se abriu no meu trabalho. Penso que quando trabalho com gente mais nova do que eu, há o desejo e a frescura que me toca e traz também o desejo de lhes dar uma dada liberdade de ser, gosto muito de dar lugar aos outros de se exprimirem musicalmente – naqueles que confio! -, a partir do momento em que eu tomo a decisão de trabalhar com alguém é porque amo esse alguém e confio nele, de facto eu tenho necessidade de uma pessoa, de um instrumento… e de perguntar a essa pessoa: o que é que isso te evoca?, o que é que gostarias de fazer com isso?, agrada-me imenso. Não me interessa brilhar em múltiplas pistas, prefiro um modo de me despojar, não tenho interesse em ser o centro só porque é a minha música, prefiro que os outros obtenham prazer. Dantes eu era muito perfecionista: aquela nota que não tinha saído bem, etc., mas depois tudo isso passou – graças a Deus! -, hoje tenho mais vontade de me alegrar, de usufruir de maior liberdade.

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* A cantora refere-se aqui a Katerine Fotinaki com quem gravou alguns temas.

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