sexta-feira, 26 de abril de 2019


       Depois de tantas horas


A beleza entrou na tela
e provocou o desastre.
Intrusiva
não soube ser escuridão
nada entendeu
da infinita e deserta brancura.

Anoiteceu. Os destroços
formam uma longa frase
onde encontro o teu nome.
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  Sá, Isabel de. O real arrasa tudo. Porto: Porto Editora, 2019, p 38.
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quinta-feira, 25 de abril de 2019


RETORNO
Em cada momento o retorno ao barro original.

RETRATO
É, quase sempre, mais belo e verdadeiro do que o original.

REVELAÇÃO
O movimento do véu na origem das religiões.

REVÉRBERO
Subitamente, nos teus olhos, uma palavra luminosa.

REVIVER
Reviver é compor uma obra de arte ou morrer de saudade.

REVOLTA
Quem não se revolta já morreu.

REVOLUÇÃO
Um murro, subitamente, no sistema.

REVOLUCIONÁRIO
Há revolucionários que nunca saíram da sua poltrona.

REZA
Rezo, desde sempre, orações que nunca são iguais.

RIA
Quantas vezes matei na ria o fogo que em mim ardia!

RIACHO
Magoado pelas pedras mas polindo-as.

RIBEIRO
Ribeiro me sinto - tantas pedras no meu caminho!
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  Brito, Casimiro de. Alfa & Ómega, Breve Dicionário Pessoal. S/c.: Razões Poéticas, 2019, p 211.
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ACHAMENTO
Faça ou nada faça a cada momento um novo achamento.

ACIDENTE
Tão flexível que parece nascer da seda.

ACOMODAR
Quem se acomoda castra-se.

ACOMPANHADO
Por animais e por palavras que parecem animais.

ACONTECIMENTO
"Aconteceu o que tinha de acontecer" (perfeita fala popular).

ACORDAR
Sair de um reino e entrar noutro.

ACORDEÃO
O instrumento musical da minha juventude.

ACORDO
Há sempre um verme no acordo.

ACOSSADO
Acossado me sinto por quanto vai acontecer.

AÇOTEIA
Íntima açoteia donde vi as águas da ria.

ACREDITAR
Quem acredita possui um pouco mais.
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  Brito, Casimiro de. Alfa & Ómega, Breve Dicionário Pessoal. S/c.: Razões Poéticas, 2019, p 12.
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segunda-feira, 22 de abril de 2019


                   Pesadêlo na Casa-Grande

                                  Para Victor Oliveira Mateus

O polimento dos metais antigos,
as velhas facas de prata dos faqueiros encardidos,
as taças de cristal em que os amantes brindaram ao amor,
os copos de vinho tinto que derramaram na toalha de linho,
todas as nódoas, os pecados, as alfombras, os timbres, os selos,
as cartas que viajaram a saudade de outro continente, os ausentes,
os mortos que cavaram a sua própria sepultura nas revoluções,
a valsa dançada enquanto o vento varria as campinas,
os corredores da casa assombrada pelos retratos dos antepassados,
as fímbrias dos vestidos das baronesas tristes e abandonadas,
o grito do escravo lutando pela sua liberdade -
e somos todos feitos assim desses sonhos do passado,
e andamos muitas vezes perdidos pelos quartos e salas
à espera que um mordomo (ou um assassino)
nos mostre a lâmina que resolverá nosso destino.
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 Degrazia, José Eduardo. A Nitidez das Coisas. Porto Alegre: Artes & Ecos, 2018, p 83.
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domingo, 21 de abril de 2019


              A Permanência da Luz

                                                     Para Yuri Talvet   

Permaneço, onde tudo o mais desaba e incendeia,
aferrado às antigas práticas e mitos originais,
à estação que retorna em seu tempo cíclico
para encher a manhã de cantos de cigarra e de pássaros.
O que importa se tudo à minha volta passa,
se o mundo se transforma e a vida ultrapassa qualquer medida?
O que importa se a natureza queima suas madeiras no auge do                                                                                           verão
para que novas plantas reverdeçam?    
Importa que ser passageiro infunde em mim
a certeza de existir num instante da eternidade,
e de estar imerso no devir do Universo,
como uma estrela que depois de morta
ainda ilumina a noite imensa com a sua luz.
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   Degrazia, José Eduardo. A Nitidez das Coisas. Porto Alegre: Artes & Ecos, 2018, p 39.
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domingo, 14 de abril de 2019


                                            Todas são ridículas

Joaquina escrevia cartas de amor, quase todos os dias, ao seu "adorado". Acabava com "tua para sempre", na sua letra redonda e miúda. Dobrava cuidadosamente a folha, de linhas azuladas, e introduzia-a no envelope, que tinha um forro violeta. Depois de escrito o endereço postal, metia a carta por uns segundos no decote, como para lhe transmitir algo da própria pele. Sandra recebeu um sms do Hugo. Guardou nas mensagens recebidas para reler de novo. Era do rapaz que tinha conhecido na véspera. Trazia muitos sinais redondos a enviar sorrisos e muitas abreviaturas de palavras, como por exemplo: Bjs. Já tinha armazenado, na pasta respectiva do pequeno telemóvel, várias mensagens daquelas, do Tiago, do Rodrigo, do Diogo, do Afonso... Só ainda não tinham descoberto a abreviatura da palavra "amor". Ignora-se por que certas palavras continuam a resistir à queda das letras.
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  Lourenço, Inês. Últimas Regras. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2019, p 35.
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quinta-feira, 11 de abril de 2019


                                              Biografia Apócrifa


O que ela queria era falar de coisas feias, não perfilhadas por qualquer dos "parece bem" que lhe tinham atravessado a vida desde a longínqua infância. Coisas como um pequeno feto humano, esbranquiçado e com uns grãozinhos entre um esboço de pernas, dentro de um frasco de álcool, que descobrira na porta de uma mesa de cabeceira, na casa onde nascera, atrás de xaropes, zaragatoas e bálsamos. Para ela, parece que tal achado perdurou na sua memória como a cena da caveira de Hamlet. Também queria contar da vergonha e temor que sentira durante tantos anos por ter começado a masturbar-se muito antes da Primeira Comunhão e pensar que isso devia ser "um pecado mortal" que nunca podia confessar ao senhor padre, porque não sabia dizer essas coisas, tal como as outras brincadeiras de tirar as cuecas e esfregar aquela parte que causava arrepios na espinha e na cabeça, nos sítios simétricos da irmã ou da vizinha. Tanto teria a relembrar, desde os pequenos furtos às escorregadelas matrimoniais depois de descobrir que o seu homem a traía com outras e assim se sentir desobrigada de fidelidades. Mas nunca poderia publicar esses episódios da sua vida, pois os filhos, a família do marido ou fosse quem fosse não lhe perdoariam tal pouca-vergonha. Foi ter com a romancista porque precisava de contar a sua vida. Uma estranha história de tempos gastos e sabotados pelo devir dos anos. Mais do que contá-la, gostava de a deixar escrita. Disse que estava farta de fazer de senhora bem comportada e sentia o desejo obsessivo de que o seu interior verdadeiro tivesse uma descrição, não numa dessas coisas que saem como brochuras grátis nos semanários e a que chamam biografias edificantes, mas que parece não passavam de histórias muito exemplares e falsas como o pechisbeque. Teve como resposta que ela era uma pessoa normal e que todas as vidas têm escaninhos bizarros e muito feios, de que toda a gente se esquece para aliviar a memória. Que se deixasse disso de falar para gravadores de uns espertalhões das literaturas muito vendáveis que lhe podiam piratear as suas ficções reais. Ela nem imaginava os perfeitos monstros que tinham povoado a terra e que, naquele preciso momento, muitos deles, por cá andavam e estariam a cometer as maiores atrocidades. E para já não falar de toda a cáfila de sacanas, videirinhos, oportunistas, grunhos, bardamerdas que por aí pululavam. Só lhe poderia comparativamente vaticinar um lugar no céu, de qualquer dos céus disponíveis para consumo dos crentes.
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       Lourenço, Inês. Últimas Regras. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2019, pp 23-24.
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terça-feira, 9 de abril de 2019

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Anunciada a lista dos livros finalistas do Prémio Glória de Sant' Anna de 2019.
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(As minhas felicitações à Organização do Prémio Glória de SantÁnna, que tem vindo, ao longo dos anos, a transformar este certame num dos mais importantes prémios literários deste país. Felicito igualmente a Coisas de Ler Edições pela publicação de "Aquilo que não tem nome", bem como todos os autores que estão comigo nesta lista final do Prémio, alguns dos quais não são meros elementos do grupo de pares, mas amigos e cúmplices de escrita. Mas, sobretudo, felicito a Glória e a sua poesia, que foi posta no meu Caminho, quando, em 2009, deambulava por uma das Livrarias da Imprensa Nacional e dei de chofre com o seu "Amaranto", desde esse dia nunca mais "a" larguei. Parabéns a todos!)
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Glória de Sant'Anna
10 h
PRÉMIO LITERÁRIO GLÓRIA DE SANT'ANNA - 2019
Lista Final:
AQUILO QUE NÃO TEM NOME de Victor Oliveira Mateus - COISAS DE LER
AS FLORES SE RECUSAM de Isabela Sancho - Editora PATUÁ
A TRANSFIGURAÇÃO DA FOME de Sara F. Costa - Editora LABIRINTO
“en_vuelta” de Sofia Ferrés - LARANJA ORIGINAL
“lugar de espanto” de Ana Horta - Edições EUFEME
“maligno” de Eduardo Quina - Cosmorama Edições
NÓMADA de João Luís Barreto Guimarães - QUETZAL Grupo BERTRAND CÍRCULO
OS CRIMES MONTANHOSOS de António Cabrita e Mbate Pedro - CAVALO DO MAR
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segunda-feira, 8 de abril de 2019

Na Biblioteca Nacional de Portugal (Entre Campos, Lisboa) ocorreu hoje (8/4/2019) a cerimónia de inauguração da Exposição e o Lançamento do livro/catálogo Em busca do amor perdido, o bilhete postal ilustrado e a poesia de 1900 a 1920. Autora: Maria João Fernandes. Apresentação da obra a cargo da Profª Teresa Rita Lopes. Poesia de Joana Lapa. Leitura dos poemas por Gonçalo Salvado.



domingo, 7 de abril de 2019


                     Soneto

cativo está quem me tem cativo
por temor em vingança disfarçado
e vendo-se nobre herói alto crivo
por seu vai tomando meu doce fado

preso a prisioneiro em grão motivo
qu' atormenta seu dono macerado
aos dois prende mal tão furtivo
onde o tirano se sente confiado

soube o astuto construir pontes
ou barca que na vida sempre dura
superavam-se deserto e montes

par' um canto d' ave indócil e pura
louvando o dia o sol e as fontes
superando os efeitos da captura

    Mateus, Victor Oliveira. Aquilo que não tem nome. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p 35.
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Nota - este soneto, que usa no último verso um título de um livro do Luís Filipe Sarmento, é simultaneamente uma tentativa de paráfrase da lírica camoniana e um hino lamentoso aos sábados.
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quinta-feira, 4 de abril de 2019



A acerba ironia subjacente à ficção de Woolf é que, embora ela tivesse embarcado na desconstrução do Eu para provar que não passamos de um "segmento de escuridão" fugaz, na verdade descobriu a teimosa realidade do Eu. De facto, quanto mais investigava a experiência, mais necessário o Eu se tornava para ela. Se há algo que sabemos é que estamos aqui, a viver isto. O tempo passa e as sensações vão e vêm, Mas nós ficamos.
As personagens de Woolf reflectem a sua fé frágil no Eu. Nos seus romances tudo é visto através do prisma subjectivo de um indivíduo. (...) Independentemente  do grau de modernidade que a prosa de Woolf tenha atingido, o Eu falacioso - aquela essência inexplicável que faz com que nós sejamos nós próprios e não outra pessoa - recusava desaparecer. "Não bani a alma quando comecei?" pergunta-se Woolf no seu diário. "O que acontece, como sempre, é que a vida me toma de assalto."
Na sua arte, Woolf deixou-se assaltar pela vida. Ela mostra-nos as nossas partes fugazes, mas também nos mostra como elas se unem. O segredo, apercebeu-se Woolf, é que o Eu emerge da sua fonte. Emergir é a palavra crucial aqui. (...) Na sua ficção, o Eu não é imposto nem repudiado. Pelo contrário, ergue-se simplesmente, como uma visão roubada à correnteza.
Mas como é que o Eu se ergue? Como é que emergimos continuamente das nossas sensações, dos "bocados, sobras e fragmentos" que constituem a mente?
Woolf apercebeu-se de que o Eu emerge através da atenção. Ligamos as nossas partes sensoriais, sentindo-as partir de um ponto de vista particular. Durante este processo, algumas sensações são ignoradas enquanto outras são destacadas. O mundo exterior é cabalmente interpretado.
(...) Mas como é que nós perduramos? Como é que o Eu transcende a separação dos seus momentos de atenção? Como é que o processo se transforma em nós? Para Woolf, a resposta era simples: O Eu é uma ilusão, Esta era a sua visão final do Eu. Embora tivesse começado por tentar derrubar a entediante noção de consciência do século XIX, que tratava o Eu como "uma peça de mobiliário", acabou por perceber que o Eu realmente existia, quanto mais não fosse como um ardil da mente.(...) O Eu é simplesmente a nossa obra de arte, uma ficção criada pelo cérebro para poder retirar sentido da sua própria desunião (...)
A neurociência moderna está agora a confirmar o Eu em que Woolf acreditava. Inventamo-nos a partir das nossas próprias sensações. Como Woolf previu, este processo é controlado pela atenção, que transforma as nossas partes sensoriais num momento concentrado de consciência. O eu ficcional - uma entidade nebulosa que ninguém consegue encontrar - é o que une estes momentos separados. (...) De facto, a nossa consciência parece exigir um Eu perspicaz desta natureza: só tomamos consciência da sensação depois de ter sido seleccionada. Como Woolf dizia, o Eu é "a nossa ostra central da percepção".
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 Lehrer, Jonah. Proust era um neurocientista, como a arte antecipa a ciência. Alfragide: Lua de papel, 2009, pp 210-214.
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quarta-feira, 3 de abril de 2019


   A neurociência sabe agora que Proust estava certo. Rachel Herz, uma psicóloga em Brown, demonstrou - num ensaio científico inteligentemente intitulado Testing the Proustian Hypothesis -que os nossos sentidos do olfacto e do paladar são singularmente sentimentais. Isto passa-se porque o olfacto e o paladar são os únicos sentidos que se ligam directamente ao hipocampo, o centro da memória de longo prazo do cérebro. A sua marca é indelével. Todos os nossos outros sentidos (visão, tacto e audição) passam primeiro pelo tálamo, a origem da linguagem e a porta da consciência. Em resultado disto, estes sentidos são muito menos eficientes quando se trata de convocar o nosso passado.
   Proust pressentiu esta anatomia. Usou o sabor da madalena e o aroma do chá para invocar a sua infância. Olhar apenas para o bolo recortado não lembrava nada. Proust, para começar, vai mesmo ao ponto de culpar a sua visão por obscurecer as memórias de infância. "Talvez porque, tendo-as visto (as madalenas) muitas vezes depois disso sem as comer", escreve Proust, "a sua imagem deixara aqueles dias de Combray". Felizmente para a literatura, Proust decidiu pôr o bolo na boca.
   Claro que mal Proust começou a lembrar-se do seu passado, perdeu qualquer interesse pelo sabor da madalena. (...) Proust abraçou estas estranhas associações precisamente porque não as conseguia explicar. Compreendeu que a idiossincrasia era a essência da personalidade. Apenas com a revisão meticulosa da teia das nossas ligações neurais - por mais absurdas que essas ligações possam ser - poderemos compreender-nos, porque nós somos a nossa teia. Proust respigou toda esta sabedoria de um chá vespertino.
   Portanto, há o tempo e há a memória. A ficção de Proust, que é principalmente não ficção, explora a forma como o tempo muda a memória.(...)
   Estas questões estão no âmago da teoria de Proust sobre a memória. Dito simplesmente, ele acreditava que as nossas lembranças eram falsas. Embora parecessem reais, eram na realidade invenções complexas. (...) Ajustamos os factos para se adequarem à nossa história, porque "a nossas inteligência reescreve a experiência". Proust previne-nos para tratarmos a realidade das nossas memórias cuidadosamente e com algum cepticismo.(...) Dado que todas as memórias estão repletas de erros, não é preciso seguir-lhes o rasto.
   A estranha reviravolta da história é que a ciência está a descobrir a verdade molecular subjacente a estas teorias proustianas. A memória é passível de falhar. A nossa lembrança das coisas do passado é imperfeita.
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 Lehrer, Jonah. Proust era um neurocientista, como a arte antecipa a ciência. Alfragide: Lua de papel, 2009, pp 102-104.
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terça-feira, 2 de abril de 2019


   A minha história como escritor já leva vinte e sete anos e posso garantir o seguinte: eu amo escrever. Todos sentimos diferentes
emoções e desejos que não podemos revelar, porque somos constrangidos pela realidade e pela racionalidade. No entanto, no mundo da escrita estes desejos e emoções que reprimimos podem ser expressos de forma absoluta. Penso que escrever beneficia a saúde psicológica e pode mudar totalmente a vida de alguém. Dito de outra forma, escrever faz com que tenhamos dois caminhos na visa - o caminho da realidade e o da imaginação. A relação entre os dois é semelhante à que existe entre a saúde e a doença: quando uma delas se apresenta mais forte a outra desvanece. Nos momentos em que o meu caminho da realidade se torna mais insípido e desinteressante, isso significa que o caminho da imaginação está mais rico.
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  Hua, Yu. China em dez palavras. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2018, p 92.
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segunda-feira, 1 de abril de 2019


   Um dia perguntaram-me: "O que te deram estes trinta anos de leitura?"
   Face a esta pergunta, senti-me como fico sempre que encaro o mar - sem palavras.
   No final de um ensaio que escrevi há tempos, descrevi desta forma a minha experiência de leitor: "Ao ler qualquer uma daquelas grandes obras, fui sempre levado por ela. Eu seguia agarrado à sua manga como uma criança medrosa, e tentava imitar a sua passada enquanto percorríamos o longo rio do tempo, numa jornada que me trazia todo o tipo de sentimentos. Estas obras levaram-me consigo e depois faziam-me regressar sozinho. Só depois de voltar percebia que, afinal, ficariam comigo para sempre."
   Enquanto escrevo lembro-me de uma manhã de setembro de 2006. Enquanto eu e a minha mulher passeávamos por Dusseldorf descobrimos a antiga residência de Heinrich Heine. Não sabia que a casa de Heine estava ali.
(...) Esta é uma história da minha infância. O processo de crescimento é em muitos aspetos um processo de esquecimento, e esta foi uma forte e bonita experiência de infância que esqueci completamente ao crescer - nas tardes de verão, sob um calor insuportável, deitar-me naquela cama de cimento, o leito dos mortos, para desfrutar da frescura da vida.
   Muito anos depois li um poema de Heine, que dizia: "A morte é uma noite fria."
   Estas memórias, há muito cobertas pelo esquecimento, regressaram num ápice. Como acabadas de ser lavadas, reapareceram de forma absolutamente límpida, e não mais me abandonaram.
   Se existe na literatura alguma força mística, penso que será esta - a possibilidade de encontrar numa obra de um escritor de outra época, de outro país, de outra língua e cultura, experiências que nos pertencem. O que Heine descreveu foi a sensação que tive na morgue nos meus tempo de criança.
   Disse para mim: "É isto a literatura."
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 Hua, Yu. China em dez palavras. Lisboa: Relógio D'Água, 2018, pp 64-67.
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domingo, 31 de março de 2019

                         
                                      *

Vasculhamos as suas páginas e a dor que delas exuma. Com Cioran
aprendemos a perguntar: não será a verdadeira vertigem a ausência
da loucura?

                                       *

Amar é já uma espécie de despedida.

                                        *

A futilidade de tudo, jogo inútil, uma dança obsessiva de antíteses
igualmente desprovidas de sentido. Um tudo-nada, frivolamente
defunto.

                                        *

A acreditarmos na felicidade só o poderíamos fazer se a
considerássemos como uma distracção ou uma traição imperdoável,
um magnífico ultraje que encobre o alcance da nossa cobardia:
"Somos todos farsantes: sobrevivemos aos nossos proble-
mas ( Silogismos da Amargura : 21).
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    Soeiro, Ricardo Gil. Volúpia do Desastre, Notas soltas para Cioran". Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 34.
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sábado, 30 de março de 2019

Apresentação do livro Volúpia do Desastre, Notas soltas para Cioran (Editora Labirinto, Nº 22 da coleção contramaré ) da autoria de Ricardo Gil Soeiro. Na mesa, da esquerda para a direita: Guilherme Gomes, o autor da obra, Prof. João Maurício Brás, Profª Maria João Cabrita, Victor Oliveira Mateus. Livraria Férin (Lisboa) no dia 30/03/2019.

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                             Más pájaros fulminados


Según Watanabe, Hokusai compraba pájaros para liberarlos
no os parece estupendo?
También Prévert sabía de pájaros,
y de ángeles boxeadores caídos en desgracia
esos que nos han metido mano en el bolsillo
y ahora quieren que nos hagamos cargo del cielo, vaya morro,
pero no nos distraigamos, hablamos de pájaros
y no de instantes estrangulados, hablamos de Prévert
y no de Hokusai, el muchacho adoptado por el fabricante de espejos
en realidad, no hablamos de nada, como siempre.
Para Sainte Beuve, el oficio de los filósofos es amontonar nubes
y puede que también sea el de los poetas boxeadores
y el de los pájaros que liberaba Hokusai
pero ahora pienso, qué tiene que ver Prévert con Hokusai?
hablemos pues de la patafísica, de la ciencia de las soluciones imaginarias
para terminar este poema inútil,
este pedazo de pan lleno de estrellas, pero
cómo terminar un poema inútil?
cómo comerse este pedazo de pan sin tenedor ni cuchillo?
Pues con otra nota de la prensa
que no le hubiese gustado nada a Hokusai:
"En la cuidad de Bebee, en Arkansas, cayeron a la tierra en Nochevieja
del 2011 unos 5.000 pájaros fulminados".
Ya te había dicho, la soledad es a veces el cenicero de otra soledad.
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   Santiago, Nilton. El equipaje del ángel. Madrid: Visor Libros, 2014, pp 58-59.
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sexta-feira, 29 de março de 2019



                           As redes do meu coração já não estão para peixes

Acabo de sair da estação com um bilhete de metro entre os dedos - como se fosse a radiografia de uma menina com mariposas de metal no estômago - faz frio e as árvores entram lentamente nas caixas automáticas para se protegerem do inverno. Dizem que aqui não se recenseou nenhum anjo ex guerrilheiro, nenhuma flor morreu aqui por causa de uma qualquer chuva de abelhas e magnólias. Tanto faz, decidi tomar fôlego por dois segundos, esquecer que a realidade é um pássaro encerrado num espelho, um incessante pingar de suas penas no hemisfério azul do coração. Esta manhã acordei com o teu nome entre os lábios (ainda que pense que o não falarmos é a linguagem que melhor nos define), sorrindo como uma carta recém aberta. A madrugada, como um animal indeciso, acabou por nos reconhecer como dois pássaros. É certo, que são eles, e não outra coisa qualquer, que se escondem por entre os intervalos da chuva ao raiar do dia. São eles, e não outra coisa qualquer, o que desce pelas escalas dos termómetros para nos trazer as recordações. Sim, é certo, tenho um problema com as aves em geral, acho-as inquietantes quando chove e creio que, se dependesse delas, voariam apenas em primeira classe. Sei que escrevem, em silêncio, partituras de mel contra as árvores e que as flores lhes provocam angústia porque têm o mesmo pensamento que os astrofísicos quando se apaixonam. Nada disto tem que ver com o objeto deste poema que era - enorme loucura! - descrever uma prisão ou, quiçá, chorar como um menino, encher-me de cafeína e crisântemos solitários. Tu bem sabes, os guarda-chuvas são os habitantes mais sinceros desta cidade a preto e branco. Louvadas sejam as lágrimas de substituição nas estações de serviço do meu coração. Louvadas as estrelas que acenam na noite quando ainda o céu não fixou a sua engrenagem e se parece com uma armadilha para cometas e meteoritos. Tu bem o sabes, não se habita uma cidade, mas apenas a solidão das suas gentes, tu bem o sabes, um pássaro não é um pássaro, senão um invento da nossa necessidade de voar sobre a prisão dos teus lábios. Como podes ver, estou reduzido a pó e as redes do meu coração já não estão para peixes.
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  Santiago, Nilton. El equipaje del ángel. Madrid: Visor Libros, 2014, pp 31-32 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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       Glória para os Imortais: Agnès Varda (Bruxelas, 30/05/1928 - Paris, 29/03/2019 ).
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Pela lonjura
a infância é agora anemia.
O cantil da inocência
está vazio de especiarias
e as mães já não vêm
polonizar o medo com açafrão.
Estas, todos os dias,
tocavam Strauss nos nossos cabelos.
Por isso, acreditávamos,
é num pente que se navega
a primeira vez o Danúbio.

Os brinquedos,
território bêbado de lâmpadas,
pomar de cítaras e violinos.

Mais tarde,
a circuncisão.

Afinal,
entre as ameixas da mulher amada
não pousaram apenas as aves da nossa saliva.

Do bosque ao útero
a côncava viagem dos frutos de rapina.

Como Gamoneda, questionamos:

Que hora é esta,
que erva cresce na nossa juventude?

A velhice,
lento definhar do incenso.
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 Pereira, Alberto. Como num naufrágio interior morremos. Pontevedra: editora Urutau, 2019, pp 38-39.
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quinta-feira, 28 de março de 2019


   
                                                      Para Victor Oliveira Mateus

Caminho como uma fogueira no tempo.

Estão longe os dias
que pronunciavam o Louvre.
Tudo respira entre dois hemisférios:
um repleto de harpas e cotovias,
o outro,
hirto de mandíbulas e agónicas ficções.

O corpo,
antigo prado vigiado pela neve.

Cultivámos o aroma da máscara
e a sensualidade está agora
ligada ao ventilador.

A minha mãe
que orava a Cesariny,
repetia a 
Pena Capital.

Dorme meu filho
o amor
será
uma armadilha esquecida
um pano qualquer como um lenço
sobre o gelo das ruas

Abolimos a leveza
de encostar os lábios
e a nebulosa taquicardia
não deixa que a vertigem recite:
o teu corpo é o Guggenheim.

De súbito,
Agosto inala tumulto.

Não entendemos
porque a Aurora Boreal
não continua a girar
à volta do nosso ego.

Como traduzir o Outono
onde a queda é definitiva?

O homem será sempre a partitura de um pântano.
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 Pereira, Alberto. Como num naufrágio interior morremos. Pontevedra: editora Uurutau, 2019, pp 21-22.
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quarta-feira, 27 de março de 2019



Fundava comunidades em sonhos, na carne firme, nos tendões
limpos dos sonhos.
Uma amizade como de Aquiles e Pátroclo
mas sem cavalos,
sem tectos altos, sem
aspectos de glória - amizade apenas
nua, inebriando o mármore,
exercício de aranhas entre a multidão

com a sua linguagem surda,
aberta, alvar, amarfanhada.
O prazer de devassá-la, de retê-la

na boca como água de pétalas,
o gosto espesso da magnólia
à chuva, como no poema.

Em nossa casa, no lugar do vento,
a magnólia crescia.
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  Faria, Andreia C. Alegria para o fim do mundo. Porto: Porto Editora, 2019, p 133.
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terça-feira, 26 de março de 2019


      Descarnação

Até aos trinta anos tens
a cara que Deus te deu. Depois
tens a cara que mereces. É uma promessa
de ironia, uma sentença
sem recurso.

É-te assim dito:
estás entregue ao labor íntimo
do que comes, ao número de horas que dormes,
àquilo que fazes e sobretudo
àquilo em que pensas. Deus
(perdoa-lhe a fraqueza)
tolera-nos enquanto somos jovens,
ampara-nos, alisa-nos
a fronte após um desgosto, talvez
nos ame, mas deixa-nos
sozinhos quando a beleza
é terreno pouco firme

e assiste de longe
ao desafio temerário que lançou
a cada filho.

Sabes então que o rosto é uma flor
plantada no escuro, uma corola
tenra, redonda e impenetrável
que desabrocha e se abre
com as pétalas lisas e brilhantes, ou
confusas e despenteadas,
conforme a força
e a direcção do vento.
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  Faria, Andreia C. Alegria para o fim do mundo. Porto: Porto Editora, 2019, pp 129-130.
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segunda-feira, 25 de março de 2019


Quem guarda vestígios
(lenços usados
toalhas de mão
fissuras venéreas na côdea do pão)
sabe de véspera -
o amor é soslaio, oblíquo
Cegou como um cão
ao lamber o coração
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Faria, Andreia C. Alegria para o fim do mundo. Porto: Porto Editora, 2019, p 55.
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domingo, 24 de março de 2019


Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
Eu fiquei sentado na soleira da porta
à espera da cura.
Brincava ocasionalmente com o fogo,
porque era a tua voz que me trazia o outono,
era a fuligem nas tuas mãos que me ensinava
a hermenêutica dos dilúvios
e a mecânica da extinção das espécies.

Mas nunca mais regressaste a casa e eu aprendi
a soletrar silenciosamente a tua ausência.
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  Teixeira, José Rui. Autópsia, poesia reunida. Porto: Porto Editora, 2019, 141.
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sábado, 23 de março de 2019


De súbito, a palpação de um sopro,
um frémito. Os frutos no chão antes do tempo,
um amor inconfessado ou uma rara proporção
nos segmentos brancos dos dedos.
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 Teixeira, José Rui. Autópsia, poesia reunida. Porto: Porto Editora, 2019, p 85.
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quinta-feira, 21 de março de 2019

O poema do post que segue abaixo, Primavera humana, foi publicado hoje na Antologia agora referida.
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Ver aqui:
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http://www.crearensalamanca.com/primavera-dia-mundial-de-la-poesia-2019-fotografias-de-jose-amador-martin/?fbclid=IwAR1Jq4quuMS9M6K8VHtgRWbk20bW-XaqKaUjxq1aEnKPE5PT-4a3FYPSzEw
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O "Crear en Salamanca" publica hoje uma Antologia de Poesia organizada por Stefania Di Leo intitulada: "Primavera. Día Mundial de la Poesía 2019". As fotografias da obra são da autoria de Jose Amador Martin Sanchez. Poemas de: Alfredo Pérez Alencart, Araceli Sagüillo García, Maria do Sameiro Barroso, Carmen Palomo Pinel Jose Amador Martin Sanchez,Leocádia Regalo, Juri Talvet, Luis Frayle Delgado, Jorge Orlando Figueiredo, Gerardo Rodriguez, Claudio Del Moral, Juan Antonio Massone, José María Muñoz Quirós, Alexander Anchia, Andrea Capasso, Pedro Enríquez, Gonçalo Salvado, Stefania Di Leo, Álvaro Alves de Faria, Lilliam Moro, Ana Cecilia Blum, António Salvado, Antonio Colinas, Erri De Luca, Abdul Hadi Sadoun,Raquel Lanseros, Pierina Marmo, Odalys Interian, Carlos Aganzo, Victor Oliveira MateusJuan Carlos OlivasJonatán Reyes, Elsa Morante, Ángel, María de Pablos, Antonino Caponnetto, Cyndi Morales Ayala, Chandra Livia Candiani, Beppe Costa.
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terça-feira, 19 de março de 2019


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                                        Primavera humana



Um homem sai de um túnel.
De uma garagem.
Do inverno que lhe devora a vida.
Esvoaçam-lhe dois pássaros sobre a cabeça.
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O homem esbarra num outro:
seu próximo, seu diferente, seu igual.
O homem que sai do túnel
oferece um dos pássaros ao que andava perdido.
Oferta. Renovos de improváveis.
Recomeço do que estava esquecido
no estrepitoso fulgor da terra:
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plátanos frondosos, plantas raras,
o pó das mimosas pousando docemente
no banco do jardim, na elegância dos cisnes.
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Aquele que sai da garagem
é o vértice do encontro, do milagre!
E lá seguem os homens
rumo a possíveis benfazejos.
Dois pássaros de muitas cores
dançam-lhes seus voos
nas cabeças iluminadas.
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 Mateus, Victor Oliveira.  Diário Digital Crear en Salamanca de 21 de março de 2019.
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domingo, 10 de março de 2019


(...). Tout est rêve, pensait-il, on traverse la vie en rêve, tout est trop dur, trop dur. La mort réfute l'induction. Il n'y a pas de "ça" qui permette de dire que tout ça compte. Il y a juste le rêve, sa texture, son essence, et à travers nos dernières affaires nous subsistons seulement dans le rêve d'un autre, une ombre dans une ombre, s'effaçant, s'évanouissant, s' effaçant. Il était étrange de penser que Janie et Gwen et sa propre mère, et Maureen pour autant qu'il le pouvait savoir, existaient maintenant plus intensément, plus réellement, ici, dans son esprit, que n'importe où ailleurs dans le monde. Elles font partie de mon rêve de vie, pensait-il, immergées dans ma conscience comme des spécimens conservés dans la formaline. (...) Cette matière du rêve, si intensément la matière de son rêve, allait s'évaporer, à un moment donné, et c'en serait fait d'elle, et personne ne saurait jamais à quoi elle avait pu ressembler. Tout l'effort qu'il avait apporté à se faire lui-même paraissait n'être que vanité maintenant qu'il n'y avait plus rien à entreprendre. Si dur il avait travaillé, apprenant l'allemand, apprenant l'italien. Il lui semblait maintenant que tout avait été vanité, un désir éprouvé en vue d'un moment qui n'arrivait jamais, de faire impression sur quelqu'un, de réussir, d'être admiré. Janie parlait l'italien d'une manière si belle.
   Au fur et à mesure (...) n'y a-t-il réelement rien, en dehors du rêve?
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  Murdoch, Iris. Le rêve de Bruno. Paris: Éditions Gallimard, 1971, pp 20-21.
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quinta-feira, 7 de março de 2019


          Filosofia de um alcoólico

                            Diálogo com a própria sombra.
                            Noite de primavera.

Vós sabeis o que é o mundo?
Respondam todos à uma -
Os ignorantes e os sábios:
O mundo é um disparate
Em que os homens são cativos!
E esta vida? O que é a vida?
Sendo o mundo um disparate,
os vivos não podem ser
Senão disparates vivos!
Que tal? Fui ou não fui genial?
Eu quando as digo sem cuspo
É porque tenho razão...
Estavas aí? Nem te via!
O quê? Sei lá que horas são!
Não é noite nem é dia;
É um intervalo suspenso
Na ponte da fantasia!
Endireita-te! Não podes?
Fala de frente! Já sei.
Embebedei-me? E depois?
O vinho dá lucidez -
E um homem com vinho é rei!
Quando se bebe há centenas
De visões no coração,
Vê-se a vida de outra cor
- Vermelha, quente, sadia,
Você está ouvindo ou não?
Tudo tem um outro encanto
E até a miséria sabe
A um bem-estar, a fartura,
As mãos dão palmas, há risos,
Estamos sempre de acordo
Se em nós for grande a grossura
Beber um copo de vinho
Num momento de amargura,
Pegar num copo com linha,
Sabê-lo chegar aos lábios
- Eu disse lábios? São beiços!
Ficamos indiferentes
Por maior que a mágoa seja!
O vinho enfraquece e apaga
O sentimento da inveja;
Só ele nos dá firmeza
Para estarmos resignados
A ver tombar as Nações
E esses milhões de soldados
Que se esfacelam, p'ra quê?
Para haver mais liberdade?
Falaste? Agora bebia,
Bebia um copo, e você?
Falta o melhor? O dinheiro?
Esse poderoso absurdo,
Vadio, pantomineiro?
Mas fala! Tens medo? Eu sei:
Não é medo, é cobardia!
Tá bem! Pronto. Falo eu.
E seja o que Deus quiser!
Tá bem. Falo eu. Bom dia!
Solteiro; não tenho casa;
Não há filhos nem mulher...
Beber! Que grande prazer!
Nas largas horas difíceis
Chega-lhe um copo e verás
Se o vinho não é o alento
Mais forte da humanidade!
E o que é que ela quer, enfim,
A humanidade, eu, você,
Aquele, o outro, e outro mais,
Todos quantos se atropelam
Serenos ou convulsivos
Nesta feira miserável
De tantos cadáveres vivos?
Voltas-me a cara, porquê?
Sou maluco, sou um parvo?...
Um parvo és tu! Todo aquele
Que não discute e não mostra
Que sabe, que "sim", que entende
Mais que o vizinho do lado,
Ó filho!, é um tipo tramado!
Só o silêncio destrói
A nossa capacidade
Em sermos luta constante!
Quem fala mostra que mexe
Ou p'ra trás ou p'ra diante!
Mas fica para aí sem alma,
Fica para aí pasmaceira,
Que eu cá vou dizendo ao mundo
O que é verdade e o que penso
Através da bebedeira!...
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  Botto, António. Poesia. Porto: Assírio & Alvim, 2018, pp 435-437.
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(Prémio Literário, que, apesar de pretender incentivar o aparecimento de jovens autores, está também aberto a autores com obra feita. Ver aqui a notícia no Site das Letras: http://www.casaldasletras.com/bloco_desenvolvimento_2019.html    ).

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PRÉMIO DE POESIA VICTOR OLIVEIRA MATEUS
INICIATIVA DA EDITORA LABIRINTO INCENTIVANDO A CRIATIVIDADE 


Para incentivar a criatividade poética e o aparecimento de novos autores, a Editora Labirinto acaba de criar o Prémio Internacional de Poesia Victor Oliveira Mateus realçando, assim, a importância deste género literário e destacando, ao mesmo tempo, um nome que prestigia a cultura portuguesa, voz marcante da nossa poesia contemporânea.
Com periodicidade bienal, o prémio inicia-se este ano (instituído a 25 de Fevereiro) e os trabalhos a concurso deverão ser enviados até 21 de Março (2019), Dia Mundial da Poesia. A lista dos dez finalistas anunciar-se-á a 22 de Maio, Dia do Autor Português.
Os candidatos terão de remeter os originais para o e-mail:
premio.internacional.poesia.vom@gmail.com (indicando o assunto: Prémio Internacional de Poesia Victor Oliveira Mateus).
Conforme regulamento, os trabalhos concorrentes (escritos em espaço duplo e fonte Arial 12) serão assinados com pseudónimo na primeira página, a seguir ao título, e inseridos num ficheiro em formato Word ou pdf. Noutro ficheiro (formato Word ou pdf) indicar-se-á o título da obra a concurso, pseudónimo e dados do autor (nome, nacionalidade, país de residência e contactos). O júri não terá acesso ao segundo ficheiro, que ficará, unicamente, na posse do Secretariado do Prémio.
Poderão participar neste concurso literário poetas de todas as nacionalidades desde que a obra candidata esteja escrita em língua portuguesa (abrangendo as suas variantes). Não serão aceites poemas com mais de 25 versos, num volume até ao máximo de 50 páginas. Tema livre.
Cada autor submeterá a concurso um único trabalho inédito. Nenhum dos poemas poderá ter já sido editado em suporte de papel ou digital, nem serão admitidos trabalhos concorrentes a outros prémios ou entretanto premiados, nem antologias e traduções.
O Prémio consiste da publicação do livro vencedor (edição a cargo da Labirinto), prefaciado por um elemento do júri. O autor distinguido receberá ainda 25 exemplares da sua obra. E cederá os direitos de autor à Editora Labirinto por um período de dois anos a contar da data de edição. Não haverá premiados ex aequo, todavia, o júri, se o entender, atribuirá menções honrosas.
O júri do primeiro concurso Prémio Internacional de Poesia Victor Oliveira Mateus vai ser presidido pela poeta, tradutora e ensaísta Marta López Vilar. Mais seis elementos (entre escritores, professores universitários, tradutores, críticos literários e jornalistas) integram o júri: André Domingues, César Freitas, João de Mancelos, José Eduardo Degrazia, Pedro Marques Pinto e Rosângela Vieira Rocha. O retrato do post alusivo ao prémio é da autoria do pintor Miguel Elias.
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terça-feira, 5 de março de 2019

( Da Secção Cartas que me foram devolvidas, a Carta Nº 28):

De um vício ou de um amor, ninguém sai facilmente. Ao heroísmo do arranque inicial segue-se a nostalgia do prazer perdido e a recaída no que havíamos abandonado. Somente quando a saúde e a dignidade estão gravemente comprometidas é que o homem se despede de um vício ou de um amor. É possível, é mesmo certo que exista mais do que um homem que não conheça esses dois grandes suplícios. Contudo, esse homem, não poderá jamais orgulhar-se de conhecer a vida bem a fundo. Por mais forte que seja a nossa vontade de rompermos com o que nos foi profundamente agradável, essa privação deixa inactivas certas funções do espírito e certas ansiedades orgânicas que protestam e se revoltam, à sua maneira, da insatisfação a que as condenámos. Dizer humanidade é dizer debilidade.(...)
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  Botto, António. Poesia. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p 342.
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segunda-feira, 4 de março de 2019

( Estas cantigas de vilancete aparecem nesta obra precedidas de um elogio a A.B. feito por Fernando Pessoa e são dedicadas a Aquilino Ribeiro. O vilancete é composto por um mote e por voltas ou glosas, contudo, apesar do título da secção a cantiga e o vilancete distinguem-se pelo número de versos da primeira estrofe, o mote, se tiver dois ou três versos é um vilancete, se tiver quatro ou mais é uma cantiga. O vilancete aparece em Portugal no Cancioneiro de Garcia de Resende e os seus temas são geralmente a saudade e o amor não correspondido e os versos são ainda em medida velha, cinco ou sete sílabas).

Eu ausente e tu ausente,
Eu de ti e tu de mim -
Saudade, quando me deixas?
Ausência, quando tens fim?

            VOLTA

Meus olhos andam molhados
Desde aquele negro dia...
Bronzes, dobrai a finados,
Que eu já não tenho alegria.
Ó causa das minhas queixas,
Porque me matas assim?
Saudade, quando me deixas?
Ausência, quando tens fim?
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 Botto, António. Poesia. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p 306.
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