sábado, 24 de outubro de 2020


 

                Suicidar-se a Oriente

 

                             para quem vive um sonho de arquipélagos

 

 

E repetimos erros como pedras

as pegadas do vento as águas agitadas

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não importa mais o ruído das cordas

não importa a dor que transportamos

virá o dia em que seremos recordados,

mas hoje a engrenagem arrasta-nos

e sabe-se que não podemos voltar atrás

liberta-me e grava-me, agora, com as tuas mãos

colherás os restos, a poesia que se esfiapa

começa a soçobrar, a começar a soçobrar, ama

a condensação da espécie, o indivíduo que se dissipa

 

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assim viemos sós, arrastados,

engrenagem que roda desmedidamente

erros como pedras não apagam

os teus passos e repetimos, repetimos.

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 Ottonello, Francesco. Isola Aperta. Latiano: Interno Poesia, 2020, p 72 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).

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quarta-feira, 21 de outubro de 2020


 
Amavam-se. Não se falavam, não se tocavam. Olhavam-se a uma certa distância. Fumavam cigarros muito lentamente, como se a linguagem do fumo os aproximasse em certa medida. Liam poemas, mas nunca se tocavam ou falavam um com o outro. Mesmo quando a leitura era feita em viva voz, nunca era dirigida um ao outro. Liam para si, para se poderem escutar no silêncio dos tapetes da tarde. Mas enlaçavam-se mentalmente, afagavam-se, despiam-se e até consumavam o acto sexual, num ritmo amplamente íntimo, sem voracidade. Quase a tocar a ternura e o perfeito entendimento entre dois seres. Todo este enlace era apenas uma sublimação, na realidade tal nunca acontecera ou viria a acontecer. Precipitavam-se num estado letárgico em que traduziam por amor, este estado quase platónico. Quase flutuante e inaugural. Como sedas que se viessem a desfazer por acção do tempo, restolhavam os seus passos pela habitação. Imersos nessa paixão ímpar e invisível, notoriamente envolta num tecido cristalino e fecundo. Tem o amor desígnios que nem o vento ou o afastamento põe em causa ou faz ruir.
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  Rosado, Leonora. Contágio. Fafe: Editora Labirinto, 2020, p 43.
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 Decorreu no passado dia 20 de outubro a 5ª, e última, Sessão (Virtual) de Leitura integrada no XXIII Encuentro Iberoamericano de Poetas (Salamanca), Encontro dedicado este ano a Gabriel Y Galán. Nesta Sessão participaram: Alfredo Perez Alencart (Peru-Espanha), Juan Carlos Martin Cobano (Espanha), Pedro Enriquez (Espanha), Victor Oliveira Mateus (Portugal), Stefania Di Leo (Itália), Boris Rozas (Argentina), Gloria Fernández Sánchez (Espanha), Luis Pedro Paz (Guatemala).
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terça-feira, 20 de outubro de 2020


 Prefácio do livro Em Contramão de Álvaro Alves de Faria com desenhos de Rui Cavaleiro (Palimage, 2020).
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    Álvaro Alves de Faria, neste seu livro intitulado Em Contramão (Palimage, 2020) mantém-se fiel a uma dualidade fundamental que tem sido a pedra de toque da sua produção poética: a) a procura de uma expressividade que traduza, o mais fielmente possível, dadas vivências individuais (“Queria saber lidar com a vida,/ mas isso não é para iniciantes”, 23:6-7, neste meu texto, o primeiro número dirá sempre respeito à página e os números seguintes aos versos; “Não me adivinho/ nem sei quem sou/ no instante em que me revelo”, 41:4-6)) e igualmente certas interpretações de cariz universalizante, sejam estas de tipo antropológico (“Antigo é o suor do homem(…) Frágil é o homem/ que carrega a própria alma/ sem nunca saber”, 13:6-11); metapoético (“Canto a poesia ainda possível/ neste vale de lágrimas,/ esta poesia que fere,/ que corta. 47:1-4); social (“O que sei é que tenho vontade de explodir coisas, especialmente prédios oficiais/ onde eles se reúnem todas as tardes” 61:2-4; “Farei um favor à humanidade: explodirei o mundo amanhã/ao entardecer, para ser mais romântico”, 67:1-3), etc.  Esta procura é feita pelo poeta através, não de uma linearidade discursiva eventualmente redutora da complexidade, mas antes recorrendo a procedimentos vários de desconstrução da linguagem; b) a fuga a qualquer tentativa de etiquetagem de estarmos perante uma poética de livro único; Alves de Faria, sem fugir à coerência interna da sua já longa produção poética, desmultiplica-a em obras, que, apesar de se tangenciarem aqui e ali, enformam um somatório de livros autónomos e perfeitamente individuados –  breve exemplo: em Desviver (Escrituras, 2015) a tese central encontra-se subordinada a uma forte formalização do sentido, onde as contradições e os paradoxos se regem por um trabalhar da linguagem onde pontificam anáforas, aliterações e assonâncias; em elegias da mão esquerda (Palimage, 2017) o sentido distende-se dando azo a longos poemas monostróficos em verso livre; em A duas vozes (Palimage, 2018) surge uma obra de cariz dialogal, onde o poeta brasileiro vai trocando instantes, visões e interpretações com a poetisa portuguesa Leocádia Regalo. Por tudo isto, percebe-se a persistência e a maestria com que Álvaro Alves de Faria tem sabido edificar uma obra sólida e consistente.

    Neste seu livro Em Contramão, o poeta recorre, ao nível da explanação do sentido, ao entrecruzamento de paradoxos (“Cada um à sua maneira tenta viver/ o que já é o bastante/ diante do nada que há.”, 37:13-15; “O coração está morto/ mas ainda pulsa/ ainda pulsa/ o coração que está morto.” 95:20-23); contradições (“que seja assim este andar sempre por lugar nenhum”, 27:9; “Canto essa poesia ainda possível/essa que não existe mais”, 47:15-16); oxímoros (“lúcida loucura” 73: 15) e repetições de palavras e expressões (Cf. pp 97, 99, 119). O cismar do eu poético, complexo, desalentado, ora perscrutador ora assertivo, seria intraduzível por uma qualquer linearidade discursiva, daí Alves de Faria enveredar por um procedimento, que, qual enorme caleidoscópio verbal e de imagens, nos desvela e reforça o sentido que pretende fazer passar. Este tipo de ancoragem do discurso poético, remete-nos para a tese de John E. Jackson relativamente à poesia de Paul Celan, que, segundo este especialista da poesia moderna, se serve de um assumido caráter paradoxal, para assim poder falar dos vários tipos de experiência vivida nas nossas sociedades. Jackson exemplifica com versos que Celan recolhe de Verlaine e de François Villon, que depois de os modificar lhes imprime os paradoxos pretendidos, e o ensaísta conclui: “Um tipo de discurso no qual o Não não está separado do Sim é, em certo sentido, paradoxal (…) tal superação do princípio de identidade parece em todo o caso uma das caraterísticas de Niemandsrose. (…) O efeito radica aqui na causalidade paradoxal que identifica a curva (Krumm) e o direito (gerade). Também aqui, como no caso das rosas (num outro poema), poderemos concluir que o paradoxo é solúvel” (In La poésie et son autre. Paris: José Corti, 1998, pp 83-84). Ora, Alves de Faria, segue uma estratégia formalmente semelhante: colocado num hoje marcado pela hecatombe e por escombros, ameaçado pela desesperança e pela consciência da ruína e do desencontro (“Perdido entre as nações que vivem dentro de mim,/ mas sou estrangeiro em todas elas”, 27:1-2; “seguindo um destino/ que termina em nada,/vais ao encontro de teu abismo/e não sabes voar”, 69:5-8), por conseguinte, e ao nível das dimensões da temporalidade, o poeta vive um presente ameaçado pelo desastre – rondando a filosofia de Cioran! – lembra um passado, louvável mas irremediavelmente perdido, e, de tudo isto, infere um futuro antecipadamente condenado. Contudo, é através da memória (“Alguma memória nasce/- alguma memória sempre nasce-/neste tempo de barbárie,/ como um milagre qualquer,/desses que acontecem nas igrejas(…)/ sempre nasce uma memória/(…) para o agora”, 75:1-10), da ousadia (“Eis meu D. Quixote/a atravessar os desertos das almas/como se fosse salvar o mundo”, 19:1-3) e da imaginação (“Sempre haverá um sol em alguma janela/assim tão amarelo/que o próprio amarelo não conhece. 25:1-3), que o poeta, como já assinalámos, supera os paradoxos, deixando uma ténue frincha aberta ao (ainda) possível e é assim também que ele escapa, neste livro, a um solipsismo desistente e absoluto, bem como a um ceticismo radical. Álvaro Alves de Faria consegue deste modo que um quotidiano e uma interioridade poética complexos e plurifacetados passem de uma perceção individual a uma universalidade em que o leitor atento se reconhecerá, ou seja, a sua poética não se fecha numa mera prestidigitação lamentosa, individualizada e hermética, antes é a objetivação, a universalização, de um estar-aqui em que todo o leitor atento se reconhecerá, e essa é a marca de água da verdadeira poesia lírica (Cf. Theodor W, Adorno. Poesia Lírica e Sociedade. Coimbra: Angelus Novus, 2003, pp 13-29), é através dela que Álvaro Alves de Faria, mesmo vindo Em Contramão, acaba por se encontrar com todos nós mediante a sua acuidade e o seu brilhantismo poético.

    Paralelamente a tudo o que foi dito relativamente ao poeta brasileiro Álvaro Alves de Faria, urge realçar o papel determinante que o artista plástico português Rui Cavaleiro desempenhou na concretização deste projeto que viria a desembocar na consecução do livro Em Contramão, aliás, os desenhos são mesmo, neste livro, a mola impulsionadora dos poemas. Estamos habituados a ver o desenho funcionar como ilustração da palavra escrita, ora aqui sucede exatamente o inverso: o encontro, numa Rede Social – o Twitter -, entre poeta e artista gráfico viria a originar um diálogo artístico que se prolongaria por mais de dois anos: os desenhos postados inicialmente por Rui Cavaleiro na dita Rede eram, num segundo momento, enviados a Alves de Faria, que assim o solicitava e sobre eles escreveria um poema. Deste profícuo encontro e, diremos mesmo, desta convergência no olhar o mundo e no interpretá-lo, sem que cada um perdesse a sua especificidade, resultaram 55 desenhos e 55 poemas, que formam o livro de que temos vindo a falar.

    Sem pretender elaborar uma hermenêutica do trabalho de Rui Cavaleiro nesta obra, convém, no entanto, enfatizar algumas variáveis de suma importância e que, não por acaso, estão em consonância com a parte poemática da obra. Assim, neste trabalho gráfico posemos encontrar: a ironia (p 16), essa ironia surge por vezes eivada de algum desalento (pp 52, 56), em outras de uma certa acidez (pp 54, 64); o humor (p 28); a crítica social e política (p 114), mas também o comprometimento com momentos e causas (p 120); o vivencial, que no trabalho de Rui Cavaleiro, aparece recorrentemente marcado por uma enorme solidão das figuras retratadas (pp 24, 44, 46, 48, 52, 74), o que faz aparecer como corolário certos desenhos nomeadamente o da página 70, como se aí se acenasse a tese, ilustrada igualmente pelo poeta, de que de um mundo de escombros e de ganância, para usar aqui a expressão de Peter Singer, só pode derivar esse par antinómico que é, por um lado o desespero, mas por outro, a indignação, a revolta e a vontade de superação deste imprestável aqui-hoje. Creio ser exatamente neste território que desenhos e poemas iniciaram o seu diálogo e, consequentemente, acabaram por se encontrar.

    Ainda relativamente ao trabalho gráfico é importante assinalar, que, nas suas opções estilísticas, o desenhador/ pintor recusa correntes estéticas como o Abstracionismo, o Hiper-Realismo e o Simbolismo, para assumir, muitas vezes de forma veemente, um certo Realismo de cariz social, contudo, convém afastá-lo dos primeiros momentos da pintura neorrealista, embora seja possível traçar convergências entre alguns desenhos de Rui Cavaleiro e as fases ulteriores de pintores neorrealistas como por exemplo Rogério Ribeiro (Cf. quadros Pateo, Dor ); existe também, na minha opinião, alguns desenhos que fazem lembrar os grandes quadros do Fauvismo (Cf. Quai des Grands Augustins e Saint-Michel et le Quai des Grands Augustins, ambos de Albert Marquet) e em outros Rui Cavaleiro usa com tenacidade e mestria técnicas de colagem e de sobreposição de materiais. Importa, no entanto, deixar vincado que este espraiamento gráfico, não deriva de um qualquer sincretismo tateante, mas antes da consciencialização de que perante uma realidade múltipla, complexa e desdobrável importa recorrer a formas igualmente múltiplas de a entender e captar essa mesma realidade, e, nesse sentido, podemos concluir então que a opção estética de Rui Cavaleiro foi feliz e eficaz.


                                                Victor Oliveira Mateus

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domingo, 18 de outubro de 2020


 Final do poema Tristan und Isolde: enlouquecimento e morte de Isolda.

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      Isolda

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Como ele sorri

com que doçura e calma:

como abre ele, docemente,

os olhos!...

Será que não vedes, amigos?...

Não o víeis?...

Cada vez mais luminoso,

como brilha agora

e se eleva

numa irradiação estelar!...

Não o credes?...

Como o seu coração

ardentemente se dilata

no seu ventre

que abrange a plenitude!...

Como os seus lábios,

com uma doçura inefável,

exalam ternamente

um sopro suave!...

Amigos!... Vede!...

Não o sentis vós e não o vedes?

Serei eu a única a escutar

esta melodia

que, com uma doçura

tão maravilhosa,

afortunadamente lamentosa,

expressando tudo,

irradia dele

e reconciliadora,

m’ investe,

s’ eleva,

inunda-me com seus sons

de suaves ecos?...

Claros e sonoros,

envolvem-me por todo o lado,

serão vagas

de brandos ventos?...

Serão ondas

de inebriantes aromas?

Como elas se agigantam

e me cercam de sons!...

Poderei eu respirar?...

Conseguirei escutar?...

Irei eu embriagar-me,

imergir?...

Dissolver-me

suavemente em aromas?....

Na ondulação das vagas,

na ressonância dos sons,

no turbilhão

da respiração universal,

ser engolida,

dissipar-me, inconsciente!...

Alegria suprema!...

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 Wagner, Richard, Tristan und Isolde (Bilingue). Paris: Aubier Flammarion, 1974, pp 239 -241 (Tradução de Victor Oliveira Mateus a partir da versão francesa de Jean d'Arièges).

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sábado, 17 de outubro de 2020


                     Caracol

Foi na praia que encontrei um caracol de ouro
maciço e recamado de pérolas finas;
tocou-o a bela Europa com suas mãos divinas
quando as ondas cruzou sobre o celeste touro.

Levei a meus lábios o caracol sonoro
e fiz vibrar o canto das dianas marinhas,
cheguei-o aos ouvidos e as pedras opalinas
sussurraram-me então seu secreto tesouro.

Fustiga-me assim o sal dos ventos amargos
que em suas inchadas velas sentiu o navio de Argos
quando amaram os astros o sonho de Jasão;

e oiço um rumor de ondas e um obscuro dialecto
e uma maré profunda e um misterioso vento...
(O caracol tem a forma de um coração.)
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  Darío, Rubén. O Sátiro Surdo, poesia e prosa de Ruben Darío. Fafe: Editora Labirinto, 2020, p 34 (organização e tradução de João Albuquerque).
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sexta-feira, 16 de outubro de 2020


 

   Soneto X do Ciclo Do Amor


Diz-me quando, amor, contamos à

vida como felizes somos. Gosto

de ver gente na dúvida se  o rosto

que mostramos é mesmo assim, já


que não se acredita haver quem

possa ser como nós. E porque não,

se a arte está em darmos a mão

logo cedo, à vista de ninguém,


ao deitar, beijo bem-disposto? Diz,

pois, se posso contar às aves como

do silêncio retiro mais um gomo

de prazer, que nos faz casal feliz.


E ao mundo gritar: "Não há mulher

como tu. Nada sou sem em ti ser."


   Rodrigues, Ernesto. Perseu. Fafe: Editora Labirinto, 2020, p 38.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2020


 O livro Aquello que no tiene nombre publicado por Sidharta Ochoa e pela Abismos Editorial do México está presente este ano na Feira Internacional do Livro de Frankfurt.
Ver aqui:  https://frankfurtrights.com/Books/Details/18971371  
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 1ª Sessão de Leitura (Virtual) Integrada no XXIII Encuentro de Poetas Iberoamericanos (Salamanca).

Dia 15 de outubro: 13:00H Peru e México, 15:00H Argentina, 19:00Portugal, 20:00 Espanha

Com:

Juan Caneron (Chile)

Margarit Matitiahu (Israel)

Clara Schoenborn (Colômbia)

Paura Natalia Leyton (Bolívia)

Ana Cecilia Blum (Equador)

José Pulido (Venezuela).

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terça-feira, 13 de outubro de 2020


 2ª Sessão de Leitura (Virtual) integrada no XXIII Encuentro de Poetas Iberoamareicanos (Salamanca).
Dia 16 de outubro: 13:00H Peru e México, 15:00 Argentina, 19:00H Portugal, 20:00 Espanha
Com:
Gabriel Chávez Casarola (Bolívia)
Mariana Bernárdez (México)
Gianni Darconza (Itália) 
Alvaro Mata Guillé (Costa Rica)
Harold Alva (Peru)
Ana Beccu (Argentina).
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segunda-feira, 12 de outubro de 2020


 3ª Sessão de Leitura (Virtual) integrada no XXIII Encuentro de Poetas Iberoamericanos (Salamanca).
Dia 17 de outubro: 13:00H Peru e México, 15:00H Argentina, 19:00H Portugal, 20:00H Espanha
Com:
Habdul Hadi Sadoun (Iraque)
Hector Jesus Nauparibelu (Peru)
Hugo Mujica (Argentina)
Dennis Avila (Honduras - Costa Rica)
Marcelo Gatica Bravo (Chile)
Juan Carlos Martin Cobano (Espanha).
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domingo, 11 de outubro de 2020


 


4ª Sessão de Leitura (Virtual) integrada no XXIII Encuentro de Poetas Iberoamericanos (Salamanca).
Dia 18 de outubro: 15:00H Argentina, 13:00H Peru e México, 19:00H Portugal, 20:00H Espanha
com:
José Antonio Funes (Honduras)
Nicasio Urbina (Nicarágua)
Ute Margaret Saine (Alemanha)
Miguel Angel Zapata (Peru)
Francisco Caro (Espanha)
Noé Lima (El Salvador)
Isabel Pavón (Espanha).
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sábado, 10 de outubro de 2020


 5ª Sessão de Leitura (Virtual) integrada no XXIII Encuentro de Poetas Iberoamericanos (Salamanca).
Dia 20 de outubro de 2020: 13:00H Perú e México, 15:00 Argentina, 19:00 Portugal, 20:00H Espanha.
Com:
Luis Pedro Paz (Costa Rica)
Pedro Enriquez (Espanha)
Victor Oliveira Mateus (Portugal)
Stefania Di Leo (Itália)
Boriz Rozas (Argentina)
Gloria Fernández Sánchez (Espanha). 
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terça-feira, 6 de outubro de 2020


 LER CRITICAMENTE

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Abarcar a totalidade foi, desde sempre, um sonho do homem. A parcelaridade é, desde sempre, a realidade do homem. Apreender a existência é também aprender a viver dentro da parcelaridade, do fragmentarismo. Assim, com a crítica literária: atingir a Unidade da Obra, o seu etymon, o seu princípio unificador pertence ainda hoje ao domínio do desejo. Na realidade, os críticos continuam na periferia, mesmo quando encaram a obra como objecto estético e não apenas como simples realidade documental.
Dizemos que os críticos não passam da periferia por variadíssimas razões, entre as quais as seguintes:
Primeira: a obra literária é um complexo sistema plurissignificante que não se esgota em nenhum modelo de análise por mais sofisticado que este seja;
Segunda: a tentativa de abarcar o “Todo” que uma obra é, não passou de um falhado processo de boas intenções, utopia irrealizável na prática – a História Literária: a unidade do conhecimento dependeria da detecção da autenticidade e integralidade do texto, da sua génese, fontes, influências, cronologia, do exacto conhecimento de bibliografias, da sua edição crítica, das relações entre a obra e a sociedade, dos problemas de recepção, para além do estudo da própria obra e consequente procura de afinidades entre esta e as coetâneas, procurando reconstituir-se a história dos géneros literários, as correntes intelectuais que dominaram a literatura, bem como a história das épocas, sem excluir as obras de qualidade inferior, pois na opinião de Lanson “o génio é sempre do seu século, mas ultrapassa-o sempre. Os medíocres pertencem inteiramente ao seu século, estão sempre à temperatura do seu meio, ao nível do seu público”;
Terceira: o estudo “total” das obras parece requerer como “background” uma Ciência dos Textos que na opinião de Michel Grimaud (Poétique nº 43) tem como disciplinas básicas os seguintes domínios: epistemologia (filosofia das ciências), inteligência artificial, psicologia cognitiva (memória, percepção, pensamento, linguagem e comunicação), linguística, psicolinguística e pragmática, análise do discurso, sociologia, comunicação não verbal, psicanálise, semiótica, poética, tematologia (intertextualidade) estética empírica, psicologia e sociologia da arte. Apenas. (como ironicamente conclui Eduardo Prado Coelho, após fazer esta citação no prefácio de Teoria da Literatura (A. Kibédi Varga);
Quarta: Leo Spitzer criador (ou continuador de Schleiermacher) da teoria do círculo filológico tem a consciência de que o vaivém do centro à periferia e vice-versa é quase eterno, pois o “déclic” intuitivo não é automático nem universal e daí que o mestre insista na leitura como meio de aproximação da obra.
Aceitar a leitura poliédrica equivale a admitir que cada perspectiva crítica tem em conta apenas um lado da obra e que esta possui diversificados ângulos de abordagem, cada um deles com o seu centro e a sua periferia próprias.
O leitor por mais apetrechado que seja não possui o dom da ubiquidade e ao iluminar uma face da obra-poliedro deixará inevitavelmente outras faces na sombra ou na penumbra. O que, em meu entender, conferirá legitimidade a cada uma daquelas abordagens será o sistema de coerência argumentativa que conseguir criar no estudo da obra..
Aceitar a Leitura como diversidade de leituras é hoje uma ideia aceite pacificamente na universidade. Mais difícil será o consenso acerca da necessidade de fazer confluir na leitura um conjunto de outros saberes, não apenas para que a enriqueçam, mas fundamentalmente para que a esclareçam, numa linha interdisciplinar para a qual Maria Lúcia Lepecki chama a atenção num lúcido artigo intitulado Intra-Muros (inserto em Românica - 4 - 1995):
«A abertura de horizontes de pensamento, sem a qual nenhum ensino (em qualquer grau e em qualquer nível) cumpre as suas funções, parece ser a grande ausência que se pode lamentar entre nós.”(p. 198)
No mesmo artigo, aquela professora e ensaísta falando dos seus alunos (a breve trecho docentes do ensino secundário) acrescenta:
«Na impossibilidade de penetrar o fundo do fenómeno que estudam, muitas vezes os nossos alunos utilizam conceitos, fundamentais para os estudos literários, mas tirados de outras áreas do saber, cujas reais incidências culturais desconhecem. Numa situação como essa é evidente que o conceito se esvazia – ou fica-se pela primeiríssima camada da epiderme – daí resultando que o estudante acaba por se debater numa floresta terminológica que é igual a uma floresta de enganos.» (p. 201)
A propósito das florestas terminológicas de múltiplos enganos relembramos o texto «pórtico» do livro de ensaios As Vinte e Cinco Notas do Texto (1987) de Eugénio Lisboa, no qual o autor chama insistentemente a atenção (atenção que considera «o ingrediente fundamental da análise do texto» amplamente documentada na sua prática ensaística) para a necessidade de «ler sem a malícia de um programa prévio. Sem querer enfiar pelo texto abaixo a incompetência de um método pré-fabricado». Por isso insiste que «é o texto, a sua natureza, a sua força específica, a sua originalidade própria, a sua frescura intrépida, que nos hão-de sugerir o método (se algum) mais adequado. De outro modo toda a démarche crítica e analítica exibirá, irremediavelmente os seus pés de chumbo».
Eugénio Lisboa recomenda que cada vez mais há que encontrar terapia adequada para o «receio neurótico da clareza» que muito lucidamente diagnostica nalguma crítica literária acrescentando: «o desejo da clareza é a pedra de toque da boa fé de quem quer que se exprima» relembrando a propósito António Sérgio: «Um eclipse do sol é uma escuridão; mas a teoria dos eclipses é uma doutrina clara» e chamando a atenção para o papel da memória na leitura, abertura de horizontes:
« O acto da leitura crítica desencadeia a partir da memória, em fluxo imparável, tudo o que antes absorvemos e nos serve».
É muito importante este último verbo «servir». Com efeito na leitura nem tudo serve. Analisar é também filtrar, discutir. Para uns será avaliar, para outros tão somente iluminar, mostrar. Para todos será, necessariamente, interpretar.

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in Teresa Martins Marques, LEITURAS POLIÉDRICAS, Universitária Editora, 2002.

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sexta-feira, 25 de setembro de 2020


    Havia lá um por quem eu me prendi numa verdadeira paixão. Era um Russo. Precisava de procurar o seu nome nos registos da Escola. Quem me poderá dizer o que lhe aconteceu? Tinha uma saúde delicada, extraordinariamente pálido; tinha os cabelos muito louros, algo compridos, os olhos muito azuis; a sua voz era musical, com uma ligeira pronúncia cantante. Uma espécie de poesia emanava de todo o seu ser, que vinha, creio, do facto dele se sentir frágil e desejando fazer-se amar. Era pouco considerado pelos outros colegas e raramente participava nos nossos jogos; para mim, se acaso ele me olhava, eu sentia-me logo envergonhado de me estar a divertir com os outros, e recordo certas brincadeiras onde, surpreendendo o seu olhar, de imediato eu abandonava a dita brincadeira para vir para perto dele. Divertíamo-nos ambos. Cheguei a desejar que o atacassem, para o poder defender. Nas aulas de desenho, onde nos era permitido conversar um pouco, desde que em voz baixa, nós sentávamo-nos um ao lado do outro; ele disse-me, nessa altura, que o seu pai era um sábio grande e muito célebre; não ousei perguntar-lhe pela mãe nem questioná-lo por que razão ele estava em Paris. Um belo dia ele desapareceu, e ninguém me soube dizer se tinha adoecido ou regressado à Rússia; uma espécie de pudor ou de timidez impediu-me de perguntar aos professores que talvez até me tivessem podido esclarecer, e conservei secreta uma das primeiras e mais vivas tristezas da minha vida.
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 Gide, André. Si le grain ne meurt. Paris: Gallimard, 2018, pp 83-84 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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quinta-feira, 24 de setembro de 2020


 O Libération traz este fim de semana uma excelente homenagem a Juliette Greco (1927/02/07-2020/09/23). Na capa, a sensualidade da Dama de Negro, da Musa do Existencialismo,  insinuando um dos seus êxitos: Deshabillez-moi. Greco, cuja mãe fora presa pelos nazis durante a ocupação, viu-se também detida pela Gestapo durante algum tempo, e depois de libertada passou a viver em Saint-Germain-des-Prés, casou depois com Philippe Lemaire (1953-1956), com Michel Piccoli (1966-1976) e com Gerard Jouannest (1988-2018). Greco foi também a grande paixão de Miles Davis e foi igualmente amiga, companheira de boémia e cúmplice dos grandes da filosofia e da poesia da 2ª metade do século XX francês: Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, Jacques Prévert, Boris Vian, etc. 
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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

 


   Et elles passaient si loin de vous, ces heures de songe, heures de profondeurs mystiques et sensuelles, qui fondaient en tendresses les caillots les plus amers de la douleur, heures de bonheur complet, qui abolissait le temps et le monde entier, longue gorgée aux sources de l' Oubli! Et je vous revoyais, Manuelita, ensuite: qui veilliez pâle et lontaine: vous, âme simple, fermée dans vos armes simples.
(...) Mais à présent, si vous le pouvez, sachez: je devais rester fidèle à mon destin; c' était une âme inquiète, celle dont je me souvenais toujours quand je sortais m' asseoir sur les bancs de la place déserte, sous les nuées en fuite. Elle était ce par quoi seul le rêve m' était doux. Elle était ce par quoi j'oubliais votre petit corps dangereux, tout adorable de sveltesse et de force. Et pourtant, je vous jure, Manuelita, je vous aimais, je vous aime et je vous aimerai toujours plus qu'aucune autre femme... des deux mondes.
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  Campana, Dino. Chants Orphiques. Paris: Éditions Allia, 2006, pp 86-87 (Traduit de l' italien et préfacé par David Bosc).
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domingo, 13 de setembro de 2020


Un moine décrépit, dans l' heure tardive, se traîne dans la pénombre de l'autel, silencieux dans son froc velu, et prie les prières de quatre-vingts ans d'amour. Dehors le couchant se trouble. Lointaines, des raies menaçantes de fer pésent sur les monts alentour. Le rêve est à son terme et l'âme, soudainement seule, cherche un appui, une foi dans l'heure triste. Au loin, on voit lentement sombrer les vigies mystiques et guerrières des châteaux du Casentino. Alentour, un grand silence, un grand vide dans la lumière fausse de froides lueurs qui vacillent sous les étreintes de la pénombre. Et la mémoire court encore vers les nobles dames aux bras blancs, à leurs balcons, lá-bas: comme dans un rêve: comme dans un rêve de chevalerie!
   Je sors: le parvis est désert. Je m'assois sur le muret. Des figures errent, des feux errent et s' éteignent: les moines prennent congé des pèlerins. Une haleine continue et légère souffle de la forêt vers le haut, mais on n' entend ni le bruissement de la masse obscure, ni son flux à travers les cavernes. Une cloche de la petite église franciscaine tinte dans la tristesse du cloître: et elle semble pleurer dans l' ombre, pleurer le jour qui se meurt.
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  Campana. Dino. Chants Orphiques. Paris: Éditions Allia, 2006, pp 60-61 (Traduit de l'italien et préfacé par David Bosc).
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segunda-feira, 7 de setembro de 2020


" Partiu" ontem Gabriele Galloni. Um dos melhores jovens - com apenas 25 anos - poetas que até hoje conheci. Um voz rara, madura e precisa! Este blogue tem poemas seus na rubrica relativa às minhas traduções, a "Cintilações 4" trará também dois poemas seus traduzidos por mim. Todo esse trabalho de tradução foi sempre feito em estreito diálogo com o Gabriele. 
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Ver aqui:
http://www.pangea.news/gabriele-galloni-memoria/?fbclid=IwAR3WCZVMnAQn3-c4Ed50bsmWwoQ7BS2A3gb4EFpxnZRogihRvYM96q4mkW4
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quinta-feira, 3 de setembro de 2020


 Foi nos bastidores do Teatro Liceo de Salamanca, em 2018, e enquanto nos preparávamos os três para subir ao palco de uma sala completamente esgotada, que contactei pela primeira vez com a poeta argentina Ángela Gentile e com essa enorme figura da poesia espanhola chamada Antonio Colinas. Momento inolvidável, que, sem que eu o pudesse adivinhar, iria desembocar no presente livro, que tem a seguinte Dedicatória.
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"Criar planos para a vida será privá-la dos planos que ela tem para nós. Defendia isto, embora com outras palavras, o filósofo português Agostinho da Silva. Foi com uma dinâmica deste tipo, na qual acredito, que em 2018 conheci a poeta argentina Ángela Gentile no XXI Festival Hispano-americano de Poesia de Salamanca organizado pelo poeta e académico hispano-peruano Alfredo Pérez Alencart. Logo nessa altura tive oportunidade de conhecer a poesia de Ángela Gentile através de um seu livro que acabara de ser publicado ( Bizancio ) e de sobre ele conversar com a autora num jantar em que estava presente Jacqueline Alencar, tradutora e esposa do poeta acima referido. Ora, nesse jantar e de acordo com este jogo de coincidências cujo sentido acaba sempre por nos escapar, estava também João Artur Pinto, Editor da Labirinto, que agora, ao saber que eu estava a fazer esta tradução, se ofereceu de imediato para publicar o livro Madras, em versão bilingue. Dedico, por conseguinte, esta minha tradução a estes quatro amigos, pois sem eles esta obra, nesta sua forma, jamais teria sido possível.
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   Victor Oliveira Mateus In Madrás/ Madras, p 35.
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Nota: o jantar referido neste post realizou-se no Mosteiro de Fonseca, cuja imagem segue abaixo.
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Já à venda na Livraria online da Editora Labirinto.

Título: Madrás/ Madras (Obra bilingue).

Autoria: em castelhano da poeta angentina Ángela Gentile.

Versão portuguesa de Victor Oliveira Mateus.

Editora Labirinto, Nº 38 da Coleção contramaré.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2020


 Carta aberta dos escritores dos países de língua oficial portuguesa contra o racismo, a xenofobia, a homofobia e o populismo. A lista dos escritores que segue abaixo teve a sua última atualização a 2020/08/27.
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terça-feira, 25 de agosto de 2020

 



Nós, escritores portugueses e de língua portuguesa, estamos, por ofício, cientes do poder da palavra. E do poder da sua omissão também. Conhecemos os custos de dar palco ao que, em circunstâncias normais, não mereceria uma nota de rodapé. Pondo em cena aquilo que não é de cena – aquilo que é, e não só etimologicamente, obsceno.
Preferimos correr esse risco face às circunstâncias vividas em Portugal, que consideramos graves e inquietantes, nos domínios do racismo, do populismo, da xenofobia, da homofobia, das emoções induzidas, da confusão destas com ideias e, em geral, de tudo aquilo que de mais repugnante pode emergir de uma sociedade em crise e em estado de medo.
Temos de reagir antes que seja tarde. E usar as palavras contra o insidioso ataque à democracia, ao multiculturalismo, à justiça social, à tolerância, à inclusão, à igualdade entre géneros, à liberdade de expressão e ao debate aberto.
Exigimos compromissos políticos que detenham a escalada do populismo, da violência, da xenofobia – de todos esses reflexos primitivos, retrógrados, obscurantistas, destrutivos e abjectos. Tais são as nossas grandes riquezas: a diversidade e a tolerância. Como o expressa a língua portuguesa, feita de aglutinação, inclusão e aceitação da diferença.
Quem gosta de Portugal jamais diz «Vão!», antes diz «Venham!».
É preciso tomar consciência de que as ameaças que ora rastejam propiciam uma quebra irreparável dos valores humanistas, da solidariedade e do mútuo apoio – valores laborais e de igualdade de direitos constitucionais à saúde, à educação, ao emprego, à justiça, à cultura.
Cultura e literatura não florescem nestes tempos sufocantes, em que a terrível crise humanitária dos refugiados, nos deploráveis campos às portas da Europa, e a ameaça ecológica e ambiental, à escala planetária, são banalizadas nos noticiários. E ao que vem de trás ainda se junta o que se seguirá à pandemia da covid-19: o alastramento do desemprego e da pobreza, pasto fértil para demagogias, teses anti-imigração, racismos e extremas-direitas.
Não podemos olhar para o lado nem continuar calados, sob pena de emudecermos. Por tudo isto, nós, escritores portugueses e de língua portuguesa, assumimos o compromisso de jamais participarmos em eventos, conferências e/ou festivais conotados – seja de que maneira for – com ideias que colidam com os princípios da tolerância e da dignidade humana.
A todos os cidadãos portugueses, à sociedade civil, aos professores das escolas e das universidades, apelamos a que se distanciem de projectos e movimentos antidemocráticos e ajudem na consciencialização das novas gerações para a urgência dos valores humanistas e para os riscos das extremas-direitas; aos órgãos de justiça, que investiguem, processem e condenem os interesses económico-financeiros que se servem dos novos populismos para, a coberto da raiva e da intolerância, acentuarem as desigualdades de que sempre se sustentaram; às autoridades policiais e aos seus agentes, que se abstenham de condescender com movimentos e acções promotores da exclusão, da discriminação e da violência; à comunicação social, que assuma com veemência o seu papel de contraditório e de defesa da verdade; aos partidos políticos, que sejam capazes de recuperar os princípios esquecidos no decurso do jogo partidário de vocação eleitoral; ao Presidente da República, à Assembleia da República e ao Governo, que exerçam um escrutínio rigoroso da constitucionalidade e assegurem que o fascismo não passará.
Na certeza de que, como sempre nos mostrou a História, quem adormece em democracia acorda em ditadura,
os escritores de língua portuguesa:


Abdulai Sila
Adélia Carvalho
Adriana Lisboa
Afonso Borges
Afonso Cruz
Alberto Pereira
Alexandra Lucas Coelho
Alexandre Andrade
Alice Caetano
Alice Vieira
Almeida Faria
Álvaro Fausto Taruma
Álvaro Laborinho Lúcio
Álvaro Magalhães
Amosse Mucavele
Ana Bárbara Pedrosa
Ana Cristina Leonardo
Ana Cristina Silva
Ana Luísa Amaral
Ana Mafalda Leite
Ana Margarida de Carvalho
Ana Marques
Ana Nobre de Gusmão
Ana Pessoa
Ana Saldanha
Ana Saragoça
André de Leones
Andréa del Fuego
Andrea Zamorano
Andreia Azevedo Moreira
António Borges Coelho
António Cabrita
António Carlos Cortez
António Ladeira
António Mota
António Tavares
Artur Coimbra
Bernardo Carvalho
Carmen Zita Ferreira
Carla Maia de Almeida
Carla Mühlhaus
Carlos Campaniço
Carlos Nogueira
Carlos Tê
Carlos Vale Ferraz
Carola Saavedra
Catarina Fonseca
Catarina Santiago Costa
Catarina Sobral
Chico Buarque
Chissana M. Magalhães
Chrys Chrystello
Claudia Clemente
Claudia Lage
Cláudia Lucas Chéu
Cláudia S. Sampaio
Clovis Levi
Conceição Lima
Cristina Carvalho
Cristina Drios
Cristina Norton
David Machado
Diniz Borges
Domingos Lobo
Dulce Maria Cardoso
Eileen A. Barbosa
Elsa Caetano
Elsa Serra
Eric Nepomuceno
Ernesto Rodrigues
Eugénia Soares Lopes
Evandro Affonso Ferreira
Fabrício Corsaletti
Fausta Cardoso Pereira
Fernando Pinto do Amaral
Fernando Venâncio
Filinto Elísio
Filipa Martins
Filipa Melo
Francisco José Viegas
Francisco Moita Flores
Francisco Resende
Fundação José Saramago
Gabriela Ruivo Trindade
Gabriela Silva
Gisela Casimiro
Gonçalo Cadilhe
Gonçalo M. Tavares
Graça Pires
Gregório Duvivier
Helder Macedo
Helena Vasconcelos
Hélia Correia
Henrique Manuel Bento Fialho
Hugo Gonçalves
Inês Fonseca Santos
Inês Pedrosa
Isabel Cristina Mateus
Isabel Minhós Martins
Isabel Olivença
Isabel Rio Novo
Isabel Zambujal
Isabela Figueiredo
Itamar Vieira Júnior
Ivone Mendes da Silva
Jacinto Lucas Pires
Jaime Rocha
Jamil Chade
Joana Bértholo
Joana M. Lopes
João Cezar de Castro Rocha
João de Melo
João Luís Barreto Guimarães
João Paulo Cotrim
João Paulo Cuenca
João Pedro Porto
João Pinto Coelho
João Rasteiro
João Ricardo Lopes
João Ricardo Pedro
João Rios
João Tordo
Joel Neto
Jorge Serafim
José Alberto Postiga
José Anjos
José Carlos Vasconcelos
José Eduardo Agualusa
José Eduardo Degrazia
José Fanha
José G. Neres
José Jorge Letria
(escritor e Presidente da SPA)
José Luís Peixoto
José Manuel Mendes
José Mário Silva José Pinto
José Miguel Braga
José Moreira da Silva
José Viale Moutinho
Juca Kfouri
Julián Fuks
Júlio Machado Vaz
Leonardo Tonus
Leonor Sampaio Silva
Lélia Nunes
Licínia Quitério
Lídia Borges
Lídia Jorge
Lúcia Bettencourt
Lucílio Manjate
Lucrecia Zappi
Luís Almeida Martins
Luís Carlos Patraquim
Luís Carmelo
Luís Corredoura
Luis Cunha
Luís Fernando Veríssimo
Luís Filipe Castro Mendes
Luís Osório
Luís Quintais
Luís Rainha
Luísa Costa Gomes
Luísa Ducla Soares
Luiz Antonio de Assis Brasil
Luíz Filipe Botelho
Luiz Ruffato
Madalena B. Neves
Madalena San-Bento
Manuel Alberto Valente
Manuel Gusmão
Manuel Halpern
Manuel Jorge Marmelo
Manuela Costa Ribeiro
Marcelino Freire
Márcia Balsas
Margarida Fonseca Santos
Margarida Vale de Gato
Manuella Bezerra de Melo
Maria do Rosário Pedreira
Maria Helena Trindade Lopes
Maria Inês Almeida
Maria Isabel Fidalgo
Maria Jorgete Teixeira
Maria José Quintela
Maria Manuel Viana
Maria Teresa Horta
Maria Valéria Rezende
Mário Cláudio
Mário de Carvalho
Mário Loff
Marta Bernardes
Mary del Priore
Mia Couto
Miguel Real
Miguel-Manso
Milton Hatoum
Mirna Queiroz
Mónia Camacho
Nara Vidal
Nazir Ahmed Can
Nélida Piñon
Nilma Lacerda
Noemi Jaffe
Nuno Camarneiro
Nuno Júdice
Olga Santos
Olinda Beja
Ondjaki
Onésimo Teotónio Almeida
Patrícia Melo
Patrícia Portela
Patrícia Reis
Paula de Sousa Lima
Paulo José Miranda
Paulo Kellerman
Paulo M. Morais
Paulo Moura
Paulo Scott
Pedro Almeida Maia
Pedro da Silva Martins
Pedro Guilherme-Moreira
Pedro Loureiro
Pedro Meira Monteiro
Pedro Pereira Lopes
Pedro Vieira
Pepetela
Possidónio Cachapa
Raquel Nobre Guerra
Raquel Patriarca
Raquel Varela
Reginaldo Pujol Filho
Renato Filipe Cardoso
Ricardo Fonseca Mota
Ricardo Ramos Filho
Richard Zimler
Rita Ferro
Rita Taborda Duarte
Rodrigo Guedes de Carvalho
Rosa Freire D’Aguiar
Rosângela Vieira Rocha
Rui Cardoso Martins
Rui de Almeida Paiva
Rui Lage
Rui Manuel Amaral
Rui Zink
Ruth Manus
Sandro William Junqueira
Sara F. Costa
Sérgio de Sousa
Sérgio Godinho
Sérgio Nazar David
Sidney Rocha
Susana Moreira Marques
Tânia Ganho
Tatiana Salem Levy
Teolinda Gersão
Teresa Cadete
Teresa Martins Marques
Teresa Rita Lopes
Tiago Rodrigues
Tiago Salazar
Tom Farias
Ungulani Ba Ka Khosa
Valesca de Assis
Valter Hugo Mãe
Vanda R. Rodrigues
Vera Duarte
Vera Lúcia de Oliveira
Victor Oliveira Mateus

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sábado, 22 de agosto de 2020



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As 7 razões pelas quais o PN é desonesto 

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Vamos explicar as sete razões pelas quais o perverso narcísico é desonesto. A primeira razão é porque lhe falta empatia. A empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, portanto, quando o perverso narcísico vos faz mal é porque ele é incapaz de sentir o mal que vos vai causar, para ele as suas ações são sem consequências e não consegue medir o alcance dos seus atos... vocês já viram na televisão um filme, ou uma personagem que sofre e vocês são capazes de sentir a dor dessa personagem, mesmo quando essas personagens são fictícias, ora no caso do perverso narcísico isso é completamente impossível de acontecer, o perverso narcísico não tem essa empatia, não consegue sentir o que os outros sentem, contudo, pode-o adivinhar, pois ele sabe que se se deitar um cubo de gelo sobre a vossa cabeça isso vos causará frio, até aí ele consegue imaginar, imagina mas não pode compartilhar convosco.
O 2º ponto pelo qual o perverso narcísico é desonesto é porque ele adora abusar dos outros, isso é para ele uma forma de prazer... uns gostam de chocolate, outros gostam de ir à pesca, mas para ele, do que ele gosta é de abusar dos outros, isso dá-lhe a sensação de ter controle sobre os outros, ou seja, quando ele é desonesto convosco isso fá-lo sentir que é superior a vocês, pois teve êxito em vos enganar, dá-lhe a sensação de que fez algo sem que vocês saibam e isso dá-lhe um sentimento de superioridade no que diz respeito à sua inteligência, vê-se como mais inteligente do que vocês, já que conseguiu endrominar-vos e isso é terrível, pois estimula-o a recomeçar uma e outra vez, força-o a repetir essas ações que lhe dão prazer e isso repete-se constantemente criando nele comportamentos abusivos compulsivos, isto é, ela já não se consegue impedir de ser desonesto relativamente a vocês.
O terceiro ponto é que o perverso narcísico é ávido de prazer, ele precisa sem cessar de sentir prazer e excitação, e o facto de fazer essas coisas desonestas isso dá-lhe prazer no facto de vos enganar, mentir, etc., isso vai dar-lhe um prazer sem o qual ele não pode passar; o perverso narcísico é alguém numa busca constante de prazer, que pode ser através de relações sexuais, através de drogas, de jogar a dinheiro, enfim, todo o tipo de comportamentos que lhe podem dar prazer e dos quais ele dificilmente consegue sair, ele é, pois, muito atreito a adições.
O 4º ponto porque é que ele é desonesto, é porque ele não se deixa apanhar nem punir: a maior parte das ações desonestas do perverso narcísico vocês jamais as conhecerão, vocês só conseguirão conhecer uma parte e depois vocês começam a pensar que descobriram todas as ações desonestas do perverso narcísico, mas isso é impossível... é impossível saber tudo o que ele fez de desonesto!, porque haverá sempre coisas que necessariamente ele vos esconderá e que vocês jamais descobrirão... claro, que, muitas vezes, vocês vão desconfiar que há um perverso narcísico à vossa frente, porque vocês começam a ver que há ali comportamentos que fogem ao normal, que não são absolutamente nada como os das outras pessoas e, subitamente, vocês descobrem uma marosca, mas no dia em que vocês descobrirem essa marosca é porque antes já existiram muitas e muitas outras, ações nefastas, desonestas, e o erro é acreditar que vocês descobriram tudo, portanto, ele sabe fugir à punição, ao longo de toda a sua vida ele fará sempre coisas desonestas sem que os outros suspeitem; o perverso narcísico é também muito habilidoso em inverter os papéis e em fazer crer aos outros que ele é que é a vítima, que ele está inocente, ele é muito bom em fazer-se passar por inocente, mas um dia vocês descobrem coisas que ele fez, mas aí já ele fez muitas outras sem ter sido apanhado.
O 5º ponto é: por que é que o perverso narcísico faz coisas desonestas? É porque frequentemente as pessoas lhas perdoam: ele faz essas coisas desonestas, as pessoas descobrem-nas e dizem-lhe que isso não está certo, mas depois passam uma esponja sobre o assunto e depois surgem ainda as promessas de parte do perverso narcísico de que vai mudar, que vai fazer uma terapia, que vai parar com essas ações perversas, que lamenta ter-vos feito sofrer, só que no final ele continuará mais, mais e mais, e sempre, infelizmente, é triste para você, pois vocês vão acreditar nas promessas dele, mas ele não mudará nunca!
O 6º ponto pelo qual o perverso narcísico é como é, tem a ver com a sua personalidade: ele solidificou em si essa forma de ser desonesta, ele é estruturalmente desonesto... e a sua personalidade não a podemos mudar, tentemos imaginar uma casa onde há um salão, um quarto, etc., não podemos suprimir sem mais nem menos uma divisão, pois ela foi concebida assim como está pelo arquiteto. A casa quando apareceu já lá estavam as divisões todas! O mesmo acontece com o plano na cabeça do perverso narcísico, o arquiteto pode ter sido o meio ambiente que contribuiu para criar aquela personalidade, podem ter sido os pais, podem ter sido acontecimentos aleatórios, já que com os mesmos pais pode haver irmãos completamente diferentes, não se sabe com rigor como a personalidade se constrói no seu todo com todas as suas particularidades: ele é como é... e ele é desonesto! É o seu modo de ser no mundo! O seu modo de ser no mundo é ser desonesto! Aos seus próprios olhos isso não tem nada de mal, pois é apenas o modo como ele é, ele não ajuíza se isso é bom ou é mau , portanto, para ele ou vocês o aceitam ou não o aceitam.
O 7º ponto é que ele tem uma forte capacidade em abusar dos outros: imaginem um ilusionista que está à nossa frente a fazer uma serie de truques de magia, e nós ficamos estupefactos como ele consegue fazer todos aqueles truques, pois bem, no caso do perverso narcisico ele é um super-ilusionista, ele tem uma enorme competência em abusar e é muito eficaz em fazer-vos cair nas armadilhas dele... caso vocês venham a ter qualquer tipo de esperança, ele abusará de vocês, depois pedirá desculpa e dá esperanças, mas logo volta a abusar de vocês, e volta a desculpar-se, e volta a  abusar, etc., etc., etc., se vocês caírem neste tipo de armadilha, depois terão dificuldade em sair (...), é assim, a natureza de perverso narcísico não o poderemos mudar nunca e a sua verdadeira natureza é ser desonesto!
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Nota: os perversos narcísicos são também conhecidos por outras designações: vampiros (das relações humanas), psicopatas integrados, etc.
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terça-feira, 18 de agosto de 2020

Poesía en el Laurel. La Zubia, Granada. 18 de Agosto de 2020


Este é o 3º Festival Literário em que tenho a honra de participar este ano, que, por motivos ligados à pandemia, não pode ser presencial.
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 O Diário espanhol Salamanca ALDia es publicou ontem um artigo com dois poemas que seguem abaixo. Na foto, da esquerda para a direita: João Artur Pinto, Alfredo Pérez Alencart, Dona Pilar Fernández Labrador, Victor Oliveira Mateus. Sala de la Palabra do Teatro Liceo de Salamanca, 2017.
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Todo el esplendor,
como si la tarde quisiera volverse eterna
adentro de mí, tras
memorable travesía

Me alejó de escaparates luminosos,
me libró de espejismos, el poeta de selvas
lejanas que siente suya la ciudad.

En Salamanca el espíritu no se fatiga
de vencer. En Salamanca alguna
ola del tiempo logra dar-te su contrasenã.
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           Víctor Rodolfo Porrini
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Todo o esplendor,
como se a tarde quisesse tornar-se eterna
dentro de mim, após a memorável travessia.

Afastou-me dos escaparates luminosos,
livrou-me de luminosas miragens, o poeta das selvas
longínquas que sente sua a cidade.

Em Salamanca o espírito não se cansa
de vencer. Em Salamanca qualquer
onda do tempo consegue dar-te a sua contra-senha.
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          Tradução de Victor Oliveira Mateus

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

 

A ternura humana tem necessidade de solidão à sua volta, e dum mínimo de calma na insegurança. Faz-se mal o amor, ou a amizade, num aposento cheio de gente, entre dois serviços de faxina numa estrumeira. Contra todas as previsões, essa estrumeira era bem aquilo em que a vida se tornara para mim em Kratovicé. Apenas Sofia resistia nesta atmosfera dum tédio sinistro e verdadeiramente mortal, e é bastante natural que a infelicidade resista melhor às chatices do que o seu contrário.

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   Yourcenar, Marguerite. O Golpe de Misericórdia. Lisboa: Editora Arcádia,, 1978, p 65.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

(...) vi reaparecer um Conrad envergando um elegante uniforme que deveria ter custado um dos últimos diamantes da tia (...). Conservava uma inocência de criança, uma doçura de rapariga, e aquela valentia de sonâmbulo com que outrora trepava para o dorso de um touro ou duma vaca (...). Logo à primeira vista, reconheci que a sua vida tinha parado na minha ausência; custou-me mais ter de admitir, a despeito das aparências, que o mesmo se passava comigo. Longe de Conrad eu vivera como em viagem. Tudo nele me inspirava uma confiança que de futuro nunca me seria possível depositar noutra pessoa. A seu lado, o espírito e o corpo não podiam deixar de estar em repouso, tranquilizados por tanta simplicidade e franqueza, e por isso mesmo livres para se ocuparem do resto com o máximo de eficácia. Era o ideal companheiro de guerra, assim como tinha sido o ideal companheiro de infância. A amizade é, acima de tudo, certeza - é isso o que a distingue do amor. É também respeito, e aceitação total dum outro ser. 
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  Yourcenar, Marguerite. O Golpe de Misericórdia. Lisboa: Editora Arcádia, 1978, pp 40-41.
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